{"id":333,"date":"2019-03-01T16:41:35","date_gmt":"2019-03-01T19:41:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/?p=333"},"modified":"2020-06-04T13:28:54","modified_gmt":"2020-06-04T16:28:54","slug":"nietzsche-e-o-nazismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2019\/03\/01\/nietzsche-e-o-nazismo\/","title":{"rendered":"Nietzsche e o nazismo"},"content":{"rendered":"<p>De um lado, <strong>Adorno<\/strong> escreve, com raz\u00e3o, que \u201ca exig\u00eancia de que Auschwitz n\u00e3o se repita deve ser a primeira de todas para a educa\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. De outro, uma s\u00e9rie de leitores apressados acusam Nietzsche de alimentar\u00a0uma filosofia <strong>nazista<\/strong> e <strong>antissemita.<\/strong><\/p>\n<p>Biograficamente essa acusa\u00e7\u00e3o n\u00e3o prossegue, pois sabemos por exemplo que Nietzsche se recusou a comparecer ao casamento de sua irm\u00e3, Elisabeth F\u00f6rster-Nietzsche, em rep\u00fadio ao antissemitismo de seu cunhado, <a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Bernhard_F%C3%B6rster\">B. F\u00f6rster<\/a>. Mas fora fatos biogr\u00e1ficos, a leitura atenta da <em>Primeira Disserta\u00e7\u00e3o <\/em>da <em>Genealogia da Moral <\/em>(1887)<em>, <\/em>onde a quest\u00e3o judaica aparece com as cores mais vivas na obra de Nietzsche e dissipa qualquer d\u00favida sobre a posi\u00e7\u00e3o\u00a0do fil\u00f3sofo em rela\u00e7\u00e3o ao \u201cimp\u00e9rio das bestas louras\u201d.<\/p>\n<p>Para que o prisma da <strong>falsa conex\u00e3o entre Nietzsche e o nazismo<\/strong> seja afastado, consideremos por exemplo a sua proposta de <em>supera\u00e7\u00e3o<\/em> do \u201cbom e ruim (<em>schlecht<\/em>)\u201d senhorial e primitivo \u2013 que os nazistas tentaram ressuscitar, bizarramente \u2013 e de <em>sublima\u00e7\u00e3o<\/em> do \u201cbom e mau (<em>b\u00f6se<\/em>)\u201d reativo e ressentido judaico- crist\u00e3o. Para al\u00e9m de ambas as dicotomias, Nietzsche prop\u00f5e a cria\u00e7\u00e3o de <em>novos valores<\/em>, por meio de uma supera\u00e7\u00e3o chamada por ele de <strong><em>transvalora\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong> (<em>Umwertung aller Werte). <\/em><\/p>\n<p>No in\u00edcio da <em>Primeira Disserta\u00e7\u00e3o, <\/em>cujo tema s\u00e3o as dicotomias \u201cbom e mau (<em>b\u00f6se<\/em>)\u201d e \u201cbom e ruim (<em>schlecht<\/em>)\u201d, Nietzsche se op\u00f5e \u00e0 hip\u00f3tese dos \u201cpsic\u00f3logos ingleses\u201d de que, originalmente, \u201cas a\u00e7\u00f5es n\u00e3o ego\u00edstas foram louvadas e consideradas boas por aqueles aos quais eram feitas, aos quais eram \u00fateis, mais tarde foi esquecida essa origem do louvor, e as a\u00e7\u00f5es n\u00e3o ego\u00edstas\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> passaram a ser tomadas como boas <em>absolutamente<\/em>. Contra essa genealogia, Nietzsche defende que \u201co ju\u00edzo \u2018bom\u2019 <em>n\u00e3o<\/em> prov\u00e9m daqueles aos quais se fez o bem! Foram os \u2018bons\u2019 mesmos, isto \u00e9, os nobres, poderosos, superiores em posi\u00e7\u00e3o e pensamento, que sentiram e estabeleceram a si e a seus atos como bons, ou seja, de primeira ordem, em oposi\u00e7\u00e3o a tudo que era baixo, de pensamento baixo, e vulgar e plebeu\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><\/a>. Do \u201c<em>pathos da dist\u00e2ncia\u201d <\/em>recebida pelos patr\u00edcios ante a massa ordin\u00e1ria, Nietzsche ensina que se desenvolveu o primeiro \u201cdireito de criar valores, cunhar nomes para os valores: que importava aos senhores a utilidade!