{"id":17,"date":"2011-02-08T20:35:33","date_gmt":"2011-02-08T23:35:33","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/odiva\/2011\/02\/e_de_pequenino_que_se_torce_o\/"},"modified":"2011-02-08T20:35:33","modified_gmt":"2011-02-08T23:35:33","slug":"e_de_pequenino_que_se_torce_o","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/odiva\/2011\/02\/08\/e_de_pequenino_que_se_torce_o\/","title":{"rendered":"\u00c9 de pequenino que se torce o pepino: um pouco sobre per\u00edodos cr\u00edticos"},"content":{"rendered":"<p>Genie \u00e9 o &#8220;codinome&#8221; de Susan M. Wiley, adotado pelos profissionais que encontraram a menina de quase catorze anos em abril de 1970. Ela \u00e9 um caso contempor\u00e2neo de crian\u00e7a selvagem &#8211; juntamente com outros cl\u00e1ssicos como <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Victor_of_Aveyron\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">V\u00edtor de Aveyron<\/a>, <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Kaspar_Hauser\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Kaspar Hauser<\/a>, <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Mowgli\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Mogli<\/a> (oi?!) e, mais recentemente, a <a href=\"http:\/\/www.guardian.co.uk\/world\/2007\/jan\/23\/jonathanwatts.features11\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Menina Cambojana da Floresta<\/a>. Genie foi privada quase totalmente do contato social desde o nascimento, criada em um quarto escuro, com restri\u00e7\u00e3o de movimentos e completa neglig\u00eancia de contato afetivo, segundo o relat\u00f3rio da assistente social que a encontrou na casa dos pais em Arcadia, na Calif\u00f3rnia.<\/p>\n<p align=\"center\">\u00a0<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-126\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/odiva\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2011\/08\/victor_of_aveyron1.jpg\" alt=\"Victor_of_Aveyron\" width=\"371\" height=\"466\" \/><\/p>\n<p align=\"center\">V\u00edtor, o menino selvagem de Aveyron, encontrado num bosque da Fran\u00e7a em 1797, e educado por Jean Marc Gaspard Itard.<\/p>\n<p align=\"center\">\n<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-127\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/odiva\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2011\/08\/kaspar_hauser.jpg\" alt=\"Kaspar_hauser\" width=\"343\" height=\"600\" \/><\/p>\n<p align=\"center\">Kaspar Hauser, encontrado vagando nas ruas de Nuremberg em 1828. Ningu\u00e9m<br \/>\nsabe muito bem qual era a dele. As vezes falava, as vezes desenhava, as<br \/>\nvezes dava uma de selvagem. Segundo consta, ele provavelmente n\u00e3o era<br \/>\numa crian\u00e7a selvagem.<\/p>\n<p align=\"center\">\n<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-128\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/odiva\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2011\/08\/mogli.png\" alt=\"Mogli\" width=\"398\" height=\"599\" \/><\/p>\n<p align=\"center\">Mogli, o menino lobo, da hist\u00f3ria de Kipling. Vivia na \u00cdndia na<br \/>\ncompanhia do urso Bal\u00fa (&#8220;necess\u00e1rio, somente o necess\u00e1rio&#8230;&#8221;) e da<br \/>\ncobra Cazzzzca. Foi posteriormente estudado por Walt Disney.