{"id":710,"date":"2017-08-13T22:03:05","date_gmt":"2017-08-14T01:03:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/?p=710"},"modified":"2017-11-09T20:01:12","modified_gmt":"2017-11-09T22:01:12","slug":"o-brasil-como-lupa-do-conceito-de-contradicao-da-alma-de-montaigne","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2017\/08\/13\/o-brasil-como-lupa-do-conceito-de-contradicao-da-alma-de-montaigne\/","title":{"rendered":"O BRASIL COMO LUPA DO CONCEITO DE CONTRADI\u00c7\u00c3O DA ALMA DE MONTAIGNE"},"content":{"rendered":"<p><strong>Lula foi corretamente condenado a nove anos de pris\u00e3o por corrup\u00e7\u00e3o passiva e lavagem de dinheiro. Rousseff foi retamente desapossada da presid\u00eancia por pedaladas fiscais, decretos de cr\u00e9dito suplementar sem autoriza\u00e7\u00e3o e financiamento ilegal de campanha. Dirceu e Palocci n\u00e3o s\u00e3o m\u00e1rtires sem culpa em seus vai-e-vens \u00e0 pris\u00e3o. Contudo, muitos l\u00edderes da direita seguem sem puni\u00e7\u00e3o. Em nome da sa\u00fade social, defenderemos aqui a import\u00e2ncia da const\u00e2ncia jur\u00eddico-pol\u00edtica, isto \u00e9, a necessidade de que todas as partes da popula\u00e7\u00e3o recebam um tratamento igual ante a lei. Enquanto isso n\u00e3o existir, o Brasil seguir\u00e1 como uma lente de aumento do que o fil\u00f3sofo M. E. de Montaigne (1533 \u20131592) descreveu sob o conceito de contradi\u00e7\u00e3o da alma humana. A refer\u00eancia ao pensador, nesse contexto, pode ser muito \u00fatil, pois nos ajuda a entender n\u00e3o somente as causas da debilidade humana como seu poss\u00edvel rem\u00e9dio. Conforme Montaigne, o v\u00edcio an\u00edmico se deve, sobretudo, ao desregramento, desmedida, e \u00a0inconst\u00e2ncia, cujas solu\u00e7\u00f5es s\u00e3o: recolhimento, delibera\u00e7\u00e3o e const\u00e2ncia. Traduzindo esses valores ao Estado, poder\u00edamos pensar, como solu\u00e7\u00e3o \u00e0 crise atual, em austeridade econ\u00f4mica (recolhimento), educa\u00e7\u00e3o (delibera\u00e7\u00e3o) e const\u00e2ncia jur\u00eddico-pol\u00edtica? Infelizmente, por\u00e9m, os tr\u00eas recursos indicados andam muito raros em nosso pa\u00eds, e por isso, respiramos um ar de raivosa cis\u00e3o social.<\/strong><\/p>\n<p>Na condena\u00e7\u00e3o de Lula, o juiz S. Moro foi rigoroso: 9 anos de pris\u00e3o, 18 anos de proibi\u00e7\u00e3o de assumir cargos p\u00fablicos e uma multa milion\u00e1ria. Provas indubit\u00e1veis contra Lula: nenhuma. Ind\u00edcios de responsabiliza\u00e7\u00e3o: uma s\u00e9rie de documentos, entre os quais alguns rasurados e nenhum com a assinatura do ex-presidente. Mais a dela\u00e7\u00e3o premiada de L\u00e9o Pinheiro. Se Moro pensasse como o juiz Tarcisio\u00a0Vieira, que liberou Temer com o argumento de que, na Justi\u00e7a, \u201cvale o princ\u00edpio de que quando h\u00e1 d\u00favida no processo, prevalece a vontade do voto\u201d \u2013 teria absolvido Lula. No entanto, o segundo argumento foi usado apenas em favor do vice-presidente, enquanto os dois \u00faltimos presidentes sucumbiram ante a severidade da lei.<\/p>\n<p>Jamais teremos um pa\u00eds inc\u00f3lume enquanto permitirmos a impunidade. Por isso, a rigorosidade jur\u00eddica, quando democr\u00e1tica, constitucional e aplicada com igual medida a todos os brasileiros, \u00e9 imprescind\u00edvel. Por certo \u00e2ngulo, as pedaladas fiscais que ensejaram o impeachment de Rousseff reproduzem, em n\u00edvel macro, um princ\u00edpio b\u00e1sico da economia privada, estimulado cotidianamente pelos meios mais ostensivos: a compra hoje com o dinheiro do amanh\u00e3. No entanto, essa pr\u00e1tica deve ser questionada. Governar por meio de decretos suplementares e eleger-se com campanhas milion\u00e1rias, abastecidas com caixas 1 e 2, s\u00e3o ainda mais grave. Que isso sempre tenha sido regra no Brasil n\u00e3o \u00e9 argumento: foi necess\u00e1rio que a esquerda assumisse a presid\u00eancia para que o povo conhecesse a puni\u00e7\u00e3o desses crimes.<\/p>\n<p><strong>Agora nas m\u00e3os da direita, o Estado brasileiro arrisca voltar ao imp\u00e9rio da impunidade da era pr\u00e9-Lula-petismo. Nossa sociedade, por\u00e9m, est\u00e1 amadurecida e resistir\u00e1 \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o desse retrocesso: n\u00e3o sejamos pessimistas.