{"id":443,"date":"2017-03-31T10:14:34","date_gmt":"2017-03-31T13:14:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/?p=443"},"modified":"2018-02-08T08:39:58","modified_gmt":"2018-02-08T10:39:58","slug":"443","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2017\/03\/31\/443\/","title":{"rendered":"O QUE DESCARTES DIRIA A TRUMP"},"content":{"rendered":"<p>Nem bem assumiu a presid\u00eancia, Donald Trump bateu um recorde hist\u00f3rico de impopularidade. Segundo a ag\u00eancia de pesquisa Galoup US Daily, o potentado registrou, em 11\/3\/2017 e ap\u00f3s um m\u00eas e meio de assun\u00e7\u00e3o do cargo, a marca hist\u00f3rica de 49% de reprova\u00e7\u00e3o e 45% de aprova\u00e7\u00e3o. O dado positivo \u00e9 aproximadamente 20% inferior ao da maioria dos presidentes anteriores, no in\u00edcio do mandato.\u00a0Pergunta-se agora o porqu\u00ea da rejei\u00e7\u00e3o t\u00e3o alta e precoce.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-500 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/04\/trump-disaproval-ratings-300x241.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"241\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/04\/trump-disaproval-ratings-300x241.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/04\/trump-disaproval-ratings-768x617.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/04\/trump-disaproval-ratings-336x270.png 336w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/04\/trump-disaproval-ratings.png 996w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Trata-se de um fen\u00f4meno curioso pois, em geral, passado o per\u00edodo das elei\u00e7\u00f5es e vencida a disputa, o rec\u00e9m-empossado costuma ter uma aprova\u00e7\u00e3o m\u00ednima de 51%, oriunda de seus votantes, acrescidos de uma parcela dos eleitores \u201cvencidos\u201d e otimistas, que querem dar chances ao governo de fazer um bom trabalho. Disso resulta a taxa m\u00e9dia normal de 60 e pouco por cento de aprova\u00e7\u00e3o do presidente, no in\u00edcio do mandato.<\/p>\n<p>Com Trump, por\u00e9m, isso n\u00e3o ocorreu. Provavelmente porque ningu\u00e9m da oposi\u00e7\u00e3o se dignou a dar-lhe cr\u00e9dito, e porque parte de seus eleitores j\u00e1 se arrependeram do voto. Por qu\u00ea? A causa n\u00e3o tem muito a ver com a economia e a sociedade norte-americana, que n\u00e3o v\u00e3o mal a esse ponto. Dinheiro, emprego e qualidade de vida n\u00e3o faltam na terra do Tio Sam.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos imaginar que a xenofobia, o machismo e as excentricidades do novo presidente explicariam a rejei\u00e7\u00e3o. Contudo, essa elucida\u00e7\u00e3o \u00e9 incompleta; pois as caracter\u00edsticas mencionadas n\u00e3o s\u00e3o in\u00e9ditas entre os presidentes dos EUA, diferentemente da reprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O caso Trump intriga porque ele vem sendo desaprovado at\u00e9 mesmo pelos conservadores norte-americanos, com os quais partilha uma s\u00e9rie de valores pol\u00edticos e sociais. Isso sugere que seu fracasso se deva talvez n\u00e3o apenas a quest\u00f5es de valora\u00e7\u00e3o subjetiva \u2013 por exemplo, \u201cele n\u00e3o gosta de estrangeiros\u201d, de \u201cmulheres\u201d, etc.. \u2013 mas a quest\u00f5es estruturais e objetivas, como sua pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com as opera\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas do pensamento.<\/p>\n<p>Nesse \u00faltimo aspecto, a epistemologia teria muito o que ensinar-lhe. Imaginemos uma inusitada situa\u00e7\u00e3o, portanto, em que S\u00f3crates, Arist\u00f3teles, ou melhor, Ren\u00e9 Descartes (1596 \u2013 1650), se dispusesse a ajudar o atingido presidente, o que ele lhe diria? Provavelmente, Descartes come\u00e7aria pelo in\u00edcio: qual \u00e9 o princ\u00edpio da pol\u00edtica? A a\u00e7\u00e3o? E o princ\u00edpio da a\u00e7\u00e3o? O pensamento.<\/p>\n<p>Para Descartes, o pensamento \u2013 o \u201ccogito, ergo sum (Penso, logo existo)\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a> \u2013 \u00e9 o princ\u00edpio de absolutamente tudo, desde o comportamento at\u00e9 o conhecimento. Seu fim \u00e9 o conhecimento. E como construir um\u00a0m\u00e9todo para um conhecimento certo e seguro foi o que Descartes se prop\u00f4s a realizar em <em>Discurso do M\u00e9todo <\/em>(1637). Esse texto e <em>Medita\u00e7\u00f5es Metaf\u00edsicas <\/em>(1641) seriam de enorme ajuda para D. Trump, por incr\u00edvel que pare\u00e7a.