{"id":174,"date":"2016-12-04T20:32:54","date_gmt":"2016-12-04T22:32:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/?p=174"},"modified":"2017-01-21T12:51:48","modified_gmt":"2017-01-21T14:51:48","slug":"post-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2016\/12\/04\/post-4\/","title":{"rendered":"Preocupa\u00e7\u00f5es em torno \u00e0 edi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica\u00a0"},"content":{"rendered":"<p>Coloquemos primeiramente o senso comum para funcionar. De imediato surgem uma s\u00e9rie de perguntas b\u00e1sicas:<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o os efeitos de larga escala das manobras de interfer\u00eancia gen\u00e9tica? <\/strong>Consideremos, por exemplo, a quest\u00e3o do ZIKA\/DENGUE. A proposta \u00e9 editar a informa\u00e7\u00e3o do DNA e gerar no laborat\u00f3rio popula\u00e7\u00f5es de mosquitos sem a doen\u00e7a que, ao misturar-se e reproduzir-se com indiv\u00edduos contaminados, cheguem finalmente a substitu\u00ed-los por completo. A ideia de<strong> insetos \u201cproduzidos\u201d<\/strong> no laborat\u00f3rio e <strong>liberados massivamente<\/strong> n\u00e3o \u00e9 em absoluto atrativa \u2013 contudo, a pandemia \u00e9 menos atrativa ainda. Ent\u00e3o: como definir as <strong>prioridades<\/strong> em casos como este? Quanto conhecemos da \u201c<strong>ordem do cosmos<\/strong>\u201d, da intrincada engrenagem que subjaz \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida no planeta e dos efeitos remotos da altera\u00e7\u00e3o de \u201cpequenos detalhes\u201d desta classe? Existe algum tipo de consenso a respeito do \u201cconhecimento fundamental\u201d que devemos possuir para arriscar manobras deste tipo? E, sobre tudo: at\u00e9 que ponto \u00e9 pertinente pensar nos \u201cefeitos remotos\u201d quando a problem\u00e1tica atual \u00e9 t\u00e3o grave e premente?<\/p>\n<p><strong>No que toca aos usos terap\u00eauticos das t\u00e9cnicas de edi\u00e7\u00e3o, e levando a hip\u00f3tese ao extremo: como seria um mundo \u201csem doen\u00e7a\u201d? <\/strong>A edi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica na sua vertente terap\u00eautica <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=9TGQA6TzNTg\">promete aliviar doen\u00e7as como o c\u00e2ncer<\/a> e a AIDS. Qualquer pessoa sensata apreciar\u00e1 o significado e <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=KgvhUPiDdq8\">o valor dessa promessa<\/a>. Contudo, h\u00e1 uma pergunta dura, mas necess\u00e1ria: s\u00e3o o <strong>sofrimento<\/strong> e a doen\u00e7a fen\u00f4menos que devemos buscar <strong>erradicar a<\/strong><em><strong> todo <\/strong><\/em><strong>e <\/strong><em><strong>qualquer <\/strong><\/em><strong>custo<\/strong>?<\/p>\n<p>H\u00e1 um casal jovem. Ela est\u00e1 gr\u00e1vida e ambos est\u00e3o felizes. No decorrer da gravidez, eles descobrem que a criatura apresenta claras caracter\u00edsticas do <strong><em>s\u00edndrome de down<\/em><\/strong><em>. <\/em>O m\u00e9dico \u00e9 claro: prop\u00f5e abortar o quanto antes. Passado o pavor inicial, o casal investiga e descobre que h\u00e1 diferentes graus da s\u00edndrome; nos mais baixos, o indiv\u00edduo \u00e9 capaz de se desenvolver com autonomia suficiente como para, por exemplo, se desempenhar satisfatoriamente em um emprego, construir la\u00e7os de amizade e inclusive formar a pr\u00f3pria fam\u00edlia. Porventura, este \u00e9 o caso do filho do casal. Eles decidem ent\u00e3o, e para a surpresa do m\u00e9dico, continuar com a gesta\u00e7\u00e3o. \u00a0Com o passar dos anos, e apesar das dificuldades, eles se doam ao filho e acabam por desenvolver um sentimento delicado: uma <strong>toler\u00e2ncia<\/strong> especial, uma <strong>paci\u00eancia<\/strong> aguda e desinteressada e, em fim, um tipo refinado de <strong>amor<\/strong>.