{"id":765,"date":"2019-10-18T11:53:05","date_gmt":"2019-10-18T14:53:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/?p=765"},"modified":"2020-06-04T13:27:19","modified_gmt":"2020-06-04T16:27:19","slug":"caverna-de-platao-em-tres-atos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2019\/10\/18\/caverna-de-platao-em-tres-atos\/","title":{"rendered":"A CAVERNA DE PLAT\u00c3O (II)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left\">Continuando a reflex\u00e3o sobre a <em>Alegoria da Caverna\u00a0<\/em>de Plat\u00e3o, ou simplesmente &#8220;A Caverna&#8221;, como a partir de aqui a chamaremos, segue um segundo ensaio dando sequ\u00eancia ao <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2017\/07\/15\/caverna-de-platao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">t\u00f3pico iniciado em Julho<\/a>\u00a0deste ano. Trata-se de uma transmuta\u00e7\u00e3o daquele esbo\u00e7o inaugural, motivo pelo qual o leitor ass\u00edduo reencontrar\u00e1 conceitos conhecidos.<\/p>\n<p>A\u00a0<em>Alegoria da Caverna\u00a0<\/em>se encontra no s\u00e9timo livro da <em>Rep\u00fablica,\u00a0<\/em>de Plat\u00e3o. A\u00a0<em>Rep\u00fablica &#8211;\u00a0<\/em>em grego \u03a0\u03bf\u03bb\u03b9\u03c4\u03b5\u03af\u03b1, na translitera\u00e7\u00e3o latina,<em> Polite\u00eda &#8211;\u00a0<\/em>foi composta no s\u00e9culo IV antes de Cristo e \u00e9 um dos maiores tesouros da cultura ocidental; a <em>Alegoria da Caverna<\/em>, uma das pedras mais preciosas dessa joia.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"https:\/\/cafcamanaos.files.wordpress.com\/2012\/11\/platc3a3o-a-repc3bablica-calouste-gulbenkian.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A tradu\u00e7\u00e3o est\u00e2ndar\u00a0da Rep\u00fablica em portugu\u00eas\u00a0pode ser descarregada aqui<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/www.perseus.tufts.edu\/hopper\/searchresults?q=Republic\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Para ver em ingl\u00eas e o original grego, acesse aqui.<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2017\/10\/18\/caverna-de-platao-em-tres-atos\/cerradura-1\/\" rel=\"attachment wp-att-816\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-816\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/10\/cerradura-1.jpg\" alt=\"\" width=\"74\" height=\"126\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>A CAVERNA DE PLAT\u00c3O &#8211; UMA RECONSTRU\u00c7\u00c3O DRAM\u00c1TICA<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No in\u00edcio do Livro VII da <em>Rep\u00fablica <\/em>S\u00f3crates anuncia que ir\u00e1 descrever a situa\u00e7\u00e3o humana em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 <strong><em>intelig\u00eancia<\/em><\/strong> ou, melhor, \u00e0 <strong><em>educa\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong>\u00a0(em grego, \u03c0\u03b1\u03b9\u03b4\u03b5\u03af\u03b1) e \u00e0 sua falta, por meio da articula\u00e7\u00e3o de um <strong>cen\u00e1rio imagin\u00e1rio<\/strong> que lhe \u00e9 em todo <strong>semelhante<\/strong>. Com o aux\u00edlio da <strong>fantasia<\/strong> e a <strong>met\u00e1fora como recurso<\/strong>, Plat\u00e3o oferecer\u00e1 ao leitor um diagn\u00f3stico emp\u00edrico e uma li\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica na forma de uma <strong>constru\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria<\/strong> da mais fina elabora\u00e7\u00e3o. A <em>Alegoria da Caverna, <\/em>pois disso se trata, tem sido e ser\u00e1 sempre lida e <em>interpretada <\/em>de infinitas maneiras. A nossa proposta hoje ser\u00e1 encar\u00e1-la desde o <strong>ponto de vista dram\u00e1tico<\/strong>, ensaiando uma reconstru\u00e7\u00e3o da passagem a partir dos <strong>c\u00e2nones cl\u00e1ssicos da<\/strong> <strong>composi\u00e7\u00e3o<\/strong>, aos quais, por fortuna, a figura se