{"id":1187,"date":"2019-03-09T12:25:47","date_gmt":"2019-03-09T15:25:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/?p=1187"},"modified":"2020-06-04T13:26:07","modified_gmt":"2020-06-04T16:26:07","slug":"democracia-de-genero-ii-compartilhar-espacos-politicos-em-nivel-de-igualdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2019\/03\/09\/democracia-de-genero-ii-compartilhar-espacos-politicos-em-nivel-de-igualdade\/","title":{"rendered":"Democracia de G\u00eanero (II):\u00a0compartilhar espa\u00e7os pol\u00edticos em n\u00edvel de igualdade"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>Partimos do pressuposto que a democracia de g\u00eanero \u00e9 uma meta, uma utopia a ser alcan\u00e7ada, transformando as rela\u00e7\u00f5es sociais de acordo com os princ\u00edpios democr\u00e1ticos propostos em lei.<\/p><\/blockquote>\n<p>Para <a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Judith_Astelarra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Judith Astelarra<\/a> (2003), a democracia de g\u00eanero passa pela igualdade de oportunidades para homens e mulheres. Pela equipara\u00e7\u00e3o das mulheres com os homens nos espa\u00e7os e atividades consideradas masculinas. Pela corre\u00e7\u00e3o da aus\u00eancia de mulheres nos \u00e2mbitos dos pap\u00e9is sociais at\u00e9 ent\u00e3o definidos como masculinos. Para a autora, as pol\u00edticas de igualdade de oportunidades t\u00eam produzido importantes mudan\u00e7as na situa\u00e7\u00e3o das mulheres, no acesso ao espa\u00e7o p\u00fablico e cotas para os cargos pol\u00edticos. Judith Astelarra entende que a proposta de uma democracia de g\u00eanero, n\u00e3o s\u00f3 deve buscar estabelecer as mudan\u00e7as necess\u00e1rias na situa\u00e7\u00e3o desigual das mulheres, mas, principalmente, investir na constru\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es de reciprocidade com os homens: realizar a\u00e7\u00f5es conjuntas com os homens para as quais \u00e9 necess\u00e1rio compartilhar espa\u00e7os pol\u00edticos; que as mulheres possam trazer seus problemas para o espa\u00e7o p\u00fablico e coloca-los de igual para igual, na agenda pol\u00edtica.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Celia_Amor%C3%B3s\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">C\u00e9lia Amor\u00f3s<\/a> (2007, p. 53) afirma que \u201cconceitualizar \u00e9 politizar\u201d e traz para an\u00e1lise o conceito de \u201cPactos entre Var\u00f5es\u201d como um pacto entre homens que compactuam para excluir as mulheres, para manter as mulheres fora da vida p\u00fablica e caladas. Essa condi\u00e7\u00e3o das mulheres estimula o sectarismo na medida em que passam a competir entre si, e qualquer sectarismo favorece o patriarcado.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Temos constatado, diariamente, que a pol\u00edtica brasileira se reduz em sua ess\u00eancia a ser um amplo \u201cpacto entre var\u00f5es\u201d. Dela raramente participamos, havendo raros registros de mulheres envolvidas nos principais esc\u00e2ndalos ocorridos na pol\u00edtica, seja \u201cO Mensal\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a>, seja a Opera\u00e7\u00e3o \u201cLava Jato\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a> ou a infame sess\u00e3o da C\u00e2mara dos Deputados em que se aprovou o Impeachment da ent\u00e3o Presidenta Dilma Rousseff invocando Deus e a fam\u00edlia, faltando apenas \u201ca propriedade\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a>.\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Os esc\u00e2ndalos continuam nas pautas di\u00e1rias dos Jornais e Televis\u00e3o, e a impunidade tem sido fruto de um sedimentado \u201cpacto entre var\u00f5es\u201d que por medo de serem autuados em seus pr\u00f3prios crimes de corrup\u00e7\u00e3o estabelecem acordos e silenciam diante dos pr\u00f3prios delitos.