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma hist\u00f3ria verdadeira \u2013 uma hist\u00f3ria pass\u00edvel de adquirir um vi\u00e9s bem diferente no futuro pr\u00f3ximo: a edi\u00e7\u00e3o do genoma permitir\u00e1 <strong>\u201ccorrigir\u201d \u201cdesvia\u00e7\u00f5es\u201d<\/strong> desta classe desde o momento mesmo da gesta\u00e7\u00e3o. Mas ent\u00e3o se suscita o seguinte dilema: como \u00a0afetaria o ex\u00edlio das \u201cfalhas\u201d as nossas emo\u00e7\u00f5es? De quais fontes dispor\u00edamos para nutrir sentimentos do tipo, digamos, da compaix\u00e3o ou da empatia? Seriam essas fontes suficientes? Caso n\u00e3o o sejam e venhamos a enfraquecer uma parte importante do <strong>repert\u00f3rio emocional<\/strong> que nos caracteriza: como isso influiria, no fim das contas, sobre a nossa j\u00e1 fr\u00e1gil <strong>\u201ccapacidade moral\u201d<\/strong>?<\/p>\n<p>Do ponto de vista subjetivo, h\u00e1 ainda outro problema n\u00e3o menor. Quais seriam as consequ\u00eancias da perpetua\u00e7\u00e3o de si mesmo para o indiv\u00edduo? Na <em>extended life <\/em>adviria <strong>a sabedoria ou o t\u00e9dio<\/strong>? Despontaria finalmente o conhecimento de si, a irmandade entre os homens, ou a contradi\u00e7\u00e3o, a barb\u00e1rie e o v\u00edcio continuariam a a\u00e7oitar sob novas formas? Como vemos, h\u00e1 uma fronteira muito t\u00eanue entre <strong>utopia e distopia<\/strong> no que toca \u00e0 \u201cevolu\u00e7\u00e3o\u201d da esp\u00e9cie.<\/p>\n<p><strong>Dispomos de recursos e infraestrutura para dar conta de uma humanidade centen\u00e1ria? <\/strong>Ainda no que diz respeito \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o do sofrimento, mas agora a partir de um <strong>ponto de vista pr\u00e1tico<\/strong>, cabe anotar que a aplica\u00e7\u00e3o terap\u00eautica da engenharia gen\u00e9tica resultaria em um not\u00e1vel aumento na <strong>expectativa de vida<\/strong>. Sem nos elevar ao campo da \u201cespiritualidade\u201d ou da \u201ccultura\u201d, perguntemos: temos <strong>recursos,<\/strong> <strong>sistemas econ\u00f4micos, pol\u00edticos e sociais<\/strong> capazes de sustentar uma humanidade cada vez mais longeva, ou pelo menos de transformar-se suficientemente r\u00e1pido para dar conta de tal circunst\u00e2ncia?<\/p>\n<p><strong>No que toca aos usos eugen\u00e9sicos das t\u00e9cnicas de edi\u00e7\u00e3o: Quem decide o que \u00e9 \u201cmelhor\u201d para a esp\u00e9cie? <\/strong>Os problemas em torno dos usos eugen\u00e9sicos das tecnologias de edi\u00e7\u00e3o s\u00e3o os mais fascinantes. O mesmo sujeito sensato que admite quase sem dificuldade e inclusive se mant\u00e9m confiante em rela\u00e7\u00e3o aos usos terap\u00eauticos, chegado este ponto da discuss\u00e3o hesita e n\u00e3o se decide.<\/p>\n<p>Quem estaria nas condi\u00e7\u00f5es de determinar quais caracter\u00edsticas podem ou devem ser modificadas para criar um ser humano \u201cmelhor\u201d? E se aquele que decidir \u201cerrar\u201d, h\u00e1 um caminho de volta? At\u00e9 que ponto as <strong>consequ\u00eancias<\/strong> se estenderiam geogr\u00e1fica e intergeracionalmente de um modo control\u00e1vel? Qu\u00e3o real \u00e9 a amea\u00e7a de um <em>F\u00fcrer <\/em>do s\u00e9culo XXI?<\/p>\n<p><strong>A edi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica com fins eugen\u00e9ticos: n\u00e3o implica uma viola\u00e7\u00e3o da liberdade do sujeito? <\/strong>E tamb\u00e9m da sua <strong>autonomia<\/strong>, pois desde o momento que os pais \u201cescolhem\u201d ou \u201cdescartam\u201d o material gen\u00e9tico que constituir\u00e1 o substrato fisiol\u00f3gico do filho est\u00e3o determinando suas caracter\u00edsticas mais fundamentais sem o seu consentimento. H\u00e1 aqui, evidentemente, uma quest\u00e3o de justi\u00e7a intergeracional.