{"id":426,"date":"2018-03-29T08:43:43","date_gmt":"2018-03-29T11:43:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/?p=426"},"modified":"2020-06-04T13:28:40","modified_gmt":"2020-06-04T16:28:40","slug":"dois-conceitos-fundamentais-da-pesquisa-cientifica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2018\/03\/29\/dois-conceitos-fundamentais-da-pesquisa-cientifica\/","title":{"rendered":"DOIS PILARES DA PESQUISA CIENT\u00cdFICA: DEDUTIVISMO E FALSEABILIDADE"},"content":{"rendered":"<h1><\/h1>\n<p><strong>Na bandeira do Brasil, lemos: \u201cOrdem e Progresso\u201d. Trata-se de uma abrevia\u00e7\u00e3o do lema Positivista de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Auguste_Comte\">Comte<\/a>: &#8220;o Amor por princ\u00edpio,\u00a0<\/strong><strong><em>a Ordem por base e o Progresso por fim<\/em><\/strong><strong>&#8220;.\u00a0<\/strong>N\u00e3o \u00e9 muito comum que bandeiras estampem palavras, talvez porque mesmo os voc\u00e1bulos mais interessantes, como \u201cSabedoria\u201d, \u201cBeleza\u201d, e \u201cLiberdade\u201d, podem facilmente se desgastar sobre o pano nacionalista.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-524\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/03\/brasil_editada-1024x661.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"413\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/03\/brasil_editada-1024x661.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/03\/brasil_editada-300x194.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/03\/brasil_editada-768x496.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/03\/brasil_editada-418x270.jpg 418w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/03\/brasil_editada.jpg 2000w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No entanto, <strong>vivemos em um pa\u00eds positivista, e em um mundo positivista<\/strong>. E isso nossa bandeira exibe muito bem. O <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Positivismo\">Positivismo<\/a>, conforme\u00a0<a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Ernesto_Sabato\">Sabato<\/a>, foi o \u00e1pice do otimismo ao qual chegou o homem moderno. Em seu s\u00e9culo natal, o XIX, at\u00e9 que fez sentido: Darwin provou a evolu\u00e7\u00e3o, o liberalismo \u201cdescobriu\u201d a solu\u00e7\u00e3o das imperfei\u00e7\u00f5es da economia, a tecnologia prometeu alcan\u00e7ar o c\u00e9u, com as m\u00e1quinas a vapor e a eletricidade.<\/p>\n<p>Logo na sequ\u00eancia, por\u00e9m, o s\u00e9culo XX despertou o homem de seu prazeroso sonho positivo. Nas palavras de Sabato:<\/p>\n<p><strong>\u201cEl siglo XX esperaba agazapado como un asaltante nocturno a una pareja de enamorados un poco cursis. Esperaba con sus carnicer\u00edas mecanizadas, el asesinato en masa de los jud\u00edos, la quiebra del sistema parlamentario, el fin del liberalismo econ\u00f3mico, la desesperanza y el miedo. En cuanto la Ciencia, que iba a dar soluci\u00f3n a todos los problemas del cielo y de la tierra, hab\u00eda servido para facilitar la concentraci\u00f3n estatal y mientras por un lado la crisis epistemol\u00f3gica atenuaba su arrogancia, por el otro se mostraba al servicio de la destruici\u00f3n y de la muerte. Y as\u00ed aprendimos brutalmente una verdad que deb\u00edamos haber previsto, dada la esencia amoral del conocimiento cient\u00edfico: que la ciencia no es por s\u00ed misma garant\u00eda de nada, porque a sus realizaciones les son ajenas las preocupaciones \u00e9ticas\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a>.