{"id":186,"date":"2016-11-01T09:11:47","date_gmt":"2016-11-01T11:11:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/?p=186"},"modified":"2016-11-01T09:11:48","modified_gmt":"2016-11-01T11:11:48","slug":"vamos-deixar-o-mamute-extinto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/2016\/11\/01\/vamos-deixar-o-mamute-extinto\/","title":{"rendered":"Vamos deixar o mamute extinto"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">H\u00e1 poucos anos se v\u00eam noticiando mundo a fora tentativas mirabolantes de trazer animais j\u00e1 extintos de volta \u00e0 vida, como o grandioso mamute. Este grande animal pleistoc\u00eanico \u00e9 o maior alvo desta ideia por raz\u00f5es diferenciadas, dentre elas, a facilidade de encontrar seus corpos mumificados extremamente bem preservados devido ao aparecimento de diversos esp\u00e9cimes por conta do derretimento do gelo em regi\u00f5es como a Sib\u00e9ria. N\u00e3o \u00e9 de se estranhar que, vendo-os assim t\u00e3o bem preservados, a ideia de \u201creviv\u00ea-los\u201d fica extremamente atraente, seja pelo fasc\u00ednio que estes grandes animais despertam, seja pela ambi\u00e7\u00e3o de ser dono de um grande feito como este.<\/p>\n<figure id=\"attachment_190\" aria-describedby=\"caption-attachment-190\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-190\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2016\/10\/mamute-mumificado-300x181.jpg\" alt=\"Beb\u00ea mamute mumificado. Cr\u00e9ditos: Martin Meissner\" width=\"300\" height=\"181\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2016\/10\/mamute-mumificado-300x181.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2016\/10\/mamute-mumificado.jpg 564w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-190\" class=\"wp-caption-text\">Beb\u00ea mamute mumificado. Cr\u00e9ditos: Martin Meissner<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas ser\u00e1 que a interfer\u00eancia nos caminhos que foram tra\u00e7ados naturalmente pela hist\u00f3ria do nosso planeta seria realmente uma boa ideia? O que seria do pobre mamute, que fora adaptado para os per\u00edodos glaciais da Terra, a habitar grandes espa\u00e7os, correr atr\u00e1s de suas presas e se defender de seus predadores, bem ao modo da Era do Gelo? Os tempos eram outros, as caracter\u00edsticas f\u00edsicas e ambientais de nosso planeta eram outras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O surgimento de novas tecnologias na \u00e1rea da biologia molecular tende a agu\u00e7ar a mente dos pesquisadores mais ambiciosos, o que \u00e9 excelente para novas descobertas, chances de desenvolvimento de cura e tratamento de doen\u00e7as, e principalmente, um maior dom\u00ednio e possibilidade de manipula\u00e7\u00e3o do genoma de in\u00fameras esp\u00e9cies, incluindo o ser humano. E por que n\u00e3o os mamutes?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em meados de 2015, o geneticista George Church, de Harvard, e seus colaboradores, anunciaram que utilizaram uma t\u00e9cnica de \u201cedi\u00e7\u00e3o de genes chamada CRISPR (do ingl\u00eas\u00a0<em>Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats, <\/em>ou seja, Repeti\u00e7\u00f5es\u00a0Palindr\u00f4micas\u00a0Curtas Agrupadas e Regularmente Interespa\u00e7adas) para inserir genes de mamute em elefantes. Estes genes inseridos seriam os respons\u00e1veis pela express\u00e3o de alguns caracteres dos mamutes, como tamanho das orelhas mais reduzido, cor e comprimento dos pelos e a presen\u00e7a de gordura subcut\u00e2nea. \u00c9 claro que pesquisadores como estes t\u00eam em mente que, apesar da ideia soar simples, h\u00e1 muitas quest\u00f5es em jogo, como a rea\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas \u00e0 express\u00e3o desses genes, se de fato conseguiriam dar origem \u00e0 tecidos especializados, etc.