{"id":547,"date":"2017-08-22T12:52:18","date_gmt":"2017-08-22T15:52:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/?p=547"},"modified":"2018-11-14T15:07:53","modified_gmt":"2018-11-14T17:07:53","slug":"o-monstro-de-prados-simao-pires-sardinha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/2017\/08\/22\/o-monstro-de-prados-simao-pires-sardinha\/","title":{"rendered":"O Monstro do Pleistoceno e o filho de  Chica da Silva"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Uma coisa estranha aconteceu na lavra de ouro do Padre Lopes. Durante as escava\u00e7\u00f5es para retirada do cascalho, come\u00e7aram a aparecer uns ossos muito grandes. Contudo, t\u00e3o grandes eram os ossos, que os escravos a princ\u00edpio acreditaram tratar-se de um grande tronco enterrado. Desta forma, os ossos estavam dif\u00edceis de ser retirados intactos, e foram quebrados com p\u00e1s, picaretas e enxadas. Da mesma forma, come\u00e7aram a aparecer cabelos e foram achados tamb\u00e9m dois dentes de um animal muito estranho. Seria um monstro?\u00a0Assustados, os escravos pararam a escava\u00e7\u00e3o e chamaram o capataz, que tamb\u00e9m ficou assustado com o que viu.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/extinctmonsters.net\/2013\/10\/07\/the-artist-in-his-museum-peales-mastodon\/\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-583\" src=\"http:\/\/www.blogs.ea2.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/08\/teeths_mastodon.jpg\" alt=\"\" width=\"233\" height=\"217\" \/><\/a><\/p>\n<figure id=\"attachment_583\" aria-describedby=\"caption-attachment-583\" style=\"width: 233px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-583 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/08\/teeths_mastodon.jpg\" alt=\"\" width=\"233\" height=\"217\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-583\" class=\"wp-caption-text\">Dentes de mastodonte encontrados em Nova York no s\u00e9culo XVIII. Seriam similares aos do Monstro de Prados?<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">Corria o m\u00eas de maio do ano de Nosso Senhor de 1785. Este fato aconteceu na regi\u00e3o de Prados, na Comarca do Rio das Mortes. Todavia, os moradores informaram o Governador da Capitania, D. Lu\u00eds da Cunha Menezes, sobre o achado. Assim, o governador Dom Luiz, tomado de grande curiosidade, enviou ao local um dos seus mais competentes naturalistas, Sim\u00e3o Pires Sardinha. Sardinha esteve na lavra do Padre Lopes e investigou a ossada ainda naquele ano. Depois de analisar a lavra e coletar ossos, dentes e cabelos,\u00a0 elaborou um relat\u00f3rio (naquela \u00e9poca dizia-se mem\u00f3ria) sobre aquele estranho material.<\/p>\n<h5><em>&#8220;UNS OSSOS MUITO ESTRANHOS&#8221;<\/em><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify\">Esta mem\u00f3ria intitulou-se \u201c<em>Descrip\u00e7\u00e3o de huns Ossos n\u00e3o conhecidos, que apparecerao em Mayo de 1785 na Cappitania de Minas Geraes do Estado do Brazil<\/em>\u201d. \u00a0Foi enviado a Portugal possivelmente junto com os materiais coletados. S\u00e3o conhecidas duas c\u00f3pias da Mem\u00f3ria de Sim\u00e3o Pires Sardinha. A primeira est\u00e1 no Arquivo Hist\u00f3rico Ultramarino de Lisboa. A segunda, no Arquivo Hist\u00f3rico do Museu Bocage\/Museu Nacional de Hist\u00f3ria Natural da Universidade de Lisboa. J\u00e1 os materiais coletados foram extraviados, e n\u00e3o se tem ideia onde estejam atualmente. Mais informa\u00e7\u00f5es pode ser encontradas no interessante artigo de Ant\u00f4nio Carlos Fernandes e colaboradores (<a href=\"http:\/\/www.abfhib.org\/FHB\/FHB-07-1\/FHB-07-1-01-Antonio-Carlos-S-Fernandes_MT-Antunes_JM-Brandao_RRC-Ramos.pdf\">aqui<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Pelo tamanho dos ossos encontrados, Sardinha estima que o animal deveria ter algo entre 46 e 56 palmos de comprimento (cerca de 10 a 12 m). Assim, Descreve tamb\u00e9m dois dentes encontrados no s\u00edtio de Prados: \u201c<em>Estes dentes n\u00e3o s\u00e3o de animal conhecido no Brasil, pode ser que sejam de algum animal, que pelas revolu\u00e7\u00f5es do tempo se tenha perdido a sua esp\u00e9cie<\/em>\u201d. Os cabelos, segundo sua descri\u00e7\u00e3o, pareciam de seres humanos. Como estes materiais foram encontrados juntamente com res\u00edduos de