ad\u00e9qua perfeitamente. Al\u00e9m do <strong>pr\u00f3logo\u00a0<\/strong><a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[i]<\/a>, teremos a divis\u00e3o em tr\u00eas <strong>atos<\/strong>, separados por dois <strong>n\u00f3s da trama<\/strong> e que se rematam em uma resolu\u00e7\u00e3o a modo de <strong>ep\u00edlogo<\/strong>. Teremos, assim mesmo, <strong>cl\u00edmax<\/strong> e <strong>anticl\u00edmax<\/strong>, e <strong>personagens<\/strong> com contornos n\u00edtidos e definidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><strong>PRIMEIRO ATO: Os prisioneiros da Caverna<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">O quadro pintado por S\u00f3crates \u00e9 assaz conhecido. H\u00e1 uma <strong>caverna sob a terra<\/strong>, ligada \u00e0 superf\u00edcie por um <strong>corredor longo, ingrime\u00a0e estreito<\/strong>. Esse corredor se abre por um lado \u00e0 intemp\u00e9rie e, pelo outro, se aprofunda no ch\u00e3o e se remata em uma ab\u00f3bada no<strong> subsolo<\/strong>, onde n\u00e3o chega a luz do dia. A caverna \u00e9, portanto, um <strong>recinto subterr\u00e2neo escuro <\/strong>e, cabe adiantar, de importantes dimens\u00f5es: n\u00e3o tanto do tamanho do <strong>calabou\u00e7o<\/strong> mas, pelo que est\u00e1 a acontecer ali, algo com o esp\u00edrito do calabou\u00e7o, mas o tamanho do <strong>teatro<\/strong> ou da <strong>catedral<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">No fundo da gruta h\u00e1 <strong>homens acorrentados<\/strong>, sujeitos das extremidades e o pesco\u00e7o por <b>pesados<\/b>\u00a0<strong>grilh\u00f5es<\/strong> que os fincam ao terreno. Completamente reduzidos, impedidos inclusive de girar a cabe\u00e7a, os <strong>prisioneiros<\/strong> permanecem im\u00f3veis na escurid\u00e3o, olhando <strong>compuls\u00f3ria<\/strong> e fixamente para frente. Eles est\u00e3o ali desde a <strong>inf\u00e2ncia<\/strong>, diz S\u00f3crates; criados <strong>em cativeiro &#8211;<\/strong>\u00a0suspeita o leitor-, e sem experimentar jamais nada distinto daquilo, a <strong>mansid\u00e3o<\/strong> e a <strong>passividade<\/strong> dos acorrentados parece natural, embora isso n\u00e3o anule a perturba\u00e7\u00e3o que as tristes figuras provocam. O fato \u00e9 que, apesar de haver <strong>escravos<\/strong> no interior da Caverna \u2013 ou <strong>condenados<\/strong>, ou <strong>penitentes<\/strong> &#8211; n\u00e3o h\u00e1 <strong>rebeli\u00e3o <\/strong>no subsolo. Os prisioneiros, pelo contr\u00e1rio, afrontam a circunst\u00e2ncia com uma mansa naturalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">No interior do recinto, uma curiosa engenharia ergue em volta dos cativos um espet\u00e1culo peculiar. \u00c0s costas dos prisioneiros h\u00e1 um <strong>muro<\/strong>, um \u201ctabique do tipo daqueles por sobre os que <strong>m\u00e1gicos<\/strong> ou <strong>titereiros<\/strong>\u00a0mostram suas <strong>maravilhas<\/strong>\/seus <strong>bonecos<\/strong> ou <strong>marionetes&#8221;<\/strong>. Nos bastidores, para al\u00e9m do muro, h\u00e1 ardendo uma <strong>fogueira<\/strong>, e entre o muro e a fogueira circula uma <strong>estranha prociss\u00e3o<\/strong> de homens carregando diversos objetos e figuras e dialogando entre si. A din\u00e2mica final \u00e9 similar \u00e0 de um <strong>teatro de sombras<\/strong>: o fogo ilumina os objetos transportados e suas sombras se projetam, por cima do muro, na parede adiante dos cativos.