<\/strong><\/p>\n<p>Em 9 de junho de 2017, o Tribunal Superior Eleitoral n\u00e3o adotou a mesma severidade de Moro e do Congresso Nacional ante Rousseff, no ju\u00edzo de Temer, vice-presidente da chapa envolvida com os crimes anteriormente citados. Ap\u00f3s uma vota\u00e7\u00e3o de 4 x 3, o TSE removeu o pedido de cassa\u00e7\u00e3o da chapa Dilma-Temer, e contrariou a posi\u00e7\u00e3o do relator da a\u00e7\u00e3o, o juiz H. Benjamin, que defendeu a exist\u00eancia de sete irregularidades contra Temer (Cf. <a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/ultimas-noticias\/2017\/06\/09\/entenda-as-seis-irregularidades-da-chapa-dilma-temer-citadas-pelo-relator.htm\">https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/ultimas-noticias\/2017\/06\/09\/entenda-as-seis-irregularidades-da-chapa-dilma-temer-citadas-pelo-relator.htm<\/a>). O vice-presidente n\u00e3o teria a menor responsabilidade pelos delitos promovidos pelo presidente \u2013 foi o conte\u00fado de seus votos. Delitos que, por sinal, envolvem financiamento ilegal de campanha, que teriam levado Temer a assumir a vice-presid\u00eancia, e depois, a presid\u00eancia.<\/p>\n<p>Conforme o ministro G. Mendes: \u201cN\u00e3o se troca presidente toda hora\u201d. Segundo Tarcisio\u00a0Vieira, como j\u00e1 citado, na Justi\u00e7a, \u201cvale o princ\u00edpio de que quando h\u00e1 d\u00favida no processo, prevalece a vontade do voto\u201d (<a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/ultimas-noticias\/2017\/06\/09\/ministro-napoleao-vota-por-absolver.htm?cmpid=copiaecola\">https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/ultimas-noticias\/2017\/06\/09\/ministro-napoleao-vota-por-absolver.htm?cmpid=copiaecola<\/a>). Napole\u00e3o N. Maia repetiu esse argumento com outras palavras, e Admar Gonzaga afirmou que embora os fatos sejam &#8220;grav\u00edssimos&#8221;, eles &#8220;merecem apura\u00e7\u00e3o em sede pr\u00f3pria&#8221; \u2013 isto \u00e9, fora da Justi\u00e7a Eleitoral.<\/p>\n<p>A concluir das palavras de A. Gonzaga, 4 de 7 ju\u00edzes se posicionaram a favor da penalidade de Temer, ao menos em outra inst\u00e2ncia. Essa poderia ser o Congresso Nacional, no qual a sociedade reencontrou o presidente com um novo agravante: em uma conversa gravada com o empres\u00e1rio Joesley Batista, se confabulava ao redor de obstru\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a e do movimento de R$ 40 bilh\u00f5es do BNDES. Ora, se documentos rasurados e n\u00e3o assinados acabavam de decretar 9 anos de pris\u00e3o a um ex-presidente, houve quem acreditasse na condena\u00e7\u00e3o de Temer. No entanto, o congresso arquivou a acusa\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s uma vota\u00e7\u00e3o de 263 votos contra e 227 a favor da abertura de investiga\u00e7\u00e3o. Nesse momento, ainda n\u00e3o se decidia sobre puni\u00e7\u00e3o, mas apenas sobre investiga\u00e7\u00e3o, mas essa n\u00e3o foi aceita.<\/p>\n<p><strong>Conforme a Deutsche Welle, o \u201cpresidente da austeridade\u201d teria oferecido R$ 17 bilh\u00f5es aos parlamentares por meio de emendas (<a href=\"http:\/\/www.dw.com\/pt-br\/quanto-a-tentativa-de-salvar-temer-de-den%C3%BAncia-custa-ao-brasil\/a-39915483\">http:\/\/www.dw.com\/pt-br\/quanto-a-tentativa-de-salvar-temer-de-den%C3%BAncia-custa-ao-brasil\/a-39915483<\/a>). Isto \u00e9, dinheiro legal da sociedade, retirado da sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e cultura, que provavelmente ser\u00e3o redirecionado aos bairros j\u00e1 suntuosos da base eleitoral dos parlamentares. Na mesma semana, o minist\u00e9rio da fazenda prop\u00f4s a eleva\u00e7\u00e3o de impostos, talvez para retirar a educa\u00e7\u00e3o e a pol\u00edtica social das moscas \u00e0s quais foram lan\u00e7adas como nunca antes no novo mil\u00eanio?<\/strong><\/p>\n<p>A corrup\u00e7\u00e3o passiva pela qual Lula foi condenado diz respeito a um triplex localizado em Guaruj\u00e1\/SP, e avaliado em torno de R$ 1,8 milh\u00e3o. R$ 14 milh\u00f5es foram o que o governo de Minas Gerais gastou para instalar um aeroporto na fazenda do tio-av\u00f4 do senador A\u00e9cio Neves (PSDB), em 2010. Com a desapropria\u00e7\u00e3o do terreno, o tio-av\u00f4 ganhou o direito de receber R$ 1 milh\u00e3o, e at\u00e9 o momento em que a FOLHA divulgou o caso em 2014, o aeroporto n\u00e3o tinha sido regularizado pela ANAC (Ag\u00eancia Nacional de Avia\u00e7\u00e3o Civil, Cf. https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/escandalos-no-congresso\/36-governo-de-mg-constroi-aeroporto-em-terreno-de-tio-de-aecio.htm). Segundo uma reportagem recente do Estad\u00e3o, a Pol\u00edcia Federal possui \u00e1udios que sugerem que pelo menos um seguran\u00e7a de A\u00e9cio tinha a chave do aeroporto (http:\/\/politica.estadao.com.br\/blogs\/fausto-macedo\/audio-sugere-que-seguranca-de-aecio-tinha-chave-de-aeroporto\/).