esp\u00e9cies recentes, como jacarand\u00e1 e pinheiro do Brasil, levam Sardinha a concluir que se tratava de um ser humano de extraordin\u00e1ria dimens\u00e3o, um \u201c<em>gigante de quarenta palmos em raz\u00e3o dos dentes pela boa osteologia<\/em>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sup\u00f5e-se que o \u201cgigante\u201d de Sim\u00e3o Pires Sardinha, tamb\u00e9m conhecido como \u201cO Monstro de Prados\u201d, era provavelmente um mastodonte (para uma discuss\u00e3o contempor\u00e2nea: <a href=\"http:\/\/www.blogs.ea2.unicamp.br\/paleoblog\/2016\/11\/01\/vamos-deixar-o-mamute-extinto\/\">aqui)<\/a>. Para Sardinha, naquela \u00e9poca e naquelas circunst\u00e2ncias, qualquer solu\u00e7\u00e3o diferente era muito dif\u00edcil (para saber como \u00e9 hoje: <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/category\/fresia-s-ricardi-branco\/page\/2\/\">ver aqui<\/a>).<\/p>\n<h5>O REI MASTODONTE<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify\">Uma ossada de mastodonte encontrada no s\u00e9culo XVII \u00a0num dep\u00f3sito de cascalho na Fran\u00e7a foi durante muitos anos descrita como a ossada do \u201cRei gigante\u201d Theotobhucus, antigo rei dos povos germ\u00e2nicos. Outra ossada, descoberta em 1705 nos aluvi\u00f5es do rio Hudson, no estado de Nova Iorque foi durante descrita na \u00e9poca como o \u201cGigante de Claverack\u201d, nome da localidade onde foi achado (<a href=\"http:\/\/newyorkhistoryblog.org\/2013\/12\/02\/size-matters-new-yorks-mastodons\/\">\u00a0ver aqui ).<\/a><\/p>\n<figure id=\"attachment_580\" aria-describedby=\"caption-attachment-580\" style=\"width: 282px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-580\" src=\"http:\/\/www.blogs.ea2.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/08\/MundusSubterraneus-282x300.jpg\" alt=\"\" width=\"282\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/08\/MundusSubterraneus-282x300.jpg 282w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/08\/MundusSubterraneus-768x818.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/08\/MundusSubterraneus.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 282px) 100vw, 282px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-580\" class=\"wp-caption-text\">Os Gigantes descritos por Athanasius Kircher no &#8220;Mundus Subterraneus&#8221; (1678)<\/figcaption><\/figure>\n<figure id=\"attachment_580\" aria-describedby=\"caption-attachment-580\" style=\"width: 282px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-580\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/08\/MundusSubterraneus-282x300.jpg\" alt=\"\" width=\"282\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/08\/MundusSubterraneus-282x300.jpg 282w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/08\/MundusSubterraneus-768x818.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/08\/MundusSubterraneus.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 282px) 100vw, 282px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-580\" class=\"wp-caption-text\">Os Gigantes descritos por Atanasius Kircher no &#8220;Mundus Subterraneus&#8221; (1678)<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">Havia, na \u00e9poca, uma cren\u00e7a de que a Terra era uma ru\u00edna, lugar deca\u00eddo e sem for\u00e7as. Na sua inf\u00e2ncia, antes do Diluvio universal, a terra chegara a ser habitada por gigantes, como havia mostrado Athanasius Kircher (1601-1680), Jesu\u00edta e um das maiores estudiosos de Hist\u00f3ria Natural de seu tempo. Os grandes esqueletos achados sob os aluvi\u00f5es supostamente pertenciam a estes gigantes antediluvianos. Outra explica\u00e7\u00e3o para esqueletos de elefantes era que pertenciam a animais que vieram da \u00c1frica com An\u00edbal e outros conquistadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A solu\u00e7\u00e3o para o problema de Sardinha veio dez anos depois que ele escreveu sua Mem\u00f3ria. Em 1\u00ba Pluviose do 4\u00baAno da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa (26 de janeiro de 1796) Georges Cuvier leu na sess\u00e3o do Instituto Nacional de Ci\u00eancias e artes de Paris uma mem\u00f3ria que dava uma outra solu\u00e7\u00e3o para o problema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A mem\u00f3ria de Cuvier intitulava-se \u201c<em>M\u00e9moire sur les esp\u00e9ces d&#8217;\u00c9lephants tant vivents que fossiles<\/em>\u201d [Mem\u00f3ria sobre esp\u00e9cies de elefantes tanto vivas quanto extintas]. Nele, Cuvier explica que o mamute era uma esp\u00e9cie distinta do moderno elefante. Distinta e extinta. E come\u00e7a a surgir a <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/2017\/06\/27\/o-que-e-um-fossil\/\">Paleontologia<\/a> de vertebrados como conhecemos hoje.