<\/strong><\/p>\n<p>Sabato afirma que o Esp\u00edrito Moderno nasceu, no Renascimento, com o <em>individualismo<\/em>, o <em>naturalismo<\/em> e o <em>humanismo<\/em>, mas se reverteu, no S\u00e9culo XX, em seus extremos opostos: a <em>massifica\u00e7\u00e3o<\/em>, a \u201c<em>maquiniza\u00e7\u00e3o\u201d <\/em>e a <em>desumaniza\u00e7\u00e3o<\/em>. O argentino est\u00e1 completamente certo de que esse desenvolvimento contradit\u00f3rio foi impulsionado por duas for\u00e7as din\u00e2micas: \u201co capitalismo e a ci\u00eancia positiva\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a>.<\/p>\n<p>Desde uma perspectiva n\u00e3o mais humanista, mas epistemol\u00f3gica, Karl Popper (1902 \u2013 1994) tamb\u00e9m criticou o Positivismo, em <em>A L\u00f3gica da Pesquisa Cient\u00edfica <\/em>(1959). Apresentado o pano de fundo anterior, comentaremos, nesse artigo, a concep\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia que Popper desenvolveu nesse livro, e que o for\u00e7ou a se opor ao prisma da escola comtiana. Mais especificamente, dois conceitos basilares ser\u00e3o analisados aqui: o <strong>dedutivismo<\/strong>, que o autor op\u00f4s ao <strong>indutivismo<\/strong> positivista; e a <strong>falseabilidade<\/strong>, antag\u00f4nica \u00e0 <strong>verificabilidade definitiva<\/strong>. N\u00e3o pensem, por\u00e9m, que ensejo, aqui, qualquer oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 bandeira brasileira, que por sinal, al\u00e9m de ter palavras est\u00e1 entre as poucas do mundo que omitem a cor rubra b\u00e9lica.<\/p>\n<p><strong>O \u201cProblema da Indu\u00e7\u00e3o\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Popper sustenta que muitos autores, e em especial os positivos, acreditam que \u201cas ci\u00eancias emp\u00edricas se caracterizam pelo fato de empregarem os chamados <em>m\u00e9todos indutivos<\/em>\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a>. Segundo essa concep\u00e7\u00e3o, as ci\u00eancias come\u00e7ariam com a observa\u00e7\u00e3o de in\u00fameros fatos.\u00a0Sobre estes fatos observados se anotariam enunciados singulares (ou particulares) e, por meio da<img decoding=\"async\" class=\"wp-image-433 alignright\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/03\/karl-popper-234x300.jpg\" alt=\"\" width=\"220\" height=\"282\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/03\/karl-popper-234x300.jpg 234w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/03\/karl-popper-211x270.jpg 211w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/03\/karl-popper.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 220px) 100vw, 220px\" \/>\u00a0<strong>indu\u00e7\u00e3o<\/strong>, se &#8220;generalizariam&#8221; os enunciados singulares, criando assim <strong>proposi\u00e7\u00f5es universais<\/strong>.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Leis_de_Newton\">Newton,<\/a> por exemplo, teria observado in\u00fameras\u00a0ma\u00e7\u00e3s caindo do p\u00e9 e, dessa observa\u00e7\u00e3o junto com alguns outros experimentos controlados, teria estabelecido as leis da mec\u00e2nica e a\u00a0teoria\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Lei_da_gravita%C3%A7%C3%A3o_universal\">da gravita\u00e7\u00e3o\u00a0universal<\/a>.