<\/p>\n<p>Em <em>Medita\u00e7\u00f5es, <\/em>Descartes colocou em d\u00favida a realidade de absolutamente tudo o que seus sentidos corporais lhe ensinara, com o argumento de que, se os sentidos nos enganam algumas vezes \u2013 o que sabemos que acontece (nas ilus\u00f5es de \u00f3ptica e etc.) \u2013 ent\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o uma fonte segura de conhecimento e devem ser descartados, na procura de um saber indubit\u00e1vel. No entanto, se \u00e9 verdade que os sentidos nos enganam em algumas situa\u00e7\u00f5es complexas, com as coisas mais elementares, \u00e9 dif\u00edcil que nos trapaceiem sempre, podendo, portanto, ser de confian\u00e7a em contextos simples. Contudo, mesmo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas mais \u00f3bvias, Descartes afirma que os sentidos nos enganam. Afinal, acreditamos, por exemplo, nos sonhos, escutar sons, ver e tocar objetos, muito embora estamos sempre deitados em uma cama, sem nada do que nos representamos ao redor. Se a verdade se nos vai assim t\u00e3o facilmente , talvez seja imposs\u00edvel alcan\u00e7ar um conhecimento incontest\u00e1vel da realidade?<\/p>\n<p>Novamente, por\u00e9m, Descartes supera a \u201cd\u00favida do sonho\u201d com o pensamento de que, se os sonhos nos enganam com mil ilus\u00f5es, com outras, pouco poder possuem. Afinal, dormindo ou acordado, 2 + 3 \u00e9 sempre 5, a menor dist\u00e2ncia entre dois pontos \u00e9 uma reta, etc.. Contudo, a d\u00favida cartesiana culmina com a seguinte hip\u00f3tese: \u00e9 <strong>poss\u00edvel<\/strong> que exista um Deus n\u00e3o bondoso, mas maligno, que emprega toda sua for\u00e7a para nos enganar at\u00e9 mesmo em nossas cren\u00e7as mais b\u00e1sicas, como por exemplo, que 2 + 3 = 5 e afins. Dado sua onipot\u00eancia, esse Deus \u00e9 bem sucedido na artimanha, de modo que a mera possibilidade dessa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 suficiente para afastar-nos da pretens\u00e3o de qualquer certeza absoluta da realidade.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s esse pensamento, Descartes mergulhou em desespero, e por fim, encontrou sua \u201ceureca\u201d na seguinte concep\u00e7\u00e3o: pode ser que tudo, absolutamente tudo que eu me represento seja ilus\u00f3rio; contudo, que eu sou, eu existo \u2013 disso posso estar certo. E sou algu\u00e9m que se representa coisas. Isto \u00e9, sou um ser pensante. \u201cCogito ergo sum\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>O pensamento, a raz\u00e3o e o bom senso s\u00e3o, para o autor, as duas coisas melhor partilhadas do mundo. Afinal, todos parecem muito satisfeitos com a medida de pensamento que lhes tocou, e at\u00e9 mesmo os excessivos, no fundo, acreditam que seu excesso \u00e9 a justa medida. A diversidade de opini\u00f5es, v\u00edcios e virtudes entre os homens n\u00e3o se deve a uma diferen\u00e7a de graus de pensamento, mas aos caminhos, m\u00e9todos e meios pelos quais conduzem o\u00a0bom-senso.<\/p>\n<p>Diante disso, Descartes prop\u00f4s descobrir o <strong>m\u00e9todo<\/strong> ideal \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o do pensamento em sua tarefa de conhecimento da realidade. Esse m\u00e9todo seria de enorme aux\u00edlio a Trump, que parece repelir\u00a0at\u00e9 mesmo seus aliados pol\u00edticos, por empregar t\u00e3o mal o pensamento, na dire\u00e7\u00e3o de uma das sociedades melhor desenvolvidas epistemologicamente.<\/p>\n<p>Em <em>Discurso do M\u00e9todo<\/em>, Descartes revelou que a maior descoberta extra\u00edda de sua forma\u00e7\u00e3o escolar foi sua completa ignor\u00e2ncia. Assumido isso, o autor agregou que muito aprendeu da literatura, matem\u00e1tica, teologia, filosofia e demais ci\u00eancias. A literatura \u00e9 como \u201cuma conversa\u00e7\u00e3o com as pessoas mais qualificadas dos s\u00e9culos passados (&#8230;), na qual nos revelam t\u00e3o-somente o melhor de seus pensamentos\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[v]<\/a>. A matem\u00e1tica fundamenta todas as demais artes, e muito satisfaz a curiosidade, pela <strong>certeza<\/strong> e <strong>evid\u00eancia<\/strong> de suas raz\u00f5es. A teologia nos \u201censina a ganhar o c\u00e9u\u201d e a filosofia \u201cd\u00e1 meio de falar com verossimilhan\u00e7a de todas as coisas e de se fazer admirar pelos menos eruditos\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[vi]<\/a>.