{"id":1052,"date":"2018-10-15T19:57:12","date_gmt":"2018-10-15T22:57:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/?p=1052"},"modified":"2018-11-17T08:58:00","modified_gmt":"2018-11-17T10:58:00","slug":"mulheres-e-ciencia-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/2018\/10\/15\/mulheres-e-ciencia-no-brasil\/","title":{"rendered":"MULHERES ASSISTINDO UMA PALESTRA CIENTIFICA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Era uma noite fresca e agrad\u00e1vel de junho no Rio de Janeiro. Dentro do anfiteatro, o s\u00e1bio professor falava sobre os peixes da Amaz\u00f4nia num franc\u00eas suave e macio. O sal\u00e3o estava cheio. Na primeira fila, a esposa do s\u00e1bio cientista o olhava risonha, parecendo saborear o instante. Tamb\u00e9m na primeira fila saboreando o instante, mas de outra forma, estava um senhor louro, alto, de belos e tristes olhos verdes e com uma barba j\u00e1 bastante grisalha.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1055\" aria-describedby=\"caption-attachment-1055\" style=\"width: 220px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1055\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/10\/220px-Louis_Agassiz_H6.jpg\" alt=\"\" width=\"220\" height=\"283\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1055\" class=\"wp-caption-text\">o bi\u00f3logo franco-sui\u00e7o Louis Agassiz<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">O s\u00e1bio era o Ilustre <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Louis_Agassiz\">Jean-Louis Agassiz (1807 &#8211; 1873)<\/a>\u00a0famoso bi\u00f3logo e paleont\u00f3logo franco-su\u00ed\u00e7o, radicado nos Estados Unidos. Sua esposa era <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Elizabeth_Cabot_Agassiz\">Elizabeth Cary Agassiz (1822 &#8211; 1907)<\/a>, que acompanhava em sua viagem ao Brasil. O velho senhor de olhos verdes e barbas brancas era ningu\u00e9m mais ningu\u00e9m menos que o Imperador Pedro II.<\/p>\n<h5>MULHERES INTERESSADAS EM CI\u00caNCIA?<\/h5>\n<figure id=\"attachment_1056\" aria-describedby=\"caption-attachment-1056\" style=\"width: 220px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1056\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/10\/220px-Elizabeth_Cary_Agassiz_1852_portrait.jpg\" alt=\"\" width=\"220\" height=\"284\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1056\" class=\"wp-caption-text\">Elizabeth Cary Agassiz (1822 &#8211; 1907)<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">Aquela era a segunda palestra que Agassiz dava no Rio de Janeiro. Na primeira, havia duas semanas, havia sido quebrado um tabu: fora a primeira vez no Rio que mulheres foram convidadas a participar de uma reuni\u00e3o cientifica. Contudo, no sal\u00e3o, n\u00e3o haviam muitas mulheres, mas j\u00e1 era um come\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Havia pouco, Agassiz havia perguntado ao Imperador porque as mulheres n\u00e3o participavam dos encontros cient\u00edficos da corte. \u00a0O Imperador n\u00e3o entendeu direito a pergunta, e disse que elas n\u00e3o se interessavam \u201cpor estes assuntos\u201d. No entanto Agassiz insistiu, e Dom Pedro assentiu em convidar tamb\u00e9m as mulheres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Elas viriam com seus maridos, como era de costume nas festividades da corte. Haviam v\u00e1rias delas segundo o Dr Pacheco Jord\u00e3o, \u201cmuito interessadas\u201d em assuntos cient\u00edficos. Um pouco incomodadas, segundo Elizabeth Agassiz, pois n\u00e3o sabiam como deveriam se trajar para aquela ocasi\u00e3o. Elas acabaram vindo em pequeno n\u00famero na primeira palestra. Na segunda, o n\u00famero j\u00e1 era um pouco maior.<\/p>\n<h5>A EXPEDI\u00c7\u00c3O THAYER AO BRASIL (1865-66)<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify\">Em suas palestras, Agassiz falou sobre os peixes da Amaz\u00f4nia, que ele viera estudar no \u00e2mbito da Expedi\u00e7\u00e3o Thayer. Esta expedi\u00e7\u00e3o, financiada em parte pelo milion\u00e1rio americano Nathanael Thayer e em arte pelo governo brasileiro, durou dois anos.