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso constatar que j\u00e1 existiam organiza\u00e7\u00f5es masculinas milenares, irmandades formadas por var\u00f5es e voltadas para o exerc\u00edcio de algum tipo de poder: confrarias religiosas, a Ma\u00e7onaria, as M\u00e1fias<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><\/a> entre outras, desde os mais remotos tempos da humanidade. Irmandades mafiosas femininas s\u00e3o desconhecidas, ou se houve alguma men\u00e7\u00e3o a elas, por exemplo, foram as mulheres queimadas como bruxas nas fogueiras da inquisi\u00e7\u00e3o, porque grupos de homens da \u00e9poca formavam pactos e n\u00e3o admitiam que elas pudessem dominar conhecimentos exercendo as fun\u00e7\u00f5es de curandeiras, benzedeiras entre outros.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><\/a><\/p>\n<p>Outra \u201cirmandade mafiosa\u201d masculina tamb\u00e9m \u00e9 analisada por <a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Rita_Segato\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Rita Laura Segato<\/a> (2008), ao pesquisar os casos de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Feminic%C3%ADdios_em_Ciudad_Ju%C3%A1rez\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">feminic\u00eddios ocorridos na Ciudad Juarez<\/a> (fronteira norte do M\u00e9xico com os Estados Unidos), constata a exist\u00eancia de uma rede de poder composta pelos governos em n\u00edvel local, estatal e nacional, que dominam as estruturas administrativas da cidade. A autora afirma que os feminic\u00eddios cometidos na Ciudad Juarez n\u00e3o s\u00e3o \u201ccrimes comuns de g\u00eanero\u201d, mas sim, \u201ccrimes corporativos\u201d, crimes de um \u201cSegundo Estado\u201d, de um Estado paralelo, entendendo por corpora\u00e7\u00e3o, o grupo ou rede que administra os recursos, direitos e deveres pr\u00f3prios de um Estado paralelo, estabelecido na regi\u00e3o com tent\u00e1culos nas cabe\u00e7as do pa\u00eds.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1188\" aria-describedby=\"caption-attachment-1188\" style=\"width: 170px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2018\/03\/28\/democracia-de-genero-ii-compartilhar-espacos-politicos-em-nivel-de-igualdade\/empalamento-em-piemonte-1655\/\" rel=\"attachment wp-att-1188\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-1188 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2018\/03\/empalamento-em-piemonte-1655.jpg\" alt=\"\" width=\"170\" height=\"208\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1188\" class=\"wp-caption-text\">Empalamento em Piamonte, 1655.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para iluminar o conjunto de assassinatos na Ciudad Ju\u00e1rez o que emerge \u00e9 a sobreposi\u00e7\u00e3o precisa entre a \u201cirmandade masculina\u201d e a \u201cirmandade mafiosa\u201d. O que a autora denomina de \u201cirmandade mafiosa\u201d inclui tanto os narcotraficantes, jovens marginais que cometem viol\u00eancia contra as mo\u00e7as da cidade, como todo o grupo de \u201cconfrades\u201d, muitos das classes privilegiadas que participam dos lucros e vantagens dos crimes da fronteira. Trata-se de uma rede que articula membros da elite econ\u00f4mica, da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e da justi\u00e7a local, estatal e federal e, como provam os vinte anos de impunidade, as for\u00e7as da lei foram naturalizadas pelos integrantes corruptos que insistem em formar parte de uma articula\u00e7\u00e3o prot\u00e9tica entre os poderes locais.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1189\" aria-describedby=\"caption-attachment-1189\" style=\"width: 250px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/elpuntero.com.mx\/n\/38590\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1189 noreferrer\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-1189\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2018\/03\/empalamento-ciudad-ju\u00e1rez-2016-elpuntero.com_.mxbarra38590-300x150.jpg\" alt=\"\" width=\"250\" height=\"125\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2018\/03\/empalamento-ciudad-ju\u00e1rez-2016-elpuntero.com_.mxbarra38590-300x150.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2018\/03\/empalamento-ciudad-ju\u00e1rez-2016-elpuntero.com_.mxbarra38590.