{"id":134,"date":"2019-03-07T22:58:22","date_gmt":"2019-03-08T01:58:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/?p=134"},"modified":"2020-06-04T13:30:12","modified_gmt":"2020-06-04T16:30:12","slug":"entendendo-as-tecnicas-de-manipulacao-genetica-fertilizacao-tripla","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2019\/03\/07\/entendendo-as-tecnicas-de-manipulacao-genetica-fertilizacao-tripla\/","title":{"rendered":"Entendendo as t\u00e9cnicas de edi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica"},"content":{"rendered":"<p><strong>Hist\u00f3ria recente<\/strong><\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Gen\u00e9tica tem na hist\u00f3ria recente uma s\u00e9rie de acontecimentos fundamentais. Na segunda metade do S\u00e9culo XX a\u00a0<strong>biologia molecular<\/strong>\u00a0despontava. A\u00a0<a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/ADN_recombinante\">t\u00e9cnica do DNA recombinante<\/a>\u00a0deu lugar \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de\u00a0<strong>Organismos Geneticamente Modificados (OGMs)<\/strong>, transformando a agricultura e pecu\u00e1ria rapidamente. Na d\u00e9cada dos 70, surgiu o primeiro\u00a0<strong>animal transg\u00eanico<\/strong>; na dos 90, iniciou-se uma for\u00e7a-tarefa para mapear o genoma humano (<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Human_Genome_Project\">Projeto Genoma<\/a>). Em 2003, ap\u00f3s um trabalho fant\u00e1stico, a comunidade cient\u00edfica internacional anunciou que o sequenciamento fora conclu\u00eddo com sucesso. Poucas semanas atr\u00e1s tornou-se p\u00fablico e \u201coficial\u201d, finalmente, o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.telegraph.co.uk\/news\/2016\/09\/27\/worlds-first-baby-born-with-three-parent-baby-technique\/\">nascimento de Abrahim Hassan: primeiro ser humano geneticamente projetado\u00a0<\/a><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-admin\/post.php?post=176&amp;action=edit#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. A velocidade das transforma\u00e7\u00f5es \u00e9 surpreendente &#8211; de fato, procedimentos utilizados h\u00e1 poucos anos s\u00e3o hoje considerados rudimentares e obsoletos.\u00a0<strong>Organismos Geneticamente Editados (OGEs):<\/strong>\u00a0eis a sigla do futuro.<\/p>\n<p><strong>\u201cFertiliza\u00e7\u00e3o tripla\u201d<\/strong><\/p>\n<p>O procedimento que deu \u00e0 luz a Abrahim Hassan \u00e9 conhecido como \u201cgera\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201cfertiliza\u00e7\u00e3o tripla\u201d. Como o nome sugere, trata-se de um processo reprodutivo no qual existem\u00a0<em>tr\u00eas\u00a0<\/em>pais gen\u00e9ticos. A realidade \u00e9 a seguinte:\u00a0<strong>mais de 70% das doen\u00e7as heredit\u00e1rias t\u00eam sua origem em altera\u00e7\u00f5es no DNA mitocondrial<\/strong>. A mitoc\u00f4ndria \u00e9 uma organela que flutua no citoplasma e, g<em>rosso modo<\/em>, a t\u00e9cnica da fertiliza\u00e7\u00e3o tripla consiste em\u00a0<strong>descartar<\/strong>\u00a0o material corrompido, inserindo o n\u00facleo do \u00f3vulo da m\u00e3e (que cont\u00e9m a informa\u00e7\u00e3o mais decisiva) em uma base citoplasm\u00e1tica que n\u00e3o apresente\u00a0<strong>defici\u00eancias<\/strong>, ou que as apresente minimamente. Abrahim Hassan nasceu no M\u00e9xico de um procedimento liderado por\u00a0<strong><em>fertility doctors\u00a0<\/em><\/strong>norte-americanos, pois \u2013 aten\u00e7\u00e3o- \u00a0nos Estados Unidos n\u00e3o \u00e9 permitido.