{"id":139,"date":"2016-09-27T16:29:53","date_gmt":"2016-09-27T19:29:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/?p=139"},"modified":"2016-09-27T16:29:54","modified_gmt":"2016-09-27T19:29:54","slug":"morte-casualidade-e-explosoes-ou-como-fazer-um-fossil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/2016\/09\/27\/morte-casualidade-e-explosoes-ou-como-fazer-um-fossil\/","title":{"rendered":"Morte, casualidade e explos\u00f5es: ou como &#8220;fazer&#8221; um f\u00f3ssil"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Quando dois restos (f\u00f3sseis) s\u00e3o encontrados lado-a-lado numa rocha, \u00e9 poss\u00edvel afirmar com 100% de certeza que ambos viveram juntos e morreram juntos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ou ainda&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quando se encontra um resto de um (ou mais) organismo(s) em determinado local, \u00e9 poss\u00edvel afirmar de antem\u00e3o que este(s) organismo(s) viveu(ram) ali?<\/p>\n<figure id=\"attachment_146\" aria-describedby=\"caption-attachment-146\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-146\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2016\/09\/carl-sagan-300x167.jpg\" alt=\"Texto de Carl Sagan, cientista americano famoso por ser um grande divulgador de ci\u00eancia.\" width=\"300\" height=\"167\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2016\/09\/carl-sagan-300x167.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2016\/09\/carl-sagan-768x428.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2016\/09\/carl-sagan-1024x571.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2016\/09\/carl-sagan-128x72.jpg 128w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-146\" class=\"wp-caption-text\">Texto de Carl Sagan, cientista americano famoso por ser um grande divulgador de ci\u00eancia.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">Estas s\u00e3o algumas das perguntas que n\u00f3s paleont\u00f3logos fazemos quando estudamos os f\u00f3sseis de um determinado local. J\u00e1 adianto que a resposta para ambas perguntas \u00e9 negativa. Existem diversas situa\u00e7\u00f5es envolvidas na preserva\u00e7\u00e3o de um resto. \u00c9 err\u00f4neo pensar que simplesmente por terem sido preservados lado-a-lado os organismos tamb\u00e9m conviviam (compartilhavam o mesmo ambiente), ou ainda, que morreram pelo mesmo motivo. Existem casos em que os organismos sequer viveram no mesmo momento, tendo milhares de anos de diferen\u00e7a entre si, mas s\u00e3o, por acaso, preservados na mesma camada, lado-a-lado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ent\u00e3o se tivermos o seguinte registro: um dente de dinossauro (que viveu no Mesozoico) preservado ao lado da garra de uma pregui\u00e7a gigante (do Cenozoico) n\u00f3s temos em m\u00e3os um registro com mistura temporal. Estes dois organismos n\u00e3o compartilhavam o mesmo ambiente porque n\u00e3o viveram sequer na mesma era geol\u00f3gica (um \u00e9 o Mesozoico e outro do Cenozoico). Mas como \u00e9 que estes dois restos foram parar ali, juntos? Muitos s\u00e3o os eventos que podem levar \u00e0 mistura temporal. Neste caso em espec\u00edfico podemos pensar que o dente de dinossauro j\u00e1 havia sido preservado e foi retrabalhado (carregado e depositado) com sedimentos mais novos que por um acaso continham restos do referido mam\u00edfero gigante&#8230; A mistura temporal \u00e9, portanto, uma das eventualidades que podem alterar\/modificar o registro fossil\u00edfero, tornando-o um pouco mais dif\u00edcil de ser compreendido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas ainda antes de chegarmos \u00e0 possibilidade da mistura temporal existe uma outra grande conting\u00eancia: da preserva\u00e7\u00e3o (ou n\u00e3o) do resto. \u00c9 