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 250px) 100vw, 250px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1189\" class=\"wp-caption-text\">Ciudad Ju\u00e1rez, 2016.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><b>Em face desse lament\u00e1vel diagn\u00f3stico, perguntamos: se n\u00f3s mulheres nos un\u00edssemos\u00a0em pactos poder\u00edamos minimizar esses esc\u00e2ndalos, frear os feminic\u00eddios, n\u00e3o s\u00f3 na Ciudad Juarez mas no Brasil? Se houvesse mais mulheres assumindo cargos de poder existiria menos corrup\u00e7\u00e3o e mais \u00e9tica na pol\u00edtica?<\/b><\/p><\/blockquote>\n<p><a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Fundaci%C3%B3n_Mujeres_en_Igualdad\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Monique Thiteux-Altschul<\/a> (2010) ressalta que a corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 neutra, mas quando exercida sobre os bens do Estado, sobre a \u201ccoisa P\u00fablica\u201d, significa retrair recursos que ser\u00e3o aplicados em pol\u00edticas p\u00fablicas que afetam diretamente a vida das mulheres que se encontram em situa\u00e7\u00e3o de maior vulnerabilidade.<\/p>\n<p>O Banco Mundial em seu informe <em><a href=\"http:\/\/documents.worldbank.org\/curated\/en\/512911468327401785\/Engendering-development-through-gender-equality-in-rights-resources-and-voice\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Engendering development through gender equality in rights, resources and voices<\/a> <\/em>(citado por Thiteux-Altschul, 2010, p. 11) afirma que mais mulheres em postos de poder garantem menos corrup\u00e7\u00e3o. Os pa\u00edses onde as mulheres t\u00eam mais direitos e participam mais da vida p\u00fablica s\u00e3o aqueles que possuem empresas e governos menos corruptos.<\/p>\n<blockquote><p>Na lista dos pa\u00edses menos corruptos do mundo figuram a Dinamarca, Finl\u00e2ndia, Nova Zel\u00e2ndia e Su\u00e9cia. No Parlamento da Dinamarca, 40% das cadeiras s\u00e3o ocupadas por mulheres. No Executivo, seis dos 19 minist\u00e9rios (30%) s\u00e3o comandados por elas<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[iv]<\/a>. Atualmente, aproximadamente 33% do parlamento da Nova Zel\u00e2ndia \u00e9 formado por mulheres e muitas ocupam posi\u00e7\u00f5es de comando na sociedade, incluindo\u00a0 primeira-ministra, a governadora geral, a chefe da justi\u00e7a, entre outros<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[v]<\/a>.<\/p><\/blockquote>\n<p>O Brasil est\u00e1 entre os pa\u00edses mais corruptos, ocupando o 69\u00ba lugar, atr\u00e1s da \u00c1frica do Sul, na 67\u00ba posi\u00e7\u00e3o. A R\u00fassia, a China e a \u00cdndia est\u00e3o nas posi\u00e7\u00f5es 136, 100 e 85 da lista, respectivamente. Se houvesse mais mulheres nos espa\u00e7os de poder, acaso o \u00edndice de corrup\u00e7\u00e3o diminuiria?<\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 14pt\">Como tornar a pol\u00edtica um espa\u00e7o participativo?<\/span> <\/strong><\/p>\n<p>Para Marcela Lagarde (1996), todas as pessoas vivem imersas em rela\u00e7\u00f5es de poder marcadas por seu g\u00eanero. As rela\u00e7\u00f5es intergen\u00e9ricas ocorrem entre pessoas de g\u00eaneros diferentes. Para al\u00e9m de suas vontades e de sua consci\u00eancia, mulheres e homens estabelecem rela\u00e7\u00f5es de poder em todos os \u00e2mbitos. A ordem de poder patriarcal n\u00e3o se esgota nas rela\u00e7\u00f5es entre homens e mulheres. H\u00e1 um conjunto de poderes intragen\u00e9ricos exercido entre os homens e outro exercido entre as mulheres.<\/p>\n<blockquote><p>As rela\u00e7\u00f5es intragen\u00e9ricas s\u00e3o aquelas que ocorrem entre pessoas do mesmo g\u00eanero, entre mulheres por serem mulheres, e entre homens por serem homens. A semelhan\u00e7a de g\u00eanero nesta ordem n\u00e3o significa paridade. Pelo contr\u00e1rio, em cada categoria h\u00e1 hierarquias que enfrentam, antagonizam e localizam o dom\u00ednio de mulheres sobre outras mulheres e de homens sobre outros homens.