<\/p>\n<p>Ocorrido em 2005 e 2006, o Mensal\u00e3o Petista j\u00e1 apresenta 50 condenados, entre os quais l\u00edderes hist\u00f3ricos da luta contra a ditadura. Registrado em uma s\u00e9rie de den\u00fancias, o Mensal\u00e3o Tucano, de 2007, s\u00f3 teve uma pessoa at\u00e9 agora sentenciada, muito embora as acusa\u00e7\u00f5es pesem sobre quinze indiv\u00edduos conforme a seguinte reportagem da FOLHA: <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2017\/06\/1893632-citados-no-mensalao-tucano-se-beneficiam-de-prescricoes.shtml\">http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2017\/06\/1893632-citados-no-mensalao-tucano-se-beneficiam-de-prescricoes.shtml<\/a>.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m em S\u00e3o Paulo, a FOLHA publica que o PSDB possui interroga\u00e7\u00f5es com a justi\u00e7a: \u201cUm ano ap\u00f3s ser conclu\u00eddo pela Pol\u00edcia Federal, o principal inqu\u00e9rito criminal que investigou o cartel acusado de fraudar licita\u00e7\u00f5es de trens em S\u00e3o Paulo entre 1998 e 2008, em sucessivos governos do PSDB [de M. Covas, J. Serra e G. Alckmin], est\u00e1 parado no Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (\u2026) Os indiciados s\u00e3o suspeitos de praticar os crimes de corrup\u00e7\u00e3o ativa e passiva, forma\u00e7\u00e3o de cartel, fraude a licita\u00e7\u00f5es, evas\u00e3o de divisas e lavagem de dinheiro, segundo o inqu\u00e9rito finalizado pela PF em 28 de novembro de 2014\u201d (<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2015\/11\/1709618-inquerito-sobre-cartel-de-trens-de-sao-paulo-esta-parado-ha-um-ano.shtml\">http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2015\/11\/1709618-inquerito-sobre-cartel-de-trens-de-sao-paulo-esta-parado-ha-um-ano.shtml<\/a>).<\/p>\n<p>Se documentos sem assinatura fundamentam condena\u00e7\u00f5es severas como as de Lula, o que esperar do carimbo do Governo do Estado de S\u00e3o Paulo encontrado, conforme O Globo, em 13 toneladas de sardinhas vendidas no Rio em junho de 2017, e em 330 kg de salsichas vencidas, confiscadas pela pol\u00edcia em um ve\u00edculo n\u00e3o oficial, em 26\/3\/2017? Ambas as mercadorias eram destinadas \u00e0 merenda escolar paulista, mas nunca chegaram ao seu destino.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito do esc\u00e2ndalo da merenda escolar paulista, j\u00e1 passou mais de um ano e meio desde sua revela\u00e7\u00e3o pela FOLHA e ainda n\u00e3o h\u00e1 puni\u00e7\u00e3o. Ele se iniciou quando a Cooperativa Org\u00e2nica Agr\u00edcola Familiar acusou uma s\u00e9rie de pol\u00edticos de \u201creceber propina para liberar contratos com o governo e munic\u00edpios\u201d. Mais detalhes na seguinte reportagem: http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2017\/02\/1857971-escandalo-da-merenda-faz-1-ano-sem-punicao.shtml.<\/p>\n<p><strong>Um dia foi crime no Brasil defender a independ\u00eancia de Portugal. Na inconfid\u00eancia mineira,\u00a0 ricos e pobres se uniram para cometer esse crime. Tiradentes, que era pobre, morreu enforcado, e a elite mineira pagou uma indeniza\u00e7\u00e3o e foi liberta. Ser\u00e1 que um dia superaremos a despropor\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica existente aqui na severidade com que ricos e pobres s\u00e3o julgados? N\u00e3o seria mais reto que esquerda e direita fossem sentenciadas com os mesmos crit\u00e9rios de rigorosidade?<\/strong><\/p>\n<p>Em nome da const\u00e2ncia jur\u00eddica, a sociedade exige que os pol\u00edticos de direita sejam investigados, e quando apanhados correndo obesamente com malas cheias de grana, que sejam castigados com a mesma severidade que a esquerda. Estamos longe de aceitar uma anti-democracia em nosso pa\u00eds, em que certos cidad\u00e3os s\u00e3o mais desiguais do que outros.