{"id":775,"date":"2017-10-26T12:30:30","date_gmt":"2017-10-26T14:30:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/?p=775"},"modified":"2018-03-08T09:41:07","modified_gmt":"2018-03-08T12:41:07","slug":"trevas-ou-ciencia-superaremos-o-verdadeiro-1-x-7","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2017\/10\/26\/trevas-ou-ciencia-superaremos-o-verdadeiro-1-x-7\/","title":{"rendered":"TREVAS OU CI\u00caNCIA: SUPERAREMOS O VERDADEIRO 1 X 7 ?"},"content":{"rendered":"<p><strong>A Copa do Mundo se aproxima. Galv\u00e3o Bueno est\u00e1 afoito. A seu lado, tamb\u00e9m se anima o autor da c\u00e9lebre frase: \u201cN\u00e3o se faz Copa do Mundo com hospitais\u201d. At\u00e9 porque, a Copa \u00e9 uma \u00f3tima ocasi\u00e3o para reencontrar os amigos da FIFA que n\u00e3o est\u00e3o presos. At\u00e9 agosto de 2018, a m\u00eddia j\u00e1 possui seu tema: futebol, Venezuela e desacordos pol\u00edtico-jur\u00eddicos. Em outubro, de repente, elei\u00e7\u00f5es. Em outro momento, falaremos da sa\u00fade e a beleza do futebol-raiz reinventado por Neymar e seus par\u00e7as, apesar da CBF e nas ant\u00edpodas da situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Neste artigo, abordaremos algo mais importante: ci\u00eancia e educa\u00e7\u00e3o. O que nos motiva a escrever s\u00e3o, sobretudo, os cortes de 44% do or\u00e7amento do Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia, Inova\u00e7\u00f5es e Comunica\u00e7\u00f5es (MCTIC), em 2017; seguidos do fato das duas revistas cient\u00edficas mais importantes do planeta, a <em>Nature<\/em> e a\u00a0<em>Science<\/em>, terem publicado mensagens de alerta contra os riscos desses cortes; e por fim, o recebimento no gabinete superior, no dia 29 de setembro de 2017, de um <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ciencia\/2017\/09\/1923338-ganhadores-de-nobel-pedem-que-temer-interrompa-cortes-na-ciencia.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">documento assinado por 23 vencedores do pr\u00eamio Nobel<\/a>, pedindo o fim dessa pol\u00edtica<\/strong><strong>.<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">O que \u00e9 ci\u00eancia? \u00c9 ela\u00a0um item sup\u00e9rfluo? Baseados em Arthur Schopenhauer (1788 \u2013 1860), defenderemos que a ci\u00eancia, a tecnologia e a filosofia s\u00e3o alguns dos maiores dons humanos, pelos quais o homem tanto se distingue dos demais animais. Sendo assim, o retrocesso cient\u00edfico s\u00f3 pode significar um retorno \u00e0 animalidade, ou a est\u00e1gios anteriores do desenvolvimento da civiliza\u00e7\u00e3o, como por exemplo, a Idade M\u00e9dia. No caso do Brasil, o contraste de sermos os aclamados pentacampe\u00f5es mundiais no futebol masculino, e nunca termos vencido um \u00fanico Nobel, \u00e9 ainda mais alarmante. Talvez essa contradi\u00e7\u00e3o ostente uma profunda neurose nossa: uma mentalidade medieval, que s\u00f3 pode ser elaborada com educa\u00e7\u00e3o e conhecimento. Em outras palavras, perdemos de 1 x 7 no campo muito mais importante da cultura. Damos o valor de 1 a nossos produtos naturais e humanos, e o valor de 7 ou mais ao lixo internacional: somos derrotados de goleada.\u00a0Esse humilhante placar s\u00f3 pode ser revertido com educa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>Contudo, o Brasil voltou a investir abaixo da m\u00e9dia mundial nesse item, que, segundo Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles, \u00e9 o principal fim da pol\u00edtica. Como \u00e9 poss\u00edvel que o pa\u00eds dono da sele\u00e7\u00e3o de maior sucesso no esporte mais popular do mundo, o futebol masculino, seja, ao mesmo tempo, a maior vergonha no pr\u00eamio cient\u00edfico igualmente popular, o Nobel? Quem separou o corpo da mente dessa maneira? Por favor, n\u00e3o culpem Plat\u00e3o ou Descartes por isso. O Nobel foi criado por Alfred Nobel, o inventor sueco da dinamite, e pode ser comparado a uma esp\u00e9cie de Copa do Mundo anual das ci\u00eancias, da paz e da literatura. Evidentemente, n\u00e3o se trata do \u00edndice mais importante de qualidade cient\u00edfica e human\u00edstica, mas ainda assim \u00e9 um indicador respeit\u00e1vel. Que seja mais importante vencer um Nobel do que uma Copa do Mundo \u00e9 um tru\u00edsmo que dispensa aprofundamento.<\/p>\n<p>Por outro lado, \u00e9 uma fa\u00e7anha bem mais complexa ganhar um Nobel, pois diferentemente do que ocorre no futebol, para que surja, na ci\u00eancia, paz e literatura um Pel\u00e9, Garrincha, Rom\u00e1rio ou Neymar, \u00e9 necess\u00e1ria uma prepara\u00e7\u00e3o e estrutura\u00e7\u00e3o p\u00fablica de qualidade e d\u00e9cadas de investimento.