{"id":482,"date":"2017-06-27T20:07:51","date_gmt":"2017-06-27T23:07:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/?p=482"},"modified":"2018-11-14T15:00:58","modified_gmt":"2018-11-14T17:00:58","slug":"o-que-e-um-fossil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/2017\/06\/27\/o-que-e-um-fossil\/","title":{"rendered":"O QUE \u00c9 UM F\u00d3SSIL?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Voc\u00ea sabe o que \u00e9 um f\u00f3ssil?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Se nos perguntassem hoje o que significa a palavra f\u00f3ssil, a resposta seria mais do que \u00f3bvia. Contudo, uma r\u00e1pida olhadinha no Google e logo saberemos, por meio de diversos sites, que f\u00f3sseis s\u00e3o restos ou vest\u00edgios de organismos vivos, que foram preservados no interior dos sedimentos e das rochas. Entretanto, os cinemas, filmes de aventura como \u201c<em>Jurassic Park<\/em>\u201d ou anima\u00e7\u00f5es como \u201c<em>A Era do Gelo<\/em>\u201d sempre nos colocam em contato direto com essas fant\u00e1sticas criaturas que viveram tempos atr\u00e1s. Lojas de brinquedo nos oferecem f\u00f3sseis para colorir, para montar, para pregar na parede. Existe inclusive uma rede de lojas com este nome, que vende \u201crel\u00f3gios e estilo de vida\u201d. Assim, os f\u00f3sseis est\u00e3o em nossas mentes, em nossas casas e em nossas vidas t\u00e3o naturalmente que nos fazem pensar que foi sempre assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na verdade, se fosse perguntado aos s\u00e1bios do passado, eles sequer iriam entender nossa pergunta. Contudo, n\u00e3o faria nenhum sentido para eles essa hist\u00f3ria de f\u00f3ssil, de organismo extinto, nada disso. Por outro lado, nem mesmo o nome \u201cf\u00f3ssil\u201d faria sentido. O que hoje chamamos de f\u00f3ssil era chamado de \u201c<em>rochas com forma de animais<\/em>\u201d, \u201c<em>madeiras petrificadas<\/em>\u201d, ou qualquer outra coisa. Mesmo a palavra f\u00f3ssil teria outro significado, significando coisa escavada, desenterrada. \u00c9 essa a acep\u00e7\u00e3o do latim \u201c<em>fossile\u201d<\/em>. No s\u00e9culo XVI, por exemplo, qualquer coisa desencavada da terra, como rochas e minerais, seriam \u201cf\u00f3sseis\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O m\u00e9dico Georg Bauer (1494-1555), tamb\u00e9m conhecido pelo nome latinizado de Georgius Agr\u00edcola, era de fato um dos maiores especialistas de seu tempo em assuntos do reino mineral. \u00a0Agr\u00edcola viveu na rica prov\u00edncia mineira da Sax\u00f4nia, e escreveu v\u00e1rios livros sobre rochas minerais. Ali\u00e1s, um estes livros, publicado em 1546, chamava-se justamente \u201c<em>De Nature Fossilium<\/em>\u201d, que poder\u00edamos traduzir como \u201cDa Natureza das Rochas e Minerais\u201d. As cole\u00e7\u00f5es de materiais que ele denomina f\u00f3sseis cont\u00e9m \u201c<em>pedras, terras, gemas, betume, \u00e2mbar<\/em>\u201d. As \u201c<em>rochas com forma de animais e de plantas<\/em>\u201d, como se dizia nesta \u00e9poca, eram somente mais um item destes materiais. Eram, entretanto, objeto de mera curiosidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Antes ainda, na Idade M\u00e9dia, vamos encontrar usos diversos para os f\u00f3sseis. Algumas igrejas, como a Igreja de S\u00e3o Pedro em Linkeliholt, na Inglaterra, por exemplo, foi decorada com f\u00f3sseis de equinoides (veja a figura abaixo).\u00a0 Por outro lado, os f\u00f3sseis tinham tamb\u00e9m uma fun\u00e7\u00e3o decorativa, devido ao seu formato regular e sim\u00e9trico. Desta forma, desde o neol\u00edtico at\u00e9 tempos hist\u00f3ricos, foram encontrados jazigos humanos de diversas idades, onde os f\u00f3sseis est\u00e3o junto com os cad\u00e1veres ali enterrados. Isto pode sugerir que foram usados como objetos rituais e m\u00e1gicos ou talism\u00e3s.<\/p>\n<figure id=\"attachment_486\" aria-describedby=\"caption-attachment-486\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-486\" src=\"http:\/\/www.blogs.ea2.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/06\/post1a-300x193.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"193\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/06\/post1a-300x193.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/06\/post1a-768x493.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/06\/post1a-1024x658.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/06\/post1a.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-486\" class=\"wp-caption-text\">P\u00f3rtico da igreja de S\u00e3o Pedro em Linkeliholt, Inglaterra, decorada com 25 f\u00f3sseis de equinodermos; (<a href=\"https:\/\/pbs.twimg.com\/media\/CmLry5rXIAAHQqc.jpg:medium\">ver aqui<\/a>)<\/figcaption><\/figure>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-487 size-medium alignleft\" src=\"http:\/\/www.blogs.ea2.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/06\/post1b-300x238.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"238\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/06\/post1b-300x238.