<\/p>\n<p>Nesse apelo pelo respeito, acordo, e qui\u00e7\u00e1, um dia, amizade entre as tend\u00eancias heter\u00f4nomas da sociedade brasileira, os <em>Ensaios <\/em>de Montaigne podem ter algo a ensinar. Afinal, em nosso cotidiano, e mais ainda em nosso Estado, encontramos bizarrices t\u00e3o grandes que parecerem reproduzir, como que por meio de uma lente de aumento, o que Montaigne descreveu sob o conceito de contradi\u00e7\u00e3o da alma humana. Ap\u00f3s descortinar uma s\u00e9rie de v\u00edcios t\u00edpicos de nossa psique, Montaigne tamb\u00e9m prop\u00f4s o j\u00e1 mencionado rem\u00e9dio \u201cDem\u00f3steles\u201d para ela. Esse rem\u00e9dio se comp\u00f5e de recolhimento e delibera\u00e7\u00e3o. Depois, const\u00e2ncia. E por fim, amizade. Traduzindo isso ao n\u00edvel do Estado: quem sabe n\u00e3o encontraremos o caminho da harmonia com mais austeridade econ\u00f4mica, educa\u00e7\u00e3o e const\u00e2ncia jur\u00eddico-pol\u00edtica?<\/p>\n<p><strong>\u201cSomos um amontoado de pe\u00e7as juntadas inarmonicamente\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> \u2013 escreveu Montaigne \u2013 n\u00e3o sobre o Brasil, apesar disso combinar perfeito com ele, mas sobre a alma humana, no ensaio <em>Da incoer\u00eancia de nossas a\u00e7\u00f5es.<\/em> Em virtude de nossa complexidade an\u00edmica, nossas paix\u00f5es est\u00e3o \u00a0marcadas, conforme o autor, pelo selo da contradi\u00e7\u00e3o. Sua incongru\u00eancia fundamental se manifesta por meio de duas formas b\u00e1sicas: as paix\u00f5es conflitam entre si \u2013 o que podemos chamar de contradi\u00e7\u00e3o material \u2013 e tamb\u00e9m a pr\u00f3pria forma e conte\u00fado das paix\u00f5es s\u00e3o contrapostas entre si \u2013 o que denominaremos de contradi\u00e7\u00e3o formal.<\/strong><\/p>\n<p>Uma s\u00e9rie de exemplos da segunda esp\u00e9cie de antagonismo \u00e9 conferida por Montaigne no ensaio <em>A tristeza<\/em>. Quanto mais intensamente sofremos \u2013 anota o pensador \u2013 menos somos capazes de expressar essa dor aos demais. Uma dor breve e m\u00f3dica pode provocar um esc\u00e2ndalo, ao passo que os sofrimentos mais inomin\u00e1veis nos deixam sem palavras e express\u00f5es. O prazer intenso muitas vezes vem acompanhado da apar\u00eancia de indiferen\u00e7a, e o mesmo contraste de forma e conte\u00fado reaparece em outras situa\u00e7\u00f5es, como, por exemplo, na seguinte:<\/p>\n<p>\u201cVem-me \u00e0 mem\u00f3ria o caso daquele pintor antigo [C\u00edcero], que no sacrif\u00edcio de Ifig\u00eania, teve de representar o sofrimento dos diversos personagens segundo o grau de interesse que cada um votava \u00e0 bela e inocente jovem, e que ao chegar ao pai da virgem j\u00e1 havia esgotado todos os recursos de sua arte. Diante da impossibilidade de dar-lhe uma atitude em rela\u00e7\u00e3o com a intensidade da dor, pintou-o de rosto coberto, como se nenhuma express\u00e3o pudesse ilustrar semelhante desespero\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>No que diz respeito \u00e0 contradi\u00e7\u00e3o material das paix\u00f5es, ela ocorre quando duas ou mais puls\u00f5es s\u00e3o suficientemente fortes para nos impulsionar, ao mesmo tempo, a dire\u00e7\u00f5es opostas. Em <em>Como uma mesma coisa nos faz rir e chorar<\/em> e outros ensaios<em>, <\/em>Montaigne assinala essa contradi\u00e7\u00e3o nos momentos em que, por exemplo, rimos e choramos de um mesmo objeto, fugimos do que sempre desejamos, caminhamos em linha reta em dire\u00e7\u00e3o ao temido, nos irritamos com um elogio, e etc.. Todas essas situa\u00e7\u00f5es, segundo o autor, s\u00f3 podem ser verdadeiras pelo fato de que, em nossa alma, incidem as tend\u00eancias mais distintas, todas elas donas de voz pr\u00f3pria e oriundas das partes mais diversas do corpo. A partir dessa perspectiva, um acordo que logre unificar nossas diversas fra\u00e7\u00f5es \u00e9 algo muito dif\u00edcil de se alcan\u00e7ar. Por mais que isso pese \u00e0 \u00e9tica e psicologia, Montaigne o constata com as seguintes palavras:<\/p>\n<p><strong>\u201cEm nosso corpo, dizem os m\u00e9dicos, produz-se um conjunto de humores diferentes; um deles domina aquele que segundo o nosso temperamento atua mais comumente sobre n\u00f3s. Da mesma forma, entre os m\u00faltiplos sentimentos que agitam nossa alma um prevalece, mas n\u00e3o a ponto de impedir que, em virtude da felicidade e flexibilidade que tem a alma de modificar o curso de suas