{"id":176,"date":"2016-12-04T20:41:38","date_gmt":"2016-12-04T22:41:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/?p=176"},"modified":"2018-12-11T09:42:31","modified_gmt":"2018-12-11T11:42:31","slug":"post-5-genoma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2016\/12\/04\/post-5-genoma\/","title":{"rendered":"Avalia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do problema da edi\u00e7\u00e3o do genoma humano: notas preliminares e uma an\u00e1lise de caso (I)"},"content":{"rendered":"<p>Para poder avaliar a quest\u00e3o da edi\u00e7\u00e3o do genoma humano desde uma perspectiva filos\u00f3fica devemos em primeiro lugar evitar o\u00a0<strong>dogmatismo<\/strong>, essa doen\u00e7a. As duas formas mais correntes de dogmatismo neste contexto s\u00e3o o \u201c<strong>bioconservatismo<\/strong>\u201d e o \u201c<strong>tecnoprogressismo<\/strong>\u201d: aquele consiste em contrapor\u00a0<em>natureza\u00a0<\/em>e\u00a0<em>tecnologia\u00a0<\/em>endeusando a natureza e argumentando que todo tipo de interfer\u00eancia na ordem dada \u00e9 teimosia, este, em defender o contr\u00e1rio dizendo que o\u201cverdadeiro progresso\u201d dependeu, depende e depender\u00e1 sempre justa e crucialmente da experimenta\u00e7\u00e3o, do risco e da inclus\u00e3o ousada de \u201cnovidades\u201d no \u201cmundo dado\u201d.<\/p>\n<p>Cuidando, pois, para n\u00e3o nos precipitar no fanatismo por nenhuma dessas vias, ensaiemos algumas considera\u00e7\u00f5es preliminares.<\/p>\n<p>A primeira rea\u00e7\u00e3o talvez seja querer responder \u00e0 pergunta pela pertin\u00eancia ou n\u00e3o da edi\u00e7\u00e3o gen\u00f4mica com base em um\u00a0<strong>c\u00e1lculo de custo e benef\u00edcio<\/strong>. Mas ainda que a tarefa de listar os custos e benef\u00edcios da manipula\u00e7\u00e3o fosse poss\u00edvel (coisa que provavelmente n\u00e3o \u00e9, pois a ordem profunda do cosmos parece estar fora do alcance da nossa limitada intelig\u00eancia), a enumera\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia prescindir de um<strong>\u00a0exerc\u00edcio avaliativo de outra natureza.<\/strong><\/p>\n<p>Dada as listas, dever\u00edamos, para poder compar\u00e1-las, ordenar os itens que as comp\u00f5em, hierarquiz\u00e1-los, estipular o seu\u00a0<strong>valor\u00a0<em>qualitativo<\/em><\/strong><em>.<\/em>\u00a0Isso n\u00e3o significa, evidentemente, relegar o trabalho de campo de medir os pr\u00f3s e contras. Esse trabalho descritivo, de constata\u00e7\u00e3o e documenta\u00e7\u00e3o \u00e9 important\u00edssimo, e deve ser realizado permanentemente pela comunidade cient\u00edfica e posto a servi\u00e7o da comunidade. A ressalva significa, apenas, que a\u00a0<strong>avalia\u00e7\u00e3o qualitativa<\/strong>\u00a0\u00e9 a parte mais \u00e1rdua e decisiva da tarefa filos\u00f3fica que temos em m\u00e3os.<\/p>\n<p><strong>Princ\u00edpios\u00a0<em>prima facie\u00a0<\/em>da Bio\u00e9tica<\/strong><\/p>\n<p>No campo da Bio\u00e9tica, h\u00e1 uma s\u00e9rie de princ\u00edpios mais ou menos consensualizados que servem como referencial para a discuss\u00e3o. Esses princ\u00edpios, que n\u00e3o s\u00e3o definitivos (s\u00e3o chamados de\u00a0<em>prima facie\u00a0<\/em>justamente porque possuem validade\u00a0<em>\u00e0 primeira vista,\u00a0<\/em>mas s\u00e3o vulner\u00e1veis \u00e0 reformula\u00e7\u00e3o), s\u00e3o quatro: o princ\u00edpio\u00a0<strong>da benefic\u00eancia<\/strong>, o de\u00a0<strong>n\u00e3o malefic\u00eancia<\/strong>, o da\u00a0<strong>autonomia<\/strong>\u00a0e o da\u00a0<strong>justi\u00e7a<\/strong>.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da sua validade condicionada, eles n\u00e3o est\u00e3o ordenados hierarquicamente, e nenhum deles tem preemin\u00eancia sobre os outros, o que dificulta mais a tarefa.