<\/p>\n<p>Entre o conhecimento colhido pelo pensador, tamb\u00e9m se encontrava o do limite das ci\u00eancias. A literatura n\u00e3o representa a verdade, mas apenas fic\u00e7\u00f5es, que caso cultuadas sem esp\u00edrito cr\u00edtico, podem facilmente levar as pessoas a repetirem em suas vidas as \u201cextravag\u00e2ncias dos paladinos de nossos romances\u201d<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[vii]<\/a>. A l\u00f3gica ensina, no fim da conta, o que todo mundo j\u00e1 sabe, e a geometria e a \u00e1lgebra, apenas conceitos abstratos, de modo cansativo e distante das grandes quest\u00f5es da vida. A pr\u00f3pria teologia, por sua vez, se suprime a si pr\u00f3pria, quando afirma que o c\u00e9u n\u00e3o se ganha com conhecimento, mas com a gra\u00e7a divina. E na filosofia \u201cn\u00e3o se encontra uma s\u00f3 coisa sobre a qual n\u00e3o se dispute, e por conseguinte que n\u00e3o seja muito duvidosa\u201d<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[viii]<\/a>.<\/p>\n<p>Como todas as ci\u00eancias \u201ctomam seus princ\u00edpios da Filosofia\u201d<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[ix]<\/a>, o autor concluiu que todas elas s\u00e3o t\u00e3o duvidosas como a sua m\u00e3e. De modo, que findado seus estudos te\u00f3ricos, Descartes decidiu consultar o \u201cgrande livro do mundo\u201d<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[x]<\/a>.<\/p>\n<p>Nessa nova fase de sua vida, o fil\u00f3sofo viajou todos os cantos do planeta, e colheu das mais diversas e variedades experi\u00eancias. Ap\u00f3s muitas aventuras, constatou que o grande \u201clivro do Mundo\u201d tamb\u00e9m estava repleto de contradi\u00e7\u00f5es, e o que era aprovado e at\u00e9 venerado por certos povos, era justamente repudiado por outros, que por sua vez, valorizavam o que era rejeitado pelos primeiros. Diante desse caos de medidas, o observador decidiu impedir-se de \u201ccrer demasiado firmemente em nada do que lhe fora inculcado s\u00f3 pelo exemplo e pelo costume\u201d<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[xi]<\/a>. E passou a procurar o conhecimento no que denominou como a \u201cci\u00eancia de si pr\u00f3prio\u201d. Foi nessa \u00faltima ci\u00eancia que o autor afirmou ter obtido \u201cmuito mais resultado (&#8230;) do que se jamais tivesse se afastado de seu pa\u00eds e de seus livros\u201d<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\">[xii]<\/a>.<\/p>\n<p>Em seu autoconhecimento, Descartes perseguiu o \u201cverdadeiro <strong>m\u00e9todo<\/strong> para chegar ao <strong>conhecimento<\/strong> de todas as coisas de que seu esp\u00edrito fosse capaz\u201d<a href=\"#_edn13\" name=\"_ednref13\">[xiii]<\/a>. Para tanto, considerou os benef\u00edcios da matem\u00e1tica \u2013 vale repetir \u2013 clareza e distin\u00e7\u00e3o \u2013 e despiu-os de suas desvantagens \u2013 como a abstrusidade e o apartamento dos principais problemas da vida. No avesso da in\u00famera quantidade de regras da l\u00f3gica, \u00e1lgebra e geometria, o autor isolou quatro preceitos, que delimitaram seu m\u00e9todo para o saber. Ei-los:<\/p>\n<ul>\n<li>\u201cJamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu n\u00e3o conhecesse evidentemente como tal; isto \u00e9, (&#8230;) evitar cuidadosamente a precipita\u00e7\u00e3o e a preven\u00e7\u00e3o, e (&#8230;) nada incluir em meus ju\u00edzos que n\u00e3o se apresentasse t\u00e3o clara e t\u00e3o distintamente a meu esp\u00edrito, que eu n\u00e3o tivesse nenhuma ocasi\u00e3o de p\u00f4-lo em d\u00favida (&#8230;)<\/li>\n<li>Dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quantas poss\u00edveis e quantas necess\u00e1rias fossem para melhor resolv\u00ea-las (&#8230;)<\/li>\n<li>Conduzir por ordem meus pensamentos, come\u00e7ando pelos objetos mais simples e mais f\u00e1ceis de conhecer, para subir, pouco a pouco, como por degraus, at\u00e9 o conhecimento dos mais compostos, e supondo mesmo uma ordem entre os que n\u00e3o se precedem naturalmente uns aos outros (&#8230;)<\/li>\n<li>Fazer em toda parte enumera\u00e7\u00f5es t\u00e3o completas e revis\u00f5es t\u00e3o gerais, que eu tivesse a certeza de nada omitir\u201d<a href=\"#_edn14\" name=\"_ednref14\">[xiv]<\/a>.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Podemos sintetizar as quatro normas anteriores com as seguintes express\u00f5es: 1 &#8211; discernimento cr\u00edtico, pautado na evid\u00eancia; 2 &#8211; an\u00e1lise dos problemas; 3 &#8211; ordena\u00e7\u00e3o sint\u00e9tica e progressiva do exposto; e 4 &#8211; enumera\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o geral do pensamento.