{"id":1089,"date":"2018-02-22T13:28:01","date_gmt":"2018-02-22T16:28:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/?p=1089"},"modified":"2018-02-28T15:34:33","modified_gmt":"2018-02-28T18:34:33","slug":"filosofia-com-cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2018\/02\/22\/filosofia-com-cinema\/","title":{"rendered":"FILOSOFIA com CINEMA"},"content":{"rendered":"<p>O texto que segue foi extra\u00eddo do v\u00eddeo-ensaio de mesmo nome dispon\u00edvel na \u00edntegra no final do post. Ambos s\u00e3o da autoria de <a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K4238072D5\">Rafael Fernandes<\/a>, doutorando em Filosofia na Unicamp e foram apresentados no I Encontro de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Filosofia dessa casa, em Outubro de 2017.<\/p>\n<p>A dupla realiza\u00e7\u00e3o de Fernandes explora a terra m\u00e9dia onde o suporte audiovisual, potencializado pela m\u00eddia de massa e as recentes, por\u00e9m j\u00e1 consolidadas, tecnologias da informa\u00e7\u00e3o se encontram e se combinam seja com o livre exerc\u00edcio do pensamento cr\u00edtico, seja com as motiva\u00e7\u00f5es dogm\u00e1ticas e ideol\u00f3gicas que o cercam e contaminam. Mais precisamente, o autor traz o t\u00f3pico da simbiose entre <em>Cinema<\/em> e <em>Filosofia<\/em>, levantando a quest\u00e3o do poder da palavra, da imagem e da conjun\u00e7\u00e3o de palavra e imagem, assim como do potencial, dos riscos e desafios suscitados por tal superposi\u00e7\u00e3o de linguagens. Lan\u00e7ando um olhar l\u00facido sobre a \u00e9poca contempor\u00e2nea, Fernandes reflete sobre a ess\u00eancia mesma da Filosofia de um modo oportuno e perspicaz, organizando o ensaio em 7 momentos diferentes, cada um dos quais indica exemplos de material audiovisual que ilustram a pol\u00eamica.<\/p>\n<p>Tran\u00e7ando, por fim, uma trama complexa, e sob a clara inspira\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Boris_Groys\">Boris Groys<\/a>, o experimento de Fernandes nos interpela enquanto fil\u00f3sofos e de modo mais imediato e direto como simples espectadores, submergindo-nos imediata e completamente nos desafios relacionados \u00e0 experi\u00eancia, o ensino, o exerc\u00edcio e a difus\u00e3o da Filosofia no vertiginoso horizonte do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><u>Filosofia com Cinema<\/u><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"font-size: 10pt\"><strong>por Rafael Fernandes\u00a0<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>[1] Sonhando com as aulas de filosofia<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 se passaram quase 100 anos desde a publica\u00e7\u00e3o de <a href=\"http:\/\/almanaque.folha.uol.com.br\/ilustrada_20abr1937.htm\">&#8220;Cinema contra Cinema&#8221;, um estudo de Joaquim Canuto<\/a> sobre os aspectos pr\u00e1ticos e te\u00f3ricos da utiliza\u00e7\u00e3o do cinema em sala de aula, acrescido de um projeto-piloto entregue \u00e0 ent\u00e3o Diretoria de Ensino do Estado de S\u00e3o Paulo que nunca saiu da gaveta. A ideia do cinema curar-se de si mesmo talvez soe dicot\u00f4mica demais para nosso ouvido moderno, como se houvesse um cinema infesto e um outro higi\u00eanico. Entretanto, a ideia do cinema contrapor-se a si mesmo parece conservar certa vitalidade, merecendo ser revisitada.<\/p>\n<p>Atualmente h\u00e1 um enorme repert\u00f3rio de filmes facilmente acess\u00edvel, assim como a possibilidade de editar o \u00e1udio e o v\u00eddeo deles, criando um cinema que se contrap\u00f5e a si mesmo por circular clandestinamente, por permitir edi\u00e7\u00f5es e re-edi\u00e7\u00f5es de si, por se produzir amadoramente em casa ou em pequenos est\u00fadios, por se exibir em contextos diferentes da inicialmente pensada sala comercial de cinema.