<\/p><\/blockquote>\n<p>Todavia, Lagarde (1996) esclarece que h\u00e1 mecanismos que permitem identificar-se, aliar-se e desenvolverem um \u201cpoderio de g\u00eanero\u201d diferenciado. No caso das mulheres, as rela\u00e7\u00f5es baseiam-se no estranhamento; ao contr\u00e1rio, nos homens sobrep\u00f5e-se uma b\u00e1sica identifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Para a autora, \u201cos poderes itergen\u00e9ricos e intragen\u00e9ricos est\u00e3o articulados entre si e formam uma complexa ordem pol\u00edtica no mundo patriarcal\u201d (Lagarde, 1996, p.66).<\/p>\n<p>Por sua vez, <a href=\"https:\/\/feministasvalencianas.wordpress.com\/nieves-simon-elena-simon\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Elena Sim\u00f3n Rodriguez<\/a> (2002) afirma que \u00e9 poss\u00edvel existir \u201cpactos interg\u00eaneros\u201d, ou seja, uma a\u00e7\u00e3o partilhada entre homens e mulheres, da qual surge a equidade de g\u00eanero, a solidariedade, a justi\u00e7a distributiva de bens materiais ou n\u00e3o materiais (conhecimento, poder, amor, apoio); a confian\u00e7a, seguran\u00e7a, responsabilidade m\u00fatua e compartilhada, o poder contar a\/ao outro\/a e saber que este\/a pode contar comigo.<\/p>\n<p>Conforme a autora, <strong>o pacto interg\u00eaneros<\/strong> baseia-se nos acordos advindos no \u00e2mbito da identidade de refer\u00eancia <em>como seres humanos<\/em>: das mulheres com homens e dos homens com mulheres, para poder descontruir mandatos patriarcais e a domina\u00e7\u00e3o masculina universal, substituindo-os pela constru\u00e7\u00e3o de novas formas de rela\u00e7\u00f5es, poder e conviv\u00eancia equitativa.<\/p>\n<p>Para Rodriguez (2002), o <em>pacto interg\u00eanero<\/em> deve vir acompanhado de mais dois pactos: <em>pacto intrag\u00eanero<\/em> \u2013 entre mulheres, e entre homens; e <em>pacto intraps\u00edquico<\/em> \u2013 no \u00e2mbito da subjetividade, ou seja, de cada pessoa consigo mesma, desconstruindo estere\u00f3tipos na constru\u00e7\u00e3o permanente e livre da sua forma\u00e7\u00e3o como sujeito individual.<\/p>\n<blockquote><p>O pacto intraps\u00edquico remete a dois pontos importantes: primeiro, a import\u00e2ncia de conseguirmos identificar-nos como feministas, sem medo dos jarg\u00f5es estereotipados atribu\u00eddos pela sociedade: mulher macho, sapatona, mal amada. Reconhecer que o verdadeiro significado de feminismo \u00e9 lutar por uma sociedade com mais equidade de g\u00eanero! Em segundo lugar, desconstruir o modo de pensar introjetado pela academia e pela sociedade: de que as mulheres se unem pelo g\u00eanero e n\u00e3o por classe nem ra\u00e7a; e que as mulheres brancas podem falar legitimamente em nome de todas as demais.<\/p><\/blockquote>\n<p>Consideramos que as categorias \u201cpactos entre as mulheres\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[vi]<\/a>, e \u201cpactos interg\u00eanero\u201d<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[vii]<\/a> podem ser vistas \u00a0como sin\u00f4nimos de \u201calian\u00e7a pol\u00edtica\u201d, entre todas as mulheres \u2013 de todas as classes ra\u00e7as, idades, orienta\u00e7\u00e3o sexual entre outras interseccionalidades \u2013 bem como entre homens e mulheres com o firme prop\u00f3sito de responder uma convic\u00e7\u00e3o: frear, diminuir ou impedir a desigualdade de g\u00eanero e a viol\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Marcela Lagarde (1996) defende que um Desenvolvimento Humano Sustent\u00e1vel \u00e9 impens\u00e1vel sem democracia, e esta se baseia em uma ampla participa\u00e7\u00e3o social, reconhecida, capacitada e dotada de recursos econ\u00f4micos e pol\u00edticos da cidadania das pessoas &#8211; homens e mulheres \u2013 em suas diversidades e especificidades.<\/strong><\/p>\n<p>A \u201cdemocracia gen\u00e9rica\u201d, conceito utilizado por Lagarde (1996, p. 190), amplia a concep\u00e7\u00e3o de democracia ao centr\u00e1-la \u201centre os g\u00eaneros\u201d e abranger a cultura como essencial para constru\u00ed-la, ampli\u00e1-la e consolid\u00e1-la. Para esta autora, a pol\u00edtica \u00e9 uma dimens\u00e3o privilegiada para alcan\u00e7ar a democracia. Por\u00e9m, n\u00e3o se trata de conceber a pol\u00edtica como pol\u00edtica p\u00fablica, profissional e representativa.