<\/p>\n<p>Infelizmente, nesse assunto, os liberais pouco podem com o argumento de que o mercado basta para desenvolver a ci\u00eancia. Ora, o Brasil \u00e9 a maior contraprova dessa posi\u00e7\u00e3o: temos a sexta economia mundial; se o mercado fosse suficiente para ganhar o Nobel, estar\u00edamos mais ou menos na sexta coloca\u00e7\u00e3o nesse ranking. No entanto, 74 pa\u00edses est\u00e3o \u00e0 nossa frente, isto \u00e9, t\u00eam o pr\u00eamio, enquanto n\u00f3s, n\u00e3o. Quais s\u00e3o as causas de tamanho vexame? Talvez excesso de liberalismo e medievalismo em nosso territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>O mercado n\u00e3o se interessa pelo prazer do conhecimento. Ele se interessa pelo lucro, de prefer\u00eancia, a curto prazo. A ci\u00eancia, por outro lado, se baseia, desde a Antiguidade, na frui\u00e7\u00e3o da contempla\u00e7\u00e3o desinteressada ou no mero entendimento da realidade. Em um jogo de idas e vindas, ela se ramifica em t\u00e9cnicas diversas, que se voltam \u00e0 explora\u00e7\u00e3o dos recursos naturais e humanos, geradores de capital. Tentar obter a segunda parte, a do avan\u00e7o tecnol\u00f3gico, sem a primeira &#8211; a do prazer do conhecimento &#8211; \u00e9 como desejar uma moeda de uma s\u00f3 face.\u00a0<span style=\"font-size: 12pt\">Em outras palavras, o mercado n\u00e3o tem paci\u00eancia para investir em arte, filosofia e ci\u00eancia, o principal papel do Estado deve ser o de zelar pela harmonia das diversas \u00e1reas da cultura. Ci\u00eancia, arte e filosofia n\u00e3o s\u00e3o meras despesas, mas o investimento indispens\u00e1vel inclusive do capital privado e em nome do progresso.<\/span><\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Laureados_com_o_Nobel_por_pa%C3%ADs\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Aqui podemos ver a lista dos \u201cmedalhistas\u201d de Nobel por pa\u00eds<\/a>. Os Estados Unidos v\u00eam em primeiro lugar, com 369 pr\u00eamio at\u00e9 2017. Segue o Reino Unido, com 129 e em terceiro lugar a Alemanha, com 107. Mesmo se comparamos o Brasil com pa\u00edses semelhantes a derrota \u00e9 de goleada: a \u00c1frica do Sul tem 10 premia\u00e7\u00f5es; a \u00cdndia, 9; a Argentina, 5; o Egito, 4; a Turquia e o M\u00e9xico, 3. O Chile, a Col\u00f4mbia e a Guatemala t\u00eam 2; a Venezuela, 1. O Brasil: 0.<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil quase ganhou em 1950, com o f\u00edsico <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/06\/1895455-quando-um-cientista-brasileiro-era-estrela-midiatica-e-concorreu-ao-nobel.shtml?cmpid=compgp\">C\u00e9sar Lattes<\/a>, da UNICAMP. O ano de 1950 foi mesmo o &#8220;ano do quase&#8221;. No campo da literatura e da paz, muitos nomes tamb\u00e9m j\u00e1 foram citados. A resposta, por\u00e9m, da academia foi germ\u00e2nica: somos uma vergonha, e que isso pese \u00e0s exce\u00e7\u00f5es. Temos, de fato, universidades, institui\u00e7\u00f5es e personalidades de renome internacional. O Brasil vinha mesmo despontando em diversas \u00e1reas cient\u00edficas recentemente. Contudo, como esse desenvolvimento est\u00e1 amea\u00e7ado pelos cortes bruscos de investimento p\u00fablico, a comunidade cient\u00edfica nacional e internacional colocou um sinal de alerta na import\u00e2ncia de se preservar esse importante parceiro na luta contra o desconhecido: o conhecimento brasileiro.<\/p>\n<p>Em \u00e9pocas de crise, os pa\u00edses desenvolvidos costumam cortar entre 5 e 10% de seus investimentos em pesquisa cient\u00edfica. O governo nacional atual, por\u00e9m, podou 44% do or\u00e7amento do Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia, Inova\u00e7\u00f5es e Comunica\u00e7\u00f5es (MCTIC), para 2017, e amea\u00e7a extrair mais 15% para 2018. Diante desse sacrif\u00edcio, as revistas <em>Nature<\/em> e <em>Science<\/em> apontaram as consequ\u00eancias dessa pol\u00edtica, e 23 vencedores internacionais do pr\u00eamio Nobel escreveram ao presidente, ent\u00e3o, pedindo o fim do abate cient\u00edfico.<\/p>\n<p><strong>Na esteira da pol\u00edtica nacional, muitos governos estaduais tamb\u00e9m aderiram \u00e0 pr\u00e1tica de supereconomia com ci\u00eancia e educa\u00e7\u00e3o. <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/educacao\/2017\/06\/1891210-para-cumprir-lei-alckmin-inclui-ate-aposentadoria-em-gasto-de-educacao.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Para dar um exemplo, o Governo do Estado de S\u00e3o Paulo teve seus gastos com a educa\u00e7\u00e3o questionados pelo Tribunal de Contas do Estado<\/a><\/strong><strong>. Resumindo o artigo da FOLHA do link anterior: a Constitui\u00e7\u00e3o Paulista exige que 30% de sua receita seja investida em educa\u00e7\u00e3o. <span style=\"font-size: 14pt\">No entanto, o governador Geraldo Alckmin investiu apenas 25%, e incluiu outros 6% em sua planilha que, na pr\u00e1tica, n\u00e3o eram gastos com educa\u00e7\u00e3o, mas com aposentados. <\/span><\/strong><\/p>\n<p>Conforme Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles, a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 o principal fim da pol\u00edtica. Isto est\u00e1 em <em>Rep\u00fablica <\/em>e <em>O Pol\u00edtico: <\/em>em outro artigo desmiu\u00e7aremos essa li\u00e7\u00e3o. Se outros questionamentos de Tribunais de Contas, portanto, com temas subordinados, levam &#8211; com justeza &#8211; a \u201cimpeachments\u201d presidenciais em nosso pa\u00eds, o que dizer de problemas com o fim principal da pol\u00edtica, conforme Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles?<\/p>\n<p>Voltando ao contexto nacional: uma das l\u00edderes da resist\u00eancia contra a &#8220;pol\u00edtica de sacrif\u00edcio cient\u00edfico&#8221; \u00e9 a biom\u00e9dica Helena Nader, que presidiu a Sociedade Brasileira para o Progresso e Ci\u00eancia (SBPC), por seis anos. Conforme a cientista, \u00e9 um grave erro acreditar que gastos com ci\u00eancia sejam despesas: elas s\u00e3o, como dizemos acima,\u00a0<em>investimentos<\/em>\u00a0que visam construir uma sociedade competitiva a n\u00edvel internacional. Somente com o desenvolvimento cient\u00edfico e filos\u00f3fico, deixaremos de exportar produtos de todas as \u00e1reas pelo pre\u00e7o de um, e importar (\u00e0s vezes o mesmo produto, melhor elaborado) pelo pre\u00e7o de sete. Segundo Nader, \u00e9 lament\u00e1vel que o Brasil, que vinha exercendo uma lideran\u00e7a in\u00e9dita nesta mat\u00e9ria arrisque perder essa posi\u00e7\u00e3o e ver <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ciencia\/2017\/09\/1923338-ganhadores-de-nobel-pedem-que-temer-interrompa-cortes-na-ciencia.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201ctodos os institutos de ci\u00eancia e tecnologia ligados ao minist\u00e9rio fechando as portas\u201d<\/a>. Conforme Nader, caminhamos rumo \u00e0s trevas. Ainda d\u00e1 tempo de reverter essa dire\u00e7\u00e3o. Se demorarmos muito, por\u00e9m, pode ser tarde demais.<\/p>\n<p>Quando Nader emprega a imagem das \u201ctrevas\u201d para descrever a situa\u00e7\u00e3o atual do Brasil, ela retoma uma met\u00e1fora muito utilizada na literatura iluminista, que superou a repress\u00e3o do obscurantismo medieval. O conhecimento (tecnol\u00f3gico, cient\u00edfico e filos\u00f3fico), segundo os iluministas, equivale \u00e0 <strong>luz<\/strong>, j\u00e1 que \u00e9 a luz que permite a vis\u00e3o, que por sua vez, \u00e9 o \u00fanico sentido que, junto ao tato, vai al\u00e9m da subjetividade e nos coloca em contato com a objetividade (tridimensional do espa\u00e7o, tempo e causalidade). Os demais sentidos realizam esse efeito apenas <em>em refer\u00eancia \u00e0<\/em> vis\u00e3o e ao tato. Justamente por isso, o oposto do conhecimento \u00e9 simbolizado com a imagem das <strong>trevas<\/strong>. Afinal, na escurid\u00e3o h\u00e1 a condi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica da ilus\u00e3o, o erro e o trope\u00e7o. Nas trevas reinam os interesses particulares, a ciz\u00e2nia dos poderes, as supersti\u00e7\u00f5es e os medos. Nas luzes, verdejam os interesses universais, objetivos e humanos e h\u00e1 confian\u00e7a e conhecimento.<\/p>\n<p><strong>Na Idade M\u00e9dia, o desenvolvimento do conhecimento foi obstru\u00eddo pela Igreja, cujo poder se baseia na f\u00e9, que por sua vez, consiste em uma aprova\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria e subjetiva sobre temas incognosc\u00edveis. Al\u00e9m disso, a ci\u00eancia e a cultura tamb\u00e9m foram podadas pelo excesso de conflitos entre os diversos reinos e cavalheiros, que guerreavam por interesses e poder. Posteriormente, a arte, a filosofia, a ci\u00eancia e a tecnologia foram revitalizadas no iluminismo, e at\u00e9 os \u201cd\u00e9spotas esclarecidos\u201d aprenderam a patrocinar o prazer do conhecimento. Houve mais troca e menos conflito. O consumo aumentou e os centros urbanos se tornaram espa\u00e7os de encontros dos mais diferentes setores. A vida humana se tornou mais din\u00e2mica, diversificada e florescente. O homem passou a ocupar o centro, que antes pertencia ao dem\u00f4nio ou a Deus.<\/strong><\/p>\n<p>Caso o Brasil retorne \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de ser apenas um pa\u00eds agr\u00e1rio, religioso e est\u00e1tico, isso significar\u00e1 um retrocesso semelhante ao do iluminismo \u00e0 Idade M\u00e9dia. Os empres\u00e1rios brasileiros n\u00e3o conseguir\u00e3o se desenvolver como os internacionais, e terminar\u00e3o como Visconde de Mau\u00e1: asfixiados pelo ar anti-moderno, e contr\u00e1rio \u00e0 fortuna e o progresso. O povo ser\u00e1 controlado em uma situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 do campon\u00eas medieval: sem qualifica\u00e7\u00e3o, capacidade cr\u00edtica e sublima\u00e7\u00e3o, ter\u00e1 seu potencial desperdi\u00e7ado. Pouco se produzir\u00e1, se permutar\u00e1 e se consumir\u00e1. Muito se reprimir\u00e1 e sofrer\u00e1. Os jovens bater\u00e3o as asas para os cantos mais distantes do mundo. L\u00e1 de longe, sonhar\u00e3o em retornar a um Brasil din\u00e2mico, aut\u00f4nomo e multifacetado. Fomos o \u00faltimo pa\u00eds da Am\u00e9rica a abolir a escravid\u00e3o, seremos tamb\u00e9m o \u00faltimo a superar o feudalismo medieval?