preciso que fique claro para voc\u00ea que nem todos os organismos produzem f\u00f3sseis. Existe uma s\u00e9rie de fatores\u00a0que ocorrem deste o momento em que ele morre at\u00e9 o momento em que alguma pessoa o encontra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quais s\u00e3o, ent\u00e3o, as chances de se produzir um f\u00f3ssil? Em 99,9% das vezes em que um organismo morre, ele \u00e9 destru\u00eddo. Ent\u00e3o (sendo otimista), em 0,1% dos casos a possibilidade existe, persiste. Pense, tamb\u00e9m, que quanto mais antigo este resto (ou vest\u00edgio) \u00e9, maiores s\u00e3o as chances de ele ser destru\u00eddo, pois mais tempo a natureza tem para que ele seja \u201creciclado\u201d. E ainda&#8230; mesmo que este f\u00f3ssil persista at\u00e9 os dias atuais, quais s\u00e3o as chances de ele ser encontrado por algu\u00e9m? Num planeta que atualmente possui 149,67 milh\u00f5es de km<sup>2<\/sup> de \u00e1reas emersas&#8230; as chances s\u00e3o pequenas (claro que do total dessa \u00e1rea, nem todas as rochas dispon\u00edveis s\u00e3o as sedimentares, mas mesmo assim, as possibilidades s\u00e3o baixas). Por isso escolhi a palavra: conting\u00eancia, no sentido de acaso, eventualidade e\/ou possibilidade (ou n\u00e3o) de algo acontecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Vou tentar ilustrar isso com o que vi e aprendi numa visita \u00e0s cavernas de Sterkfontein, na \u00e1rea de Joanesburgo, \u00c1frica do Sul, e que, inclusive, est\u00e1 muito bem explicado neste\u00a0<a href=\"https:\/\/youtu.be\/FFuwyBEq1IA\">v\u00eddeo<\/a>. Vou contar a hist\u00f3ria da descoberta e das eventualidades envolvidas, voltando no tempo at\u00e9 o momento de \u201cprodu\u00e7\u00e3o\u201d deste registro do passado&#8230; me acompanhe!<\/p>\n<figure id=\"attachment_147\" aria-describedby=\"caption-attachment-147\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-147\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2016\/09\/cave1-300x169.jpg\" alt=\"Uma das cavernas abertas para visita\u00e7\u00e3o em Sterkfontein, no Ber\u00e7o da Humanidade, Johanesburgo, \u00c1frica do Sul\" width=\"300\" height=\"169\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2016\/09\/cave1-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2016\/09\/cave1-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2016\/09\/cave1-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2016\/09\/cave1-128x72.jpg 128w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-147\" class=\"wp-caption-text\">Uma das cavernas abertas para visita\u00e7\u00e3o em Sterkfontein, no Ber\u00e7o da Humanidade, Joanesburgo, \u00c1frica do Sul<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">Ali, numa \u00e1rea que \u00e9 denominada \u201co ber\u00e7o da humanidade\u201d os estudos paleoantropol\u00f3gicos ocorrem desde os anos 1935, na busca por f\u00f3sseis de homin\u00eddeos. No entanto, a regi\u00e3o foi imensamente explorada para a produ\u00e7\u00e3o de calc\u00e1rio, antes de ser tombada como patrim\u00f4nio da\u00a0humanidade. Neste tipo de explora\u00e7\u00e3o, as cavernas s\u00e3o abertas por dinamites&#8230; sim, dinamites, explos\u00f5es, destrui\u00e7\u00e3o(!).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mesmo tendo sido imensamente explorada, \u00e9 bem plaus\u00edvel de se dizer que foram estas explos\u00f5es que levaram \u00e0s descobertas j\u00e1 feitas na regi\u00e3o, uma vez que possibilitaram o acesso ao local e aos f\u00f3sseis depositados dentro destas cavernas. Sim, \u00e9 prov\u00e1vel que muitos devem ter sido perdidos, explodidos, mas penso que, de outra forma, os cientistas n\u00e3o teriam conseguido chegar at\u00e9 ali;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">&#8230;\u00e9 ou n\u00e3o e muito acaso envolvido? Mas as eventualidades ainda n\u00e3o terminaram. As descobertas mais recentes, principalmente em cavernas que foram pouco exploradas pelos mineradores (ou seja, que sofreram menos implos\u00f5es), s\u00e3o de homin\u00eddeos bastante completos, isto \u00e9, com muitos ossos de seus corpos preservados juntos, o que \u00e9 extremamente raro na paleoantropologia.