\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>Conforme essa hip\u00f3tese, o bom n\u00e3o foi, portanto, em sua origem, sin\u00f4nimo de n\u00e3o-ego\u00edsmo. Apenas posteriormente, \u201ccom o decl\u00ednio dos ju\u00edzos de valor aristocr\u00e1ticos\u201d, Nietzsche afirma que se imp\u00f4s \u201cmais e mais \u00e0 consci\u00eancia humana\u201d a oposi\u00e7\u00e3o entre o \u201cego\u00edsmo\u201d e o \u201cn\u00e3o ego\u00edsmo\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>A essa transforma\u00e7\u00e3o, o fil\u00f3sofo d\u00e1 o nome de \u201crevolta dos escravos na moral\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Rebeli\u00e3o que, segundo seu entendimento, come\u00e7ou quando os escravos \u2013 e em especial os judeus \u2013 passaram a gerar valores, de maneira retroativa e a partir do ressentimento acumulado contra seus dominantes. \u201cEnquanto <strong>toda moral nobre nasce de um triunfante <em>Sim<\/em><\/strong> a si mesma\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> \u2013 compara Nietzsche: \u201cJ\u00e1 de in\u00edcio a moral escrava diz <em>N\u00e3o<\/em> a um \u2018fora\u2019, um \u2018outro\u2019, um \u2018n\u00e3o-eu\u2019 \u2013 e <em>este <\/em>N\u00e3o \u00e9 seu ato criador. Esta invers\u00e3o do olhar que estabelece valores \u2013 este necess\u00e1rio dirigir-se para fora, em vez de voltar-se para si \u2013 \u00e9 algo pr\u00f3prio do <em>ressentimento<\/em>: a moral escrava sempre requer, para nascer, um mundo oposto e exterior, para poder agir em absoluto \u2013 sua a\u00e7\u00e3o \u00e9 no fundo rea\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p>Conforme Nietzsche, a natureza nobre \u00e9 por excel\u00eancia original, ativa e instintiva, e a escrava, reativa, espiritual e passiva. Quando \u00e0 primeira aparece algum ressentimento, ele \u00e9 consumido imediatamente, por meio de uma rea\u00e7\u00e3o col\u00e9rica que n\u00e3o permite posterior \u201cenvenenamento\u201d. Os escravos, em suas condi\u00e7\u00f5es de impot\u00eancia, j\u00e1 agem de outro modo. Seus inimigos, que se autointitulam \u201cbons\u201d, s\u00e3o, justamente, seus maiores \u201cmaus\u201d, de modo que a vingan\u00e7a escrava ocorre por meio da cria\u00e7\u00e3o de um novo \u201cbom\u201d, que se delimita na nega\u00e7\u00e3o do \u201cmau\u201d senhorial.<\/p>\n<p>Se os patr\u00edcios, portanto, conheciam apenas \u201cbom e ruim (<em>schlecht<\/em>)\u201d \u2013 isto \u00e9, eles mesmos e os diferentes deles \u2013 os escravos j\u00e1 concebem o \u201cbom e mau\u201d (<em>b\u00f6se<\/em>) em sentido religioso e espiritual, como o que, respectivamente, <em>n\u00e3o \u00e9<\/em> e <em>\u00e9<\/em> o \u201cbom\u201d senhorial. Consequentemente, na nova dicotomia, \u201cbom e mau\u201d se caracterizam, sobretudo, pela aus\u00eancia ou presen\u00e7a de ego\u00edsmo, for\u00e7a e autoafirma\u00e7\u00e3o imediatos.