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o do cinema em sala de aula aparece invertida no premiado filme \u201cOs fil\u00f3sofos\u201d (tamb\u00e9m conhecido como \u201cAfter the Dark\u201d, lan\u00e7ado no Brasil como \u201cJogos do Apocalipse\u201d): em vez de se pensar a inclus\u00e3o do cinema ao curr\u00edculo de filosofia (segundo textos e temas can\u00f4nicos nessa disciplina), transforma-se a aula de filosofia numa grande laborat\u00f3rio cinematogr\u00e1fico. O cinema \u00e9 utilizado para produzir experimentos de pensamento e imagina\u00e7\u00e3o, re-criando muitas das situa\u00e7\u00f5es sociais cr\u00edticas que vivemos hoje com o multiculturalismo, a cidadania e a democracia.<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 claramente refletir sobre o estudo e ensino de filosofia em tempos de cinema: como animar o estudo e ensino de filosofia a partir de produ\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas, e vice-versa, como refor\u00e7ar o potencial criador do cinema com um pouco de aprendizado filos\u00f3fico?<\/p>\n<p>Preconizando a experi\u00eancia em que estudantes e professores se envolvem como a base da aprendizagem, a assim chamada <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Experiential_learning\">educa\u00e7\u00e3o experiencial<\/a>\u00a0\u00e9 sem d\u00favidas uma forte tend\u00eancia entre n\u00f3s, e aqui parece somar for\u00e7as com o cinema. Se o estudo e ensino de filosofia se baseasse em experi\u00eancias reais ou fict\u00edcias mais do que na leitura e discuss\u00e3o de textos filos\u00f3ficos, poderiam as produ\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas se tornarem a base de alguma aprendizagem? A quest\u00e3o em comum tanto de uma filosofia com cinema como de uma educa\u00e7\u00e3o experiencial parece ser esta: como produzir uma filosofia que se mistura por assim dizer com a sociedade?<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>[2] A circula\u00e7\u00e3o da filosofia na cidade<\/strong><\/p>\n<p>S\u00f3crates parece ter provado o sabor de uma tal filosofia; um sabor amargo, tendo sido condenado \u00e0 morte por sua pr\u00f3pria sociedade, o que lhe conferiu grande honra entre n\u00f3s. A filosofia nunca foi tida como boa companhia, a n\u00e3o ser para uns poucos deleitantes dela; quando muito, ela \u00e9 considerada um mal necess\u00e1rio. Essa, no entanto, n\u00e3o era a opini\u00e3o do (seu) disc\u00edpulo [de S\u00f3crates,] Plat\u00e3o, que concedeu aos fil\u00f3sofos o lugar de guardi\u00f5es da cidade ideal. De que modo a filosofia pode e deve se misturar com (as quest\u00f5es d)a sociedade? Esta parece ser uma quest\u00e3o primog\u00eanita, pelo menos recorrente em nossos debates.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, seria imposs\u00edvel semearmos filosofia sem uma devida preserva\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o do que foi e tem sido isto, a filosofia e sua hist\u00f3ria, ou seja, \u00e9 preciso conhecer a hist\u00f3ria da filosofia. Aqui o cinema tem se mostrado um querido aliado, agradando a imagina\u00e7\u00e3o com pequenas s\u00ednteses de complexas e minuciosas hip\u00f3teses historiogr\u00e1ficas. Contudo, se as imagens do cinema s\u00e3o surpreendentemente enxutas, a literatura encontra-se hoje mais extensa e diversificada do que o cinema: mais vale ler as hist\u00f3ria dos fil\u00f3sofos do que assisti-los nos cl\u00e1ssicos filmes de Rossellini. Por mais perfeita que seja a trama do cineasta, ela est\u00e1 longe de dar conta da experi\u00eancia que se tem com a leitura dos Di\u00e1logos plat\u00f4nicos.