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-263 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2016\/12\/PronuclearTransfer-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2016\/12\/PronuclearTransfer-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2016\/12\/PronuclearTransfer-405x270.jpg 405w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2016\/12\/PronuclearTransfer.jpg 564w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>As rea\u00e7\u00f5es da comunidade cient\u00edfica e da opini\u00e3o p\u00fablica t\u00eam sido d\u00edspares. Por um lado, os otimistas celebram o acontecimento como \u201capenas o come\u00e7o\u201d de uma nova era luminosa, na qual\u00a0<strong>doen\u00e7as degenerativas terr\u00edveis ser\u00e3o erradicadas para sempre<\/strong>. Os cr\u00edticos, por outro lado, consideram a a\u00e7\u00e3o irrespons\u00e1vel e alertam que as\u00a0<strong>provas<\/strong>\u00a0das quais dispomos s\u00e3o\u00a0<strong>ainda insuficientes<\/strong>\u00a0para dar suporte ao uso indiscriminado, muito menos particular e de natureza lucrativa, da t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0\u00a0<strong>legisla\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0vigente, nos Estados Unidos a pr\u00e1tica \u00e9 proibida. O parlamento brit\u00e2nico reconheceu como legal o\u00a0<em>pronuclear transfer<\/em>em 2015. No Brasil, a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_Ato2004-2006\/2005\/lei\/L11105.htm\">Lei de Biosseguran\u00e7a<\/a>\u00a0pro\u00edbe explicitamente a engenharia gen\u00e9tica em c\u00e9lulas germinais humanas\u00a0<a name=\"_ftnref2\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-admin\/post.php?post=176&amp;action=edit#_ftn2\">[2]<\/a>. No resto dos pa\u00edses latino-americanos, provavelmente a legisla\u00e7\u00e3o seja t\u00e3o difusa quanto no M\u00e9xico.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u201cCRISPR-cas9\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Ainda mais pol\u00eamica \u00e9 a segunda t\u00e9cnica de manipula\u00e7\u00e3o do genoma, conhecida como\u00a0<strong>CRISPR-cas9<\/strong>.<\/p>\n<p>Trata-se de uma t\u00e9cnica um tanto mais complexa e dif\u00edcil de explicar. A descoberta do m\u00e9todo resultou da observa\u00e7\u00e3o do funcionamento do sistema de defesa das bact\u00e9rias contra v\u00edrus. CRISPR atua como uma<strong>\u00a0estrat\u00e9gia de guerra<\/strong>: ela \u201cpersegue\u201d o DNA contaminante e utiliza uma prote\u00edna (cas9) e guias de RNA para ligar-se a ele, cort\u00e1-lo e assim excluir a informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica perniciosa do v\u00edrus.<\/p>\n<p>Essa \u201cestrat\u00e9gia de guerra\u201d das bact\u00e9rias pode ser reproduzida em\u00a0<em>qualquer<\/em>\u00a0organismo vivo (o humano inclu\u00eddo). CRISPR \u00e9, assim,\u00a0<strong>programada<\/strong>\u00a0para extirpar certas sequ\u00eancias do DNA\u00a0<em>\u2013\u00a0<\/em>sequ\u00eancias respons\u00e1veis, por exemplo, por doen\u00e7as ou malforma\u00e7\u00f5es; a seguir, tais informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o\u00a0<strong>comutadas<\/strong>\u00a0pelas \u201ccorretas\u201d. Como explica Jennifer Doudna, a manobra \u00e9\u00a0<strong>compar\u00e1vel \u00e0 edi\u00e7\u00e3o de texto mais simples<\/strong>\u00a0(deletar uma palavra mal escrita e substitu\u00ed-la pela correta)\u00a0<strong>no processador de texto mais b\u00e1sico:<\/strong><\/p>\n<p>https:\/\/youtu.be\/PfS5qNO32lI<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas as t\u00e9cnicas de manipula\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica n\u00e3o s\u00e3o novidade. Elas existem, como j\u00e1 vimos, desde o s\u00e9culo passado. A novidade \u00e9 que jamais tinham sido t\u00e3o\u00a0<strong><em>baratas<\/em><\/strong><em>\u00a0<\/em>e t\u00e3o\u00a0<strong><em>precisas<\/em><\/strong>. Com efeito, atualmente CRISPR-cas9 pode ser levada a laborat\u00f3rio sem gastos exorbitantes (<strong>\u201ckits de edi\u00e7\u00e3o do genoma&#8221;\u00a0<\/strong>se encontram dispon\u00edveis na internet a custos acess\u00edveis!). Ademais, esses\u00a0<strong>\u201c<em>softwares\u00a0<\/em>para a edi\u00e7\u00e3o do genoma\u201d<\/strong>\u00a0contam com um certificado de garantia in\u00e9dito: eles funcionam, comprovadamente, com mais de 99% de efic\u00e1cia.