<\/p>\n<p>O que preocupa Nietzsche na rebeli\u00e3o escrava na moral n\u00e3o \u00e9, de modo algum, uma inexistente nostalgia nele da natureza primitiva e bestial humana, dominada pelo avan\u00e7o democr\u00e1tico. Pelo contr\u00e1rio, o fil\u00f3sofo teme que \u201co verme homem\u201d, com sua vis\u00e3o envenenada e retroativa, \u201cocupe o primeiro plano e se multiplique; que o \u2018homem manso\u2019, o incuravelmente med\u00edocre e insosso, j\u00e1 tenha aprendido a se perceber como apogeu e meta\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. E que se perpetue, por meio disso, o \u201capequenamento e nivelamento do homem europeu\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><\/a><\/p>\n<p>Mas o que torna maior, para Nietzsche? O que perdura como algo inspirador e incans\u00e1vel? Em nome do que o fil\u00f3sofo polemiza contra a moral judaico-crist\u00e3? N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil responder essas perguntas, mas na cita\u00e7\u00e3o anterior tivemos algumas pistas: \u201cEstamos cansados do homem\u201d, por exemplo, foi repetido duas vezes. Ora, algo \u00e9 mais cansativo do que a superficialidade espiritual das \u201caves de rapina\u201d do passado? No aforismo dez, o fil\u00f3sofo reconhece que, no plano mental, muito foi ganho com a revolu\u00e7\u00e3o escrava na moral: \u201cUma ra\u00e7a de (&#8230;) homens do ressentimento resultar\u00e1 necessariamente mais inteligente que qualquer ra\u00e7a nobre, e venerar\u00e1 a intelig\u00eancia numa medida muito maior: a saber, como condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia de primeira ordem\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>. De acordo com o pensador, os b\u00e1rbaros originais eram fundamentalmente inconscientes. Se, por um lado, o \u00f3dio, em um nobre, sempre quando aparece, \u201cse consome e se exaure numa rea\u00e7\u00e3o imediata, e por isso n\u00e3o envenena\u201d; por outro, em tempos pret\u00e9ritos, as bestas eram as encarna\u00e7\u00f5es de toda a imprud\u00eancia, c\u00f3lera e parvidade. Um aristocrata \u201csacode de si, com <em>um <\/em>movimento, muitos vermes que em outros se enterrariam\u201d<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a> \u2013 descreve o autor \u2013 e nesse sentido, cabe-lhe certo al\u00edvio psicol\u00f3gico. No escravo ressentido, a desforra se internaliza, e com isso, \u201ctudo se torna mais perigoso, (&#8230;) altivez, vingan\u00e7a, perspic\u00e1cia, dissolu\u00e7\u00e3o, amor, sede de dom\u00ednio, virtude, doen\u00e7a\u201d<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>.<\/p>\n<p>Sobretudo quando aparecem os sacerdotes asc\u00e9ticos em nossa hist\u00f3ria, Nietzsche afirma que o homem experimenta uma fan\u00e1tica insurrei\u00e7\u00e3o e se torna mais intoxicado, <em>denso<\/em> e <em>atrativo<\/em>. Nas ant\u00edpodas da fixa\u00e7\u00e3o nazista no imp\u00e9rio das bestas rasas, Nietzsche reconhece a superioridade mental do sacerdote sobre os \u00faltimos com as seguintes palavras:<\/p>\n<p><strong>\u201cSomente no \u00e2mbito dessa forma <em>essencialmente perigosa<\/em> da exist\u00eancia humana, a sacerdotal, \u00e9 que o homem se tornou <em>um animal interessante<\/em>, apenas ent\u00e3o a alma humana ganhou <em>profundidade<\/em> num sentido superior, e tornou-se m\u00e1 \u2013 e estas s\u00e3o as duas formas fundamentais da superioridade at\u00e9 agora tida pelo homem sobre as outras bestas!\u201d<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>.