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2017\/10\/18\/caverna-de-platao-em-tres-atos\/procissao-2-recorte\/\" rel=\"attachment wp-att-1097\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-1097 size-medium\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/10\/Prociss\u00e3o-2-recorte-137x300.jpg\" alt=\"\" width=\"137\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/10\/Prociss\u00e3o-2-recorte-137x300.jpg 137w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/10\/Prociss\u00e3o-2-recorte-123x270.jpg 123w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/10\/Prociss\u00e3o-2-recorte.jpg 165w\" sizes=\"(max-width: 137px) 100vw, 137px\" \/><\/a> <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2017\/10\/18\/caverna-de-platao-em-tres-atos\/procissao-1-recorte\/\" rel=\"attachment wp-att-1096\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-1096 size-medium\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/10\/prociss\u00e3o-1-recorte-270x300.jpg\" alt=\"\" width=\"270\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/10\/prociss\u00e3o-1-recorte-270x300.jpg 270w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/10\/prociss\u00e3o-1-recorte-243x270.jpg 243w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/10\/prociss\u00e3o-1-recorte.jpg 339w\" sizes=\"(max-width: 270px) 100vw, 270px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Observa, ent\u00e3o, ao longo do muro, homens a carregar toda sorte de utens\u00edlios que ultrapassam a altura do muro, e tamb\u00e9m est\u00e1tuas e figuras de animais, de pedra e de madeira, bem como objetos da mais variada esp\u00e9cie. Como \u00e9 natural, desses carregadores uns conversam e outros se mant\u00e9m calados&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-size: 10pt\">PLAT\u00c3O,\u00a0<em>Rep\u00fablica <\/em>VII\u00a0514b-c<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">A Caverna \u00e9 ent\u00e3o, ao que parece, um <strong>palco<\/strong>; o que est\u00e1 a acontecer ali dentro, um <strong>espet\u00e1culo sinistro<\/strong>; os cativos, uma pat\u00e9tica <strong>plat\u00e9ia<\/strong>. Desde a plat\u00e9ia n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel divisar os bastidores: desde ali se v\u00eam somente as sombras deturpadas das marionetes no fundo da caverna. No entanto, e dada a ac\u00fastica do recinto, os <strong>espectadores<\/strong> escutam o <strong>ecoar<\/strong> dos nomes com que os homens da prociss\u00e3o se referem aos objetos que carregam e <strong>repetem<\/strong> esses nomes. Assim, eles aprendem a <strong>se comunicar <\/strong>nas trevas. Como <strong>crian\u00e7as<\/strong>, na total ingenuidade, eles <strong>competem, brincam<\/strong> de adivinhar qual sombra vir\u00e1 depois de qual, celebrando em <strong>inusitada alegria\u00a0<\/strong>quem se revela mais destro na competi\u00e7\u00e3o. A plat\u00e9ia, ent\u00e3o, se diverte.\u201cEstranhos prisioneiros\u201d, anota Gl\u00e1ucon; \u201cs\u00e3o como n\u00f3s\u201d, responde S\u00f3crates.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><strong>PRIMEIRO N\u00d3 DA TRAMA: de prisioneiro \u00e0 liberto<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Ap\u00f3s ter descrito a topologia da caverna e a condi\u00e7\u00e3o dos habitantes, S\u00f3crates convida seus interlocutores a imaginar o que aconteceria se um dos prisioneiros fosse <strong>libertado <\/strong>e conduzido para fora. Eis o fim do primeiro ato e o primeiro n\u00f3 da trama, que na nossa reconstru\u00e7\u00e3o consideraremos um <strong><em>deus ex machina<\/em><\/strong><em>. <\/em>O <em>deus ex machina <\/em>\u00e9 um artif\u00edcio utilizado no teatro antigo no qual, grosso modo, um \u201cmilagre\u201d acontece\u00a0<a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[vi]<\/a>. Nada do descrito no primeiro ato, isto \u00e9: nada do que acontece no interior da caverna, nenhum dos avatares do espet\u00e1culo nem impulso algum surgido da subjetividade dos prisioneiros, explica a mudan\u00e7a de cen\u00e1rio, isto \u00e9, a sa\u00edda da caverna; o vocabul\u00e1rio da <b>coer\u00e7\u00e3o<\/b>\u00a0e da <strong>viol\u00eancia<\/strong> \u00e9, ao inv\u00e9s, manifesto neste ponto, e Plat\u00e3o \u00e9 claro: n\u00e3o h\u00e1 movimento algum da <strong>vontade pr\u00f3pria<\/strong> na inst\u00e2ncia de <strong>liberta\u00e7\u00e3o do prisioneiro<\/strong>. Como seja, o fato \u00e9 que o prisioneiro dev\u00e9m <strong>liberto<\/strong> e que, com isso, o percurso dram\u00e1tico d\u00e1 um giro e tem in\u00edcio o segundo ato.