<\/p>\n<p align=\"center\">\n<p>A hist\u00f3ria de Genie \u00e9 longa, triste, cheia de reviravoltas e de personagens malvados: sua primeira instrutora, no Hospital Infantil de Los Angeles, mantinha um especial interesse em se tornar &#8220;a pr\u00f3xima <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Anne_Sullivan_Macy\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ann Sullivan<\/a>&#8220;, e ficar famosa \u00e0 custa da menina. A equipe de profissionais de sa\u00fade e pesquisadores encarregados de cuidar dela vivia em constante p\u00e9 de guerra, cada um reclamando para si a &#8220;prefer\u00eancia&#8221; e o afeto da crian\u00e7a, com prov\u00e1veis inten\u00e7\u00f5es de se tornarem tutores e, conseq\u00fcentemente, terem direitos exclusivos de estudar seu caso. Depois de quatro anos sob os cuidados do casal Marilyn e David Rigler (que conseguiram a maior parte dos progressos em linguagem e comportamento social da menina), de ter os fundos para seus cuidados e para as pesquisas sobre sua condi\u00e7\u00e3o cortados pelo National Institute of Mental Health por &#8220;<em>conduta n\u00e3o-profissional e falta de dados cient\u00edficos seguros<\/em>&#8220;, de uma tentativa fracassada de voltar aos cuidados de sua m\u00e3e, e de passar por outros seis lares adotivos onde foi negligenciada e abusada, Genie vive hoje em um abrigo para deficientes mentais, no sul da Calif\u00f3rnia.<\/p>\n<p>Mas o que nos interessa aqui \u00e9 a hist\u00f3ria de como os pesquisadores tentaram ensinar linguagem a Genie, e o que eles descobriram no caminho. Desde o in\u00edcio do tratamento, depois com a publica\u00e7\u00e3o do livro de Susan Curtiss em 1977 (<em>Genie: A Psycholinguistic Study of a Modern-Day &#8220;Wild Child&#8221;<\/em>, Academic Press) e de outros v\u00e1rios livros e artigos cient\u00edficos, diversas quest\u00f5es sobre o desenvolvimento da linguagem e sobre os per\u00edodos cr\u00edticos de sua aquisi\u00e7\u00e3o foram levantadas a partir das observa\u00e7\u00f5es e estudos feitos com Genie. Por &#8220;per\u00edodo cr\u00edtico&#8221; entende-se a janela de tempo em que determinada habilidade ou compet\u00eancia se desenvolve e se torna parte do repert\u00f3rio comportamental de um indiv\u00edduo. \u00c9 esperado que, depois de passado este per\u00edodo, a habilidade n\u00e3o seja mais desenvolvida. Segundo Johnson e Newport (1989), &#8220;&#8230; <em>em alguns dom\u00ednios, tem sido sugerido que a aquisi\u00e7\u00e3o de compet\u00eancias n\u00e3o aumenta monotonicamente acompanhando o desenvolvimento, mas antes atinge um pico durante um per\u00edodo cr\u00edtico, que pode ser relativamente cedo na vida, e ent\u00e3o declina depois que este per\u00edodo estiver terminado<\/em>.&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-125\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/odiva\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2011\/08\/genie.jpg\" alt=\"Genie\" width=\"500\" height=\"363\" \/><\/p>\n<p align=\"center\">Genie, aos dezesseis anos, j\u00e1 sob a tutela do casal Rigler.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Num estudo feito por Fromkin, Krashen, Curtiss, Rigler e Rigler (1974), os pesquisadores submeteram Genie a uma bateria de testes para identificar seu grau de compreens\u00e3o ling\u00fc\u00edstica. Foram constru\u00eddos testes em que n\u00e3o eram requeridas respostas verbais, j\u00e1 que a inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o era verificar suas habilidades de produ\u00e7\u00e3o ativa de fala. As respostas exigidas eram principalmente respostas de apontar para figuras que representavam o que os pesquisadores diziam, e o in\u00edcio dos testes se deu quando Genie j\u00e1 estava h\u00e1 11 meses sob os cuidados do Hospital. Durante este per\u00edodo, a menina j\u00e1 havia demonstrado entendimento e produ\u00e7\u00e3o de alguns nomes, mas estas habilidades em si n\u00e3o revelavam muito sobre sua compet\u00eancia verbal. Os resultados de 17 diferentes testes de compreens\u00e3o, administrados semanalmente durante dois anos de estudo, demonstraram que Genie estava aprendendo habilidades ling\u00fc\u00edsticas tais como contraste entre singular e plural, distin\u00e7\u00e3o entre senten\u00e7as afirmativas e negativas, constru\u00e7\u00f5es possessivas, modifica\u00e7\u00f5es, algumas preposi\u00e7\u00f5es e conjun\u00e7\u00f5es, e algumas formas comparativas e superlativas de adjetivos.