<\/strong><\/p>\n<p>Desde a perspectiva de esquerda, Adorno tamb\u00e9m defende que o combate da frieza da \u201c<em>lonely crowd<\/em>\u201d (multid\u00e3o solit\u00e1ria) moderna via a prega\u00e7\u00e3o universal do amor desanda f\u00e1cil em \u201cret\u00f3rica idealista\u201d<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>. Pior ainda, Adorno entende que o cristianismo fracassou, n\u00e3o apenas porque \u201cn\u00e3o mexeu com a ordem social que produz e reproduz a frieza\u201d, mas tamb\u00e9m porque \u201co incentivo ao amor \u2013 provavelmente na forma mais imperativa, de um dever \u2013 constitui ele pr\u00f3prio parte de uma ideologia que perpetua a frieza. Ele combina com o que \u00e9 impositivo, opressor, que atua contrariamente \u00e0 capacidade de amar. Por isso, o primeiro passo seria ajudar a frieza a adquirir consci\u00eancia de si pr\u00f3pria, das raz\u00f5es pelas quais foi gerada\u201d<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a>. Nesse exerc\u00edcio de autoconhecimento, a genealogia nietzschiana da moral dominante na modernidade \u00e9 de enorme socorro.<\/p>\n<p>Precursor de Adorno, Nietzsche tamb\u00e9m defendeu que a prega\u00e7\u00e3o universal do amor, do modo como o faz o cristianismo, \u00e9 falsa, oca e fruto do ressentimento (que perpetua a frieza). Por outro lado, n\u00e3o \u00e9 com o retorno ao \u201cbom e ruim (<em>schlecht<\/em>)\u201d primitivo que se conseguir\u00e1 nada. Conforme o pensador, \u201choje n\u00e3o h\u00e1 talvez sinal mais decisivo de uma \u2018<em>natureza elevada\u2019<\/em>, de uma natureza espiritual, do que estar dividida neste sentido [entre o \u201cbom e ruim (<em>schlecht<\/em>)\u201d, e o \u201cbom e mau (<em>b\u00f6se<\/em>)\u201d] e ser um verdadeiro campo de batalha para esses dois opostos\u201d<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a>.<\/p>\n<p>No \u00faltimo aforismo da <em>Primeira Disserta\u00e7\u00e3o, <\/em>Nietzsche previu que o \u201cbom e ruim (<em>schlecht<\/em>)\u201d bestial tentaria ser ressuscitado, no futuro, em um experimento ainda mais horr\u00edvel do que foi no passado. Caso seus leitores n\u00e3o compreendam as consequ\u00eancias desse retrocesso, Nietzsche se apura com a defini\u00e7\u00e3o de que sua <em>pretens\u00e3o<\/em> e <em>desejo<\/em> n\u00e3o s\u00e3o o endossamento do mesmo, mas a supera\u00e7\u00e3o de ambas as dicotomias: \u201cbom e mau (<em>b\u00f6se<\/em>)\u201d e \u201cbom e ruim (<em>schlecht<\/em>)\u201d. Com as seguintes palavras o autor apresenta esse delineamento de seu projeto, nas \u00faltimas linhas da <em>Primeira Disserta\u00e7\u00e3o<\/em>:<\/p>\n<p><strong>\u201cN\u00e3o deveria o antigo fogo se reacender um dia [o \u201cbom e ruim (<em>schlecht<\/em>)\u201d primitivo], ainda mais terr\u00edvel, ap\u00f3s um per\u00edodo ainda mais longo de prepara\u00e7\u00e3o? Mais: n\u00e3o seria isto algo a se esperar? Mesmo a se querer? A se promover?&#8230; Quem neste ponto come\u00e7a a refletir, a reconsiderar, como meus leitores, t\u00e3o cedo n\u00e3o chegar\u00e1 ao fim \u2013 raz\u00e3o para que eu mesmo chegue ao fim, supondo que h\u00e1 muito tenha ficado claro o que pretendo, o que desejo com a perigosa senha inscrita na fronte do meu \u00faltimo livro: \u2018Al\u00e9m do bem e do mal (<em>B\u00f6se<\/em>)\u2019&#8230; Ao menos isto <em>n\u00e3o<\/em> significa \u2018Al\u00e9m do bom e do ruim (<em>schlecht<\/em>)\u2019\u201d<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a>.<\/strong><\/p>\n<p>As duas perguntas anteriores de Nietzsche foram respondidas com um assertivo \u201cSim\u201d por Hitler. Mas, com isso, Hitler evidenciou n\u00e3o possuir a \u201cnatureza elevada<em>\u201d <\/em>que, conforme Nietzsche, existe apenas naquele que se divide entre ambas as morais, na modernidade: \u201cBom e ruim (<em>schlecht<\/em>)\u201d, \u201cbom e mau (<em>b\u00f6se<\/em>)\u201d.