\u00a0 Teve com alvos principais o Rio de Janeiro e o entorno da Corte, e a Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na expedi\u00e7\u00e3o Thayer vieram alguns cientistas ajudantes de Agassiz, que eram seus alunos nos Estados Unidos. Entre eles estava <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Charles_Frederick_Hartt\">Charles Frederick Hartt (1840-1878),<\/a> ge\u00f3logo americano e futuro fundador do primeiro Servi\u00e7o Geol\u00f3gico brasileiro, a Comiss\u00e3o Geol\u00f3gica do Imp\u00e9rio. Como auxiliar de Hartt viera tamb\u00e9m um jovem aprendiz, <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Orville_Derby\">Orville Derby (1851 &#8211; 1915)<\/a>. Derby,\u00a0 depois de completar seus estudos de geologia na Universidade de\u00a0 Cornell, veio para o Brasil auxiliar Hartt em sua expedi\u00e7\u00e3o. Esta expedi\u00e7\u00e3o seria a primeira grande expedi\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica financiada somente pelo governo imperial. Entretanto, com a morte de Hartt em 1877 e o fim da Comiss\u00e3o Geol\u00f3gica, Derby ficou por aqui at\u00e9 o fim da vida. Foi um dos maiores ge\u00f3logos brasileiros, com uma <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/hcsm\/v15n3\/10.pdf\">vasta obra em termos cient\u00edficos<\/a> e primeiro diretor do Servi\u00e7o Geol\u00f3gico Brasileiro, j\u00e1 na Rep\u00fablica. <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/2018\/08\/14\/ciencia-no-brasil\/\">Mas isso s\u00e3o outras hist\u00f3rias&#8230;<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Expedi%C3%A7%C3%A3o_Thayer\">Expedi\u00e7\u00e3o Thayer<\/a> era um presente de Natanael Thayer para seu amigo Agassiz. Agassiz foi um professor importante da <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Harvard_University\">Universidade de Harvard<\/a>. Todavia, nos \u00faltimos anos, dedicara-se a construir o Museu de Zoologia daquela universidade. Era um cientista poderoso e popular.<\/p>\n<h5>AGASSIZ: CRIACIONSMO E GELO<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify\">No entanto, Agassiz estava desgostoso nos Estados Unidos. L\u00e1, come\u00e7ava a ter alguns contratempos. Agassiz era o defensor de uma teoria criacionista e polig\u00eanica, que negava veementemente os ind\u00edcios da nascente teoria da evolu\u00e7\u00e3o de Darwin. Embora ainda poderoso e popular, ele come\u00e7ou a enfrentar resist\u00eancias entre seus jovens alunos e alguns eminentes colegas, como o <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Asa_Gray\">bi\u00f3logo Asa Grey (1810 &#8211; 1888)<\/a> e o<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/James_Hall\"> ge\u00f3logo James Hall (1808 &#8211; 1898),<\/a> o criador da <a href=\"https:\/\/www.revistas.usp.br\/bigsd\/article\/view\/45345\/48957\">Teoria Geossinclinal<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Todavia, Louis Agassiz viera ao Brasil para recuperar sua sa\u00fade e sua paz de espirito e fazer pesquisas. Contudo, ainda muito jovem, fora o primeiro a determinar a exist\u00eancia de uma \u201cera do gelo\u201d na Europa e Am\u00e9rica do Norte. Seus dados e sua interpreta\u00e7\u00e3o sobre as glacia\u00e7\u00f5es do que hoje chamamos de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Pleistoceno\">Pleistoceno<\/a> foram muito importantes para o entendimento da hist\u00f3ria da Terra.<\/p>\n<h5>O FRACASSO DE AGASSIZ NO BRASIL<\/h5>\n<figure id=\"attachment_1058\" aria-describedby=\"caption-attachment-1058\" style=\"width: 220px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1058\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/10\/art4223img5-220x300.jpg\" alt=\"\" width=\"220\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/10\/art4223img5-220x300.jpg 220w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/10\/art4223img5.jpg 290w\" sizes=\"(max-width: 220px) 100vw, 220px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1058\" class=\"wp-caption-text\">uma das fotos tiradas por Agassiz no Brasil, para ilustrar suas teses racialistas. Entretanto, os negros e \u00edndios brasileiros foram mais complexos que as ideias do cientista, que n\u00e3o deu seguimento \u00e0 pesquisa<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">Agora, no entanto,\u00a0 Agassiz viera ao Brasil para provar que a sua teoria de uma grande glacia\u00e7\u00e3o se aplicava tamb\u00e9m \u00e0 Am\u00e9rica do Sul. Da mesma forma, viera para provar outra teoria: que a miscigena\u00e7\u00e3o racial formava o que se chamava de ra\u00e7as degeneradas. Tanto um quanto outra n\u00e3o prosperaram: ge\u00f3logos brasileiros, como o <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0104-87752005000200010\">Bar\u00e3o de Capanema (1824 &#8211; 1908)<\/a>, ousaram afrontar o grande s\u00e1bio e mostraram que os dep\u00f3sitos glaciais das serranias cariocas eram produtos de dep\u00f3sitos torrenciais recentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Todavia, a teoria racial de Agassiz jamais foi divulgada. Recentemente, <a href=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2010\/09\/04\/as-fotos-secretas-do-professor-agassiz\/\">uma mostra das \u201cfotografias secretas\u201d de Agassiz foi mostrada no Brasil<\/a>. Nela, as in\u00fameras fotos de \u00edndios e negros nus, que serviriam para provar que as ra\u00e7as no Brasil estariam se degenerando. Entretanto, a realidade era outra, e mais complexa do que as teorias racistas de Agassiz pudessem imaginar.<\/p>\n<h5>EDUCA\u00c7\u00c3O FEMININA E MIMIMI<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify\">Contudo, naquela noite de junho,\u00a0 as damas da corte estavam assistindo pela primeira vez a uma apresenta\u00e7\u00e3o cientifica. Algo come\u00e7ou a mudar. Cerca de dez anos depois, ainda timidamente, a educa\u00e7\u00e3o feminina j\u00e1 ousava ir al\u00e9m das prendas dom\u00e9sticas. Jornais discutiam a teoria da evolu\u00e7\u00e3o para mulheres. Desta forma, uma destas fontes de divulga\u00e7\u00e3o foram as cartas do jornalista Rangel S. Paio no Vulgarizador, jornal sobre temas cient\u00edficos que saiu no Rio entre 1870 a 1880.<\/p>\n<figure id=\"attachment_619\" aria-describedby=\"caption-attachment-619\" style=\"width: 259px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-619\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/09\/cj_maury_atwork-259x300.jpg\" alt=\"\" width=\"259\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/09\/cj_maury_atwork-259x300.jpg 259w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/09\/cj_maury_atwork.jpg 359w\" sizes=\"(max-width: 259px) 100vw, 259px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-619\" class=\"wp-caption-text\">Carlotta Maury no Laborat\u00f3rio de Paleontologia em Cornell (NY), data desconhecida (Arnold, 2014)<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">Ainda iria demorar para que as mulheres pudessem estudar numa faculdade e ter carreira acad\u00eamica. Como, naquela \u00e9poca, fez <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/2017\/09\/19\/carlotta-joaquina-maury-paleontologa\/\">a norte americana Carlota Joaquina Maury<\/a>, que n\u00f3s j\u00e1 discutimos aqui. Mimimi, dizem alguns hoje em dia quando as mulheres protestam por seu espa\u00e7o na sociedade. Quem viveu estas experiencias sabe que nunca foi nem \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Uma breve espiadela naquela reuni\u00e3o cientifica no Rio de Janeiro Imperial exp\u00f5e um grande abismo existente em nossa sociedade. E olhe que nem falamos dos escravos, que tanto impressionaram Louis e Elizabeth Agassiz em sua estadia no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Naquele mesmo ano de 1866 em que Louis e Elizabeth Agassiz estiveram no Rio, numa das travessas da cidade, uma mulher negra vendia comida na rua. Estava vestida de roupas africanas e colares de mi\u00e7angas coloridas. Com um turbante branco na cabe\u00e7a, fumava um cachimbo e olhava feliz para as crian\u00e7as que brincavam ao seu redor. Aquela mulher an\u00f4nima na noite carioca n\u00e3o poderia ser uma trisav\u00f3 de <a href=\"https:\/\/www.mariellefranco.com.br\/quem-e-marielle-franco-vereadora\">Marielle Franco<\/a>? Ou ent\u00e3o, de uma cientista importante, como <a href=\"http:\/\/Era uma noite fresca e agrad\u00e1vel de junho no Rio de Janeiro. Dentro do anfiteatro, o s\u00e1bio professor falava sobre os peixes da Amaz\u00f4nia num franc\u00eas suave e macio. O sal\u00e3o estava cheio. Na primeira fila, a esposa do s\u00e1bio cientista o olhava risonha, parecendo saborear o instante. Tamb\u00e9m na primeira fila saboreando o