<\/p>\n<p>Por conta da dificuldade de fala, o acesso \u00e0s compet\u00eancias de linguagem produtiva de Genie apenas pelas vocaliza\u00e7\u00f5es era dificultado. Apesar disso, Fromkin e cols. (1974) descrevem um aumento importante nas habilidades vocais e na produ\u00e7\u00e3o de fala. As primeiras palavras ditas por ela foram palavras simples, com s\u00edlabas do tipo consoante-vogal (como as de qualquer crian\u00e7a que come\u00e7a a falar), e ao longo do estudo Genie aprendeu a falar palavras de duas ou mais s\u00edlabas e a usar todas as consoantes do alfabeto ingl\u00eas, embora houvesse dele\u00e7\u00e3o das consoantes finais na maioria das palavras e de algumas consoantes iniciais em palavras com &#8220;<em>clusters<\/em> consonantais&#8221; (como em <em>SP<\/em>ike, <em>ST<\/em>ay ou <em>SK<\/em>ate). Em testes de imita\u00e7\u00e3o, Genie era capaz de reproduzir qualquer som da l\u00edngua inglesa, mesmo que tais sons n\u00e3o estivessem presentes nas palavras de sua produ\u00e7\u00e3o vocal espont\u00e2nea, o que foi interpretado pelos pesquisadores como a evid\u00eancia de limitadores fonol\u00f3gicos, mais do que a presen\u00e7a de dificuldades de articula\u00e7\u00e3o dos sons da fala. Depois algumas semanas no Hospital, Genie come\u00e7ou a usar imitativamente palavras e nomes que ela ouvia dos cuidadores e, cinco meses ap\u00f3s o in\u00edcio do treinamento, j\u00e1 era capaz de falar espontaneamente algumas palavras. Cerca de oito meses depois de sua interna\u00e7\u00e3o, a menina come\u00e7ou a produzir senten\u00e7as de duas palavras dos tipos nome+nome ou nome+modificador (&#8220;<em>more soup<\/em>&#8220;, &#8220;<em>Genie purse<\/em>&#8220;), e dois meses depois disso passou a usar verbos em suas constru\u00e7\u00f5es (&#8220;<em>want milk<\/em>&#8220;). Em novembro de 1971 (pouco mais de um ano ap\u00f3s sua interna\u00e7\u00e3o), ela passou a produzir senten\u00e7as de tr\u00eas e quatro palavras com estrutura sujeito+verbo+objeto (&#8220;<em>Genie love Marilyn<\/em>&#8220;). Em fevereiro de 1972 foram registradas as primeiras senten\u00e7as negativas, embora os testes de compreens\u00e3o tivessem demonstrado que ela era capaz de compreender senten\u00e7as negativas muitos meses antes disso. A crescente habilidade de combinar palavras em senten\u00e7as e de aumentar ou recombinar senten\u00e7as j\u00e1 conhecidas levou os pesquisadores a concluir que Genie havia adquirido os elementos essenciais da linguagem que permitem a gera\u00e7\u00e3o de infinitos conjuntos de senten\u00e7as.<\/p>\n<p>Em muitos aspectos, o desenvolvimento da linguagem de Genie aconteceu na mesma seq\u00fc\u00eancia em que acontece o desenvolvimento da linguagem em crian\u00e7as sob condi\u00e7\u00f5es normais, mas havia diferen\u00e7as expressivas entre a emerg\u00eancia de linguagem em Genie: seu vocabul\u00e1rio era muito maior do que o de crian\u00e7as &#8220;normais&#8221; no mesmo est\u00e1gio de desenvolvimento ling\u00fc\u00edstico e ela era capaz de lembrar de listas de palavras relativamente grandes. Para Fromkin e cols. (1974), isso ilustraria definitivamente o