Silvio Santos, professor de Teoria dos Jogos

Então, por um instante, você é uma criança. Você está em lugar um tanto estranho, várias pessoas, luzes, sons, equipamentos estranhos. Um sujeito com um boné de helicóptero olha para você, faz uns barulhos estranhos e grita “RÁÁÁ, QUER TROCAR DE PORTA?”.

Ah, a boa e velha Porta dos Desesperados, apresentando o Problema de Monty Hall para uma geração de crianças lá pelos anos 80/90. Hoje em dia, todo mundo sabe que é vantagem trocar de porta, tornando a brincadeira impraticável e condenando Serginho Mallandro a aposentadoria carreira de comediante de stand up. Particularmente, eu sempre suspeitei que as portas eram abertas na parte de trás e que os monstros apareceriam independente da porta escolhida pela criança.

Pegadinha do Monty Hall

Em 2002, pegando carona no hype do Show do Milhão, Silvio Santos, com uma peruca mais avantajada que a atual, resolve lançar mais um jogo de perguntas e respostas. Sete e meio era o nome. Para quem não lembra (ou não viu), era dividido em duas partes, na primeira, vários participantes disputavam entre si respondendo perguntas, os dois melhores passavam para a fase final, onde poderiam sair com todo o prêmio, ou sem nada.

Nessa segunda parte, os dois participantes em cabines individuais deveriam escolher entre duas opções de cartas (7 ou ½, para justificar o nome do programa, suponho) que poderiam resultar nos seguintes resultados.

Se os dois participantes colocassem ½, os dois dividiriam o prêmio do programa. Se um escolhesse 7, e outro  ½ , o que escolheu 7 levaria tudo, o que colocou meio não levaria nada. Por fim, se os dois colocassem 7, ninguém ganhava.

Assista: youtube.com/watch?v=LsZLf7rNvzU (A incorporação foi desativada pra esse vídeo, então, clica aí  :D)

Adaptação do Homem do Baú de um programa americano que adaptou o Dilema do Prisioneiro, um problema da Teoria dos Jogos.

Se você não sabe o que é, e não clicou no link, eu vou copiar aqui a parte importante:

Dois suspeitos, A e B, são presos pela polícia. A polícia tem provas insuficientes para os condenar, mas, separando os prisioneiros, oferece a ambos o mesmo acordo: se um dos prisioneiros, confessando, testemunhar contra o outro e esse outro permanecer em silêncio, o que confessou sai livre enquanto o cúmplice silencioso cumpre 10 anos de sentença. Se ambos ficarem em silêncio, a polícia só pode condená-los a 6 meses de cadeia cada um. Se ambos traírem o comparsa, cada um leva 5 anos de cadeia. Cada prisioneiro faz a sua decisão sem saber que decisão o outro vai tomar, e nenhum tem certeza da decisão do outro. A questão que o dilema propõe é: o que vai acontecer? Como o prisioneiro vai reagir?”

Uma diferença entre o Dilema do Prisioneiro tradicional e a versão do SBT é que os participantes conversam antes da decisão, tentando convencer o outro a tomar uma decisão favorável aos dois. Na verdade tentando fazer com que o outro coloque ½ para que ele coloque 7, enquanto aguentam a pressão do Silvio trollando geral. (Eu confesso, sempre torço para o participante perder).

Outra diferença é que a “pena” é pequena em comparação ao Dilema do Prisioneiro clássico. O máximo que você perde é sair como entrou, sem o dinheiro. Escolher o sete não só dá a oportunidade de ganhar tudo, como garante que o adversário não vai ganhar nada, o que pode ser consolador, se pensar que aquela pessoa tentou te convencer a colocar um ½ pra ficar com tudo.

Na abordagem clássica é vantajoso a cooperação, mas com o Professor Abravanel um 7 pode ser o seu A no fim do semestre do jogo, se você estiver certo de que seu oponente não usará o meio.

Dados mostram que a cooperação acontece em aproximadamente metade das vezes, e é o ambiente do jogo um dos fatores para determinar qual vai ser a escolha dos participantes. O modo como os participantes se comportaram durante a fase de perguntas, se eles assistiram outros episódios, como querem ser vistos pelo público, e olha só, até mesmo o gênero e idade dos participantes. Mulheres cooperam mais que homens jovens, mas a cooperação entre os gêneros fica equilibrada se os homens forem mais velhos. [1][2]

Professor Silvio Santos

Agora falta descobrir como ganhar naquela brincadeira do “você troca esse vídeo game, por um sapato velho?”

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1- Social Learning and Coordination in High-Stakes Games Evidence from Friend or Foe

2- Split or Steal? Cooperative Behavior When the Stakes are Large

Discussão - 2 comentários

  1. Bem legal e escrito, parabéns. Eu compilei também uma cena sobre isso no meu site sobre Teoria dos Jogos – Uso do Dilema dos Prisioneiros num Reality Show – http://www.teoriadosjogos.net/teoriadosjogos/list-trechos.asp?id=71. Abraço.

  2. […] do clássico modelo matemático da teoria dos jogos, o dilema dos prisioneiros, não são incomuns. Silvio Santos em 2002 (eu era adolescente, longe de entender qualquer coisa de economia) decidiu implementar um jogo […]

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