<\/p>\n<p>Para que isso n\u00e3o aconte\u00e7a, a sociedade dever\u00e1 perceber que, com o avan\u00e7o das t\u00e9cnicas de comunica\u00e7\u00e3o, transporte e com\u00e9rcio, a competitividade mudou nos tempos modernos. Se na Idade M\u00e9dia o duelo era travado com o vizinho pr\u00f3ximo e aparentado, na atualidade, ele \u00e9 estabelecido com o pa\u00eds distante, em termos f\u00edsicos e culturais. A quest\u00e3o, agora, n\u00e3o \u00e9 mais a de como erguer muros para n\u00e3o ser dominado pelo vizinho. \u00c9 antes disso: como derrubar muros para que, <em>junto<\/em> a meu vizinho, nos fortale\u00e7amos contra a domina\u00e7\u00e3o do estrangeiro. Enquanto n\u00e3o percebermos isso, seguiremos medievais e submissos. Teremos como a marca pr\u00f3pria de nossas rela\u00e7\u00f5es a derrota por 1 x 7. Nossos dirigentes poder\u00e3o at\u00e9 vencer localmente, mas ser\u00e3o goleados internacionalmente. Diferentemente das elites internacionais, dever\u00e3o erguer altos muros em suas casas, com pontas de lan\u00e7as no cume, como se habitassem castelos medievais. Ao sair dos mesmos, se revestir\u00e3o de carros blindados, an\u00e1logos \u00e0s armaduras dos cavalheiros e templ\u00e1rios. E o povo seguir\u00e1 orando, \u00e0 espera do para\u00edso antigo ou moderno, a saber, a Copa do Mundo, Neymar, etc. O suserano dessa Transilv\u00e2nia triste ser\u00e1 uma esp\u00e9cie de Dr\u00e1cula, temido por todos, amado por ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Continuaremos vendendo mat\u00e9ria b\u00e1sica pelo pre\u00e7o de 1, e importando (\u00e0s vezes a mesma mat\u00e9ria, industrializada) pelo pre\u00e7o de 7? Seguiremos exterminando toda nossa riqueza f\u00edsica e humana, e substituindo-a por lixo estrangeiro? Tite, Neymar e seus par\u00e7as j\u00e1 concertaram a casa no futebol, por que n\u00e3o realizamos o mesmo com a nossa cultura? Desunidos como estamos, jamais reverteremos essa goleada, que j\u00e1 sofremos h\u00e1 s\u00e9culos. Enquanto optarmos pela guerra de todos contra todos, e n\u00e3o nos esfor\u00e7armos para construir uma cultura aut\u00f4noma, justa e coesa, perpetuaremos a derrota por 1 x 7 em nosso pr\u00f3prio territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Como resolver esse \u201ccomplexo de cachorro vira-lata\u201d, que tradicionalmente caracter\u00edstica o Brasil? Com educa\u00e7\u00e3o, conhecimento e cultura. Na pr\u00e1tica: devemos nos desenvolver modernamente \u2013 isto \u00e9, criar as condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas para superarmos a neurose de importar e imitar tecnologia, ci\u00eancia e filosofia alheia, e sermos capazes de produzir esses dons sumamente humanos. Afinal, somos humanos e s\u00f3 precisamos de desenvolvimento cultural para atualizarmos nossa pot\u00eancia. Nesse caminho, o papel do Estado \u00e9 fundamental. E o Estado somos n\u00f3s. Cabe a n\u00f3s, portanto, vencer o medievalismo e iluminar nossa sociedade moderna e p\u00f3s-moderna.<\/p>\n<p><strong>Vejamos os seguintes dados da UNESCO: o Brasil tem 700 pesquisadores por um milh\u00e3o de habitantes, a China, 1.100, a Argentina, 1.200, a R\u00fassia, 3.100, a Uni\u00e3o Europeia, 3.200, os Estados Unidos, 3.900, a Cor\u00e9ia do Sul e Singapura, 6.400, e Israel, 8.300. <a href=\"https:\/\/museudoamanha.org.br\/pt-br\/por-que-o-brasil-tem-tao-poucos-cientistas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Por que o Brasil tem poucos cientistas?<\/a><\/strong><strong>. Ora, em compara\u00e7\u00e3o com os demais pa\u00edses do mundo, somos modernos ou pr\u00e9-modernos, no que concerne ao princ\u00edpio da cultura, o conhecimento?<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 avaliamos, em outros artigos, que embora severos, o impeachment de Dilma Rousseff e a condena\u00e7\u00e3o de Lula a dez anos de pris\u00e3o foram justos. Aqui, por\u00e9m, em que tratamos de ci\u00eancia e educa\u00e7\u00e3o, devemos tamb\u00e9m ser justos com os dois ex-presidentes e reconhecer que seus quatorzes anos de governo foram exemplares nesse fim principal da pol\u00edtica. Escrevo isso de modo objetivo, apartid\u00e1rio e com base nos seguintes dados da UNESCO: a Am\u00e9rica do Norte gasta aproximadamente 5,3% do seu PIB em educa\u00e7\u00e3o, os pa\u00edses da Zona do Euro, 5%, enquanto a m\u00e9dia mundial \u00e9 4,2%. At\u00e9 1999, o Brasil n\u00e3o gastava mais do que 3,9% de seu PIB em educa\u00e7\u00e3o. A partir dos governos de Lula e Dilma, <a href=\"http:\/\/data.uis.unesco.org\/?queryid=181\">esse n\u00famero subiu, paulatinamente, at\u00e9 alcan\u00e7ar a marca dos 6,2%, em 2013<\/a>. Al\u00e9m disso, n\u00e3o houve ruptura na tradi\u00e7\u00e3o dos investimentos, mas continuidade progressiva.