impress\u00f5es, os mais fracos sejam capazes, ocasionalmente, de sobrepujar o mais forte durante alguns momentos. \u00c9 o que explica por que as crian\u00e7as, ing\u00eanuas, naturais nas suas expans\u00f5es, riem e choram muitas vezes pelo mesmo motivo\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/strong><\/p>\n<p>Ante essa propriedade de nossa alma de englobar as paix\u00f5es mais adversas, Montaigne entende que o h\u00e1bito de julgar os atos exteriores dos outros \u00e9, na realidade, uma tarefa muito \u201celevada, dif\u00edcil\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, e de prefer\u00eancia, a ser evitada. Afinal, os atos exteriores alheios podem facilmente decorrer de paix\u00f5es subordinadas e perif\u00e9ricas, que apenas por algum momento tomaram a dianteira. Ou, em outros casos, decorrerem de motivos que permanecer encobertos. Essa segunda situa\u00e7\u00e3o \u00e9 exemplificada pelo autor com as seguintes palavras:<\/p>\n<p>\u201cA ambi\u00e7\u00e3o pode impelir o homem a ser valente, s\u00f3brio, liberal e mesmo justo; (&#8230;) a avareza pode dar coragem a um caixeiro criado no \u00f3cio e na indol\u00eancia (&#8230;) e V\u00eanus arma de resolu\u00e7\u00e3o e aud\u00e1cia o jovem ainda sob a autoridade paterna, e faz com que se mostre impudica a virgem de cora\u00e7\u00e3o terno\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>Por isso, quando julgamos as pessoas desses exemplos como valentes, corajosos, audazes e impudicos, n\u00e3o atingimos sua ess\u00eancia, pois nos referimos a qualidades secund\u00e1rias e derivadas da ess\u00eancia latente. Essa incongru\u00eancia fundamental de nossa alma \u00e9 reconhecida pelo fil\u00f3sofo com as seguintes palavras: \u201cSomos todos constitu\u00eddos de pe\u00e7as e peda\u00e7os juntados de maneira casual e diversa, e cada pe\u00e7a funciona independentemente das demais. Da\u00ed ser t\u00e3o grande a diferen\u00e7a entre n\u00f3s e n\u00f3s mesmos quanto entre n\u00f3s e outrem: \u2018Crede-me, n\u00e3o \u00e9 coisa f\u00e1cil conduzir-se como um s\u00f3 homem\u2019 [S\u00eaneca]\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>Montaigne acredita que \u201cquem se examina de perto raramente se v\u00ea duas vezes no mesmo estado. Dou \u00e0 minha alma ora um aspecto, ora outro\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>, e no fim das contas, \u201ctodas as contradi\u00e7\u00f5es em mim se deparam, no fundo como na forma\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. Diante de nosso mosaico de formas, o pensador recorda que os antigos formularam a hip\u00f3tese de que o homem tem \u201cduas almas, ou duas for\u00e7as que atuam cada qual num sentido, uma no sentido do bem e outra no do mal. Uma s\u00f3 alma e uma s\u00f3 for\u00e7a n\u00e3o poderiam conciliar-se com t\u00e3o repentinas varia\u00e7\u00f5es de sentimentos\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a> \u2013 questiona, por\u00e9m, o fil\u00f3sofo. Pelo contr\u00e1rio, duas for\u00e7as fundamentais s\u00e3o um n\u00famero muito pequeno para expressar nossa multiplicidade. Sendo assim, a const\u00e2ncia \u00e9 a \u201cqualidade mais dif\u00edcil de se encontrar no homem, e a mais f\u00e1cil a inconst\u00e2ncia\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>, embora na primeira repouse o \u201cfim principal da sabedoria\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Como ser constante, se boiamos no turbulento mar de nossas paix\u00f5es e \u201cmudamos de vontade como muda de cor o camale\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>? Essa quest\u00e3o antiga da filosofia \u00e9 respondida por Montaigne com a concep\u00e7\u00e3o de que a const\u00e2ncia \u00e9 conquist\u00e1vel com \u201cobedi\u00eancia a determinados princ\u00edpios\u201d<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>. Afinal, o v\u00edcio \u201cnada mais \u00e9 sen\u00e3o desregramento e falta de medida, e por conseguinte, n\u00e3o o podemos imaginar constante. Atribui-se a Dem\u00f3steles a seguinte m\u00e1xima: a virtude, qualquer que seja, consiste de in\u00edcio em recolhimento e delibera\u00e7\u00e3o; a const\u00e2ncia, a seguir, comprova-lhe a perfei\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>.