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o se descobriu uma forma de experimentar os temas, problemas, teorias e conceitos do fil\u00f3sofo tal como ele realmente os viveu. A esse respeito, o melhor que podemos fazer \u00e9 pesquisar a obra a partir de fontes as mais diretas poss\u00edveis ou, como costumamos fazer em filosofia, a partir das edi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas e daquelas preparadas pelos pr\u00f3prios autores (quando elas existirem). N\u00e3o obstante, h\u00e1 coisas que s\u00f3 o cinema poder\u00e1 nos mostrar.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>[3] Novas formas de se registrar a filosofia<\/strong><\/p>\n<p>Sem nunca ter capturado a imagem do fil\u00f3sofo em sua atividade, passamos para o registro fotogr\u00e1fico e audiovisual dos seus gestos mais reais. Imagens de fil\u00f3sofos circulam entre n\u00f3s desde h\u00e1 muito tempo por meio do retrato pintado e do busto esculpido, mas com o cinema elas parecem ter ganhado uma segunda vida. Esta \u00e9 a advert\u00eancia de Deleuze para seu \u201cAbeced\u00e1rio\u201d: \u201caquelas imagens s\u00e3o um arquivo morto e n\u00e3o o representam; como os esp\u00edritos que nos falam nas sess\u00f5es de mesa girante, elas s\u00e3o necessariamente rasas e pouco interligadas e sum\u00e1rias; talvez sirvam somente para chamar seguidores.\u201d<\/p>\n<p>A respeito desse estranho poder de encanto que emana do cinema, diz-se ainda que essa nova t\u00e9cnica de reproduzir e capturar imagens em movimento<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=5bIiJ9lSXN0\"> seria a mais perversa das artes, porque n\u00e3o nos d\u00e1 o que desejamos, em vez disso, nos ensina o que desejar<\/a>. Entretanto, o desengano do cinema como suporte para a filosofia parece ter sido completamente esquecido. Assistimos hoje como o cinema serviu de conversor da filosofia em forma\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Desvincula-se a filosofia do estudo e ensino de uma obra filos\u00f3fica, ligando-a aos anseios da opini\u00e3o p\u00fablica. O conhecimento direto da obra \u00e9 contraposto \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o de determinadas hist\u00f3rias de vida, a situa\u00e7\u00f5es cotidianas singulares e comuns. O \u00fanico de texto que resta s\u00e3o as datas de nascimento e morte dos fil\u00f3sofos sobre um fundo de palavras-chave; uma proto-vers\u00e3o dos pain\u00e9is, slides e infogr\u00e1ficos t\u00e3o em voga no universo escolar hoje. A filosofia n\u00e3o mais se encontra sob jurisdi\u00e7\u00e3o dos fil\u00f3sofos e demais pesquisadores universit\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>[4] A tele-vis\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O assalto desses fil\u00f3sofos e fil\u00f3sofas da TV de fato n\u00e3o faz oposi\u00e7\u00e3o nenhuma \u00e0s institui\u00e7\u00f5es de ensino superior. Porque n\u00e3o v\u00eam para lhes roubar o lugar, pelo contr\u00e1rio, acabam servindo aos pr\u00f3prios professores e estudantes de apoio did\u00e1tico. Ainda que alguns setores da sociedade reivindiquem para si a forma\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o, isto realmente decorreria das nossas formas sociais: ora, as varia\u00e7\u00f5es destas seriam monitoradas de muito perto, nem se romperia com o controle delas sem uma boa briga.