<\/p>\n<p>No caso brasileiro, concordamos que a porcentagem de investimento em educa\u00e7\u00e3o deva ser superior ao da Am\u00e9rica do Norte e Euro, dado que, como passamos s\u00e9culos sem investimentos, necessitamos de uma sobredose para recuperar o atraso. Alguns jornalistas gostam de avaliar essa quest\u00e3o pelo investimento per capita de cada pa\u00eds em educa\u00e7\u00e3o. Nessa perspectiva, \u00e9 \u00f3bvio que o Brasil gasta mais do que a m\u00e9dia mundial, uma vez que \u00e9 a sexta economia do mundo. No entanto, essa avalia\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a mais correta, pois equivale a aplaudir os gastos de um pai rico que d\u00e1 uma educa\u00e7\u00e3o pobre ao filho. Apesar dessa educa\u00e7\u00e3o ser mais custosa do que a que um pai pobre pode oferecer a seu filho, o pai rico n\u00e3o deixa de ser um mal investidor de seu dinheiro.<\/p>\n<p>Conforme outro Site apartid\u00e1rio de jornalismo investigativo e de press\u00e3o p\u00fablica, a <a href=\"https:\/\/apublica.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">P\u00fablica<\/a>, \u00e9 verdade que Dilma Rousseff sancionou, em 2014, o maior programa de pol\u00edtica anti-medieval j\u00e1 proposto no Brasil: <a href=\"https:\/\/apublica.org\/2016\/07\/truco-dilma-e-lula-elevaram-os-investimentos-em-educacao\/, http:\/\/www.valor.com.br\/politica\/3594928\/dilma-sanciona-sem-vetos-plano-que-destina-10-do-pib-educacao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o, que previu um gasto de 10% do PIB em todas os n\u00edveis educacionais<\/a>. Investir em ci\u00eancia e educa\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 colher no futuro.Uma pol\u00edtica moderna tem em vista <em>sempre<\/em> o futuro; mas em um pa\u00eds medieval, em que vale apenas o instante imediato , uma pol\u00edtica moderna pode naufragar caso a sociedade n\u00e3o aprenda a olhar mais para frente do que para o ch\u00e3o.<\/p>\n<p>A porcentagem dos investimentos em educa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao PIB atuais ainda n\u00e3o foram divulgados pela UNESCO, mas como os recursos com pesquisa e educa\u00e7\u00e3o despencaram, a expectativa \u00e9 que o n\u00famero tenha retrocedido para abaixo da m\u00e9dia mundial novamente.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que a influ\u00eancia da religi\u00e3o na pol\u00edtica brasileira tenha crescido em propor\u00e7\u00e3o direta \u00e0 derrocada do conhecimento.<span style=\"font-size: 12pt\"> Afinal, como escreve Schopenhauer:\u00a0\u201cF\u00e9 e conhecimento se relacionam entre si como dois pratos de uma balan\u00e7a: na medida em que um deles se eleva, o outro se abaixa\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>[i]<\/sup><\/a>. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">N\u00e3o chegaram a cotar o bispo criacionista Marcos Pereira para ocupar o cargo de ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia, o qual s\u00f3 n\u00e3o foi ratificado por causa da rea\u00e7\u00e3o negativa da opini\u00e3o p\u00fablica?\u00a0<\/span><span style=\"font-size: 12pt\">No Brasil, curiosamente, defender a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de \u201cesquerdismo\u201d. <\/span><span style=\"font-size: 12pt\">Contudo, nos pa\u00edses desenvolvidos os governos <em>neoliberais<\/em> e <em>conservadores<\/em> n\u00e3o promovem cortes (ao menos n\u00e3o como os que v\u00eam sendo implementados no Brasil) em ci\u00eancia e educa\u00e7\u00e3o. No geral, em momentos de crise, eles diminuem a receita de programas sociais, da sa\u00fade p\u00fablica &#8211; a ci\u00eancia e a educa\u00e7\u00e3o s\u00e3o sagradas. Isso de deve em parte a que elas pr\u00f3prias s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es do seu sucesso e &#8220;desenvolvimento&#8221; &#8211; o desenvolvimento do capitalismo empresarial depende da qualifica\u00e7\u00e3o de uma m\u00e3o de obra massiva.\u00a0Algo semelhante ocorre com a reforma agr\u00e1ria. Diferentemente do que se pensa, a reforma agr\u00e1ria tamb\u00e9m \u00e9 uma medida capitalista, empregada amplamente pelos pa\u00edses capitalistas. Afinal, o que \u00e9 reforma agr\u00e1ria se n\u00e3o a garantia de n\u00e3o desperd\u00edcio de recursos f\u00edsicos e humanos de um pa\u00eds, voltada ao aumento de sua produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola? Que o Brasil n\u00e3o desenvolva, por\u00e9m, a ci\u00eancia e a reforma agr\u00e1ria s\u00e3o dois sintomas de uma mentalidade feudal e est\u00e1tica?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">Como despertar o gigante adormecido? Com as luzes da cultura: arte, filosofia, ci\u00eancia e tecnologia. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">Para esclarecer um pouco mais sobre a f\u00f3rmula dessa solu\u00e7\u00e3o, apresentaremos a seguir algumas considera\u00e7\u00f5es de Schopenhauer sobre o poder racional-cient\u00edfico humano, base de sua cultura e distin\u00e7\u00e3o ante os demais animais:<\/span><\/p>\n<p><strong>\u201cEsta concentra\u00e7\u00e3o [<\/strong><strong><em>\u03bb\u03cc\u03b3\u03bf\u03c2<\/em><\/strong><strong><em>, ratio<\/em><\/strong><strong>, raz\u00e3o], a capacidade de reflexionar voltando-se sobre si pr\u00f3prio, \u00e9 propriamente a raiz de todas as obras te\u00f3ricas e pr\u00e1ticas pelas quais o homem eleva-se tanto sobre os brutos; em primeiro lugar, do cuidado com o futuro, a partir da considera\u00e7\u00e3o do passado; logo, de sua atividade deliberada, planejada, met\u00f3dica, em cada empresa; tamb\u00e9m da colabora\u00e7\u00e3o de muitas pessoas para um mesmo fim; e, por isto, da ordem, da lei, dos Estados, etc. \u2013 Mas particularmente os conceitos s\u00e3o o material pr\u00f3prio das ci\u00eancias, o fim das quais, que logra, em \u00faltima an\u00e1lise, reduzir-se a conhecimento do particular pelo geral\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a>.<\/strong><\/p>\n<p>As artes, a filosofia, a ci\u00eancia e a tecnologia s\u00e3o, para Schopenhauer, dons sumamente humanos, pelo quais esse animal \u201ctanto se eleva sobre os brutos\u201d. Eles todos, por\u00e9m, s\u00e3o frutos da faculdade exclusiva que o homem tem em toda natureza: a raz\u00e3o. \u00c9 poss\u00edvel encontrar nos demais animais habilidades que lembram o poder reflexivo humano. Por\u00e9m, isso ocorre em um n\u00edvel t\u00e3o baixo, que, do ponto de vista universal, Schopenhauer est\u00e1 certo quando reduz as principais semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as do homem com os animais \u00e0s seguintes capacidades:<\/p>\n<p>\u201cO animal sente e intui; o homem, pensa (<em>denkt<\/em>) e sabe (<em>weiss<\/em>). Ambos querem (<em>wollen<\/em>)\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a>.<\/p>\n<p>Schopenhauer ensina que a raz\u00e3o<em> (Vernunft) <\/em>\u00e9 a faculdade das representa\u00e7\u00f5es abstratas, isto \u00e9, dos conceitos<em> (Begriffe). <\/em>Esses, por sua vez, se originam das representa\u00e7\u00f5es intuitivas, que nos chegam pelos cinco sentidos do corpo. Embora todos os animais sejam capazes de sensibilidade, percep\u00e7\u00e3o e entendimento de rela\u00e7\u00f5es causais b\u00e1sicas, apenas o homem tem a faculdade da abstra\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, somente ele pode decompor as partes das representa\u00e7\u00f5es intuitivas, e assim, isol\u00e1-las para poder conhecer cada uma por si. Nesse processo, muito do intuitivo \u00e9 omitido \u2013 mas \u00e9 exatamente por isso que os conceitos <em>(Begriffe)<\/em> podem abarcar <em>(begreifen) <\/em>uma infinitude de objetos: pois ao destitu\u00edrem os objetos de suas diferen\u00e7as pr\u00f3prias, e ao manterem o que lhes \u00e9 comum, fixando o g\u00eanero assim resultante a uma palavra, surge para o homem a reflex\u00e3o, a raz\u00e3o, e o pensamento.<\/p>\n<p>O mundo racional \u00e9, portanto, para Schopenhauer, um reflexo do mundo sens\u00edvel e intuitivo. Ele n\u00e3o pode criar nada cujos elementos b\u00e1sicos n\u00e3o sejam dados pelo \u00faltimo. Pode apenas combinar seus elementos, reuni-los em g\u00eaneros diversos (processo esse que se chama s\u00edntese), ou inversamente, decompor os g\u00eaneros em partes cada vez menores (processo que se chama an\u00e1lise). Com base em seu poder racional, o homem cria tr\u00eas bens fundamentais de sua cultura: a linguagem, a a\u00e7\u00e3o calculada e as ci\u00eancias. No s\u00e9culo V a. C., o fil\u00f3sofo afirma que a civiliza\u00e7\u00e3o europeia conheceu uma esp\u00e9cie de Idade de Ouro. Nela, a raz\u00e3o foi cultuada acima das supersti\u00e7\u00f5es, e o homem pariu os fundamentos da pol\u00edtica, jurisprud\u00eancia, ci\u00eancia, arte e filosofia atuais. Caso comparemos o assim chamado \u201cs\u00e9culo de P\u00e9ricles\u201d, com as condi\u00e7\u00f5es em que o homem viveu da Idade M\u00e9dia, por exemplo, no s\u00e9culo XIV \u2013 o fil\u00f3sofo afirma se assustar com o resultado:<\/p>\n<p><strong>\u201cMal podemos acreditar que temos diante dos olhos seres de uma mesma esp\u00e9cie. De um lado, est\u00e1 o mais elevado desdobramento da humanidade, a excel\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es estatais, uma legisla\u00e7\u00e3o s\u00e1bia, conselhos municipais inteligentes, a liberdade regulada racionalmente, todas as artes, e entre elas a poesia e a filosofia, no cume de suas realiza\u00e7\u00f5es (&#8230;) De outro lado, uma \u00e9poca em que a religi\u00e3o aprisionou a mente e violentou o corpo dos homens. Um per\u00edodo em que cavaleiros e padrecos despejaram todo o fardo da vida nas costas de suas bestas de carga em comum, o terceiro estado. Um tempo em que surgiu o direito do mais forte, o feudalismo e o fanatismo em estreita uni\u00e3o. Em seus s\u00e9quitos, a terr\u00edvel ignor\u00e2ncia e a obscuridade. Bem como suas correspondentes intoler\u00e2ncias, disc\u00f3rdias de f\u00e9, guerras religiosas, cruzadas, persegui\u00e7\u00f5es de her\u00e9ticos, inquisi\u00e7\u00f5es e etc.. (&#8230;) Como \u00e9 poss\u00edvel que os cen\u00e1rios tenham mudado desta maneira?