<\/p>\n<p>Perante o tamanho da descoberta, a pr\u00f3pria comunidade cient\u00edfica tem expressado abertamente suas preocupa\u00e7\u00f5es,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/2015\/12\/04\/science\/crispr-cas9-human-genome-editing-moratorium.html?_r=0\">realizando um chamado global para interromper a aplica\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo em embri\u00f5es humanos<\/a>\u00a0<a name=\"_ftnref3\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-admin\/post.php?post=176&amp;action=edit#_ftn3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>Contudo, a morat\u00f3ria n\u00e3o parece estar surtindo os efeitos esperados.<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-admin\/post.php?post=176&amp;action=edit#_ftnref1\">[1]<\/a>\u00a0\u201cOficial\u201d entre aspas, porque temos not\u00edcias de que\u00a0<a href=\"http:\/\/www.telegraph.co.uk\/news\/health\/11065445\/Three-parent-babies-good-or-bad.html\">procedimentos semelhantes foram realizados de modo privado no final dos anos 1990<\/a>, e seguramente existam outros dos quais nada sabemos.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn2\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-admin\/post.php?post=176&amp;action=edit#_ftnref2\">[2]<\/a>\u00a0Cfr. tamb\u00e9m a\u00a0<a href=\"http:\/\/conselho.saude.gov.br\/resolucoes\/2012\/Reso466.pdf\">Resolu\u00e7\u00e3o 466\/2012<\/a>.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn3\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-admin\/post.php?post=176&amp;action=edit#_ftnref3\">[3]<\/a>\u00a0Na d\u00e9cada 70, uma morat\u00f3ria similar foi realizada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 clonagem molecular. Alguns cr\u00edticos defendem que tal pedido foi in\u00fatil, e se apoiam nisso para criticar a morat\u00f3ria atual.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hist\u00f3ria recente A Revolu\u00e7\u00e3o Gen\u00e9tica tem na hist\u00f3ria recente uma s\u00e9rie de acontecimentos fundamentais. Na segunda metade do S\u00e9culo XX a\u00a0biologia molecular\u00a0despontava. A\u00a0t\u00e9cnica do DNA recombinante\u00a0deu lugar \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de\u00a0Organismos Geneticamente Modificados (OGMs), transformando a agricultura e pecu\u00e1ria rapidamente. Na d\u00e9cada dos 70, surgiu o primeiro\u00a0animal transg\u00eanico; na dos 90, iniciou-se uma for\u00e7a-tarefa para mapear o genoma humano (Projeto Genoma). Em 2003, ap\u00f3s um trabalho fant\u00e1stico, a comunidade cient\u00edfica internacional anunciou que o sequenciamento fora conclu\u00eddo com sucesso. Poucas semanas&#8230;<\/p>\n<p class=\"read-more\"><a class=\"btn btn-default\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2019\/03\/07\/entendendo-as-tecnicas-de-manipulacao-genetica-fertilizacao-tripla\/\"> Read More<span class=\"screen-reader-text\">  Read More<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":374,"featured_media":400,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[34],"tags":[32,20,23,19,24,11,22,21,26,25,33],"class_list":["post-134","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-bioetica","tag-bioconservativismo","tag-distopia","tag-dna","tag-engenharia-genetica","tag-evolucao-natural","tag-genoma-humano","tag-oges","tag-ogms","tag-progresso","tag-revolucao-genetica","tag-tecnoprogressivismo"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2016\/11\/genoma-humano.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/134","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/users\/374"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=134"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/134\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":307,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/134\/revisions\/307"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/media\/400"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=134"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=134"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=134"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}