<\/p>\n<p>Esse m\u00e9todo \u00e9 aplicado at\u00e9 os dias de hoje pelas ci\u00eancias e filosofia; no entanto, muitas pessoas ainda derrapam em seu uso habitual da linguagem nas falhas que resultam do desrespeito de seu conte\u00fado. Podemos arriscar que a maioria da humanidade desonra, sequer, o primeiro preceito, a saber, o de evitar a precipita\u00e7\u00e3o e a preven\u00e7\u00e3o. Segundo G. Lebrun, a precipita\u00e7\u00e3o consiste em \u201cjulgar antes de ter chegado \u00e0 evid\u00eancia\u201d, e a preven\u00e7\u00e3o se constitui da persist\u00eancia dos \u201cpreju\u00edzos de inf\u00e2ncia\u201d<a href=\"#_edn15\" name=\"_ednref15\">[xv]<\/a>.<\/p>\n<p>O que Donald Trump tem a aprender disso? Absolutamente tudo.<\/p>\n<p>O atual presidente dos EUA vem sendo considerado pela opini\u00e3o p\u00fablica o \u201crei da precipita\u00e7\u00e3o\u201d, pelas recorrentes inverdades e imprecis\u00f5es de suas declara\u00e7\u00f5es. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que o div\u00f3rcio de seu discurso com a<strong> certeza<em>,<\/em> <\/strong>a<strong> evid\u00eancia e a luz natural da raz\u00e3o<\/strong> \u00e9 uma das causas principais de seu <strong>recorde de reprova\u00e7\u00e3o <\/strong>entre os cidad\u00e3os dos EUA, ap\u00f3s poucos meses de tomada da presid\u00eancia.<\/p>\n<p>Quem o diz \u00e9, entre outras organiza\u00e7\u00f5es apartid\u00e1rias, a Polifact, que j\u00e1 foi premiada com o pr\u00eamio Pulitzer, e em outras ocasi\u00f5es, condenou pol\u00edticos democratas. A Polifact deu a Trump o indesejado Pr\u00eamio Mentira do Ano 2015, e declarou, em seu site, que \u201cnenhum outro pol\u00edtico tem tantas declara\u00e7\u00f5es com uma pontua\u00e7\u00e3o t\u00e3o negativa\u201d.<\/p>\n<p>Conforme a entidade, apenas 16% das afirma\u00e7\u00f5es de Trump sobre assuntos complexos podem ser consideradas verdadeiras ou praticamente verdadeiras. Em 14% das vezes, Trump diz \u201cmeia-verdades\u201d (<em>Half-true<\/em>), e em 70% dos casos, oscila entre o praticamente falso, o falso e o lun\u00e1tico.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-518 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/04\/TrumpPolitifact-300x164.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"164\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/04\/TrumpPolitifact-300x164.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/04\/TrumpPolitifact-768x421.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/04\/TrumpPolitifact-493x270.jpg 493w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/04\/TrumpPolitifact.jpg 871w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por que Trump n\u00e3o l\u00ea <em>O Discurso do M\u00e9todo<\/em>, de Descartes, e corrige sua rela\u00e7\u00e3o com a linguagem e o pensamento? Ao inv\u00e9s disso, por\u00e9m, ele prefere o ataque: culpa a m\u00eddia, que o persegue. Nesse ataque, Trump acerta alguns tiros. Afinal, n\u00e3o apenas o presidente, mas tamb\u00e9m os canais de comunica\u00e7\u00e3o de massa t\u00eam muito o que aprender de Descartes.<\/p>\n<p>Eis uma boa pergunta a se fazer ao presidente: \u201cEm sua recorrente cr\u00edtica \u00e0 m\u00eddia encontramos uma semelhan\u00e7a com o que a esquerda filos\u00f3fica escreve sobre o tema, desde o s\u00e9culo XIX. Conforme a \u2018escola de Frankfurt\u2019, por exemplo, a televis\u00e3o est\u00e1 longe de ser um ve\u00edculo de forma\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o (<em>Bildung<\/em>), pois na maioria das vezes, mal consegue assumir o t\u00edtulo de informa\u00e7\u00e3o, trabalhando mais no sentido da aliena\u00e7\u00e3o social. O senhor concorda, portanto, com T. Adorno, em suas declara\u00e7\u00f5es antimidi\u00e1ticas? Aceitaria que a m\u00eddia incute \u2018nas pessoas uma falsa consci\u00eancia e um ocultamento da realidade\u2019, impondo-lhes \u2018um conjunto de valores como se fossem dogmaticamente positivos\u2019?\u201d<a href=\"#_edn16\" name=\"_ednref16\">[xvi]<\/a>.<\/p>\n<p>Talvez Trump responderia apenas que a filosofia tamb\u00e9m o persegue. De uma coisa, por\u00e9m, Trump n\u00e3o pode escapar: ele n\u00e3o \u00e9 a apenas v\u00edtima da distor\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica.<\/p>\n<p>Citemos um exemplo de raro jornalismo informativo, que se por um lado honra o conte\u00fado do m\u00e9todo cartesiano, por outro, prova que Trump \u00e9 precipitado e preconceituoso. Vale a pena ler esse texto na \u00edntegra: <a href=\"http:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-36859491\"><em>Seis Inverdades Ditas Por Trump E O Que Acham Seus Eleitores<\/em><\/a>, da British Broadcasting Corporation. Nele texto, a BBC documenta, no bom esp\u00edrito \u201ccartesiano\u201d que os ingleses sempre souberam incorporar a seus h\u00e1bitos, a data, o local e as palavras exatas de Trump, sobre seis temas de complexidade pol\u00edtica, em que o avesso do que queria o pai da filosofia moderna foi praticado.<\/p>\n<p>1- Trump afirmou que, quando estava em Jersey City, em New Jersey, viu \u201cmilhares\u201d de \u00e1rabes comemorando a queda das Torres G\u00eameas. E 2 \u2013 declarou que o M\u00e9xico manda o \u201cpior\u201d de seu povo aos EUA, entre os quais, \u201cdrogados, criminosos e estupradores\u201d, e apenas \u201calguns presumivelmente bons\u201d.<\/p>\n<p>O que diria Descartes sobre isso? Certamente, que para realizar afirma\u00e7\u00f5es t\u00e3o bomb\u00e1sticas assim, baseadas em n\u00fameros e propor\u00e7\u00f5es duvidosas, s\u00e3o necess\u00e1rias minuciosas evid\u00eancias. Elas n\u00e3o foram apresentadas, e de fato, os dados de pesquisa social as contestam frontalmente.<\/p>\n<p>3- Trump ofendeu uma s\u00e9rie de mulheres com palavr\u00f5es desnecess\u00e1rios de serem repetidos; e 4- em 9\/2015, afirmou que o desemprego nos EUA estava em 42%. Esse \u00faltimo dado foi desmentido pelo Escrit\u00f3rio Nacional de Estat\u00edsticas, que anotou, naquela data, 5,1% de desemprego. E o que dizer da \u201cfundamenta\u00e7\u00e3o\u201d de insultos machistas?<\/p>\n<p>5- Em 9\/2015, Trump afirmou que 200 mil refugiados s\u00edrios chegaram aos EUA, quando, na ocasi\u00e3o, os dados oficiais somavam 10 mil. E 6 \u2013 Trump insistiu que Obama nasceu em Qu\u00eania, e por isso, n\u00e3o poderia ser presidente dos EUA. Al\u00e9m de possivelmente racista (pois o conte\u00fado latente dessa \u00faltima acusa\u00e7\u00e3o pode ter sido o preconceito de que Obama n\u00e3o merecia ser presidente, por sua afrodescend\u00eancia), essa declara\u00e7\u00e3o foi refutada por documentos oficiais da Casa Branca, da qual Trump agora \u00e9 diregente.<\/p>\n<p>Infelizmente, A BBC n\u00e3o incluiu na lista uma das afrontas mais graves de Trump contra o rigor cartesiano pela verdade. Analisemos, portanto, esse s\u00e9timo pecado capital do presidente:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-449 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/03\/TRUMP-WARMING-CHINA-300x156.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"156\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/03\/TRUMP-WARMING-CHINA-300x156.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/03\/TRUMP-WARMING-CHINA-519x270.png 519w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/03\/TRUMP-WARMING-CHINA.png 617w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/(https:\/\/www.nytimes.com\/2016\/11\/19\/world\/asia\/china-trump-climate-change.html?_r=0)\">\u201cO conceito de aquecimento global foi criado pelos chineses para tornarem as f\u00e1bricas norte-americanas n\u00e3o competitivas\u201d <\/a>\u2013 emborcou Trump, em seu Twitter, e ainda conpletou: \u201cEst\u00e1 realmente frio l\u00e1 fora (&#8230;) N\u00f3s podemos tirar uma grande vantagem\u00a0do aquecimento global!<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-450 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/03\/trump-major-freeze-300x186.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"186\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/03\/trump-major-freeze-300x186.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/03\/trump-major-freeze-768x477.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/03\/trump-major-freeze-435x270.png 435w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/03\/trump-major-freeze.png 945w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>J\u00e1 de princ\u00edpio, ambas as anota\u00e7\u00f5es s\u00e3o contradit\u00f3rias, pois se em uma delas o aquecimento global \u00e9 negado, na outra, \u00e9 admitido e comemorado.<\/p>\n<p>No entanto, ambas se filiam \u00e0 hip\u00f3tese de que o aquecimento global n\u00e3o \u00e9 um problema a ser enfrentado por uma pol\u00edtica humanit\u00e1ria conjunta, na qual os EUA deveriam ocupar um papel de lideran\u00e7a (pois com a China\u00a0emitem 40% dos gases poluentes).