<\/p>\n<p>Em outro artigo, defendemos, com base em Nietzsche e Adorno, que Hitler foi o mais ressentido dos ressentidos, cuja obsess\u00e3o pelas aves de rapina do pret\u00e9rito era tamanha que consumiu todo seu ser. No avesso dessa superficialidade, Nietzsche prop\u00f5e superar, ir al\u00e9m de ambas as dicotomias; atravess\u00e1-las por inteiro, sublim\u00e1-las; criar novos valores, tresvalorar. Sendo assim, se a moral do \u201cbom e ruim (<em>schlecht<\/em>)\u201d foi superada pela moral dominante do \u201cbom e mau (<em>b\u00f6se<\/em>)\u201d, cabe ao homem vindouro sublimar, precisamente, essa \u00faltima, e por isso, o autor afirma que a senha de seu projeto \u00e9: \u201cAl\u00e9m do bem e do mal\u2019 (<em>B\u00f6se<\/em>)\u201d. O que significa \u201csenha\u201d sen\u00e3o chave de resposta, que abre caminhos e revela os desejos mais \u00edntimos?<\/p>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0 expectativa do fil\u00f3sofo do que aguardava a Europa no s\u00e9culo XX, a derradeira frase do texto foi<em>: <\/em>\u201cDies hei\u00dft zum mindesten <em>nicht<\/em> [grifo nietzschiano] \u00bbJenseits von Gut und Schlecht\u00ab (<em>\u201c<\/em>Ao menos isto <em>n\u00e3o<\/em> significa \u2018Al\u00e9m do bom e do ruim [<em>schlecht<\/em>]\u201d<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a>). Tradu\u00e7\u00e3o do grifo: sua proposta <em>n\u00e3o \u00e9 <\/em>retornar \u00e0 moral bestial do \u201cbom e ruim (<em>schlecht<\/em>)\u201d, at\u00e9 porque essa moral j\u00e1 foi superada e, al\u00e9m de indesej\u00e1vel, talvez seja imposs\u00edvel traz\u00ea-la de volta. Pelo contr\u00e1rio, Nietzsche prop\u00f5e sublimar a <em>moral dominante<\/em>, asc\u00e9tica e ressentida, embora superior, espiritualmente, \u00e0 moral primitiva. Com base nisso, estamos seguros de que se Nietzsche tivesse conhecido o nazismo, teria se oposto a ele ainda com mais engajamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> ADORNO, T.. <em>Educa\u00e7\u00e3o e emancipa\u00e7\u00e3o<\/em>. Trad.: W. L. Maar. S\u00e3o Paulo: Ed. Paz Terra, 2000, p. 119<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> NIETZSCHE, F.. <em>Genealogia da Moral. <\/em>Trad.: P. C. de Souza. S\u00e3o Paulo: Cia das Letras, 2004, p. 19<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Idem, p. 19<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Ibidem<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Idem, p. 19<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Idem, p. 26<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Idem, p. 29<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> A respeito da literatura em an\u00e1lise, Nietzsche afirma preferir o <em>Antigo Testamento <\/em>ao <em>Novo \u2013 <\/em>vale lembrar, dois livros que est\u00e3o na base, respectivamente, do juda\u00edsmo e cristianismo. Conforme o autor, o <em>Antigo Testamento <\/em>simboliza o cora\u00e7\u00e3o \u201cforte de um povo\u201d, ao passo que o <em>Novo<\/em> possui sentimentalismo, vulgaridade e heterogeneidade em excesso. Com as seguintes palavras essa compara\u00e7\u00e3o \u00e9 apresentada pelo autor: \u201cTodo respeito perante o <em>Antigo Testamento<\/em>! Nele encontro grandes homens, uma paisagem heroica, e algo rar\u00edssimo sobre a terra, a incompar\u00e1vel ingenuidade do <em>cora\u00e7\u00e3o forte<\/em>; mais ainda