<\/strong><\/p>\n<p>Com essa refer\u00eancia a Dem\u00f3steles, j\u00e1 citada anteriormente, Montaigne ilumina o caminho que, para ele, conduz \u00e0 virtude e felicidade. Mas por que recolhimento? Pois a maioria das regras, preceitos e objetos da modernidade \u2013 e isso porque Montaigne escreve no s\u00e9culo XVI \u2013 tendem a \u201cnos expulsar de n\u00f3s mesmos, em benef\u00edcio da sociedade\u201d<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a> ou de poucos indiv\u00edduos. Os homens alugam-se facilmente e \u201csuas faculdades n\u00e3o lhes s\u00e3o \u00fateis sen\u00e3o a quem se escravizam\u201d<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>. Guiados pela \u201cviol\u00eancia dos desejos\u201d<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a>, os esp\u00edritos e corpos humanos s\u00e3o perturbados irreversivelmente, suas intelig\u00eancias ofuscadas e seus movimentos paralisados. Imagina o que Montaigne n\u00e3o diria do Brasil do s\u00e9culo XXI?<\/p>\n<p>\u201cTornamo-nos impacientes, ressentidos e desconfiados ante os poss\u00edveis obst\u00e1culos. Nunca dirigimos com efici\u00eancia uma coisa que nos domina e obceca: \u2018A paix\u00e3o \u00e9 um mau guia\u2019 [Est\u00e1cio]\u201d<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a> \u2013 observa o criador do g\u00eanero liter\u00e1rio do ensaio. Al\u00e9m disso, \u201cquanto mais aumentamos nossas necessidades e o que possu\u00edmos, tanto mais nos expomos aos golpes da sorte e da adversidade\u201d<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a>. Contra a roda passional que nos embriaga, o autor defende que somente o autodom\u00ednio pode nos manter constantes. Esse, como j\u00e1 sabemos, \u00e9 conquist\u00e1vel por meio da delibera\u00e7\u00e3o e recolhimento. Sendo assim, o estoicismo que o autor recomenda \u00e9 altamente necess\u00e1rio como prote\u00e7\u00e3o contra aquilo que Marx denominar\u00e1 posteriormente de fetiche do capitalismo. Entre Zen\u00e3o e Marx, Montaigne elogia a serenidade com as seguintes palavras:<\/p>\n<p><strong>\u201cA extens\u00e3o de nossos desejos deve ser circunscrita e restrita de modo a s\u00f3 compreender as comodidades mais pr\u00f3ximas de n\u00f3s, as que nos s\u00e3o cont\u00edguas. E n\u00e3o deve prolongar-se em linha reta, mas em curva cujas extremidades se juntem em torno de n\u00f3s, sem que se abra demasiado o c\u00edrculo. Os atos que n\u00e3o se amoldam a essa orienta\u00e7\u00e3o, a esse movimento essencial, a meu ver, como o dos avarentos, os dos ambiciosos e outros que se encarni\u00e7am atr\u00e1s de uma ideia inalcan\u00e7\u00e1vel, s\u00e3o atos doentios e prejudiciais\u201d<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a>.<\/strong><\/p>\n<p>Conforme Montaigne, Plat\u00e3o nos sugeriu que nos resguard\u00e1ssemos \u201cdo \u00f3dio \u00e0 dor e do amor ao bem-estar\u201d<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">[21]<\/a>. Com esse conselho, ele nos deu uma li\u00e7\u00e3o de resolu\u00e7\u00e3o e perseveran\u00e7a, segundo a qual tamb\u00e9m a fuga pode ser necess\u00e1ria como condi\u00e7\u00e3o da vit\u00f3ria. Naturalmente, Montaigne n\u00e3o se refere, aqui, a uma fuga covarde e incondicional, pois tamb\u00e9m \u201cdevemos nos precaver, na medida de nossas for\u00e7as, contra os males e inconvenientes que nos podem amea\u00e7ar\u201d<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[22]<\/a>. A perseveran\u00e7a dos antigos, segundo o franc\u00eas, consiste, sobretudo, em \u201csuportar com resigna\u00e7\u00e3o os inc\u00f4modos para os quais n\u00e3o temos rem\u00e9dio\u201d<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[23]<\/a>, e evitar os excessos das paix\u00f5es. Afinal, se as \u00faltimas s\u00e3o t\u00e3o marcadas pela contradi\u00e7\u00e3o, o mais s\u00e1bio, muitas vezes, \u00e9 n\u00e3o ati\u00e7\u00e1-las. Com base em suas pr\u00f3prias viv\u00eancias juvenis, Montaigne testemunha:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o devemos nos aferrar t\u00e3o loucamente a nossas afei\u00e7\u00f5es e interesses. Na minha juventude combatia o amor quando o julgava exagerado e procurava torn\u00e1-lo menos agrad\u00e1vel, a fim de que n\u00e3o acabasse por me dominar inteiramente. E o mesmo fa\u00e7o nas demais ocasi\u00f5es em que alguma paix\u00e3o me acomete. Esfor\u00e7o-me por agir em sentido contr\u00e1rio de minha inclina\u00e7\u00e3o; e evito satisfaz\u00ea-la a ponto de n\u00e3o a poder mais controlar sem graves danos (&#8230;) Zen\u00e3o, ao ver Crem\u00f4nides, a quem amava, aproximar-se, ergue-se imediatamente. Perguntou-lhe Cleantes porque o fizera. E respondeu Zen\u00e3o: porque os m\u00e9dicos ordenam repouso e pro\u00edbem as emo\u00e7\u00f5es. S\u00f3crates n\u00e3o diz: \u2018n\u00e3o cedes \u00e0 atra\u00e7\u00e3o da beleza; enfrenta-a e resiste\u2019. Ele diz: \u2018Foge, esconde-te dela; evita-a como a um veneno violento que age de longe\u201d<a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\">[24]<\/a>.