{"id":1064,"date":"2018-11-11T11:42:19","date_gmt":"2018-11-11T13:42:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/?p=1064"},"modified":"2018-11-14T14:50:39","modified_gmt":"2018-11-14T16:50:39","slug":"as-duas-mortes-de-luzia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/2018\/11\/11\/as-duas-mortes-de-luzia\/","title":{"rendered":"As duas mortes de Luzia"},"content":{"rendered":"<p>Oi! Quer saber meu nome? A minha tribo me chamava de Loo-dj-ahn. Mas isso foi h\u00e1 muito tempo atr\u00e1s, antes mesmo de minha primeira morte. Hoje, pelo que sei, me chamam de Luzia. Acho que \u00e9 como entendem meu nome. Como soa aos ouvidos das pessoas de hoje. Ou \u00e9 uma coincid\u00eancia. Sei l\u00e1.<\/p>\n<h5>O ENIGMA DA CAVERNA<\/h5>\n<figure id=\"attachment_1068\" aria-describedby=\"caption-attachment-1068\" style=\"width: 211px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1068\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/11\/d0306012001.jpg\" alt=\"\" width=\"211\" height=\"250\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1068\" class=\"wp-caption-text\">Este \u00e9 meu Cranio de verdade; atras, est\u00e1 como voc\u00eas imaginaram que eu fosse&#8230;<\/figcaption><\/figure>\n<p>Desculpe se sou confusa, se meu racioc\u00ednio \u00e9 meio falho. De fato, tenho problemas em entender o que \u00e9 a verdade e o que n\u00e3o \u00e9. Sei, pelos relatos que escuto, que hoje voc\u00eas tamb\u00e9m est\u00e3o com dificuldades de entender o que \u00e9 verdade e o que \u00e9 mentira. Escutei estes dias um termo que deixou confusa: <a href=\"https:\/\/www.infoescola.com\/sociedade\/fake-news\/\">Fake News, ou noticia falsa<\/a>. Voc\u00eas acreditam em noticia falsa?<\/p>\n<p>Eu vivi boa parte de minha primeira morte numa caverna. Onze mil anos, se minhas contas estiverem certas. N\u00e3o sei se voc\u00eas sabem, mas quando se vive em cavernas a realidade \u00e9 meio confusa. N\u00e3o sabemos ao certo se as sombras que vemos s\u00e3o fantasia ou s\u00e3o realidade. Por muito tempo, achei que as sombras que v\u00edamos eram a verdade. Contudo, hoje, sei que eram somente proje\u00e7\u00f5es na parede da caverna. Soa meio confuso, mas \u00e9 assim. \u00c9 um enigma da caverna. <a href=\"http:\/\/www.usp.br\/nce\/wcp\/arq\/textos\/203.pdf\">Uma alegoria, como dizem alguns de voc\u00eas<\/a>.<\/p>\n<h5>A MORTE DE LOO-DJ-AHN<\/h5>\n<p>De qualquer forma, meu nome \u00e9 Loo-dj-ahn, e eu perten\u00e7o aos Humanos. Minha tribo representa os melhores ca\u00e7adores de nosso lugar. Em nosso falar, humano \u00e9 &#8220;<em>Croovijz<\/em>&#8220;. Por isso talvez voc\u00eas outros nos chamem de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Cultura_Cl%C3%B3vis\">povos de Clovis<\/a>. Mas, pensando bem,\u00a0 pode ser tamb\u00e9m coincid\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o me lembro ao certo como morri. Fui ficando doente, tinha dores de barriga, dor de cabe\u00e7a, n\u00e3o conseguia mais acompanhar as mulheres. Entretanto, minha tribo tentou me curar com ervas e rezas. Meus olhos foram turvando, turvando, e depois n\u00e3o ouvi mais nada. Quando dei por mim eu j\u00e1 estava dentro da caverna, onde me sepultaram. Meu corpo foi coberto por tintas m\u00e1gicas para avisar os esp\u00edritos ancestrais dos Humanos. No meu funeral, devem ter me virado para o norte, que era de onde haviam vindo nossos ancestrais.