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><strong>SEGUNDO ATO: A sa\u00edda da caverna<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">O segundo ato se inicia, ent\u00e3o, com um dos prisioneiros sendo libertado e <strong>impelido<\/strong> a levantar-se e andar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 luz. Ao encarar o brilho da fogueira, ele sentiria <strong>dor nos olhos <\/strong>e sua <strong>vista<\/strong> ficaria <strong>deslumbrada<\/strong>, <strong>incapaz de distinguir<\/strong> o que h\u00e1 em volta. Se nestas circunst\u00e2ncias algu\u00e9m lhe apresentasse os bonecos e utens\u00edlios cujas sombras ele via antigamente na morada subterr\u00e2nea e o <strong>obrigasse<\/strong>, \u201c\u00e0 for\u00e7a de perguntas\u201d, a chamar cada um deles pelo nome, o <strong>liberto<\/strong> ficaria confuso e sem palavras. Com a mente atordoada e a vis\u00e3o embasada, ele seria incapaz de reconhecer os artif\u00edcios do cen\u00e1rio ou de compreender o que est\u00e1 a acontecer, muito menos de dar conta dos sucessos ou de acreditar estar em bom caminho. Pelo contr\u00e1rio, ele tentaria evitar a luz e voltar dos bastidores ao seu assento na plat\u00e9ia. Se, neste momento, a for\u00e7a externa o <strong>empurrasse<\/strong> novamente, \u201c<strong>arrastado-o<\/strong> \u00e0 for\u00e7a pela rampa <strong>rude<\/strong> e empinada\u201d, ele se revoltaria e <strong>sofreria<\/strong> mais ainda.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Contudo, s\u00e3o dores de parto. Ao atravessar a boca da caverna, o liberto se acostumaria pouco a pouco. No come\u00e7o, exploraria a intemp\u00e9rie nas horas da <strong>noite<\/strong>, <strong>pousando o seu olhar<\/strong> sobre as sombras dos objetos naturais \u00e0s quais \u00e9 receptivo pela vida pr\u00e9via na caverna. Depois, como <strong>farejando<\/strong> o resplendor, se deteria nos reflexos na \u00e1gua e nas superf\u00edcies espelhadas,<strong> seguindo o rasto<\/strong> da claridade at\u00e9 ser capaz de divisar \u201co c\u00e9u e o pr\u00f3prio c\u00e9u\u201d, \u201ca lua e as estrelas\u201d. Ap\u00f3s a &#8220;<strong>fase noturna&#8221;<\/strong>, guiado j\u00e1 por uma <strong>vis\u00e3o despejada<\/strong> e uma lucidez florescente, a <strong>aurora<\/strong> coroaria o percurso fatalmente e o liberto experimentaria a <strong>luz <\/strong>do <strong>dia<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><strong>CL\u00cdMAX: a emancipa\u00e7\u00e3o das trevas \u2013 de liberto a iluminado<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Semelhante neste ponto ao <strong>iniciado<\/strong>, e revelando-se mais perspicaz do que poderia acreditar-se considerando seu passado, o liberto se encontraria ent\u00e3o no <strong>espa\u00e7o diurno a c\u00e9u aberto. <\/strong>Dirigindo a vista ao alto descobriria o <strong>Sol<\/strong>,<strong> observaria<\/strong> que ele \u201crege as esta\u00e7\u00f5es\u201d e a <em>physis <\/em>no seu conjunto, o <strong>reconheceria<\/strong> como \u201c<strong>fonte da verdade e da vida&#8221;<\/strong>\u00a0e \u201cde algum modo como [&#8230;] a <strong>causa<\/strong>\u201ddo que ele e seus companheiros estavam habituados a enxergar. Assim, concluiria finalmente que esse universo di\u00e1fano, <strong>solar<\/strong> e luminoso \u00e9 o <strong>mundo verdadeiro, <\/strong>e n\u00e3o aquele claustro no subsolo, que deixara atr\u00e1s. Neste instante, o liberto atingiria a <strong>completa emancipa\u00e7\u00e3o<\/strong> das trevas e <strong>gozaria<\/strong> da contempla\u00e7\u00e3o e da claridade na <strong>Ilha dos Bem-aventurados<\/strong>, como lhe chama S\u00f3crates. Eis o <strong>cl\u00edmax<\/strong> da Caverna.