<\/p>\n<p><strong>Como acontece a rela\u00e7\u00e3o entre eugenia, Estado e mercado? <\/strong>O problema da intersec\u00e7\u00e3o entre economia e revolu\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica \u00e9 claro e alarmante. O surgimento de um <strong>\u201cmercado eugen\u00e9sico de seres humanos projetados\u201d<\/strong> \u00e9 iminente.<\/p>\n<p>Mas: quem teria acesso \u00e0s aplica\u00e7\u00f5es das novas tecnologias? O que ocorreria se os pa\u00edses do <strong>terceiro mundo<\/strong> n\u00e3o conseguissem ter esse acesso? E ainda: dentro dos pr\u00f3prios Estados com grandes <strong>desigualdades sociais<\/strong>: acaso estas desigualdades n\u00e3o se tornariam mais agudas? Trata-se, enfim, de um problema de <strong>justi\u00e7a social<\/strong>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right\"><strong><span style=\"font-size: 14pt\">\u201cN\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria muita capacidade imaginativa e de especula\u00e7\u00e3o para dar-se conta de que o uso de t\u00e9cnicas de melhoramento do genoma levar\u00e1, se n\u00e3o for regulada de forma justa, a um aprofundamento das desigualdades sociais n\u00e3o apenas entre pa\u00edses que permitirem tais t\u00e9cnicas e os que eventualmente n\u00e3o permitir\u00e3o, mas tamb\u00e9m entre aqueles Estados que as utilizarem sem dar condi\u00e7\u00f5es para que as pessoas que necessitem das t\u00e9cnicas possam ter acesso a elas.\u201d<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><strong><span style=\"font-size: 14pt\">\u201cSe forem adotadas essas t\u00e9cnicas para fins terap\u00eauticos, tanto reprodutivos quanto de terapia, pol\u00edticas p\u00fablicas claras e um sistema de sa\u00fade universal ser\u00e3o condi\u00e7\u00f5es para o agravamento das desigualdades sociais existentes.\u201d<\/span><\/strong><\/p>\n<p>Dall\u00b4Agnol em:\u00a0<a href=\"http:\/\/anpof.org\/portal\/index.php\/pt-BR\/comunidade\/coluna-anpof\/851-edicao-do-genoma-humano-algumas-reflexoes-eticas\">Coluna ANPOF<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Coloquemos primeiramente o senso comum para funcionar. De imediato surgem uma s\u00e9rie de perguntas b\u00e1sicas: Quais s\u00e3o os efeitos de larga escala das manobras de interfer\u00eancia gen\u00e9tica? Consideremos, por exemplo, a quest\u00e3o do ZIKA\/DENGUE. A proposta \u00e9 editar a informa\u00e7\u00e3o do DNA e gerar no laborat\u00f3rio popula\u00e7\u00f5es de mosquitos sem a doen\u00e7a que, ao misturar-se e reproduzir-se com indiv\u00edduos contaminados, cheguem finalmente a substitu\u00ed-los por completo. A ideia de insetos \u201cproduzidos\u201d no laborat\u00f3rio e liberados massivamente n\u00e3o \u00e9 em absoluto&#8230;<\/p>\n<p class=\"read-more\"><a class=\"btn btn-default\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2016\/12\/04\/post-4\/\"> Read More<span class=\"screen-reader-text\">  Read More<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":178,"featured_media":191,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[34],"tags":[20,19,28,24,26,25,36],"class_list":["post-174","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-bioetica","tag-distopia","tag-engenharia-genetica","tag-eugenia","tag-evolucao-natural","tag-progresso","tag-revolucao-genetica","tag-utopia"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2016\/12\/da-vinci-embryo-2.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/174","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/users\/178"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=174"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/174\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":315,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/174\/revisions\/315"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/media\/191"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=174"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=174"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=174"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}