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria pr\u00f3prio da filosofia formar opini\u00f5es: todas as pessoas, sejam ou fa\u00e7am o que for, tanto quanto um professor de filosofia, s\u00e3o potenciais formadoras de opini\u00e3o segundo as ideias do grupo, setor ou classe \u00e0s quais se identificam. Muito menos deveria a filosofia reduzir-se \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o, n\u00e3o tanto quanto questionar opini\u00f5es e problematiz\u00e1-las. Apesar das contradi\u00e7\u00f5es, acredita-se na figura do fil\u00f3sofo como um poderoso formador de opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 institui\u00e7\u00e3o escolar no geral, apesar de ter se alastrado desde o come\u00e7o do s\u00e9culo XIX, n\u00e3o teve tempo suficiente para mostrar a que veio, apenas que \u00e9 um sistema capaz de absorver e gerir imensas quantias de capital, e um fil\u00e3o de mercado nos termos das parcerias p\u00fablico-privadas, provavelmente compondo \u201cprodutos financeiros complexos\u201d. Mas a forma\u00e7\u00e3o para a cidadania ficar\u00e1 comprometida quando faltar o refor\u00e7o da opini\u00e3o: eis aqui uma das coisas que nem um n\u00famero de identifica\u00e7\u00e3o, nem uma mala de dinheiro podem produzir.<\/p>\n<p>Refor\u00e7am-se as opini\u00f5es hoje pela circula\u00e7\u00e3o de imagens, de imagens revestindo nossas formas sociais: o imp\u00e9rio sobre as imagens que circulam institui uma ideologia de modo mais eficiente do que qualquer sistema escolar (inclusive disparando com suas imagens imperativas no interior das escolas). Poder\u00edamos supor a seguinte lei regulando a circula\u00e7\u00e3o de imagens e opini\u00f5es: reproduzir e ser reproduz\u00edvel de modo suficientemente r\u00e1pido e efetivo; a circula\u00e7\u00e3o das imagens movimentaria o giro das opini\u00f5es, que ent\u00e3o passariam a circular segundo essa mesma lei.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>[5] N\u00e1ufrago em alto mar<\/strong><\/p>\n<p>Temas filos\u00f3ficos constituem um enorme repert\u00f3rio de ideias para o cinema, inclusive para o cinema comercial. \u00c9 curioso esse apego a uma ideia t\u00e3o velha e surrada como a filosofia. Talvez a sua estima de autoridade derive da mesma causa que a curiosidade de seus temas. Em posterior reflex\u00e3o, por\u00e9m, percebo que estes talvez j\u00e1 n\u00e3o sejam mesmo aqueles temas filos\u00f3ficos, e sim uma esp\u00e9cie de duplo, de \u201csofismo\u201d. S\u00e3o temas que interessam somente na medida em que fazem audi\u00eancia; eles pertencem \u00e0 m\u00eddia de massa, e \u00e0 m\u00eddia de massa s\u00f3 interessa a publicidade (um X n\u00famero de cliques, ouvintes ou telespectadores).<\/p>\n<p>Alimentar\u00edamos falsas expectativas, e estar\u00edamos sendo negligentemente ing\u00eanuos ao esperar qualquer grandeza de ideias para al\u00e9m da sala de cinema, do sof\u00e1 de TV e da cadeira de computador: depois que se desligam as telas, n\u00e3o h\u00e1 nada para alastrar. O estudo e ensino de filosofia ainda n\u00e3o pode, e talvez nunca poder\u00e1, sustentar-se pelo cinema, mas eventualmente o cinema tamb\u00e9m ser\u00e1 um importante aliado para o aprendizado filos\u00f3fico.<\/p>\n<p>A filosofia, da sua parte, tamb\u00e9m tem se interessado pelo cinema para produzir e fazer passar suas quest\u00f5es, porque o cinema lhe oferece igualmente um repert\u00f3rio de ideias, al\u00e9m de uma t\u00e9cnica. Tal repert\u00f3rio de ideias poderia servir como fator de sensibiliza\u00e7\u00e3o para quest\u00f5es filos\u00f3ficas; e a t\u00e9cnica do cinema poderia ser empregada para filmar a filosofia.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>[6] O olho bi\u00f4nico<\/strong><\/p>\n<p>Quanto ao potencial de sensibiliza\u00e7\u00e3o do cinema, talvez isto n\u00e3o seja t\u00e3o pol\u00eamico entre n\u00f3s: ele pode n\u00e3o encontrar lastro ap\u00f3s sua exibi\u00e7\u00e3o, mas atira centelhas de luz enquanto passa. O cinema parece sensibilizar tanto por causa das sensa\u00e7\u00f5es que desperta, como por sua r\u00e1pida associa\u00e7\u00e3o de ideias. \u00c9 bem prov\u00e1vel que o cinema possa dar \u00e0 filosofia pontos de apoio segundo os quais se faz amplas sondagens tem\u00e1ticas nos mais diversos assuntos humanos num relativamente curto espa\u00e7o de tempo. Ainda que os sobrevoos do cinema n\u00e3o nos levem a nenhum pensar filosoficamamente, ao menos s\u00e3o um fascinante passa-tempo que auxilia nisso.