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/reviverestore.org\/projects\/woolly-mammoth\/about-the-woolly-mammoth\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-581 size-large\" src=\"http:\/\/www.blogs.ea2.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/08\/Georges_Cuvier_trans-1024x685.png\" alt=\"\" width=\"604\" height=\"404\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/08\/Georges_Cuvier_trans-1024x685.png 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/08\/Georges_Cuvier_trans-300x201.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/08\/Georges_Cuvier_trans-768x514.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/08\/Georges_Cuvier_trans.png 1569w\" sizes=\"(max-width: 604px) 100vw, 604px\" \/><\/a><\/p>\n<figure id=\"attachment_581\" aria-describedby=\"caption-attachment-581\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-581\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/08\/Georges_Cuvier_trans-300x201.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"201\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/08\/Georges_Cuvier_trans-300x201.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/08\/Georges_Cuvier_trans-768x514.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/08\/Georges_Cuvier_trans-1024x685.png 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/08\/Georges_Cuvier_trans.png 1569w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-581\" class=\"wp-caption-text\">Geroges Cuvier, Paleont\u00f3logo Franc\u00eas (1769-1832) e seus desenhos de mand\u00edbulas de mamute (acima) e de elefante moderno (abaixo)<\/figcaption><\/figure>\n<h5>O INICIO DA PALEONTOLOGIA NO BRASIL<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify\">Boa parte dos escritos sobre a hist\u00f3ria da Paleontologia de vertebrados no Brasil est\u00e1 ainda focada somente em escritos de Naturalistas estrangeiros, ap\u00f3s a chegada da fam\u00edlia real em 1808. No entanto, estes relatos ignoram uma realidade muito rica e interessante, que \u00e9 o desenvolvimento das ci\u00eancias no Imp\u00e9rio Portugu\u00eas sob o impulso das reformas de Pombal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A segunda metade do s\u00e9culo XVIII foi marcado por um grande esfor\u00e7o cientifico por parte dos naturalistas do imp\u00e9rio portugu\u00eas (para saber mais: <a href=\"http:\/\/repositorio.unicamp.br\/bitstream\/REPOSIP\/287411\/1\/Pataca,%20Ermelinda%20Moutinho.pdf\">aqui<\/a>) . Muitos destes naturalistas eram nascidos no Brasil. O mais famoso deles, \u00e9, sem d\u00favida, Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio. No entanto, existem outros, muitos outros, que merecem ser lembrados. Um deles, por sua singularidade e por sua hist\u00f3ria de vida, merece particularmente ser lembrado: Sim\u00e3o Pires Sardinha.<\/p>\n<h5>O FILHO ALFORRIADO<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify\">Sim\u00e3o Pires Sardinha nasceu escravo, em 1751. Seu pai, o comerciante portugu\u00eas Manoel Pires Sardinha somente libertou o menino que teve com a escrava Francisca Parda na pia batismal, como era o costume na \u00e9poca. Entretanto, pouco tempo depois, sua m\u00e3e foi vendida para outro comerciante portugu\u00eas, Jo\u00e3o Fernandes de Oliveira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Jo\u00e3o Fernandes logo alforriou Francisca e passou a viver maritalmente com ela. A escrava Francisca Parda passou ent\u00e3o a se chamar Francisca da Silva e Oliveira, nome com que se assinava. Para a hist\u00f3ria, ela hoje \u00e9 conhecida como Chica da Silva, a \u201c<em>Chica que manda<\/em>\u201d, uma das grandes senhoras do Distrito Diamantino no s\u00e9culo XVIII. O casal teve 13 filhos, sem contar o pequeno Sim\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.penaestrada.blog.br\/a-casa-de-chica-da-silva\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-582\" src=\"http:\/\/www.blogs.ea2.