{"id":278,"date":"2011-02-01T20:30:19","date_gmt":"2011-02-01T23:30:19","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/odiva\/2011\/02\/comecando_a_falar_de_linguagem\/"},"modified":"2011-02-01T20:30:19","modified_gmt":"2011-02-01T23:30:19","slug":"comecando_a_falar_de_linguagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/odiva\/2011\/02\/01\/comecando_a_falar_de_linguagem\/","title":{"rendered":"Come\u00e7ando a falar de linguagem"},"content":{"rendered":"<p>Pra quem praticamente nasceu falando, parece muito f\u00e1cil. Mas se fosse mesmo, a linguagem provavelmente seria um atributo distribu\u00eddo com mais justi\u00e7a entre os membros do reino animal. H\u00e1 estudiosos do tema que acham que justamente a capacidade de simbolizar, de produzir nomes para as coisas e de concatenar os nomes das coisas em frases que fa\u00e7am sentido \u00e9 o que diferencia a esp\u00e9cie humana das outras. Embora algumas teorias lingu\u00edsticas sugiram que a esp\u00e9cie humana tem um complexo sistema neural que de algum modo vem pr\u00e9-fabricado, pronto para aprender a falar, essa teoria de que nascer\u00edamos com um &#8220;\u00f3rg\u00e3o da fala&#8221; nunca obteve nenhum suporte experimental para comprov\u00e1-la. (Perdeu, <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Noam_Chomsky\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Chomsky<\/a>!)<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a Darwin, hoje em dia temos uma vis\u00e3o um tiquinho menos antropo-ego-c\u00eantrica da natureza, e as teorias modernas sobre o desenvolvimento da linguagem tendem a explicar seu surgimento na esp\u00e9cie humana baseadas no argumento do aumento de complexidade ao longo da linha evolutiva. Sabemos que a maioria dos animais sociais, at\u00e9 mesmo os mais simples (como formigas e abelhas) desenvolveram sistemas de comunica\u00e7\u00e3o para manter a organiza\u00e7\u00e3o de suas col\u00f4nias. Mam\u00edferos superiores &#8211; os primatas, por exemplo &#8211; chegam a ensinar \u00e0s gera\u00e7\u00f5es mais novas alguns truques espec\u00edficos daquele grupo, como por exemplo, lavar batatas para tirar a terra e melhorar seu gosto. Seu, da batata, n\u00e3o da terra. Um tipo de cultura rudimentar passada de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o por meio de sinais comunicativos. Assim, sistemas simples de comunica\u00e7\u00e3o foram evoluindo de acordo com a necessidade que as esp\u00e9cies teriam de transmitir informa\u00e7\u00f5es entre seus membros, e conforme a capacidade org\u00e2nica dispon\u00edvel naquele organismo (desenvolvimento cerebral, capacidade vocal, etc).<\/p>\n<p><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"japmac2.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/odiva\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2011\/08\/japmac21.jpg\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0pt auto 20px\" height=\"255\" width=\"352\" \/><\/p>\n<p>Nessa linha de racioc\u00ednio, se quisermos come\u00e7ar a entender como a linguagem se desenvolve, do que ela \u00e9 feita, como podemos melhorar a linguagem de pessoas que t\u00eam problemas com ela, podemos usar como objeto de pesquisa animais com um sistema mais simples do que o sistema simb\u00f3lico (ou seja, a linguagem) humano. Pra come\u00e7o de conversa &#8211; trocadilho <em>mode on<\/em> &#8211; h\u00e1 que se saber quais dessas outras esp\u00e9cies poderiam apresentar algumas das pecinhas que formam o imenso e confuso quebra-cabe\u00e7as da linguagem. Temos algumas pistas evolutivas de que primatas superiores (orangotangos, gorilas e chimpanz\u00e9s) provavelmente estejam mais pr\u00f3ximos de n\u00f3s nesse quesito do que outros animais como gatos ou periquitos. H\u00e1 um vasto campo de pesquisas sobre a linguagem de mam\u00edferos aqu\u00e1ticos como baleias e golfinhos indicando que eles tamb\u00e9m s\u00e3o bem espertos, chegando a dar nomes pr\u00f3prios aos companheiros de grupo.<\/p>\n<p>Parece que esse \u00e9 um ponto importante para o surgimento da linguagem: que haja algum grau de relacionamento social entre os membros da esp\u00e9cie, de modo que um possa entender a informa\u00e7\u00e3o que o outro tenta transmitir. Para que um sistema de sinais seja compreendido, de alguma forma o animal deve ter companheirinhos que o compreendam. Parece \u00f3bvio, mas n\u00e3o \u00e9, \u00e9 preciso que cada membro do grupo possa distinguir um cara de outro, dentro do grupo, al\u00e9m de saber quando outro animal n\u00e3o faz parte de seu grupo. Algo do tipo &#8220;Jo\u00e3o \u00e9 an\u00e3o e Jos\u00e9 n\u00e3o tem p\u00e9! Mas esse cara n\u00e3o \u00e9 da minha turma!