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><strong>SEGUNDO N\u00d3 DA TRAMA: de esclarecido a redentor<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Mas as perip\u00e9cias n\u00e3o acabam aqui. Na sua contempla\u00e7\u00e3o, o iluminado pensa para si que \u201cpreferiria, como Aquiles, sofrer qualquer destino a ter que voltar a viver no subterr\u00e2neo com os seus antigos companheiros\u201d. Mas S\u00f3crates \u00e9 rigoroso, e chegado esse ponto prop\u00f5e um novo giro para os acontecimentos: \u201cUma vez atingida a regi\u00e3o superior\u201d, diz S\u00f3crates, em rela\u00e7\u00e3o ao esclarecido, \u201ce ap\u00f3s ter suficientemente contemplado o bem, <strong>n\u00e3o o deixaremos<\/strong> [&#8230;] permanecer l\u00e1 encima&#8221;<a href=\"#_ednref16\" name=\"_edn16\">[xvi]<\/a>. Trata-se, ao que parece, de mais um\u00a0<em>deus ex machina.<\/em>\u00a0O liberto dever\u00e1, contra a sua vontade, voltar e assistir os prisioneiros, libertando-los por sua vez daquele mundo tenebroso como ele mesmo fora libertado. Ainda que <strong>emancipado<\/strong> da trevas e <strong>esclarecido<\/strong>, ent\u00e3o, ele n\u00e3o \u00e9 homem <strong>livre<\/strong>.<\/p>\n<p>Nestes termos, o\u00a0<strong>iluminado<\/strong> se transforma em <strong>redentor,<\/strong>\u00a0volta \u00e0s trevas e se inicia o terceiro e \u00faltimo ato.<\/p>\n<p><strong>TERCEIRO ATO: de volta \u00e0s trevas (vi\u00e9s pol\u00edtico)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Na sua viagem de regresso, diz S\u00f3crates, o redentor sofrer\u00e1 <strong>dores<\/strong> paralelas \u00e0s da ascens\u00e3o: sua vis\u00e3o ficar\u00e1 <strong>ofuscada<\/strong>, agora por causa da <strong>penumbra<\/strong>, e lhe ser\u00e1 necess\u00e1rio um segundo tempo de adapta\u00e7\u00e3o para habituar-se novamente ao claustro. Chegado l\u00e1, acostumado j\u00e1 \u00e0s meias-luzes e conhecedor n\u00e3o s\u00f3 da encena\u00e7\u00e3o mas dos peculiares bastidores do espet\u00e1culo, o redentor relatar\u00e1 sua experi\u00eancia aos antigos companheiros: ele narrar\u00e1 a sa\u00edda da caverna e dar\u00e1 not\u00edcia do mundo luminoso para al\u00e9m da grota, revelando aos cativos sua condi\u00e7\u00e3o de <strong>escravos<\/strong> e instando-os a libertar-se dos grilh\u00f5es tamb\u00e9m eles e embarcar o quanto antes no caminho para fora.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><strong>ANTICL\u00cdMAX: de redentor a m\u00e1rtir<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">O redentor n\u00e3o ter\u00e1, no entanto, uma fortuna de gl\u00f3ria mas de mart\u00edrio. Ao relatar sua aventura, os outros pensar\u00e3o que perdeu o ju\u00edzo e que estragou os olhos na viagem para fora, mofando-se dele e tachando-o de louco: o Sol que ele descreve, e a \u00e1gua e sua superf\u00edcie de espelho e a noite e o c\u00e9u noturno, ser\u00e3o, de fato, absolutamente <strong>inconceb\u00edveis<\/strong> para os prisioneiros. A desconfian\u00e7a dos cativos, n\u00e3o obstante, surgir\u00e1 n\u00e3o apenas da ilus\u00e3o que os hipnotiza e da obstina\u00e7\u00e3o que provoca neles o feiti\u00e7o que padecem, mas da pr\u00f3pria <strong>incapacidade<\/strong> do redentor <strong>de explicar<\/strong> de um modo compreens\u00edvel a sua descoberta. E este \u00e9 um detalhe que n\u00e3o pode passar despercebido. Plat\u00e3o diz, com efeito, que, chegada a hora derradeira o redentor, cuja \u00fanica ferramenta \u00e9 a linguagem, ficaria sem palavras: o que \u00e9 esse Sol que ele venera? O que esse mundo do lado de fora da caverna? N\u00e3o h\u00e1 comunica\u00e7\u00e3o suficientemente persuasiva, pois se trata