<\/p>\n<p>O que Descartes diria sobre o problema do aquecimento global? Em primeiro lugar, que devemos <strong>evitar <\/strong>a<strong> precipita\u00e7\u00e3o <\/strong>e a<strong> preven\u00e7\u00e3o<\/strong> de afirmarmos o que desconhecemos, mesmo que, com isso, tenhamos que renunciar \u00e0s hip\u00f3teses mais agrad\u00e1veis e populistas sobre o assunto.<\/p>\n<p>Em segundo lugar: que tal <strong>examinarmos<\/strong>\u00a0a s\u00e9rio o assunto, come\u00e7ando pela <strong>an\u00e1lise <\/strong>da situa\u00e7\u00e3o<strong>, <\/strong>seguida de um<strong> ordenamento sint\u00e9tico <\/strong>e <strong>l\u00f3gico-progressivo<\/strong> das raz\u00f5es, que a partir de premissas elementares, avan\u00e7asse em dire\u00e7\u00e3o a conclus\u00f5es complexas e aprov\u00e1veis pela <strong>luz natural da raz\u00e3o? <\/strong>Ap\u00f3s a <strong>enumera\u00e7\u00e3o<\/strong> e <strong>revis\u00e3o geral<\/strong> da abordagem desenvolvida, ter\u00edamos o seguinte diagn\u00f3stico que mereceria ser chamado de cient\u00edfico:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-497 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/04\/dirk-meister-airal-view-german-industrial-area-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/04\/dirk-meister-airal-view-german-industrial-area-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/04\/dirk-meister-airal-view-german-industrial-area-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/04\/dirk-meister-airal-view-german-industrial-area-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/04\/dirk-meister-airal-view-german-industrial-area-405x270.jpg 405w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/04\/dirk-meister-airal-view-german-industrial-area.jpg 1100w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Fruto de cinco anos de trabalhos intensos, dirigidos por 122 orientadores, empreendidos por 515 colaboradores, e aprovado por 337 especialistas das mais diversas na\u00e7\u00f5es, a Comiss\u00e3o Intergovernamental para Altera\u00e7\u00e3o Clim\u00e1tica (<a href=\"http:\/\/www.ipcc.ch\/\">CIAC<\/a>), das Na\u00e7\u00f5es Unidas publicou, em 2001, o <em>Terceiro Relat\u00f3rio de Avalia\u00e7\u00e3o<\/em> <em>de Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas<\/em>, e imediatamente recebeu o apoio e a divulga\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo australiano Peter Singer, em <em>Um s\u00f3 mundo \u2013 A \u00c9tica da Globaliza\u00e7\u00e3o <\/em>(2002)<em>.<\/em><\/p>\n<p>Para citarmos apenas algumas das conclus\u00f5es mais importantes do <em>Relat\u00f3rio<\/em> sublinhadas por Singer: h\u00e1 fortes <strong>evid\u00eancias <\/strong>de que nosso planeta sofreu um significativo aumento de temperatura entre os s\u00e9culos XIX e XXI, em virtude da concentra\u00e7\u00e3o na atmosfera de gases emitidos pela atividade humana industrial.<\/p>\n<p>Nove dos dez anos mais quentes desde 1860 ocorreram na d\u00e9cada de 1990; a temperatura tem subido em uma velocidade tr\u00eas vezes maior do que no in\u00edcio do s\u00e9culo XX; o n\u00edvel do mar se elevou entre 10 e 20 cm; os glaciares n\u00e3o-polares diminu\u00edram em 10%; os desastres naturais e\u00f3licos, como El Ni\u00f1o, se intensificaram; as doen\u00e7as tropicais, ligadas a seres vivos que se proliferam no calor, tamb\u00e9m aumentaram; e a concentra\u00e7\u00e3o de CO2, CH4 e N20, que provocam o efeito estufa, cresceu assustadoramente.<\/p>\n<p>A previs\u00e3o do <em>Terceiro Relat\u00f3rio <\/em>para 2100 \u00e9 que a temperatura mundial se elevar\u00e1 entre 1,4 e 5,8<sup>o<\/sup>C; a precipita\u00e7\u00e3o, as varia\u00e7\u00f5es pluviom\u00e9tricas ao longo do ano e o contraste t\u00e9rmico entre as regi\u00f5es tamb\u00e9m se incrementar\u00e3o; consequentemente, teremos mais altern\u00e2ncia entre per\u00edodos de seca e de inunda\u00e7\u00f5es, bem como entre calor e frio. Se intensificar\u00e3o os desastres e\u00f3licos e as doen\u00e7as tropicais; a produ\u00e7\u00e3o alimentar e o acesso \u00e0 \u00e1gua ser\u00e3o afetados; e o n\u00edvel do mar subir\u00e1 entre 9 e 88 cm.