<\/p>\n<p>Em um grau extremo, Di\u00f3genes, em pleno inverno e abra\u00e7ado nu a uma est\u00e1tua, quando interrogado se tinha frio, respondeu: \u201cNem um pouco\u201d<a href=\"#_ftn25\" name=\"_ftnref25\">[25]<\/a>. Embora o sentido dessas anedotas se dissolva r\u00e1pido no bojo do consumismo e excesso contempor\u00e2neo, algo de sua li\u00e7\u00e3o ainda pode ser resgatado. Conforme o fil\u00f3sofo, a sabedoria c\u00ednica nos ensina, entre outras coisas, que \u201cpara medir nossa resolu\u00e7\u00e3o, \u00e9-nos indispens\u00e1vel conhecer o grau de sofrimento que podemos suportar\u201d<a href=\"#_ftn26\" name=\"_ftnref26\">[26]<\/a>. Com essa humilde ci\u00eancia e o recolhimento, poderemos deliberar melhor e n\u00e3o nos deixar escravizar pelos desejos. O livre-arb\u00edtrio regado com conhecimento \u2013 observa o autor \u2013 pode nos elevar \u00e0quilo por ele definido como o \u201cmais alto ponto de perfei\u00e7\u00e3o na sociedade\u201d<a href=\"#_ftn27\" name=\"_ftnref27\">[27]<\/a>, e que \u00e9, justamente, o sentimento mais dependente entre todos da delibera\u00e7\u00e3o: a amizade.<\/p>\n<p>Assim, em Montaigne, vemos que a psicologia precede a pol\u00edtica. Essa posi\u00e7\u00e3o \u00e9 defendida pelo franc\u00eas, entre outros argumentos, com a seguinte cita\u00e7\u00e3o de S\u00eaneca: \u201cO amigo de si mesmo \u00e9 tamb\u00e9m o amigo dos outros\u201d<a href=\"#_ftn28\" name=\"_ftnref28\">[28]<\/a>. Para ser amigo de si, por\u00e9m, devemos \u201cguiar-nos a n\u00f3s mesmos\u201d, e para que isso aconte\u00e7a, j\u00e1 sabemos a li\u00e7\u00e3o de Dem\u00f3steles: recolhimento, delibera\u00e7\u00e3o, const\u00e2ncia, e por fim, amizade.<\/p>\n<p><strong>Por que nos \u00faltimos trinta anos, o \u00e1pice do desenvolvimento social e econ\u00f4mico do Brasil ocorreu sob os dois mandatos de Lula? A esquerda vai dizer que \u00e9 por causa do Lula-petismo, e a direita, que isso foi fruto do Plano Real de FHC. Vou sugerir uma resposta intermedi\u00e1ria: nesses anos, a sociedade brasileira logrou arrefecer, at\u00e9 certo ponto, suas contradi\u00e7\u00f5es, e se permitir algo pr\u00f3ximo ou na dire\u00e7\u00e3o da amizade. A amizade, contudo, \u00e9 a arte da toler\u00e2ncia. Por isso, a esquerda teve que ceder \u00e0 direita ao empreender uma pol\u00edtica capitalista, embora enriquecida com programas de educa\u00e7\u00e3o e de inclus\u00e3o social. E a direita soube respeitar a vit\u00f3ria nas urnas e as reivindica\u00e7\u00f5es da esquerda, e aprovou suas medidas no congresso e senado. Lula e Bush se abra\u00e7aram mais de uma vez, e isso sugeriu, ao menos imageticamente, que a heterogeneidade pol\u00edtica \u00e9 poss\u00edvel no lugar da selvageria das ofensas. Hoje, por\u00e9m, perdemos a heterogeneidade pol\u00edtica e regredimos \u00e0 raivosa cis\u00e3o social.<\/strong><\/p>\n<p>Como remedi\u00e1-la? Na esteira de Montaigne, sugerimos a aplica\u00e7\u00e3o do \u201crem\u00e9dio Dem\u00f3steles\u201d: recolhimento, delibera\u00e7\u00e3o, const\u00e2ncia e amizade. Traduzindo-o para o plano do Estado: quem sabe um pouco de austeridade econ\u00f4mica, mas tamb\u00e9m educa\u00e7\u00e3o e coer\u00eancia jur\u00eddico-pol\u00edtica n\u00e3o melhorariam nossa na\u00e7\u00e3o? Falar de amizade ainda \u00e9 muito cedo. A car\u00eancia absoluta dessa \u00faltima apenas revela que a avareza, ignor\u00e2ncia e inconst\u00e2ncia jur\u00eddico-pol\u00edtica v\u00eam predominando em nossas terras. Esses v\u00edcios, contudo, devem ser sanados imediatamente pelas virtudes indicadas, tanto pela sociedade, como pelos representantes de seus poderes.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> MONTAIGNE, M. de. <em>Ensaios. <\/em>Trad.: S. Milliet. In: CIVITA, V. (Org.). Cole\u00e7\u00e3o Os Pensadores. Vol. XI. S\u00e3o Paulo\/SP: Editora Abril Cultural. 