<\/p>\n<p>Tal procedimento \u00e9 chamado\u00a0\u201cindutivismo\u201d. Contra ela, Popper argumenta que a observa\u00e7\u00e3o de casos singulares, por mais numerosos que sejam, n\u00e3o autoriza, com rigor l\u00f3gico, a infer\u00eancia de conclus\u00f5es universais. O indutivismo n\u00e3o se justifica, portanto, logicamente, como m\u00e9todo cient\u00edfico confi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Por exemplo, que eu tenha observado que <em>muitos<\/em> cisnes sejam brancos, n\u00e3o me legitima a dedu\u00e7\u00e3o\u00a0necess\u00e1ria de que <em>todos<\/em> os cisnes s\u00e3o brancos. A fundamenta\u00e7\u00e3o indutivista \u00e9, portanto, falha, e deve ser descartada pela epistemologia contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>Nesse mesmo problema de falta de valida\u00e7\u00e3o l\u00f3gica do indutivismo incorremos, por exemplo, quando afirmamos que a verdade de enunciados universais cient\u00edficos \u00e9 \u201cconhecida por experi\u00eancia\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[iv]<\/a>. Essa asser\u00e7\u00e3o, muito t\u00edpica do positivismo (e usada frequentemente em sua obstinada cr\u00edtica \u00e0 metaf\u00edsica e ci\u00eancias humanas), se baseia no \u201cindutivismo\u201d, de modo que, ao empreg\u00e1-la, derrapamos no problema da impossibilidade de inferirmos enunciados universais a partir de enunciados singulares. Para Popper, \u201ca descri\u00e7\u00e3o de uma experi\u00eancia (&#8230;) s\u00f3 pode ser um enunciado singular, e n\u00e3o um enunciado universal\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[v]<\/a>, e n\u00e3o h\u00e1 fundamento l\u00f3gico algum que conduza do primeiro ao segundo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-520 size-medium alignleft\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/03\/logica-pesquisa-cient\u00edfica-1-e1491145697412-203x300.jpg\" alt=\"\" width=\"203\" height=\"300\" \/>Para evitarmos o problema do \u201cindutivismo\u201d, Popper entende que as ci\u00eancias emp\u00edricas precisam assumir uma outra l\u00f3gica, a saber, o \u201cm\u00e9todo dedutivo de provas\u201d ou \u201cdedutivismo\u201d.<\/p>\n<p>Conforme essa l\u00f3gica, as ci\u00eancias n\u00e3o se iniciam com a observa\u00e7\u00e3o factual, mas sim com ideias. Essas ideias s\u00e3o formuladas em um sistema preliminar, onde n\u00e3o se encontram ainda \u201cjustificadas de algum modo\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[vi]<\/a>. Nesse est\u00e1gio inicial, apresentam-se, portanto, \u201cantecipa\u00e7\u00f5es, hip\u00f3teses, sistemas te\u00f3ricos ou algo an\u00e1logo\u201d<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[vii]<\/a>, e com base nas regras da l\u00f3gica, se deduzem, agora sim com necessidade, uma s\u00e9rie de proposi\u00e7\u00f5es subsequentes.<\/p>\n<p>O segundo passo para a ci\u00eancia \u00e9 o de submeter \u00e0 prova o sistema te\u00f3rico proposto, o que pode ser realizado de quatro modos diferentes. Nas palavras do autor:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u201cH\u00e1, em primeiro lugar, a compara\u00e7\u00e3o l\u00f3gica das conclus\u00f5es umas \u00e0s outras, com o que se p\u00f5e \u00e0 prova a coer\u00eancia interna do sistema. H\u00e1, em segundo lugar, a investiga\u00e7\u00e3o da forma l\u00f3gica da teoria, com o objetivo de determinar se ela apresenta o car\u00e1ter de uma teoria emp\u00edrica ou cient\u00edfica, ou se \u00e9, por exemplo, tautol\u00f3gica. Em terceiro lugar, vem a compara\u00e7\u00e3o com outras teorias, com o objetivo sobretudo de determinar se a teoria representar\u00e1 um avan\u00e7o de ordem cient\u00edfica, no caso de passar as v\u00e1rias provas. Finalmente, h\u00e1 a comprova\u00e7\u00e3o da teoria por meio de aplica\u00e7\u00f5es emp\u00edricas das conclus\u00f5es que dela se possam deduzir\u201d<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[viii]<\/a>.