<\/p>\n<p>Naturalmente, in\u00fameros problemas pol\u00edticos, econ\u00f4micos e sociais decorrer\u00e3o disso. Entre eles, a mortalidade direta de seres humanos, em decorr\u00eancia de desastres, doen\u00e7as, frio, calor, fome e etc.. Alguns animais provavelmente ser\u00e3o extintos, outros se proliferar\u00e3o de modo preocupante. O ecossistema do planeta ser\u00e1 desequilibrado, e sobretudo, nas regi\u00f5es equatorianas, costeiras e glaciares. E para completar, nas palavras de Singer:<\/p>\n<p>\u201cEstas previs\u00f5es s\u00f3 v\u00e3o at\u00e9 2100, mas, mesmo que as emiss\u00f5es dos gases respons\u00e1veis pelo efeito estufa estivessem estabilizadas nessa altura, as altera\u00e7\u00f5es do clima persistiriam durante centenas ou talvez milhares de anos. Uma altera\u00e7\u00e3o \u00ednfima das temperaturas mundiais m\u00e9dias poderia, no pr\u00f3ximo mil\u00eanio, levar ao degelo da calota de gelo da Groenl\u00e2ndia, que, aliado ao degelo da banquisa do Ant\u00e1rtico Ocidental, provocaria um aumento de 6 metros das \u00e1guas do mar (Cf. HOUGHTON. <em>Climate Change 2001: The Scientific Basis<\/em>)\u201d<a href=\"#_edn17\" name=\"_ednref17\">[xvii]<\/a>.<\/p>\n<p>Semelhante aumento no n\u00edvel do mar alagaria cidades, regi\u00f5es e pa\u00edses inteiros. Por isso, as Na\u00e7\u00f5es Unidas promoveram, em 1992 e no Rio de Janeiro, uma Confer\u00eancia para o Ambiente e Desenvolvimento, em que 181 governos assinaram um compromisso de diminu\u00edrem a emiss\u00e3o dos gases provocadores do efeito estufa. Na pr\u00e1tica, muito pouco se realizou posteriormente: os EUA n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o diminu\u00edram, como aumentaram em 14% a polui\u00e7\u00e3o entre 1990 e 2000.<\/p>\n<p>Novos acordos e confer\u00eancias foram realizados, entre os quais o Protocolo de Quioto, de 1997. O governo Bush, contudo, se recusou a aderir ao Protocolo, e manteve a pr\u00e1tica de dar de ombros ao diagn\u00f3stico\u00a0cient\u00edfico. Obama, pelo contr\u00e1rio, assinou em 2015 e no chamado Acordo de Paris, um pacto de diminui\u00e7\u00e3o de 32% a emiss\u00e3o de CO2 pelos EUA, at\u00e9 2030. Ap\u00f3s o acordo, Obama iniciou a implementa\u00e7\u00e3o\u00a0de uma regulamenta\u00e7\u00f5es nacional\u00a0destinada a honrar o compromisso assumido.\u00a0No entanto, em fevereiro de 2016, a Suprema Corte dos EUA revogou as normas do presidente\u00a0e devolveu \u00e0 ind\u00fastria o \u201cdireito\u201d de seguir poluindo.<\/p>\n<p>Atualmente, j\u00e1 sabemos o que o presidente mais impopular da hist\u00f3ria dos EUA disse sobre o aquecimento global: algo como, \u201cvamos fritar um ovo com bacon nele\u201d, ou algo parecido?<\/p>\n<p>Supondo que por algum milagre, Descartes aparecesse em um sonho a Trump, e lhe ensinasse o h\u00e1bito de duvidar de suas convic\u00e7\u00f5es mais \u201cinabal\u00e1veis\u201d. Depois de lan\u00e7\u00e1-lo ao desespero da \u201cd\u00favida hiperb\u00f3lica\u201d, imaginemos que o fil\u00f3sofo iniciasse o presidente na arte de tomar por verdade apenas o que se apresenta com plena clareza\u00a0e distin\u00e7\u00e3o. O que aconteceria?<\/p>\n<p>Em um primeiro momento, talvez Trump silenciasse a voz do est\u00f4mago e os \u201cvapores negros da bile\u201d<a href=\"#_edn18\" name=\"_ednref18\">[xviii]<\/a>, e encarasse as evid\u00eancias inc\u00f4modas: sua impopularidade, o aumento da rigidez do inverno em seu pa\u00eds, o incremento das cat\u00e1strofes e\u00f3licas, a insatisfa\u00e7\u00e3o dos oprimidas, etc..<\/p>\n<p>Supondo que Descartes ensinasse a Trump seu m\u00e9todo de busca e apreens\u00e3o da verdade, e fizesse com que ele revisse a rela\u00e7\u00e3o global com o pensamento. E no final da li\u00e7\u00e3o, supondo que Descartes pedisse ao presidente que sintetizasse, em uma frase, o aprendizado colhido,\u00a0qual frase seria? Ao estilo das express\u00f5es populares\u00a0de que gosta o presidente, quem sabe algo como: \u201cLie has short legs (mentira tem perna curta)\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>BIBLIOGRAFIA <\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>ADORNO, T.. <strong>Educa\u00e7\u00e3o e emancipa\u00e7\u00e3o<\/strong>. Trad.: W. L. Maar. S\u00e3o Paulo: Ed. Paz Terra, 2000.<\/p>\n<p>DESCARTES, R.. <strong>Medita\u00e7\u00f5es<\/strong><em>. <\/em>Trad.: J. Guinsburg e Bento Prado Jr.. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1973.<\/p>\n<p>DESCARTES, R.. <strong>Discurso do M\u00e9todo<\/strong><em>. <\/em>Trad.: J. Guinsburg e Bento Prado Jr.. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1973.<\/p>\n<p>HEIDEGGER, M.. <strong>Sobre o Humanismo<\/strong><em>. <\/em>Trad. Ernildo Stein. Cole\u00e7\u00e3o Os Pensadores. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1974.<\/p>\n<p>LEBRUN, G.. Pref\u00e1cio e notas. In: DESCARTES, R.. <strong>Discurso do M\u00e9todo<\/strong><em>. <\/em>Op. Cit., 1973.