\u00a0Segundo Lee Berger, um eminente paleontrop\u00f3logo envolvido nas \u00faltimas descobertas dali, existem mais pesquisadores na \u00e1rea do que f\u00f3sseis para se estudar. Ent\u00e3o a descoberta de esqueletos de homin\u00eddeos com muitos ossos \u00e9 excepcional.<\/p>\n<figure id=\"attachment_143\" aria-describedby=\"caption-attachment-143\" style=\"width: 202px\" class=\"wp-caption alignright\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-143\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2016\/09\/20160826_153236-202x300.jpg\" alt=\"Matthew Berger, o menino que encontrou um dos f\u00f3sseis de homin\u00eddeos mais completo at\u00e9 o momento, o de Australopithecus sediba.\" width=\"202\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2016\/09\/20160826_153236-202x300.jpg 202w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2016\/09\/20160826_153236-768x1141.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2016\/09\/20160826_153236-689x1024.jpg 689w\" sizes=\"(max-width: 202px) 100vw, 202px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-143\" class=\"wp-caption-text\">Matthew Berger, o menino que encontrou um dos f\u00f3sseis de homin\u00eddeos mais completo at\u00e9 o momento, o de<strong> Australopithecus sediba<\/strong>.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">Se voltarmos ainda mais no tempo e tentarmos imaginar os motivos que levaram a um homin\u00eddeo morrer ali, vamos perceber mais um \u201clance de dados\u201d envolvido: as explica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas para estas descobertas apontam que as cavernas que possuem estes f\u00f3sseis de homin\u00eddeos quase completos n\u00e3o eram seus locais de vida. Muito provavelmente, h\u00e1 cerca de 1,8 M.a., estes homens e mulheres do passado estavam caminhando na savana e inadvertidamente ca\u00edram para dentro das cavernas, onde pereceram, seus ossos fossilizaram, e foram descobertos ap\u00f3s explos\u00f5es dos mineradores da regi\u00e3o os colocarem mais acess\u00edveis aos cientistas que ali come\u00e7aram a explorar o potencial fossil\u00edfero da regi\u00e3o (anos 2000)&#8230;ufa&#8230;!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quando algu\u00e9m me pergunta se, durante minha vida profissional, j\u00e1 encontrei algum f\u00f3ssil importante, a primeira coisa que vem em minha cabe\u00e7a \u00e9&#8230; seria isso realmente essencial? Ser\u00e1 que devo ir ao campo esperando encontrar um f\u00f3ssil \u201cimportante\u201d? e, afinal de contas, o que \u00e9 um f\u00f3ssil importante? Espero que o texto tenha conseguido mostrar que qualquer registro de vida do passado \u00e9 importante e extremamente raro; e muitas s\u00e3o as casualidades envolvidas em sua preserva\u00e7\u00e3o. Nada mais raro e especial que poder olhar para (um piscar de olhos) (d)o passado e compreend\u00ea-lo!<\/p>\n<pre>At\u00e9 o pr\u00f3ximo <em>post<\/em>!\r\n\r\nN\u00e3o deixem de comentar...<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando dois restos (f\u00f3sseis) s\u00e3o encontrados lado-a-lado numa rocha, \u00e9 poss\u00edvel afirmar com 100% de certeza que ambos viveram juntos e morreram juntos? Ou ainda&#8230; Quando se encontra um resto de um (ou mais) organismo(s) em determinado local, \u00e9 poss\u00edvel afirmar de antem\u00e3o que este(s) organismo(s) viveu(ram) ali? 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