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/06\/post1b.jpg 675w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><span style=\"color: #220e10;font-size: 18px;font-style: italic\">Tumba de mulher e crian\u00e7a da idade do Bronze em Dunstable Towns, Inglaterra, circundada por f\u00f3sseis de equinoides. Desenho de Reginald Smith, 1894. (\u00a0<\/span><a style=\"font-size: 18px;font-style: italic\" href=\"http:\/\/www.themodernantiquarian.com\/img_fullsize\/92427.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\">Ver aqui)<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Falando em usos religiosos dos f\u00f3sseis, vale a pena comentar, entretanto, alguns exemplos. <a href=\"https:\/\/www.revistaforum.com.br\/fora-temer-e-vai-dar-pt-no-carnaval-tiram-reporteres-da-globonews-do-serio\/\">Primeiramente<\/a>, podemos citar os amonitas, moluscos que viveram desde o Devoniano at\u00e9 o Cret\u00e1ceo. Para come\u00e7ar, estes moluscos devem seu nome a seu formato elegantemente espiralado, assemelhando-se a chifres das cabras. Por causa desta semelhan\u00e7a, segundo Pl\u00ednio o velho, o nome amonitas se deve \u00e0 sua denomina\u00e7\u00e3o como \u201c<em>os cornos de Amon<\/em>\u201d, o deus eg\u00edpcio que tinha chifre de cabra. Na \u00cdndia, alguns f\u00f3sseis de amonitas, como o <em>Meekoceras varaha<\/em>, encontrado no Tri\u00e1ssico do Himalaia Central, \u00e9 tido como um dos Chakras de Vishnu. Ali\u00e1s, <em>varaha<\/em>, o nome da esp\u00e9cie, \u00e9 um dos avatars de Vishnu na Mitologia do Hinduismo. Alias, Carolina Zabini tamb\u00e9m discutiu muito bem em outro post deste blog a origem dos drag\u00f5es e a paleontologia (<a href=\"http:\/\/www.blogs.ea2.unicamp.br\/paleoblog\/2017\/01\/24\/sobre-dragoes-e-fosseis\/#comment-46\">ver aqui<\/a>).<\/p>\n<figure id=\"attachment_485\" aria-describedby=\"caption-attachment-485\" style=\"width: 229px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-485\" src=\"http:\/\/www.blogs.ea2.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/06\/post1d.jpg\" alt=\"\" width=\"229\" height=\"220\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-485\" class=\"wp-caption-text\">O Chakra de Vishnu e o amonite como objeto religioso na \u00cdndia; (\u00a0<a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/figure\/249551803_fig5_Fig-5-Ammonites-echinoderms-worshipped-as-Saligrams-by-Hindus\">ver aqui )<\/a><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">Como isso tudo mudou? Como chegamos at\u00e9 aqui? A moderna concep\u00e7\u00e3o de \u201cf\u00f3ssil\u201d como restos de organismos \u00e9 bastante recente, de meados do s\u00e9culo XVIII. Por outro lado, esta mudan\u00e7a no conceito de f\u00f3ssil e a compreens\u00e3o dos fosseis como organismos e n\u00e3o como curiosidades ou talism\u00e3s est\u00e1 no discurso de funda\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias naturais modernas. Isso n\u00e3o \u00e9 pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Figurinhas carimbadas da Hist\u00f3ria da Ci\u00eancia tiveram um papel decisivo nesse debate, como Steno, Palissy, Cuvier e outros. Mas n\u00e3o s\u00f3. Mesmo an\u00f4nimos colecionadores e vendedores de f\u00f3sseis tiveram um papel importante. Por exemplo,\u00a0 a brit\u00e2nica Mary Anning (1799-1847), foi uma das mais respeitadas colecionadoras de f\u00f3sseis do s\u00e9culo XIX. Por outro lado, um humilde top\u00f3grafo ingl\u00eas, William Smith (1769-1839), reconheceu a distribui\u00e7\u00e3o dos fosseis nas camadas ao longo dos canais constru\u00eddos na Inglaterra no s\u00e9culo XVIII para o transporte de carv\u00e3o. Como resultado, criou as bases da estratigrafia moderna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"text-align: justify\">Em conclus\u00e3o, Ess<\/span><span style=\"text-align: justify\">as s\u00e3o algumas pe\u00e7as do debate sobre os f\u00f3sseis que veremos por aqui. Os f\u00f3sseis dizem muito\u00a0tamb\u00e9m sobre n\u00f3s, e n\u00e3o s\u00f3 os f\u00f3sseis de homin\u00eddeos. De onde viemos? Para onde vamos? Esses p\u00e1lidos restos escondidos nas pedras t\u00eam muito a nos contar, enquanto esperamos pelo pr\u00f3ximo meteoro.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para saber mais:<\/p>\n<p>Chandrasekharam, D. (2007). Geo-mythology of India.\u00a0<em>Geological Society, London, Special Publications<\/em>,\u00a0<em>273<\/em>(1), 29-37.<\/p>\n<p>McNamara, K. J. (2007). Shepherds&#8217; crowns, fairy loaves and thunderstones: the mythology of fossil echinoids in England.\u00a0<em>Geological Society, London, Special Publications<\/em>,\u00a0<em>273<\/em>(1), 279-294.<\/p>\n<p>Georg Agricola. (1955).\u00a0<em>De Natura Fossilium (Textbook of Mineralogy): Translated from the First Latin Ed. of 1546 by Mark Chance Bandy and Jean A. Bandy for the Mineralogical Society of America<\/em>\u00a0(No. 63). Geological Society of America, pc1955.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea sabe o que \u00e9 um f\u00f3ssil? Se nos perguntassem hoje o que significa a palavra f\u00f3ssil, a resposta seria mais do que \u00f3bvia. 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