<\/p>\n<p>No que diz respeito a utilizar o cinema como forma de registro da filosofia, isto sim parece ser uma quest\u00e3o para n\u00f3s. O cinema-ensaio e outros experimentos audiovisuais t\u00eam buscado um cinema que pense: que pense n\u00e3o pela representa\u00e7\u00e3o de um pensamento, mas a partir de si mesmo, a partir do pr\u00f3prio movimento das imagens. Junta-se a elas aquela voz de narrador, soando como que do al\u00e9m: o efeito nem sempre \u00e9 garantido, a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 expandir o significado das imagens, em vez de reafirm\u00e1-lo ou delimit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Parece que \u00e9 isto que o fil\u00f3sofo Boris Groys tenta fazer ao exibir o seu <a href=\"http:\/\/zkm.de\/en\/publication\/boris-groys-thinking-in-loop\">\u201cThinking in loop\u201d<\/a> (numa tradu\u00e7\u00e3o livre, \u201cEm voltas com o pensamento\u201d). Trata-se de tr\u00eas v\u00eddeo-ensaios sobre iconoclasmo, rito e imortalidade, com dura\u00e7\u00e3o aproximada de 20 minutos cada, somando no total pouco mais de 1 hora: eles podem ser assistidos separadamente, mas s\u00e3o destinados a uma exibi\u00e7\u00e3o c\u00edclica. Na brochura do DVD, lemos as seguintes palavras:<\/p>\n<p>Os v\u00eddeos apresentados nesta exibi\u00e7\u00e3o foram produzidos entre 2002 e 2007. Cada v\u00eddeo combina um texto te\u00f3rico (escrito e lido pelo autor) e uma sequ\u00eancia de filmes (de fragmentos de diferentes filmes e seus documentos). \u00c0 primeira vista, esses v\u00eddeos lembram o espectador dos v\u00eddeos e curtas-metragens que s\u00e3o utilizados hoje em dia para transmitir conhecimento, comentar as not\u00edcias, difundir propaganda religiosa e ideol\u00f3gica, ou serem utilizados no contexto educacional.<\/p>\n<p>Pode-se afirmar que em nossa \u00e9poca, o v\u00eddeo (e n\u00e3o o texto) tornou-se o carro-chefe na transmiss\u00e3o de qualquer tipo de informa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o por acaso os movimentos religiosos radicais contempor\u00e2neos utilizam o v\u00eddeo (e n\u00e3o o texto) para apresentar seus programas e ideias. Os v\u00eddeos que passam na CNN e em outros canais compar\u00e1veis s\u00e3o a principal fonte de informa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para as grandes plateias. Os v\u00eddeos da MTV s\u00e3o centrais para o desenvolvimento da cultura pop contempor\u00e2nea. E o YouTube fez do v\u00eddeo a m\u00eddia preferida para qualquer um que queira comunicar certas ideias ou imagens para o mundo inteiro.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas v\u00eddeos passados na exibi\u00e7\u00e3o parecem se encaixar nesse padr\u00e3o porque d\u00e3o a impress\u00e3o de que o texto tem uma fun\u00e7\u00e3o mais proeminente do que a imagem. Contudo, a sequ\u00eancia de filmes utilizada nesses v\u00eddeos n\u00e3o tem nenhuma rela\u00e7\u00e3o direta com a leitura do texto. Existem associa\u00e7\u00f5es e paralelos entre texto e imagem, mas tamb\u00e9m existem contrastes e rupturas.<\/p>\n<p>A imagem aqui n\u00e3o \u00e9 utilizada como ilustra\u00e7\u00e3o que tem por meta fazer o texto mais compreens\u00edvel, fazer certas posi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas mais evidentes. Em vez disso, os v\u00eddeos produzem um certo intervalo entre o que escutamos e o que vemos \u2013 tornam at\u00e9 especialmente dif\u00edcil para o espectador seguir o texto e a imagem simultaneamente. Desse jeito, os v\u00eddeos apresentados problematizam a rela\u00e7\u00e3o entre texto e imagem que frequentemente parece estar garantida na montagem do material do v\u00eddeo.