<\/strong><\/p>\n<p>De acordo com o fil\u00f3sofo, essa \u00faltima etapa \u00e9 de extrema import\u00e2ncia e ocorre da seguinte maneira: \u201cCom o aux\u00edlio de outros enunciados previamente aceitos, certos enunciados singulares\u201d s\u00e3o deduzidos da teoria, e especialmente aqueles \u201csuscet\u00edveis de serem submetidos facilmente \u00e0 prova\u201d<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[ix]<\/a>, isto \u00e9, aplic\u00e1veis \u00e0 pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Somente nessa etapa \u00e9 que entra em cena o famoso \u201cm\u00e9todo emp\u00edrico\u201d: o cientista deve realizar os experimentos mais detalhados e rigorosos, com o fim de <strong>falsificar<\/strong> (contradizer) sua teoria. Apenas nos casos em que a falsifica\u00e7\u00e3o buscada n\u00e3o for bem sucedida, diz-se que a teoria \u00e9 aceit\u00e1vel e foi provisoriamente comprovada: pois \u201cn\u00e3o se descobriu motivo para rejeit\u00e1-la\u201d<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[x]<\/a>.<\/p>\n<p>Se por ventura qualquer um dos enunciados singulares deduzidos da teoria forem contraditos pelos experimentos, conclui-se, ent\u00e3o, que o conjunto te\u00f3rico do qual derivam \u00e9 problem\u00e1tico e deve ser reformulado ou abandonado. \u201cNa medida em que a teoria resista a provas pormenorizadas e severas\u201d, por\u00e9m, e n\u00e3o for \u201csuplantada por outra no curso do progresso cient\u00edfico, poderemos dizer que ela \u2018comprovou sua qualidade\u2019 ou foi \u2018corroborada\u2019 pela experi\u00eancia passada\u201d<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[xi]<\/a>.<\/p>\n<p>Diferentemente dos positivistas, portanto, que colocavam seu acento na observa\u00e7\u00e3o factual primordial, e depois tinham que lan\u00e7ar m\u00e3o de uma l\u00f3gica falha, Popper prefere proteger a rigorosidade l\u00f3gica do sistema cient\u00edfico, mesmo que, com isso, deva renunciar ao orgulho cient\u00edfico-positivista de criticar a metaf\u00edsica e ci\u00eancias humanas como campos que n\u00e3o parte da observa\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia. Conforme Popper, as ci\u00eancias emp\u00edricas tamb\u00e9m n\u00e3o partem da observa\u00e7\u00e3o factual, pois o m\u00e9todo emp\u00edrico serve apenas para testar uma teoria, que, em sua totalidade, jamais pode ser completamente comprovada. Em outras palavras, n\u00e3o existe <strong>verificabilidade conclusiva<\/strong> no caso das ci\u00eancias emp\u00edricas. O que as distingue da metaf\u00edsica, bem como da l\u00f3gica e matem\u00e1tica, \u00e9 apenas sua capacidade de serem <strong>falseadas<\/strong>. Esses conceitos ser\u00e3o esclarecidos na sequ\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>O \u201cProblema da Demarca\u00e7\u00e3o\u201d:<\/strong><\/p>\n<p>Popper denomina de o \u201cproblema da demarca\u00e7\u00e3o\u201d a quest\u00e3o de estabelecer um crit\u00e9rio confi\u00e1vel para se distinguir as ci\u00eancias emp\u00edricas, de uma parte, e a matem\u00e1tica, a l\u00f3gica e a metaf\u00edsica, de outro lado.<\/p>\n<p>Segundo o autor, os \u201cvelhos positivistas\u201d defendiam que s\u00f3 s\u00e3o leg\u00edtimos ou cient\u00edficos os conceitos \u201cderivados da experi\u00eancia\u201d. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, eles entendiam por derivados da experi\u00eancia os conceitos \u201clogicamente reduz\u00edveis a elementos da experi\u00eancia sensorial, tais como sensa\u00e7\u00f5es (ou dados sensoriais), impress\u00f5es, percep\u00e7\u00f5es\u201d<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\">[xii]<\/a> e afins.<\/p>\n<p>Os positivistas modernos, por sua vez \u2013 diferencia o autor \u2013 j\u00e1 postulam como cient\u00edficos ou leg\u00edtimos os \u201cenunciados reduz\u00edveis a enunciados elementares (ou \u2018at\u00f4micos\u2019) da experi\u00eancia \u2013 a \u2018ju\u00edzos de percep\u00e7\u00e3o\u2019, ou proposi\u00e7\u00f5es at\u00f4micas\u2019\u201d<a href=\"#_edn13\" name=\"_ednref13\">[xiii]<\/a> e similares.