de <strong>universos<\/strong> em grande medida <b>incomensur\u00e1veis<\/b>. Chegamos, deste modo, ao ep\u00edlogo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><strong>EP\u00cdLOGO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Se ent\u00e3o o redentor, perante a insufici\u00eancia do seu m\u00e9todo, procurasse libertar os prisioneiros \u00e0 for\u00e7a e arrast\u00e1-los para cima, aconteceria fatalmente que, \u201ccaso fosse poss\u00edvel [aos prisioneiros] fazer uso das m\u00e3os e mat\u00e1-lo (<em>apokteinein<\/em>), o <strong>matariam<\/strong>\u201d. Eis o anticl\u00edmax da caverna. E assim chegamos ao ep\u00edlogo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>\u00a0ANOTA\u00c7\u00d5ES INICIAIS para a encena\u00e7\u00e3o da Caverna de Plat\u00e3o<\/strong><\/p>\n<ol>\n<li style=\"text-align: center\">Esta reconstru\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica da <em>Alegoria da Caverna<\/em>, ainda sendo um esbo\u00e7o, parece prometedora e suficientemente fiel ao texto plat\u00f4nico. Evidentemente, trata-se de um esquema grosseiro e incompleto, e todos os detalhes aguardam refinamento. Esse refinamento dever\u00e1 levar em considera\u00e7\u00e3o o original grego, e o trabalho de interpreta\u00e7\u00e3o e adequa\u00e7\u00e3o dever\u00e1 ser realizado <strong>em conjunto <\/strong>por meio do<strong> debate entre especialistas<\/strong>.<\/li>\n<li style=\"text-align: center\">Se a ideia de adaptar a Caverna ao teatro ou suporte audiovisual for perseguida, ser\u00e1 necess\u00e1rio contar, al\u00e9m dos fil\u00f3sofos encarregados de definir as principais ideias a serem transmitidas, com uma <strong>equipe que re\u00fana profissionais de outras e diversas \u00e1reas<\/strong>: roteiristas, atores, ilustradores, diretores, figurinistas, etc., dever\u00e3o ser convocados para formar um <strong>time multidisciplinar<\/strong> capaz de abrir um horizonte no qual o projeto possa se articular com sucesso.<\/li>\n<li style=\"text-align: center\">O projeto tem como\u00a0objetivo fundamental\u00a0 aproximar a popula\u00e7\u00e3o dos densos conte\u00fados dos di\u00e1logos plat\u00f4nicos. O <strong>vi\u00e9s social e educativo<\/strong> ha de ser, portanto,<strong> t\u00e3o relevante quanto o art\u00edstico<\/strong>, e dever\u00e1 ser compreendido\u00a0e assimilado por parte de TODOS os participantes da equipe. Nesse sentido, contar com a presen\u00e7a de <strong>pedagogos<\/strong>\u00a0na equipe ser\u00e1 tamb\u00e9m recomend\u00e1vel (ver &#8220;<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Experiential_education#Examples\">Experiental Education<\/a>&#8220;).<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><\/a><span style=\"font-size: 10pt\"><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[i]<\/a> A inclus\u00e3o do pr\u00f3logo como uma \u201cexplica\u00e7\u00e3o pr\u00e9via\u201d \u00e9, segundo Nietzsche, um agregado racionalista tipicamente socr\u00e1tico \u00e0 estrutura primitiva da trag\u00e9dia (cujos paradigmas s\u00e3o Esquilo e S\u00f3focles) que empobreceu a experi\u00eancia tr\u00e1gica tradicional e foi mais um sintoma da decad\u00eancia geral da cultura grega suscitada por S\u00f3crates. O pr\u00f3logo de Eur\u00edpedes e o inteiro fen\u00f4meno da <a href=\"https:\/\/it.wikipedia.org\/wiki\/Commedia_Nuova\"><em>Nova Com\u00e9dia\u00a0<\/em><\/a><span style=\"color: #0000ee\"><i><u>\u00c1tica<\/u><\/i><\/span>\u00a0t\u00eam, segundo Nietzsche, estas conota\u00e7\u00f5es (Cfr. <em>Nietzsche, <\/em>NT, XII, p. 81). A \u201cintrodu\u00e7\u00e3o\u201d, apesar do seu car\u00e1ter sucinto, pode ser lida como a forma que o pr\u00f3logo assume na Caverna e, assim, como um tra\u00e7o t\u00edpico do car\u00e1ter da personagem S\u00f3crates que condiz com a posi\u00e7\u00e3o a respeito das artes avan\u00e7ada em outras partes do