<\/p>\n<p><strong>Trata-se de conceber a pol\u00edtica como um espa\u00e7o participativo, de legitima\u00e7\u00e3o de direitos, pactos e poderes, p\u00fablicos e privados, institucionais, estatais, civis e comunit\u00e1rios. Isso implica que as necessidades b\u00e1sicas das mulheres devem ser explicitadas, que as mulheres possam ser reconhecidas efetivamente como \u201csujeitos pol\u00edticos\u201d, assumir cargos de poder e transformar suas demandas em pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Sem d\u00favida, o espa\u00e7o da democracia \u00e9 o espa\u00e7o dos direitos. Reconhecer esse fato \u00e9 lembrar que as pol\u00edticas neoliberais tem provocado resultados desastrosos no que se refere \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o dos postos de trabalho e dos apoios e recursos governamentais ou estatais. O crescente afastamento do Estado na esfera do \u201cBem Estar Social\u201d tem repercutido diretamente na transfer\u00eancia para o mundo privado, dos servi\u00e7os de cuidado e aten\u00e7\u00e3o cotidiana, de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>As mulheres que assumem cargos pol\u00edticos nem sempre s\u00e3o identificadas com as quest\u00f5es de g\u00eanero, ou seja, s\u00e3o raras as que possuem uma \u201cconsci\u00eancia feminista de g\u00eanero\u201d. A falta de identifica\u00e7\u00e3o com as quest\u00f5es de g\u00eanero faz com que a articula\u00e7\u00e3o com outras mulheres, a troca de saberes e experi\u00eancias \u201cintrag\u00eanero\u201d n\u00e3o seja priorit\u00e1ria. \u00c9 lament\u00e1vel constatar a falta de mem\u00f3ria hist\u00f3rica de g\u00eanero, o desconhecimento de muitas mulheres sobre as lutas e conquistas alcan\u00e7adas, e mais grave ainda \u00e9 averiguar que algumas mulheres fazem alian\u00e7as com homens sem consultar suas \u201ccong\u00eaneres\u201d.<\/p>\n<p>Essa realidade, para Lagarde (1996), configura uma das vias mais graves da desigualdade que \u00e9 a falta de espa\u00e7o e de oportunidades para que as mulheres possam estabelecer alian\u00e7as de g\u00eanero e forjar uma consci\u00eancia coletiva. A condi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de pactante, para autora, s\u00f3 se alcan\u00e7a na dimens\u00e3o coletiva, \u201cse o seu suporte for uma alian\u00e7a entre mulheres e homens; se o cimento para edific\u00e1-la for uma \u00e9tica feminista pactada em um paradigma: a constru\u00e7\u00e3o de normas de igualdade, equidade e justi\u00e7a entre os g\u00eaneros\u201d (Lagarde, 1996, p. 199).<\/p>\n<p><strong>A proposta feminista de democratiza\u00e7\u00e3o inclui democratizar o g\u00eanero feminino, as rela\u00e7\u00f5es com o outro g\u00eanero no \u00e2mbito da sociedade e as rela\u00e7\u00f5es de ambos g\u00eaneros com o Estado. A este conjunto chamamos \u201ca constru\u00e7\u00e3o de uma cidadania plena entre mulheres e homens\u201d (Lagarde, 2015, p. 202).<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><strong><a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K4785586A6\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Teresa KLEBA LISBOA<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Santa Catarina, 2018<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><span style=\"font-size: 10pt\">[i]<\/span><\/a><span style=\"font-size: 10pt\"> Ocorreu em 2005 na C\u00e2mara Federal (Bras\u00edlia) &#8211; Foi um esquema de corrup\u00e7\u00e3o de parlamentares, onde deputados que compunham a chamada &#8220;base aliada&#8221; recebiam propina de R$ 30 mil mensais para votar de acordo com os interesses do governo Lula. Apenas tr\u00eas deputados foram cassados. A conta final foi estimada em R$ 55 milh\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt\"><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> As investiga\u00e7\u00f5es da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, que desarticulou um mega esquema de corrup\u00e7\u00e3o na Petrobras, mostram que tanto a Pol\u00edcia Federal (PF), quanto o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF), conseguiram chegar a uma