{"id":154,"date":"2012-11-06T09:44:48","date_gmt":"2012-11-06T12:44:48","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/odiva\/?p=154"},"modified":"2012-11-06T09:44:48","modified_gmt":"2012-11-06T12:44:48","slug":"primum-nocere","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/odiva\/2012\/11\/06\/primum-nocere\/","title":{"rendered":"Primum Non Nocere"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><em>*Antes de tudo, n\u00e3o causar dano.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><em>(Juramento de Hip\u00f3crates)<\/em><\/p>\n<p>Um <a href=\"http:\/\/pps.sagepub.com\/content\/2\/1\/53\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">estudo<\/a> de 2007, publicado na <strong>Perspectives on Psychological Science<\/strong>, lista v\u00e1rios tratamentos psicol\u00f3gicos e terapias que, al\u00e9m de n\u00e3o surtirem o efeito esperado, s\u00e3o potencialmente perigosas para aqueles que se submetem a elas. Al\u00e9m dos medalh\u00f5es de sempre, como terapia de vidas passadas, terapia de renascimento, comunica\u00e7\u00e3o facilitada, terapia de convers\u00e3o (a tal da \u201ccura gay\u201d, <a href=\"http:\/\/www.springerlink.com\/content\/rk67865783602411\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">go figure<\/a>) e toda a gama de pseudo-terapias sem valida\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que se v\u00ea por a\u00ed a torto e a direito, os autores indicam que alguns programas e terapias baseados em evid\u00eancia podem ser potencialmente prejudiciais aos consumidores.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/farm3.staticflickr.com\/2128\/2398664834_fe5a09ef37.jpg\" alt=\"\" width=\"340\" height=\"220\" \/><\/p>\n<p>Programas de reabilita\u00e7\u00e3o intensiva de dependentes qu\u00edmicos (boot camps, algo similar \u00e0s cl\u00ednicas de rabilita\u00e7\u00e3o brasileiras), por exemplo, parecem n\u00e3o ajudar a eliminar a reca\u00edda e ainda podem causar um aumento na ansiedade dos dependentes quando eles saem da cl\u00ednica e s\u00e3o obrigados e funcionar adequadamente nos mesmos ambientes que antes eram associados ao consumo de drogas e\/ou \u00e1lcool.<\/p>\n<p>A terapia de casal, tamb\u00e9m, pode levar os clientes a um n\u00edvel inicial de estresse e conflito t\u00e3o grande que o os parceiros n\u00e3o resistem aos primeiros passos da terapia e acabam se separando, e consequentemente, abandonando o tratamento antes que ele possa alcan\u00e7ar o objetivo desejado a longo prazo. Esse mesmo efeito de deteriora\u00e7\u00e3o pode acontecer em terapias de exposi\u00e7\u00e3o, aquelas em que, para tratar uma fobia muito grave, o cliente \u00e9 exposto ao est\u00edmulo que causa ansiedade. Embora a maioria das pessoas, em algum momento do processo terap\u00eautico, possa sentir-se \u201cpior\u201d ou \u201cmais infeliz\u201d do que quando n\u00e3o faziam terapia, \u00e9 importante ressaltar que a regra de senso comum \u201cprimeiro piora para depois melhorar\u201d (ou, <em>no pain no gain<\/em>) n\u00e3o se aplica aqui. Se voc\u00ea sente que as sess\u00f5es de terapia sempre te deixam ansioso, deprimido ou desconfort\u00e1vel, e que voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 aprendendo a lidar melhor com seus problemas, alguma coisa pode estar muito errada com a linha de a\u00e7\u00e3o perseguida pelo terapeuta. No m\u00ednimo, vale uma boa conversa com ele.<\/p>\n<p>Outro problema que alguns tipos de terapias pode causar \u00e9 a indu\u00e7\u00e3o de sintomas que antes n\u00e3o estavam presentes. O caso cl\u00e1ssico dos psicanalistas americanos processados por induzirem seus clientes a \u201clembrar\u201d de abusos infantis que n\u00e3o haviam acontecido de verdade ilustra bem esse t\u00f3pico. Mas n\u00e3o precisamos ir t\u00e3o longe: oferecer aconselhamento psicol\u00f3gico a v\u00edtimas de cat\u00e1strofes ou a pessoas em luto que n\u00e3o apresentam sintomas extremos de ansiedade e depress\u00e3o, mas est\u00e3o expressando um processo normal de rea\u00e7\u00e3o \u00e0 perdas e \u00e0 dor, pode levar essas pessoas a ficarem super-conscientes de seus sentimentos, exacerbando a dor e procurando sintomas de depress\u00e3o ou de estresse p\u00f3s traum\u00e1tico onde de fato existe apenas a rea\u00e7\u00e3o normal a determinados eventos.<\/p>\n<p>A APA (Associa\u00e7\u00e3o Americana de Psicologia) mant\u00e9m uma lista atualizada de terapias potencialmente prejudiciais e faz revis\u00f5es peri\u00f3dicas das evid\u00eancias cient\u00edficas que embasam as terapias praticadas nos EUA. No Brasil, o \u00f3rg\u00e3o que deveria fiscalizar a pr\u00e1tica psicoterap\u00eautica, o Conselho Federal de Psicologia, tem tido uma atua\u00e7\u00e3o bem pouco competente nesse sentido. Ent\u00e3o, sobra para o cliente e consumidor de servi\u00e7os de psicologia buscar informa\u00e7\u00f5es sobre o tipo de terapia, seus pr\u00f3s e contras e, principalmente, quais os tipos de resultados que ele pode esperar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p>Lilienfeld, S.O. (2007). Psychological Treatments That Cause Harm. <em>Perspectives on Psychological Science<\/em>, <em>2<\/em>(1), 53-70.<\/p>\n<p>Spitzer, R.L. (2003). Can Some Gay Men and Lesbians Change Their Sexual Orientation? 200 Participants Reporting a Change from Homosexual to Heterosexual Orientation. <em>Archives of Sexual Behavior<\/em>, <em>32<\/em>(5), 403-417.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Antes de tudo, n\u00e3o causar dano. (Juramento de Hip\u00f3crates) Um estudo de 2007, publicado na Perspectives on Psychological Science, lista v\u00e1rios tratamentos psicol\u00f3gicos e terapias que, al\u00e9m de n\u00e3o surtirem o efeito esperado, s\u00e3o potencialmente perigosas para aqueles que se submetem a elas. 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