encontro um povo. No <em>Novo<\/em>, por\u00e9m, nada sen\u00e3o pequeninas manobras de seitas, (&#8230;) rococ\u00f3 da alma, (&#8230;) volutas, tortuosidade e bazarrias, mero ar de convent\u00edculo, n\u00e3o esquecendo ainda um ocasional sopro de do\u00e7ura buc\u00f3lica, pr\u00f3prio da \u00e9poca (e da prov\u00edncia romana) e n\u00e3o tanto judeu quanto helen\u00edstico\u201d (NIETZSCHE, F.. Op. Cit., 2004, p. 133). A prefer\u00eancia do pensador pela bibliografia judaica \u00e0 crist\u00e3 pode ser vista como s\u00edmbolo de sua car\u00eancia de antissemitismo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> idem, p. 34<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Idem, p. 36<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> ibidem<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Idem, p. 30<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Ibidem<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Idem, p. 25<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Idem, p. 25<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> ADORNO, T.. Op. Cit., 2000, p. 120 e 134<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> ADORNO, T.. Idem, p. 136<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> NIETZSCHE, F.. Op. Cit.. 2004, p. 43<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> Idem, p. 45<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> NIETZSCHE, F.. <em>Gesammelte Werke.<\/em> German Edition. Kindle Locations 47767-47768. Kindle Edition<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De um lado, Adorno escreve, com raz\u00e3o, que \u201ca exig\u00eancia de que Auschwitz n\u00e3o se repita deve ser a primeira de todas para a educa\u00e7\u00e3o\u201d[1]. De outro, uma s\u00e9rie de leitores apressados acusam Nietzsche de alimentar\u00a0uma filosofia nazista e antissemita. Biograficamente essa acusa\u00e7\u00e3o n\u00e3o prossegue, pois sabemos por exemplo que Nietzsche se recusou a comparecer ao casamento de sua irm\u00e3, Elisabeth F\u00f6rster-Nietzsche, em rep\u00fadio ao antissemitismo de seu cunhado, B. F\u00f6rster. Mas fora fatos biogr\u00e1ficos, a leitura atenta da Primeira&#8230;<\/p>\n<p class=\"read-more\"><a class=\"btn btn-default\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2019\/03\/01\/nietzsche-e-o-nazismo\/\"> Read More<span class=\"screen-reader-text\">  Read More<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":245,"featured_media":374,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"editor_plus_copied_stylings":"{}","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[54,55,56,44,46],"class_list":["post-333","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-politica","tag-cristianismo","tag-judaismo","tag-moral","tag-nazismo","tag-nietzsche"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/333","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/users\/245"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=333"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/333\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":405,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/333\/revisions\/405"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/media\/374"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=333"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=333"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=333"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}