\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Conforme Schopenhauer: (1) por causa do dom\u00ednio da religi\u00e3o (isto \u00e9, do plano do incognosc\u00edvel, descrita como trevas) sobre a raz\u00e3o (ou seja, o plano do cognosc\u00edvel, sens\u00edvel \u00e0s luzes), e (2) pelas guerras provocadas, sobretudo, pelas migra\u00e7\u00f5es for\u00e7adas pelo avan\u00e7o de \u00c1tila, Genghis Khan, Timur, etc.. Nem sempre a hist\u00f3ria caminha rumo ao progresso: eis a conclus\u00e3o do fil\u00f3sofo. \u00c0s vezes, retrocedemos, e a transi\u00e7\u00e3o do per\u00edodo cl\u00e1ssico ao medieval exemplifica esse retrocesso. Por isso, devemos estar atentos para n\u00e3o permitirmos que nossas institui\u00e7\u00f5es percam a batalha contra o desconhecimento. No campo da ci\u00eancia, Schopenhauer afirma que \u201cquando o saber e a f\u00e9 se colidem, o \u00faltimo se estilha\u00e7a, porque \u00e9 de uma mat\u00e9ria mais fraca do que o primeiro\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[iv]<\/a>. Essa colis\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 desnecess\u00e1ria, pois para o pensador, \u00e9 poss\u00edvel haver respeito entre ambos, desde que a ci\u00eancia se aplique ao campo do cognosc\u00edvel, e a f\u00e9 se restrinja ao incognosc\u00edvel. Quando essa fronteira \u00e9 respeitada, Schopenhauer afirma que:<\/p>\n<p><strong>\u201cAs religi\u00f5es s\u00e3o (&#8230;) um inestim\u00e1vel benef\u00edcio para o povo [por serem uma esp\u00e9cie de estrelas-guia da virtude e consolos ao sofrimento]. Mas se elas tentam se opor ao progresso da humanidade no conhecimento da verdade (&#8230;) devem ser empurradas de volta para seu lado\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[v]<\/a>.<\/strong><\/p>\n<p>Historicamente, \u00e9 uma pena que o obscurantismo religioso invada com tanta frequ\u00eancia o campo da ci\u00eancia e da filosofia, e que, para n\u00e3o serem expulsas de volta ao incognosc\u00edvel, gostem de amorda\u00e7ar a ci\u00eancia e a filosofia. Em virtude dessa frequente invas\u00e3o, Schopenhauer polemiza contra a religi\u00e3o com as seguintes palavras:<\/p>\n<p><strong>\u201cAs religi\u00f5es s\u00e3o como vaga-lumes, precisam de escurid\u00e3o para brilhar. Um certo n\u00edvel de ignor\u00e2ncia \u00e9, de fato, sua condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria. O \u00fanico elemento no qual elas podem viver. Por outro lado, t\u00e3o logo a astronomia, a ci\u00eancia natural, a geologia, a hist\u00f3ria, o conhecimento dos pa\u00edses e dos povos espalham suas luzes por todos os lados, e at\u00e9 mesmo a filosofia pode ter uma palavra, ent\u00e3o a f\u00e9 fundada em milagres e revela\u00e7\u00f5es s\u00f3 pode desaparecer (&#8230;) Talvez esteja, de fato, a ponto de chegar o momento t\u00e3o frequentemente profetizado em que o ocidente se despedir\u00e1 da religi\u00e3o, como uma ama de leite, cujos cuidados foram superados pela crian\u00e7a, que doravante, ser\u00e1 incumbida a um tutor privado. Afinal, n\u00e3o h\u00e1 a menor d\u00favida de que doutrinas de f\u00e9 baseadas em autoridades, revela\u00e7\u00f5es e milagres s\u00e3o um aux\u00edlio bem mais apropriado \u00e0 inf\u00e2ncia da humanidade. E que ainda se encontra em sua primeira inf\u00e2ncia uma ra\u00e7a cuja completa exist\u00eancia n\u00e3o comporta mais do que, aproximadamente, cem vezes a vida de um homem de sessenta anos, &#8211; isso deve ser admitido por qualquer um sem grande dificuldade\u201d<\/strong><a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\"><strong><sup>[vi]<\/sup><\/strong><\/a><strong>.<\/strong><\/p>\n<p>Como a ci\u00eancia, a filosofia e a tecnologia s\u00e3o dons humanos preciosos e delicados, devemos cuidar deles, e sobretudo, quando o obscurantismo medieval tenta esmi\u00fa\u00e7a-los. A Igreja tentou acorrentar o conhecimento no passado, mas foi vencida pelo amor ao conhecimento, que vem das profundezas humanas. Para que ele n\u00e3o corra o risco de morrer novamente, o Estado tem que ser seu principal gestor. O cuidado com a ci\u00eancia, a educa\u00e7\u00e3o e a filosofia devem ser os principais fins da pol\u00edtica: mais importantes at\u00e9 mesmo que o d\u00f3lar, a produ\u00e7\u00e3o de autom\u00f3veis e etc.. Quando o Estado se encolhe e esses dons amea\u00e7am desaparecer, a sociedade civil precisa protestar contra essa amea\u00e7a de medievalismo. Afinal, tudo depende da raz\u00e3o e do pensamento e qualquer desenvolvimento \u00e9 filho da ci\u00eancia e da filosofia. Suplantar o medievalismo, em nosso pa\u00eds, equivaler\u00e1 a superar a verdadeira derrota de 1 x 7, que sofremos em nossas rela\u00e7\u00f5es internacionais. Quando o Brasil libertar sua pot\u00eancia gnosiol\u00f3gica e humana, ele esporular\u00e1 uma beleza an\u00e1loga ao brilho futebol\u00edstico ressuscitado por Neymar e seus par\u00e7as. Se Neymar e os par\u00e7as conseguiram esse recobramento, apesar da corrup\u00e7\u00e3o administrativa de nosso futebol, por que n\u00e3o poderemos fazer o mesmo com as bases de nossa civiliza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Nos dois seguintes links, \u00e9 