di\u00e1logo. Cfr. Tamb\u00e9m Arist\u00f3teles<em>, Po\u00e9tica<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><span style=\"font-size: 10pt\"><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[vi]<\/a> O termo refere-se ao surgimento de uma personagem, um artefato ou um evento inesperado, artificial ou improv\u00e1vel, introduzido repentinamente numa trama ficcional com o objetivo de resolver uma situa\u00e7\u00e3o ou desemaranhar um enredo. O uso do termo Deus ex machina surgiu no teatro grego cl\u00e1ssico, no qual muitas pe\u00e7as terminavam com um deus sendo, metaforicamente, baixado por um guindaste at\u00e9 ao local da encena\u00e7\u00e3o, para ent\u00e3o amarrar todas as pontas soltas da hist\u00f3ria. [wikipedia]<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><span style=\"font-size: 10pt\"><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\"><\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><span style=\"font-size: 10pt\"><a href=\"#_ednref16\" name=\"_edn16\">[xvi]<\/a> Primeiro <em>deus ex machina:\u00a0 Rep. <\/em>VII 515c-d; segundo <em>deus ex machina: Rep. <\/em>VII 519d. Apesar de serem dois <em>deus ex machina<\/em>, os n\u00f3s da trama diferem entre si pois no segundo a viol\u00eancia \u00e9 atenuada: o iluminado pode ser persuadido (<em>peithoi, <\/em>519e), pois \u00e9 sujeito esclarecido, de que o pleno exerc\u00edcio da sua liberdade consiste justamente en voltar \u00e0s trevas e prestar assistir os cativos ali feitos prisioneiros. A compuls\u00e3o n\u00e3o \u00e9 aqui onipresente, e existe a possibilidade que convencer gentilmente o iluminado, com base em argumentos, de abdicar do seu nirvana, retornar \u00e0 gruta e libertar os prisioneiros.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Continuando a reflex\u00e3o sobre a Alegoria da Caverna\u00a0de Plat\u00e3o, ou simplesmente &#8220;A Caverna&#8221;, como a partir de aqui a chamaremos, segue um segundo ensaio dando sequ\u00eancia ao t\u00f3pico iniciado em Julho\u00a0deste ano. Trata-se de uma transmuta\u00e7\u00e3o daquele esbo\u00e7o inaugural, motivo pelo qual o leitor ass\u00edduo reencontrar\u00e1 conceitos conhecidos. A\u00a0Alegoria da Caverna\u00a0se encontra no s\u00e9timo livro da Rep\u00fablica,\u00a0de Plat\u00e3o. A\u00a0Rep\u00fablica &#8211;\u00a0em grego \u03a0\u03bf\u03bb\u03b9\u03c4\u03b5\u03af\u03b1, na translitera\u00e7\u00e3o latina, Polite\u00eda &#8211;\u00a0foi composta no s\u00e9culo IV antes de Cristo e \u00e9 um dos maiores tesouros&#8230;<\/p>\n<p class=\"read-more\"><a class=\"btn btn-default\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2019\/10\/18\/caverna-de-platao-em-tres-atos\/\"> Read More<span class=\"screen-reader-text\">  Read More<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":374,"featured_media":819,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[98,81],"tags":[83,84,20,85,31,62,49,78,26,36],"class_list":["post-765","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-a-caverna-de-platao","category-platao","tag-caverna","tag-conhecimento","tag-distopia","tag-ignorancia","tag-incognoscivel","tag-pessimismo","tag-platao","tag-poder","tag-progresso","tag-utopia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/765","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/users\/374"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=765"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/765\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1858,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/765\/revisions\/1858"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/media\/819"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=765"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=765"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=765"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}