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 disse, minha primeira morte durou onze mil anos. H\u00e1 uns poucos anos atr\u00e1s, o que restou de mim foi encontrado por um povo estranho que tirava seu sustento de desencavar gente de seu tumulo ancestral. Mas, antes disso eu soube que\u00a0<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/tag\/peter-lund\/\">um senhor chamado Peter Lund<\/a> havia come\u00e7ado a explorar as grutas na nossa \u00e1rea. Ele retirou milhares de metros c\u00fabicos de terra e achou milhares de ossos, de animais e de humanos, que ele remeteu para seu pa\u00eds natal, a Dinamarca.<\/p>\n<h5>NUM LUGAR CHAMADO MUSEU<\/h5>\n<p>Muitos outros foram resgatados por estes povos escavadores. Entretanto, dos humanos, os Croovijz, s\u00f3 eu. Dos outros povos que habitavam nossa regi\u00e3o, como os Larga-ossos, os B\u00e1rbaros do sul e os Pega-peixe (esses eram os nomes que n\u00f3s d\u00e1vamos a eles), v\u00e1rios foram resgatados.<\/p>\n<p>Fomos levados para um lugar escuro, muito longe da caverna onde me acharam. L\u00e1, fomos iluminados, apalpados, medidos. Contudo, quando come\u00e7aram a me chamar de Luzia, a principio achei que sabiam minha l\u00edngua. Mas sabem nada. Falam muita bobagem sobre n\u00f3s, tentam adivinhar o que \u00e9ramos e o que faz\u00edamos somente olhando nossos ossos e vendo os utens\u00edlios que faz\u00edamos.<\/p>\n<p>Depois, tentaram adivinhar como era meu rosto&#8230;erraram feio. <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/tag\/peter-lund\/\">Tentaram de novo<\/a>&#8230;erraram de novo. Por que eles querem saber tanto do mim?<\/p>\n<h5>A MORTE DE LUZIA<\/h5>\n<p>No entanto, eu estava tranquila nesta minha nova vida. Pensavam que, como Luzia, estaria tranquila. Foi quando, numa noite dessas eu vi o fogo. Estava muito quente e podia-se escutar as madeiras do teto estalando. Muita fuma\u00e7a na sala onde est\u00e1vamos. Foi quando ouvimos um grande estrondo e o teto desabou. Essa foi minha segunda morte.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1067\" aria-describedby=\"caption-attachment-1067\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1067\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/11\/Inc\u00eandio-do-Museu-Nacional-696x463-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/11\/Inc\u00eandio-do-Museu-Nacional-696x463-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/11\/Inc\u00eandio-do-Museu-Nacional-696x463.jpg 696w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1067\" class=\"wp-caption-text\">Esse lugar que voc\u00eas chamam Museu, pegando fogo&#8230;essa foi minha segunda morte!<\/figcaption><\/figure>\n<p>Contudo, minha segunda morte foi mais curta. Cerca de um m\u00eas depois, eu comecei a ouvir barulhos, movimento acima de mim. Estavam escavando atr\u00e1s de meus restos de novo? Que obsess\u00e3o \u00e9 esta?<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/rj\/rio-de-janeiro\/noticia\/2018\/10\/19\/fossil-de-luzia-pode-ter-sido-encontrado-em-escombros-do-museu-nacional-dizem-pesquisadores.ghtml\">Depois de um tempo, me acharam ali, soterrada sob as cinzas do inc\u00eandio<\/a>. Nunca vi tanto alvoro\u00e7o. Os caras que estavam escavando gritavam. Alguns choravam de alegria. Eu estava de volta.<\/p>\n<h5>O MUSEU E A TRIBO<\/h5>\n<p>Soube que o lugar onde estava tinha um nome de Museu. Era um pr\u00e9dio grande e bonito. Mas sempre ouvia falar de problemas. O povo que cuidava de mim sempre reclamava que o pr\u00e9dio estava em perigo. Perigo de qu\u00ea? eu pensava: de um ataque de b\u00e1rbaros inimigos? De grandes animais selvagens?