&#8221;. N\u00e3o deve ser tarefa f\u00e1cil para abelhas oper\u00e1rias, capivaras, macacos ruivos ou beb\u00eas chineses, pois todos os membros do grupo s\u00e3o muito parecidos entre si!<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 preciso que o sinal comunicativo &#8211; um grito, uma express\u00e3o facial, um gesto, determinada posi\u00e7\u00e3o corporal, etc &#8211; de alguma forma &#8220;signifique&#8221; aquilo que o cidad\u00e3o quer comunicar. Essa parte \u00e9 f\u00e1cil de entender: quando seu cachorro arrasta a vasilha de comida pela casa, voc\u00ea compreende que ele quer que voc\u00ea coloque comida dentro dela. Mas tanto o c\u00e3o quanto voc\u00ea devem saber que o &#8220;sinal&#8221; <strong>n\u00e3o \u00e9<\/strong> a comida, apesar dele &#8220;significar&#8221; comida. Traduzindo: quando o arrastar de tigela \u00e9 seguido repetidamente pelo aparecimento da comida dentro da tigela, o c\u00e3o aprende que o &#8220;significado&#8221; de arrastar a tigela \u00e9 &#8220;aparecer comida&#8221;. E voc\u00ea aprende que seu c\u00e3ozinho s\u00f3 vai parar de aporrinhar com a maldita tigela se voc\u00ea colocar comida dentro dela.<\/p>\n<p>&#8220;Comida de cachorro&#8221; e &#8220;arrastar a tigela&#8221; n\u00e3o compartilham muitas propriedades f\u00edsicas, n\u00e3o s\u00e3o nem de perto parecidos, mas est\u00e3o na mesma <strong>categoria<\/strong>, ou seja, na presen\u00e7a do dono, arrastar a tigela vai fazer aparecer comida. O cachorro aprende que se o dono n\u00e3o estiver em casa, n\u00e3o adianta fazer barulho. Ele aprende a distinguir o &#8220;dono que d\u00e1 comida&#8221; dos demais membros da fam\u00edlia, e provavelmente n\u00e3o vai arrastar a tigela pra quem nunca o alimenta. O dono aprende que se o cachorro n\u00e3o arrasta a tigela, ele n\u00e3o quer que a comida apare\u00e7a nela. H\u00e1 v\u00e1rios tipos de categorias, algumas mais complexas do que outras. Podemos pensar em uma categoria de &#8220;cachorros&#8221; que englobaria poodles, pit bulls, chiuauas, boxers, filas e pugs. Todos s\u00e3o diferentes entre si, mas todos s\u00e3o cachorros. Podemos fazer hierarquias dentro dessa categoria de cachorros, ter\u00edamos &#8220;cachorros pentelhos&#8221; incluindo chiuauas, poodles e pittbuls, e &#8220;cachorros bab\u00f5es&#8221;, com filas, boxers e pugs. Tamb\u00e9m poder\u00edamos ter uma categoria de &#8220;sinais que produzem comida&#8221;, onde um c\u00e3o facilmente incluiria &#8220;arrastar a tigela&#8221;, &#8220;fazer cara de coitado&#8221;, &#8220;ganir&#8221;, &#8220;abanar a patinha&#8221; e &#8220;babar debaixo da mesa&#8221;. Essa categoria s\u00f3 funcionaria quando o dono que d\u00e1 comida ao c\u00e3o est\u00e1 presente, ent\u00e3o podemos relacionar os &#8220;sinais que produzem comida&#8221; a um est\u00edmulo que faz a categoria funcionar.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" alt=\"pn161.gif\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/odiva\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2011\/08\/pn161.gif\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0pt auto 20px\" height=\"299\" width=\"237\" \/><\/p>\n<p>A habilidade de formar categorias \u00e9 a base para o desenvolvimento de algum tipo de comunica\u00e7\u00e3o entre indiv\u00edduos. As rela\u00e7\u00f5es entre os membros dentro de uma categoria e entre os membros de uma categoria e outros est\u00edmulos pode ser t\u00e3o complexa quanto o necess\u00e1rio para a complexidade da linguagem. Aqui est\u00e1 a pegada t\u00e9cnica de estudar a forma\u00e7\u00e3o de categorias em animais n\u00e3o-humanos: espera-se que as categorias sejam mais simples quanto mais simples o sistema de sinais e de comunica\u00e7\u00e3o desses animais. Dessa forma, podemos come\u00e7ar a entender o qu\u00ea, realmente, torna a linguagem humana t\u00e3o especial em sua complexidade. Mas para entender algo complexo, precisamos partir de coisas menos complexas. Ora, direis, por que raios algu\u00e9m que quer entender de linguagem vai estudar le\u00f5es marinhos? Come\u00e7amos a vislumbrar algo interessante&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pra quem praticamente nasceu falando, parece muito f\u00e1cil. Mas se fosse mesmo, a linguagem provavelmente seria um atributo distribu\u00eddo com mais justi\u00e7a entre os membros do reino animal. 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