1972, p. 164.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> MONTAIGNE. Idem, p. 15.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> MONTAIGNE. Idem, p. 118.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> MONTAIGNE. Idem, p. 166.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> MONTAIGNE. Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> MONTAIGNE. Idem, p. 165.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> MONTAIGNE. Idem, p. 164.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> MONTAIGNE. Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> MONTAIGNE. Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> MONTAIGNE. Idem, p. 163.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> MONTAIGNE. Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> MONTAIGNE. Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> MONTAIGNE. Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> MONTAIGNE. Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> MONTAIGNE, Idem, p. 456.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> MONTAIGNE. Idem, p. 455.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> MONTAIGNE. Idem, p. 457.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> MONTAIGNE. Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> MONTAIGNE. Idem, p. 458.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> MONTAIGNE. Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> MONTAIGNE. Idem, p. 455.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> MONTAIGNE. Idem, p. 31.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">[23]<\/a> MONTAIGNE. Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\">[24]<\/a> MONTAIGNE, Idem, p. 460.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref25\" name=\"_ftn25\">[25]<\/a> MONTAIGNE. Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref26\" name=\"_ftn26\">[26]<\/a> MONTAIGNE. Ibidem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref27\" name=\"_ftn27\">[27]<\/a> MONTAIGNE, Idem, p<em>. <\/em>96<em>.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref28\" name=\"_ftn28\">[28]<\/a> MONTAIGNE, Idem, p. 456.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lula foi corretamente condenado a nove anos de pris\u00e3o por corrup\u00e7\u00e3o passiva e lavagem de dinheiro. Rousseff foi retamente desapossada da presid\u00eancia por pedaladas fiscais, decretos de cr\u00e9dito suplementar sem autoriza\u00e7\u00e3o e financiamento ilegal de campanha. Dirceu e Palocci n\u00e3o s\u00e3o m\u00e1rtires sem culpa em seus vai-e-vens \u00e0 pris\u00e3o. Contudo, muitos l\u00edderes da direita seguem sem puni\u00e7\u00e3o. Em nome da sa\u00fade social, defenderemos aqui a import\u00e2ncia da const\u00e2ncia jur\u00eddico-pol\u00edtica, isto \u00e9, a necessidade de que todas as partes da popula\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p class=\"read-more\"><a class=\"btn btn-default\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2017\/08\/13\/o-brasil-como-lupa-do-conceito-de-contradicao-da-alma-de-montaigne\/\"> Read More<span class=\"screen-reader-text\">  Read More<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":245,"featured_media":712,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[75,73,74],"tags":[76,43,69,51,29,78,45,26],"class_list":["post-710","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-atualidade","category-crise-politica","category-reforma-politica","tag-crise-politica","tag-democracia","tag-etica","tag-historia","tag-mercado","tag-poder","tag-politica","tag-progresso"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/08\/tiradentes.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/710","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/users\/245"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=710"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/710\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":714,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/710\/revisions\/714"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/media\/712"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=710"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=710"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=710"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}