<\/p>\n<p>SINGER, P.. <strong>Um S\u00f3 Mundo \u2013 Por uma \u00c9tica da Globaliza\u00e7\u00e3o<\/strong>. Trad.: M. de F\u00e1tima St. Aubyn. Lisboa: Gradiva. 2004.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> DESCARTES, R.. <em>Discurso do M\u00e9todo. <\/em>Trad.: J. Guinsburg e Bento Prado Jr.. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1973. P. 55.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> HEIDEGGER, M.. <em>Sobre o Humanismo. <\/em>Trad. Ernildo Stein. Cole\u00e7\u00e3o Os Pensadores. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1974. P. 348.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a> HEIDEGGER, M. Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a> HEIDEGGER, M. Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[v]<\/a> DESCARTES, R.. <em>Discurso do M\u00e9todo. <\/em>Op. Cit., 1973. P. 39.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[vi]<\/a> DESCARTES, R.. Idem. P. 39.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[vii]<\/a> DESCARTES, R.. Idem. P. 39.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[viii]<\/a> DESCARTES, R.. Idem. P. 40.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[ix]<\/a> DESCARTES, R.. Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[x]<\/a> \u00a0DESCARTES, R.. Idem. P. 41.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[xi]<\/a> DESCARTES, R.. Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\">[xii]<\/a> DESCARTES, R.. Ibidem..<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref13\" name=\"_edn13\">[xiii]<\/a> DESCARTES, R.. Idem. P. 44.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref14\" name=\"_edn14\">[xiv]<\/a> DESCARTES, R.. Idem. P. 45-46.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref15\" name=\"_edn15\">[xv]<\/a> LEBRUN, G.. Pref\u00e1cio e notas. In: DESCARTES, R.. <em>Discurso do M\u00e9todo. <\/em>Op. Cit., 1973. P. 45, nota de rodap\u00e9 22.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref16\" name=\"_edn16\">[xvi]<\/a> ADORNO, T.. <em>Educa\u00e7\u00e3o e emancipa\u00e7\u00e3o<\/em>. Trad.: W. L. Maar. S\u00e3o Paulo: Ed. Paz Terra, 2000. P. 80.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref17\" name=\"_edn17\">[xvii]<\/a> SINGER, P.. <em>Um S\u00f3 Mundo \u2013 Por uma \u00c9tica da Globaliza\u00e7\u00e3o<\/em>. Trad.: M. de F\u00e1tima St. Aubyn. Lisboa: Gradiva. 2004.\u00a0 P. 48.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref18\" name=\"_edn18\">[xviii]<\/a> DESCARTES, R.. <em>Medita\u00e7\u00f5es. <\/em>Trad.: J. Guinsburg e Bento Prado Jr.. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1973. P. 94.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nem bem assumiu a presid\u00eancia, Donald Trump bateu um recorde hist\u00f3rico de impopularidade. Segundo a ag\u00eancia de pesquisa Galoup US Daily, o potentado registrou, em 11\/3\/2017 e ap\u00f3s um m\u00eas e meio de assun\u00e7\u00e3o do cargo, a marca hist\u00f3rica de 49% de reprova\u00e7\u00e3o e 45% de aprova\u00e7\u00e3o. O dado positivo \u00e9 aproximadamente 20% inferior ao da maioria dos presidentes anteriores, no in\u00edcio do mandato.\u00a0Pergunta-se agora o porqu\u00ea da rejei\u00e7\u00e3o t\u00e3o alta e precoce. &nbsp; Trata-se de um fen\u00f4meno curioso pois,&#8230;<\/p>\n<p class=\"read-more\"><a class=\"btn btn-default\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2017\/03\/31\/443\/\"> Read More<span class=\"screen-reader-text\">  Read More<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":245,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[75,17],"tags":[66,69,67,51,29,60,65,45,26,70,47,64],"class_list":["post-443","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-atualidade","category-politica","tag-co2","tag-etica","tag-h2o","tag-historia","tag-mercado","tag-metodo","tag-mudanca-climatica","tag-politica","tag-progresso","tag-racionalismo","tag-totalitarismo","tag-trump"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/443","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/users\/245"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=443"}],"version-history":[{"count":33,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/443\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":631,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/443\/revisions\/631"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=443"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=443"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=443"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}