<\/p>\n<p><strong>Caso Abrahim Hassan<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 quem sustente que \u201cos usos terap\u00eauticos das t\u00e9cnicas de edi\u00e7\u00e3o g\u00eanica [&#8230;] poderiam, se se mostrarem realmente confi\u00e1veis, ser permitidos, pois s\u00e3o justificados pelos princ\u00edpios\u00a0<em>prima facie\u00a0<\/em>da bio\u00e9tica\u201d\u00a0<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-admin\/post.php?post=134&amp;action=edit#_ftn1\">[1]<\/a>. Consideremos, para ver como isto funciona, a \u201cfertiliza\u00e7\u00e3o tripla\u201d. A maior parte da carga gen\u00e9tica de Abrahim Hassan prov\u00e9m dos seus pais; uma outra, de uma doadora desconhecida cujo DNA mitocondrial \u00e9 sadio. Caso n\u00e3o tivesse ocorrido a\u00a0<em>nuclear transfer<\/em>, o filho teria herdado a\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/S%C3%ADndrome_de_Leigh\">doen\u00e7a de Leigh<\/a>\u00a0e morrido rapidamente como seus irm\u00e3os. Mas o beb\u00ea sobreviveu e nasceu\u00a0<em>sem<\/em>\u00a0a doen\u00e7a, e o casal p\u00f4de finalmente formar uma fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Que nesse caso se cumpre o princ\u00edpio da\u00a0<strong>benefic\u00eancia<\/strong>\u00a0\u00e9 bastante claro, pelo menos sob o ponto de vista do rec\u00e9m-nascido. O princ\u00edpio da\u00a0<strong>n\u00e3o-malefic\u00eancia<\/strong>\u00a0tamb\u00e9m parece ser respeitado (a n\u00e3o ser que se considere, como Sileno, que o nascimento \u00e9 um mal).<\/p>\n<p>J\u00e1 com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 autonomia \u00e9 mais dif\u00edcil pronunciar-se. Se bem \u00e9 evidente que a\u00a0<strong>autonomia<\/strong>\u00a0<em>dos progenitores<\/em>\u00a0\u00e9 respeitada, n\u00e3o parece ser t\u00e3o claro no caso\u00a0<em>do indiv\u00edduo gerado<\/em>; pelo contr\u00e1rio, algu\u00e9m parece estar tomando uma decis\u00e3o importante por ele.<\/p>\n<p>No que toca \u00e0\u00a0<strong>justi\u00e7a<\/strong>, h\u00e1 questionamentos semelhantes. N\u00e3o deveria o uso privado dessa \u201ceugenia negativa\u201d (pois se trata de \u201cmelhorar a vida\u201d n\u00e3o por meio de inclus\u00e3o de novas caracter\u00edsticas, mas pelo desterro das \u201cfalhas\u201d existentes) ser proibido, ou pelo menos atentamente vigiado, at\u00e9 chegarmos a um consenso maior sobre o assunto?<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-admin\/post.php?post=134&amp;action=edit#_ftnref1\">[1]<\/a>\u00a0Cfr. Dall\u00b4Agnol em:\u00a0<a href=\"http:\/\/anpof.org\/portal\/index.php\/pt-BR\/comunidade\/coluna-anpof\/851-edicao-do-genoma-humano-algumas-reflexoes-eticas\">COLUNA ANPOF<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para poder avaliar a quest\u00e3o da edi\u00e7\u00e3o do genoma humano desde uma perspectiva filos\u00f3fica devemos em primeiro lugar evitar o\u00a0dogmatismo, essa doen\u00e7a. As duas formas mais correntes de dogmatismo neste contexto s\u00e3o o \u201cbioconservatismo\u201d e o \u201ctecnoprogressismo\u201d: aquele consiste em contrapor\u00a0natureza\u00a0e\u00a0tecnologia\u00a0endeusando a natureza e argumentando que todo tipo de interfer\u00eancia na ordem dada \u00e9 teimosia, este, em defender o contr\u00e1rio dizendo que o\u201cverdadeiro progresso\u201d dependeu, depende e depender\u00e1 sempre justa e crucialmente da experimenta\u00e7\u00e3o, do risco e da inclus\u00e3o ousada&#8230;<\/p>\n<p class=\"read-more\"><a class=\"btn btn-default\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2016\/12\/04\/post-5-genoma\/\"> Read More<span class=\"screen-reader-text\">  Read More<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":374,"featured_media":672,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[34],"tags":[20,23,22,21,26,25],"class_list":["post-176","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-bioetica","tag-distopia","tag-dna","tag-oges","tag-ogms","tag-progresso","tag-revolucao-genetica"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2016\/12\/bebe-genetics-520x25.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/176","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/users\/374"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=176"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/176\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":314,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/176\/revisions\/314"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/media\/672"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=176"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=176"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=176"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}