<\/p>\n<p>No entanto, parece que eles n\u00e3o tinham recebido muito recurso para manter o Museu. <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/2018\/09\/05\/a-tragedia-do-museu-nacional-uma-tragedia-da-cultura-brasileira\/\">Faltavam recursos para o pr\u00e9dio ser seguro, para evitar inc\u00eandios<\/a>. Depois, os chefes da tribo de voc\u00eas n\u00e3o estavam interessados nessa hist\u00f3ria de Museu. Ouvi que um dos chefes havia reclamado: <a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/eleicoes\/2018\/noticias\/2018\/09\/04\/ja-pegou-fogo-quer-que-eu-faca-o-que-diz-bolsonaro-sobre-museu.htm\">\u201cJ\u00e1 pegou fogo, quer que eu fa\u00e7a o qu\u00ea?\u201d.<\/a><\/p>\n<p>Preciso dizer que achei esta fala t\u00edpica de b\u00e1rbaro, desses bem primitivos. Eles nunca assumem a responsabilidade do que fazem, como crian\u00e7as grandes. Falam alguma coisa, depois voltam atr\u00e1s. Querem deixar tudo confuso. Ou n\u00e3o sabem direito o que est\u00e3o fazendo. Minha segunda morte tem a ver com essa confus\u00e3o dentro da tribo que me resgatou da caverna.<\/p>\n<h5>A VIDA \u00c9 CURTA&#8230;<\/h5>\n<p>Agora, estou esperando ser reconduzida \u00e0 minha sala tranquila. L\u00e1, dezenas de pessoas passavam admirando meu esqueleto e vendo o modelo de meu rosto. Contudo, eu sei que ele n\u00e3o \u00e9 meu verdadeiro rosto. Eu tamb\u00e9m bem sei, no entanto, que nunca v\u00e3o adivinhar como era o meu verdadeiro rosto. Mas eu sinto um certo orgulho deste rosto eu virei.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1069\" aria-describedby=\"caption-attachment-1069\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1069\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/11\/20181108_00_cranio_luzia2-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"169\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/11\/20181108_00_cranio_luzia2-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/11\/20181108_00_cranio_luzia2-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/11\/20181108_00_cranio_luzia2-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/11\/20181108_00_cranio_luzia2.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1069\" class=\"wp-caption-text\">\u00e0 direita, o paradigma antigo; \u00e0 esquerda, o paradigma atual&#8230;voc\u00eas continuam errando&#8230;<\/figcaption><\/figure>\n<p>Os barbaros que me desencavaram\u00a0 dizem que sou um dos humanos mais antigos do pa\u00eds deles. Me admiram. Os b\u00e1rbaros que cuidam de mim me tratam muito bem. Entretanto,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/2018\/09\/20\/uma-politica-cientifica-para-o-brasil\/\">os chefes da tribo deles, n\u00e3o ligam para ossos de gente<\/a>. Ouvi dizer que eles gostam de uma coisa chamada dinheiro. Por esse tal de dinheiro brigam o tempo todo. Algumas vezes, se matam.<\/p>\n<p>Contudo, n\u00e3o sei o que aconteceu com minha tribo. Sinto saudades deles. Mas ao mesmo tempo admiro esta tribo barbara que tanto empenho tem de cuidar de mim. Apesar dos chefes que eles escolhem para eles mesmos. Podem me chamar de Luzia. Loo-dj-ahn j\u00e1 morreu uma vez. Luzia, outra. Espero ainda durar mais um pouco, ver mais algumas coisas, aprender.<\/p>\n<p>Mas o que se pode esperar mais de uma curta vida de onze mil e poucos anos?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>PS &#8211; agrade\u00e7o \u00e0 Gustavo Teramatsu por me alertar sobre o novo paradigma do rosto de Luzia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Oi! Quer saber meu nome? A minha tribo me chamava de Loo-dj-ahn. Mas isso foi h\u00e1 muito tempo atr\u00e1s, antes mesmo de minha primeira morte. Hoje, pelo que sei, me chamam de Luzia. Acho que \u00e9 como entendem meu nome. Como soa aos ouvidos das pessoas de hoje. Ou \u00e9 uma coincid\u00eancia. Sei l\u00e1. 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