instante, mas de outra forma, estava um senhor louro, alto, de belos e tristes olhos verdes e com uma barba j\u00e1 bastante grisalha. O s\u00e1bio era o Ilustre Jean-Louis Agassiz, famoso bi\u00f3logo e paleont\u00f3logo franco-su\u00ed\u00e7o, radicado nos estados unidos. Sua esposa era Elizabeth Cary Agassiz, que acompanhava em sua viagem ao Brasil. O velho senhor de olhos verdes e barbas brancas era ningu\u00e9m mais ningu\u00e9m menos que o Imperador Pedro II. Aquela era a segunda palestra que Agassiz dava no Rio de janeiro. Na primeira, havia duas semanas, havia sido quebrado um tabu: fora a primeira vez no Rio que mulheres foram convidadas a participar de uma reuni\u00e3o cientifica. no sal\u00e3o n\u00e3o haviam muitas mulheres, mas j\u00e1 era um come\u00e7o. Havia pouco, Agassiz havia perguntado ao imperador porque as mulheres n\u00e3o participavam dos encontros cient\u00edficos da corte. O imperador n\u00e3o entendeu direito a pergunta, e disse que elas n\u00e3o se interessavam \u201cpor estes assuntos\u201d. No entanto Agassiz insistiu, e Dom Pedro assentiu em convidar tamb\u00e9m as mulheres. Elas viriam com seus maridos, como era de costume nas festividades da corte. Haviam v\u00e1rias delas segundo o Dr Pacheco Jord\u00e3o, \u201cmuito interessadas\u201d em assuntos cient\u00edficos. Um pouco incomodadas, segundo Elizabeth Agassiz, pois n\u00e3o sabiam como deveriam se trajar para aquela ocasi\u00e3o, elas acabaram vindo em pequeno n\u00famero na primeira palestra. Na segunda, o n\u00famero j\u00e1 era um pouco maior. Em suas palestras, Agassiz falou sobre os peixes da Amaz\u00f4nia, que ele viera estudar no \u00e2mbito da Expedi\u00e7\u00e3o Thayer. Esta expedi\u00e7\u00e3o, financiada em parte pelo milion\u00e1rio americano s. Thayer e em arte pelo governo brasileiro, durou dois anos, e teve com alvo principais o Rio de Janeiro e o entorno da Corte, e a Amaz\u00f4nia. Na expedi\u00e7\u00e3o Thayer vieram alguns cientistas ajudantes de Agassiz, que eram seus alunos nos Estados Unidos. Entre eles estava Charles Nathanael Hartt (18xx-1877), ge\u00f3logo americano e futuro fundador do primeiro Servi\u00e7o Geol\u00f3gico brasileiro, a Comiss\u00e3o Geol\u00f3gica do Imp\u00e9rio. Como auxiliar de Hartt viera tamb\u00e9m um jovem aprendiz, Orville derby. Derby teve ali selado o destino de sua vida. Depois de completar seus estudos em Cornell, Derby veio para o Brasil auxiliar Hart em sua expedi\u00e7\u00e3o, a primeira grande expedi\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica financiada pelo governo imperial. Com a morte de Hartt em 1877 e o fim da Comiss\u00e3o Geol\u00f3gica do Imp\u00e9rio, Derby ficou por aqui at\u00e9 o fim da vida. Foi um dos maiores ge\u00f3logos brasileiros, com uma vasta obra em termos cient\u00edficos e primeiro diretor do Servi\u00e7o Geol\u00f3gico Brasileiro, j\u00e1 na Rep\u00fablica. Mas isso s\u00e3o outras hist\u00f3rias... A expedi\u00e7\u00e3o Thayer era um presente de Natanael Thayer para seu amigo Agassiz. Agassiz foi professor da Universidade de Harvard. Nos \u00faltimos anos, dedicara-se a construir o museu de zoologia daquela universidade. Era um cientista poderoso e popular. No entanto, Agassiz estava desgostoso nos Estados Unidos. L\u00e1, come\u00e7ava a ter alguns desgostos. Como defensor de uma teoria criacionista e polig\u00eanica, que negava veementemente os ind\u00edcios da nascente teoria da evolu\u00e7\u00e3o de Darwin, ele come\u00e7ou a enfrentar resist\u00eancias entre seus jovens alunos e alguns eminentes colegas, como o bi\u00f3logo Asa Grey e o ge\u00f3logo James Hall, o criador da teoria Geossinclinal. Viera ao brasil para recuperar sua sa\u00fade e sua paz de espirito e fazer pesquisas. Agassiz fora o primeiro a determinar a exist\u00eancia de uma \u201cera do gelo\u201d na Europa e Am\u00e9rica do Norte. Seus dados e sua interpreta\u00e7\u00e3o sobre as glacia\u00e7\u00f5es do que hoje chamamos de Pleistoceno foram muito importantes para o entendimento da hist\u00f3ria da terra. Agora, Agassiz viera ao Brasil para provar que a sua teoria de uma grande glacia\u00e7\u00e3o se aplicava tamb\u00e9m \u00e0 am\u00e9rica do Sul. Da mesma forma, viera para provar outra teoria: que a miscigena\u00e7\u00e3o