<\/p>\n<p>Em ambos os casos, por\u00e9m, o fil\u00f3sofo entende que o mesmo crit\u00e9rio de demarca\u00e7\u00e3o \u00e9 assumido, a saber, exatamente o da L\u00f3gica Indutiva, criticada anteriormente. Isto \u00e9, as ci\u00eancias emp\u00edricas partiriam, segundo eles, do particular (seja esse particular entendido como elementos sensoriais ou enunciados elementares), e depois, por meio da indu\u00e7\u00e3o, se chegariam a leis universais emp\u00edricas. Por outro lado, as ci\u00eancias formais e a metaf\u00edsica n\u00e3o partiriam de elementos particulares, mas de universais-formais, incondicionados e etc. \u2013 isto \u00e9, de coisas n\u00e3o encontr\u00e1veis a olho nu na natureza \u2013 de modo que se a matem\u00e1tica e a l\u00f3gica mereceriam &#8211; conforme essa concep\u00e7\u00e3o &#8211; ser consideradas ci\u00eancias por sua utilidade ou por quaisquer outras raz\u00f5es, a metaf\u00edsica poderia ser lan\u00e7ada direto ao fogo.<\/p>\n<p>Em poucas palavras, Popper afirma que o crit\u00e9rio de demarca\u00e7\u00e3o do indutivismo \u00e9 naturalista, isto \u00e9, os positivistas \u201cacreditam estar obrigados a descobrirem uma diferen\u00e7a decorrente da natureza das coisas\u201d<a href=\"#_edn14\" name=\"_ednref14\">[xiv]<\/a>. Essas coisas, se observadas positivamente, ensejariam conceitos e enunciados dignos de incorpora\u00e7\u00e3o cient\u00edfica; e quando isso n\u00e3o acontecesse, produziriam pseudossenten\u00e7as sem sentido.<\/p>\n<p>Popper, por\u00e9m, se op\u00f5e duplamente a essa concep\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia. Em primeiro lugar, porque, como vimos, ela n\u00e3o explica como ju\u00edzos universais podem ser deduzidos de conceitos ou enunciados singulares com rigorosidade. E em segundo lugar, porque certas ideias metaf\u00edsicas s\u00e3o inevit\u00e1veis, e inclusive, favor\u00e1veis ao avan\u00e7o da ci\u00eancia, como por exemplo, o atomismo especulativo.<\/p>\n<p>Conforme seu entendimento, certos positivistas tentaram contornar o problema da indu\u00e7\u00e3o com a defesa (c\u00e9tica) de que a ci\u00eancia n\u00e3o tem por objetivo o conhecimento de leis naturais universais. A ci\u00eancia se limitaria, portanto, a compilar dados particulares, e apenas arriscar algumas previs\u00f5es, no m\u00e1ximo, prov\u00e1veis sobre objetos. Com isso, esses positivistas, segundo o autor, renunciariam ao que, para Einstein, \u201cconstitui o trabalho mais elevado\u201d<a href=\"#_edn15\" name=\"_ednref15\">[xv]<\/a> de um cientista (o conhecimento de leis naturais universais). De modo que se n\u00e3o peca por dogmatismo, como naquele caso (por meio do indutivismo), se peca por ceticismo, como nesse caso. Conforme Popper, o problema do ceticismo repousa em\u00a0sua falta de fertilidade, enquanto dedutivismo\u00a0mostra sua fertilidade\u00a0&#8220;quando se trata de elucidar quest\u00f5es de teoria do conhecimento\u201d<a href=\"#_edn16\" name=\"_ednref16\">[xvi]<\/a>.<\/p>\n<p>Qual \u00e9, portanto, o crit\u00e9rio de demarca\u00e7\u00e3o que, segundo Popper, melhor separa as ci\u00eancias emp\u00edricas da matem\u00e1tica, l\u00f3gica e metaf\u00edsica?<\/p>\n<p>O crit\u00e9rio da L\u00f3gica Indutiva \u2013 concluamos essa quest\u00e3o \u2013 \u00e9 o da <strong>verifica\u00e7\u00e3o conclusiva<\/strong>, isto \u00e9, o que conduz \u00e0 concep\u00e7\u00e3o de que \u201ctodos os enunciados da ci\u00eancia emp\u00edrica\u201d devem ser suscet\u00edveis de serem julgados <em>conclusivamente<\/em> com respeito \u00e0 sua verdade e falsidade.