esp\u00e9cie de \u201cespinha dorsal\u201d de outros casos de corrup\u00e7\u00e3o em todo o Brasil. Para os investigadores, esta \u00e9 a primeira vez que os elos entre diferentes esquemas s\u00e3o t\u00e3o fortes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt\"><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a> A Tradi\u00e7\u00e3o, Fam\u00edlia e Propriedade (TFP) \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o civil de inspira\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica tradicionalista fundada no Brasil em 1960 pelo professor catedr\u00e1tico, deputado federal Constituinte em 1934, escritor e jornalista cat\u00f3lico paulista Plinio Corr\u00eaa de Oliveira. Ela \u00e9 pautada na tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica e no combate \u00e0s ideias ma\u00e7\u00f4nicas, socialistas e comunistas. Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Tradi\u00e7\u00e3o_Familia_e_Propriedade\">https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Tradi\u00e7\u00e3o_Familia_e_Propriedade<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt\"><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a> <a href=\"http:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/internacional\/noticia\/2015-04\/dinamarca-se-prepara-para-centenario-da-participacao-das-mulheres-na\">http:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/internacional\/noticia\/2015-04\/dinamarca-se-prepara-para-centenario-da-participacao-das-mulheres-na<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt\"><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[v]<\/a> <a href=\"http:\/\/www.portaloceania.com\/nz-diverses-womentips-port.htm\">http:\/\/www.portaloceania.com\/nz-diverses-womentips-port.htm<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt\"><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[vi]<\/a> AMOR\u00d3S, 2007; KUBISSA, 1994<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt\"><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[vii]<\/a> RODRIGUES, 2002<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Partimos do pressuposto que a democracia de g\u00eanero \u00e9 uma meta, uma utopia a ser alcan\u00e7ada, transformando as rela\u00e7\u00f5es sociais de acordo com os princ\u00edpios democr\u00e1ticos propostos em lei. Para Judith Astelarra (2003), a democracia de g\u00eanero passa pela igualdade de oportunidades para homens e mulheres. Pela equipara\u00e7\u00e3o das mulheres com os homens nos espa\u00e7os e atividades consideradas masculinas. Pela corre\u00e7\u00e3o da aus\u00eancia de mulheres nos \u00e2mbitos dos pap\u00e9is sociais at\u00e9 ent\u00e3o definidos como masculinos. Para a autora, as pol\u00edticas&#8230;<\/p>\n<p class=\"read-more\"><a class=\"btn btn-default\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2019\/03\/09\/democracia-de-genero-ii-compartilhar-espacos-politicos-em-nivel-de-igualdade\/\"> Read More<span class=\"screen-reader-text\">  Read More<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":315,"featured_media":1183,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[75,112,109,93,17],"tags":[69,110],"class_list":["post-1187","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-atualidade","category-etica","category-genero","category-justica","category-politica","tag-etica","tag-genero"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2018\/02\/1280x640.jpeg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1187","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/users\/315"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1187"}],"version-history":[{"count":16,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1187\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1850,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1187\/revisions\/1850"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1183"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1187"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1187"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1187"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}