<\/p>\n<p><iframe title=\"Genome Editing with CRISPR-Cas9\" width=\"604\" height=\"340\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2pp17E4E-O8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Pensando em um futuro n\u00e3o muito distante, e se por acaso um experimento como este tivesse sucesso? E se nascesse um mamute de um elefante vivo? Outra quest\u00e3o importante a se pensar \u00e9 com rela\u00e7\u00e3o aos efeitos do meio externo ao fen\u00f3tipo (caracter\u00edsticas f\u00edsicas do organismo que t\u00eam origem da express\u00e3o dos genes). Seria um h\u00edbrido com caracter\u00edsticas t\u00e3o semelhantes assim aos mamutes pleistoc\u00eanicos? S\u00e3o in\u00fameras quest\u00f5es a serem pensadas al\u00e9m do experimento em laborat\u00f3rio. Pensando em um sucesso ainda maior (que \u00e9 com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sobreviv\u00eancia desses h\u00edbridos), at\u00e9 quanto tempo viveriam? Ou seriam saud\u00e1veis por quanto tempo? E penando na manuten\u00e7\u00e3o desses animais, teriam eles, obviamente, que ficarem restritos \u00e0 ambientes polares, com alimenta\u00e7\u00e3o fornecida e especializada, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quero deixar claro que n\u00e3o estou querendo levantar somente os aspectos negativos deste tipo de pesquisa, at\u00e9 por que acho que a ousadia \u00e9 um est\u00edmulo para mover a Ci\u00eancia, e nela h\u00e1 espa\u00e7o para qualquer experimento, desde que esteja de acordo com as quest\u00f5es \u00e9ticas. Mas o objetivo deste post \u00e9 levantar as implica\u00e7\u00f5es \u00e0 longo prazo e gerar uma reflex\u00e3o do quanto valeria a pena realizar tal fa\u00e7anha. Apenas sou mais adepta da ideia de se utilizar t\u00e9cnicas como esta, por enquanto, para tentar auxiliar na luta contra a extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies atuais devido \u00e0s a\u00e7\u00f5es antr\u00f3picas, por exemplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Como diz a famosa express\u00e3o, a natureza sabe o que faz. \u00a0Os eventos de extin\u00e7\u00e3o que ocorreram ao longo da hist\u00f3ria da vida na Terra, sejam eles por causa da pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o da geosfera (por exemplo, o movimento das placas tect\u00f4nicas e vulcanismo, que expeliram enormes quantidades de gases na atmosfera), ou por intera\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas (competi\u00e7\u00e3o entre esp\u00e9cies, preda\u00e7\u00e3o, etc), ou como obra do acaso (como os impactos de corpos celestes), apesar de terem sido catastr\u00f3ficos para os seres que viviam nestes per\u00edodos, foram respons\u00e1veis pela \u201creciclagem\u201d da vida na Terra, ou seja, possibilitaram o surgimento de novos organismos, de novos nichos, at\u00e9 a vida se moldar ao que conhecemos hoje. Estamos aqui devido \u00e0s extin\u00e7\u00f5es ocorridas? Provavelmente elas t\u00eam grande parte nisso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A evolu\u00e7\u00e3o da vida tende a acompanhar as mudan\u00e7as que a Terra vai sofrendo com o passar do tempo geol\u00f3gico, mas o tempo sentido pelo homem \u00e9 curto demais, tem uma escala muito, mas muito menor. Ent\u00e3o tendemos a n\u00e3o enxergar os benef\u00edcios causados por eventos catastr\u00f3ficos ou mudan\u00e7as naturais, quanto menos ainda perceber os efeitos que o ambiente causa, \u00e0 longo prazo, no sucesso ou \u201cfracasso\u201d da sobreviv\u00eancia de uma esp\u00e9cie. Pensando desta maneira, apesar de tamb\u00e9m sermos agentes causadores de mudan\u00e7as, nossas a\u00e7\u00f5es est\u00e3o causando um preju\u00edzo \u00e0 biodiversidade do planeta muito mais al\u00e9m da conta para a recupera\u00e7\u00e3o natural dessas extin\u00e7\u00f5es provocadas. Mas isto seria uma discuss\u00e3o para outro post.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quanto aos mamutes? Por mim \u00e9 melhor deix\u00e1-los extintos, para o bem deles, e para o bem do nosso planeta. Sim, a natureza sabe o que faz, e \u00e0s vezes o acaso faz bem tamb\u00e9m!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 poucos anos se v\u00eam noticiando mundo a fora tentativas mirabolantes de trazer animais j\u00e1 extintos de volta \u00e0 vida, como o grandioso mamute. 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