poss\u00edvel ler e assinar dois abaixo-assinados em favor do investimento p\u00fablico b\u00e1sico em pesquisa cient\u00edfica, a n\u00edvel federal e estadual paulista:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"font-size: 18pt\"><strong><a href=\"https:\/\/www.change.org\/p\/manifesto-pela-ci%C3%AAncia\">ASSINE AQUI\u00a0 (PELA CI\u00caNCIA NO BRASIL)<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"font-size: 18pt\"><strong><a href=\"https:\/\/www.change.org\/p\/academia-de-ci%C3%AAncias-do-estado-de-s%C3%A3o-paulo-pelo-repasse-de-1-da-arrecada%C3%A7%C3%A3o-de-s%C3%A3o-paulo-para-a-fapesp\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">E AQUI (S\u00c3O PAULO &#8211; FAPESP)<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Longe de querer fazer panfletarismo partid\u00e1rio, acreditamos que a press\u00e3o cient\u00edfica e civil \u00e9 imprescind\u00edvel ao debate democr\u00e1tico e que a\u00a0internet \u00e9 um ve\u00edculo fundamental na salvaguarda dos direitos constitucionais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><sup>[i]<\/sup><\/a> SCHOPENHAUER, A.. Die Welt als Wille und Vorstellung. In: SCHOPENHAUER, A.. <em>S\u00e4mtliche Werke<\/em> \u2013<em> Band I<\/em>. Org.: Wolfgang F. von L\u00f6hneysen. Stuttgart\/Frankfurt am Mein: Suhrkamp, 1986, p. 408.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> SCHOPENHAUER, A.. <em>Satz vom Grunde<\/em>, In: SCHOPENHAUER, A.. <em>S\u00e4mtliche Werke<\/em> \u2013<em> Band III<\/em>. Org.: Wolfgang F. von L\u00f6hneysen. Stuttgart\/Frankfurt am Mein: Suhrkamp, 1986, p. 125.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a> SCHOPENHAUER, A.. Die Welt als Wille und Vorstellung. In: SCHOPENHAUER, A.. <em>S\u00e4mtliche Werke<\/em> \u2013<em> Band I<\/em>. Org.: Wolfgang F. von L\u00f6hneysen. Stuttgart\/Frankfurt am Mein: Suhrkamp, 1986, p. 74.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a> SCHOPENHAUER, A.. <em>Parerga und Paralipomena II<\/em>. In: SCHOPENHAUER, A.. <em>S\u00e4mtliche Werke<\/em> \u2013<em> Band V. <\/em>Org.: Wolfgang F. von L\u00f6hneysen. Stuttgart\/Frankfurt am Mein: Suhrkamp, p. 425-6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[v]<\/a> SCHOPENHAUER, A.. Die Welt als Wille und Vorstellung \u2013 Band II. In: SCHOPENHAUER, A.. <em>S\u00e4mtliche Werke<\/em> \u2013<em> Band II<\/em>. Org.: Wolfgang F. von L\u00f6hneysen. Stuttgart\/Frankfurt am Mein: Suhrkamp, 1986, p. 168.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\"><sup>[vi]<\/sup><\/a> SCHOPENHAUER, A.. <em>Parerga und Paralipomena II<\/em>. In: SCHOPENHAUER, A.. <em>S\u00e4mtliche Werke<\/em> \u2013<em> Band <\/em><em>V. <\/em>Org.: Wolfgang F. von L\u00f6hneysen. Stuttgart\/Frankfurt am Mein: Suhrkamp, p. 409.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Copa do Mundo se aproxima. Galv\u00e3o Bueno est\u00e1 afoito. A seu lado, tamb\u00e9m se anima o autor da c\u00e9lebre frase: \u201cN\u00e3o se faz Copa do Mundo com hospitais\u201d. At\u00e9 porque, a Copa \u00e9 uma \u00f3tima ocasi\u00e3o para reencontrar os amigos da FIFA que n\u00e3o est\u00e3o presos. At\u00e9 agosto de 2018, a m\u00eddia j\u00e1 possui seu tema: futebol, Venezuela e desacordos pol\u00edtico-jur\u00eddicos. Em outubro, de repente, elei\u00e7\u00f5es. Em outro momento, falaremos da sa\u00fade e a beleza do futebol-raiz reinventado por&#8230;<\/p>\n<p class=\"read-more\"><a class=\"btn btn-default\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/2017\/10\/26\/trevas-ou-ciencia-superaremos-o-verdadeiro-1-x-7\/\"> Read More<span class=\"screen-reader-text\">  Read More<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":245,"featured_media":776,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[75,73,93,74],"tags":[61,76,43,69,29,56,45,33],"class_list":["post-775","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-atualidade","category-crise-politica","category-justica","category-reforma-politica","tag-ciencia","tag-crise-politica","tag-democracia","tag-etica","tag-mercado","tag-moral","tag-politica","tag-tecnoprogressivismo"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-content\/uploads\/sites\/118\/2017\/10\/21294347580004753650000.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/775","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/users\/245"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=775"}],"version-history":[{"count":43,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/775\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1264,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/775\/revisions\/1264"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/media\/776"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=775"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=775"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/openphilosophy\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=775"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}