fato de que a linguagem \u00e9 muito mais do que apenas o armazenamento infinito de palavras. Em outros pontos, as habilidades de linguagem de Genie ficavam muito aqu\u00e9m das esperadas, por exemplo, ela nunca foi capaz de construir senten\u00e7as no modo passivo e as habilidades gramaticais eram an\u00e1logas as de uma crian\u00e7a de dois ou dois anos e meio. De modo geral, seu progresso na aprendizagem de linguagem foi muito mais lento do que o normal, e algumas habilidades n\u00e3o foram adquiridas de modo algum, como o uso de palavras indicativas de interroga\u00e7\u00e3o (qual, onde, por que), de marcadores sint\u00e1ticos (pontua\u00e7\u00f5es e v\u00edrgulas), de palavras demonstrativas (isto, este, aquilo) e principalmente de regras transformacionais (que permitem a transforma\u00e7\u00e3o de senten\u00e7as mudando-se a ordem das palavras como, por exemplo, transformar uma senten\u00e7a na voz ativa em outra na voz passiva, sem perder seu significado espec\u00edfico). Ao fim de muitos anos de estudo, Genie, uma mulher adulta, chegou ao n\u00edvel m\u00e1ximo de capacidade ling\u00fc\u00edstica an\u00e1logo ao de uma crian\u00e7a de quatro anos de idade.<\/p>\n<p>O estudo do desenvolvimento da linguagem de Genie foi a primeira tentativa direta de se testar a hip\u00f3tese do per\u00edodo cr\u00edtico para a aquisi\u00e7\u00e3o da linguagem. Ainda hoje, sabemos pouco sobre as habilidades que t\u00eam per\u00edodos cr\u00edticos e sobre os mecanismos neurais que controlam o &#8220;fechamento&#8221; das janelas de aprendizagem de determinadas habilidades. No caso da linguagem, o que se pode dizer com alguma certeza \u00e9 que h\u00e1 uma necessidade de <em>inputs<\/em> (est\u00edmulos provenientes do ambiente, das pessoas com quem se mant\u00e9m rela\u00e7\u00f5es, etc&#8230;) durante um longo per\u00edodo, e desde muito cedo na vida dos indiv\u00edduos. Mais do que isso, as estimula\u00e7\u00f5es sociais e as intera\u00e7\u00f5es com diversas pessoas competentes no uso da linguagem parecem ser muito mais importantes do que estimula\u00e7\u00f5es programadas e complexas. E, mais importante de tudo, toda essa estimula\u00e7\u00e3o deve ser o mais precoce poss\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bacanas:<\/strong><\/p>\n<p>Fromkin, V., Krashen, S., Curtiss, S., Rigler, D., &amp; Rigler, M. (1974).<em> <\/em>The development of language in Genie: a case of language acquisition beyond the critical period.<em> Brain an Language<\/em>, <em>1<\/em>. 81-107. Reprinted in M. Lahey (Ed.), Readings in childhood language disorders, 1978. New York: John Wiley. pp 112-133.<\/p>\n<p>Sobre &#8220;<strong>per\u00edodos cr\u00edticos<\/strong>&#8221; recomendo: Johnson, J.S. &amp; Newport, E.L. (1989). Critical period effects in second language learning: the influence of maturational state on the acquisition os english as a second language. <em>Cognitive Psychology<\/em>, <em>21<\/em>. 60-99.<\/p>\n<p>Almanaque de curiosidades: um <a href=\"http:\/\/www.educ.fc.ul.pt\/docentes\/opombo\/cinema\/dossier\/meninoselvagem.pdf\">trabalho sobre o filme<\/a> &#8220;O Menino Selvagem&#8221; do Truffaut &#8211; quem n\u00e3o viu e tem paci\u00eancia pra assistir Truffaut, veja&#8230; &#8211; que tem como Anexo o relat\u00f3rio completo de Itard sobre os desenvolvimentos de V\u00edtor. Come\u00e7a na p\u00e1gina 76.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Genie \u00e9 o &#8220;codinome&#8221; de Susan M. Wiley, adotado pelos profissionais que encontraram a menina de quase catorze anos em abril de 1970. 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