<\/p>\n<p>Na verdade, esses v\u00eddeos n\u00e3o transmitem nenhuma informa\u00e7\u00e3o \u2013 em vez disso, refletem as dificuldades de uma tal transmiss\u00e3o. Essas dificuldades s\u00e3o o principal t\u00f3pico de todos os tr\u00eas textos \u2013 e essas dificuldades refletem a si mesmas na forma dos pr\u00f3prios v\u00eddeos. Texto e imagem correspondem um ao outro, mas continuam sendo heterog\u00eaneos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>[7] Jogo do abre-fecha<\/strong><\/p>\n<p>De volta \u00e0 nossa quest\u00e3o sobre uma filosofia audiovisual, expandir o significado das imagens com textos, e mesmo problematizar o movimento delas a partir do intervalo entre imagem e texto parece ser uma ideia bastante animadora, no sentido da busca por novas linguagens filos\u00f3ficas.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, bastaria termos tocado a discuss\u00e3o sobre o estudo e ensino de filosofia hoje, considerando ao mesmo tempo a problem\u00e1tica quest\u00e3o da sua conjun\u00e7\u00e3o com o cinema. Enquanto o debate se prolonga com maior rigor e precis\u00e3o em outros espa\u00e7os, nos entret\u00eam as mesclas de filosofias maiores e menores que parecem constituir um momento decisivo no aprendizado filos\u00f3fico.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"https:\/\/vimeo.com\/253331594?utm_source=email&amp;utm_medium=vimeo-cliptranscode-201504&amp;utm_campaign=29220\">PARA VER NO VIMEO ACESSE AQUI<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe title=\"rafael fernandes 2017 filosofia com cinema\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/253331594?dnt=1&amp;app_id=122963\" width=\"640\" height=\"360\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; fullscreen; picture-in-picture; clipboard-write\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O texto que segue foi extra\u00eddo do v\u00eddeo-ensaio de mesmo nome dispon\u00edvel na \u00edntegra no final do post. Ambos s\u00e3o da autoria de Rafael Fernandes, doutorando em Filosofia na Unicamp e foram apresentados no I Encontro de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Filosofia dessa casa, em Outubro de 2017. A dupla realiza\u00e7\u00e3o de Fernandes explora a terra m\u00e9dia onde o suporte audiovisual, potencializado pela m\u00eddia de massa e as recentes, por\u00e9m j\u00e1 consolidadas, tecnologias da informa\u00e7\u00e3o se encontram e se combinam seja com&#8230;<\/p>\n<p class=\"read-more\"><a class=\"btn btn-default\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2018\/02\/22\/filosofia-com-cinema\/\"> Read More<span class=\"screen-reader-text\">  Read More<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":288,"featured_media":1103,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[89,100],"tags":[102,107,69,29,78],"class_list":["post-1089","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-filosofia-cinema","tag-cinema","tag-estetica","tag-etica","tag-mercado","tag-poder"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2018\/02\/cinemaefilosofiavariacoesfilosoficas.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1089","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/users\/288"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1089"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1089\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1104,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1089\/revisions\/1104"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1103"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1089"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1089"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1089"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}