<\/p>\n<p>Como o crit\u00e9rio da verifica\u00e7\u00e3o conclusiva \u00e9 incab\u00edvel no caso de teorias universais \u2013 pois afinal \u2013 como argumenta Popper \u2013 como conseguir\u00edamos verificar que <em>todos <\/em>os corpos se submetem, por exemplo, \u00e0s leis da mec\u00e2nica? \u2013 sua proposta de demarca\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser a da \u201c<em>verificabilidade<\/em>, mas sim a da <em>falseabilidade<\/em> de um sistema\u201d<a href=\"#_edn17\" name=\"_ednref17\">[xvii]<\/a>. Em termos mais claros\u00a0e nas palavras do epistem\u00f3logo contempor\u00e2neo, em rela\u00e7\u00e3o ao crit\u00e9rio de verifica\u00e7\u00e3o a ser adotado:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u201cN\u00e3o exigirei que um sistema cient\u00edfico seja suscet\u00edvel de ser dado como v\u00e1lido, de uma vez por todas, em sentido positivo; exigirei, por\u00e9m, que sua forma l\u00f3gica seja tal que se torne poss\u00edvel valid\u00e1-lo atrav\u00e9s de recurso a provas emp\u00edricas, em sentido negativo: <em>deve ser poss\u00edvel refutar, pela experi\u00eancia, um sistema cient\u00edfico emp\u00edrico\u201d<a href=\"#_edn18\" name=\"_ednref18\">[xviii]<\/a><\/em>.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com base no crit\u00e9rio de demarca\u00e7\u00e3o da <strong>falseabilidade<\/strong>, Popper afirma que uma tautologia (por exemplo, \u201c\u2018chover\u00e1 ou n\u00e3o chover\u00e1 amanh\u00e3\u201d), n\u00e3o pode ser considerada emp\u00edrica e cient\u00edfica, \u201cporque n\u00e3o admite refuta\u00e7\u00e3o. Da mesma maneira, teses como \u201c2+3=5\u201d (da matem\u00e1tica), \u201ca = &#8211; a = 0\u201d (da l\u00f3gica) e \u201ca alma \u00e9 imortal\u201d (da metaf\u00edsica) tamb\u00e9m n\u00e3o incorporam o conte\u00fado de uma ci\u00eancia emp\u00edrica, pois n\u00e3o admitem falsifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por outro lado, as teorias capazes de falsifica\u00e7\u00e3o, e que n\u00e3o forem contraditas pelos experimentos mais severos e detalhados, poder\u00e3o representar um avan\u00e7o na ci\u00eancia, caso al\u00e9m de n\u00e3o\u00a0serem falsificados, n\u00e3o apresentem contradi\u00e7\u00f5es internas e n\u00e3o sejam englobadas por sistemas mais amplos\u00a0e pormenorizados.<\/p>\n<p>Se todos esses crit\u00e9rios s\u00e3o atendidos, teremos produ\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, cria\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, pois essa comprovou, <em>provisoriamente <\/em>(nunca definitivamente), seu valor, ou em termos mais precisos: \u201cn\u00e3o se descobriu [ainda] motivo para rejeit\u00e1-la\u201d<a href=\"#_edn19\" name=\"_ednref19\">[xix]<\/a>.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m ainda n\u00e3o descobrimos\u00a0motivo para substituir\u00a0nossa bandeira, de resto t\u00e3o tropical e atrativa. Mas assim como o positivismo, todo nacionalismo, no sentido de maior \u00e9tica com os patriotas do que com os n\u00e3o patriotas,\u00a0deve ficar no passado.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>BIBLIOGRAFIA <\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>SABATO, Ernesto. <strong>Hombres y Engranajes. <\/strong>Buenos Aires: Seix Barral, edici\u00f3n especial para La Naci\u00f3n, 2006.<\/p>\n<p>POPPER, K.. <em>A L\u00f3gica da Pesquisa Cient\u00edfica. <\/em>Trad.: L. Hegenberg e O. Silveira da Mota. S\u00e3o Paulo: Editora Cultrix. 2016.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> SABATO, E.. <em>Hombres y Engranajes.<\/em> Buenos Aires: Seix Barral, edici\u00f3n especial para La Naci\u00f3n, 2006. P. 17.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> SABATO, E.. Idem. P. 18.