racial formava o que se chamava de ra\u00e7as degeneradas. Tanto um quanto outra n\u00e3o prosperaram: ge\u00f3logos brasileiros, como o Bar\u00e3o de Capanema, ousaram afrontar o grande s\u00e1bio e mostraram que os dep\u00f3sitos glaciais das serranias cariocas eram produtos de dep\u00f3sitos torrenciais recentes. A teoria racial de Agassiz jamais foi divulgada. Recentemente, uma mostra das \u201cfotografias secretas\u201d de Agassiz foi mostrada no Brasil. Nela, as in\u00fameras fotos de \u00edndios e negros nus, que serviriam para provar que as ra\u00e7as no Brasil estariam se degenerando. A realidade era outra, e mais complexa do que as teorias racistas de Agassiz pudessem imaginar. Contudo, naquela anoite de junho, onde as damas da corte estavam assistindo pela primeira vez a uma apresenta\u00e7\u00e3o cientifica, algo come\u00e7ou a mudar. Cerca de dez anos depois, ainda timidamente, a educa\u00e7\u00e3o feminina j\u00e1 ousava ir al\u00e9m das prendas dom\u00e9sticas. Jornais discutiam a teoria da evolu\u00e7\u00e3o para mulheres, como as cartas do jornalista Rangel S. paio no Vulgarizador, jornal sobre temas cient\u00edficos que saiu no rio entre 1870 a 1880. Ainda iria demorar para que as mulheres pudessem estudar numa faculdade e ter carreira acad\u00eamica, como fez a norte americana Carlota Joaquina Maury, que n\u00f3s j\u00e1 discutimos aqui. Mimimi, dizem alguns hoje em dia quando as mulheres protestam por seu espa\u00e7o na sociedade. Quem viveu esta experiencia sabe que nunca foi nem \u00e9 f\u00e1cil. Uma breve espiadela naquela reuni\u00e3o cientifica no Rio de Janeiro Imperial exp\u00f5e um grande abismo existente em nossa sociedade. E olhe que nem falamos dos escravos, que tanto impressionaram Louis e Elizabeth Agassiz em sua estadia no Rio de janeiro. Naquele mesmo ano de 1866 em que Louis e Elizabeth Agassiz estiveram no Rio, numa das travessas da cidade, uma mulher negra vendia comida na rua. Estava vestida de roupas africanas e colares de mi\u00e7angas coloridas. Com um turbante branco na cabe\u00e7a, fumava um cachimbo e olhava feliz para as crian\u00e7as que brincavam ao seu redor. Aquela mulher an\u00f4nima na noite carioca n\u00e3o poderia ser uma trisav\u00f3 de Marielle Franco? Ou ent\u00e3o, de uma cientista importante, como S\u00f4nia Guimar\u00e3es ou Anita Canavarro? Degenera\u00e7\u00e3o? Viva o Povo Brasileiro!\">S\u00f4nia Guimar\u00e3es\u00a0 ou Anita Canavarro<\/a>?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Viva o Povo Brasileiro!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma noite fresca e agrad\u00e1vel de junho no Rio de Janeiro. Dentro do anfiteatro, o s\u00e1bio professor falava sobre os peixes da Amaz\u00f4nia num franc\u00eas suave e macio. O sal\u00e3o estava cheio. Na primeira fila, a esposa do s\u00e1bio cientista o olhava risonha, parecendo saborear o instante. Tamb\u00e9m na primeira fila saboreando o instante, &hellip; <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/2018\/10\/15\/mulheres-e-ciencia-no-brasil\/\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">MULHERES ASSISTINDO UMA PALESTRA CIENTIFICA<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":277,"featured_media":1056,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[12,13,91,92,23],"tags":[93,35,109],"class_list":["post-1052","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ciencias","category-geociencias","category-historia","category-jefferson-picanco","category-tempo-geologico","tag-historia-da-ciencia","tag-mudancas-climaticas","tag-mulheres-cientistas-geociencias-paleontologia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1052","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/277"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1052"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1052\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1060,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1052\/revisions\/1060"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1056"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1052"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1052"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1052"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}