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a> POPPER, K.. <em>A L\u00f3gica da Pesquisa Cient\u00edfica. <\/em>Trad.: L. Hegenberg e O. Silveira da Mota. S\u00e3o Paulo: Editora Cultrix. 2016. P. 27.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a> POPPER, K.. Idem. P. 28.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[v]<\/a> POPPER, K.. Idem. P. 28.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[vi]<\/a> POPPER, K.. Idem. P. 31.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[vii]<\/a> POPPER, K.. Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[viii]<\/a> POPPER, K.. Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[ix]<\/a> POPPER, K.. Idem. P. 32.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[x]<\/a> POPPER, K.. Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[xi]<\/a> POPPER, K.. Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\">[xii]<\/a> POPPER, K.. Idem. P. 33.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref13\" name=\"_edn13\">[xiii]<\/a> POPPER, K.. Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref14\" name=\"_edn14\">[xiv]<\/a> POPPER, K.. Ibidem<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref15\" name=\"_edn15\">[xv]<\/a> POPPER, K.. Idem. P. 35.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref16\" name=\"_edn16\">[xvi]<\/a> POPPER, K.. Idem. P. 36.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref17\" name=\"_edn17\">[xvii]<\/a> POPPER, K.. Idem. P. 38.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref18\" name=\"_edn18\">[xviii]<\/a> POPPER, K.. Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref19\" name=\"_edn19\">[xix]<\/a> POPPER, K.. Idem. P. 32.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na bandeira do Brasil, lemos: \u201cOrdem e Progresso\u201d. Trata-se de uma abrevia\u00e7\u00e3o do lema Positivista de Comte: &#8220;o Amor por princ\u00edpio,\u00a0a Ordem por base e o Progresso por fim&#8220;.\u00a0N\u00e3o \u00e9 muito comum que bandeiras estampem palavras, talvez porque mesmo os voc\u00e1bulos mais interessantes, como \u201cSabedoria\u201d, \u201cBeleza\u201d, e \u201cLiberdade\u201d, podem facilmente se desgastar sobre o pano nacionalista. &nbsp; No entanto, vivemos em um pa\u00eds positivista, e em um mundo positivista. E isso nossa bandeira exibe muito bem. O Positivismo, conforme\u00a0Sabato, foi&#8230;<\/p>\n<p class=\"read-more\"><a class=\"btn btn-default\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2018\/03\/29\/dois-conceitos-fundamentais-da-pesquisa-cientifica\/\"> Read More<span class=\"screen-reader-text\">  Read More<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":245,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[57],"tags":[61,60,58,62,59,26,33,36],"class_list":["post-426","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-filosofia-da-ciencia","tag-ciencia","tag-metodo","tag-ordem","tag-pessimismo","tag-positivismo","tag-progresso","tag-tecnoprogressivismo","tag-utopia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/426","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/users\/245"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=426"}],"version-history":[{"count":18,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/426\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":566,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/426\/revisions\/566"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=426"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=426"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=426"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}