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/08\/casa_chica.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"180\" \/><\/a><\/p>\n<figure id=\"attachment_582\" aria-describedby=\"caption-attachment-582\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-582\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/08\/casa_chica.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"180\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-582\" class=\"wp-caption-text\">A casa de Francisca da Silva, a Chica da Silva, em Diamantina (MG). Nesta casa Sim\u00e3o Pires Sardinha viveu sua inf\u00e2ncia.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">Tendo recebido a heran\u00e7a paterna, Sim\u00e3o foi com o padrasto Jo\u00e3o Fernandes para a Europa. Graduou-se em artes em Coimbra. Foi cavaleiro da ordem de Cristo, a mais alta distin\u00e7\u00e3o concedida pelo reino para n\u00e3o-nobres. Para isso, teve que forjar o inqu\u00e9rito ao omitir o fato de sua m\u00e3e ter sido escrava. Na sociedade aristocr\u00e1tica da \u00e9poca, origens \u201cnobres\u201d eram o requisito para ser aceito. O dinheiro, que Sim\u00e3o possu\u00eda, era a outra.<\/p>\n<h5>SIM\u00c3O PIRES SARDINHA E A POLITICA NO BRASIL<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify\">Voltou ao Brasil com o governador Lu\u00eds da Cunha Menezes, por quem tinha grande admira\u00e7\u00e3o. No entanto, viver num pais de analfabetos fazia com que os escassos letrados que aqui viviam tivessem que ocupar muitas fun\u00e7\u00f5es diferentes. Desta forma, al\u00e9m da ocorr\u00eancia de Prados, Sim\u00e3o Sardinha foi tamb\u00e9m respons\u00e1vel pela captura do ex-Intendente dos Diamantes, Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Meireles, o Cabe\u00e7a de Ferro. Contudo, o Cabe\u00e7a de Ferro fugia para Portugal com ouro supostamente roubado da administra\u00e7\u00e3o, e foi preso por Sardinha antes de chegar ao Rio. Assim, com tantas e disparatadas atividades, muitas carreiras cientificas podiam ser facilmente desviadas para as necessidades da burocracia estatal. Esta foi nossa realidade durante muito tempo ainda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sardinha teve ainda participa\u00e7\u00e3o na Inconfid\u00eancia Mineira. Ao que tudo indica, Sim\u00e3o Pires Sardinha compartilhava dos ideais iluministas, embora soubesse jogar o jogo do Portugal aristocr\u00e1tico e absolutista. Desta forma, de volta a Portugal, contou no inqu\u00e9rito a que foi submetido ter sido procurado pelo alferes Joaquim Jos\u00e9 da Silva Xavier. O Tiradentes procurou Sardinha para que este traduzisse para o alferes um texto da Constitui\u00e7\u00e3o Americana. Texto subversivo, por certo. No entanto, Sim\u00e3o n\u00e3o sofreu nenhuma condena\u00e7\u00e3o e continuou vivendo em Portugal. Assim,\u00a0 gra\u00e7as a sua amizade com D. Jo\u00e3o VI, conseguiu ajudar seus meios-irm\u00e3os que ficaram no Brasil.<\/p>\n<h5>CI\u00caNCIA NA AMERICA PORTUGUESA?<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify\">Sim\u00e3o Pires Sardinha morreu em Portugal em 1808. Ironicamente, segundo muitos historiadores da ci\u00eancia, foi a partir deste ano que come\u00e7ou a Ci\u00eancia no Brasil. Contudo, a Mem\u00f3ria de Sardinha demostra que n\u00e3o. O fato \u00e9 que a Mem\u00f3ria do Monstro de Prados \u00e9 o mais antigo documento que trata do tema Paleontologia em territ\u00f3rio brasileiro. \u00c9 nossa certid\u00e3o de nascimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Entretanto, a descri\u00e7\u00e3o de Sim\u00e3o Pires Sardinha est\u00e1 de acordo com o conhecimento da \u00e9poca. Sua trajet\u00f3ria de vida indicam as dificuldades para se ter uma carreira em ci\u00eancias no Brasil. Contudo, se era dif\u00edcil no imp\u00e9rio Luso-americano dos setecentos, continua dif\u00edcil ainda hoje, no Brasil do s\u00e9culo XXI ( <a href=\"http:\/\/www.blogs.ea2.unicamp.br\/paleoblog\/2017\/07\/04\/como-e-vida-profissional-de-um-paleontologo-brasileiro\/\">veja e chore aqui<\/a>) ). Um tema moderno no pais de Temer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A trajet\u00f3ria pessoal de Sardinha liga a Paleontologia dos Vertebrados \u00e0 Chica da Silva.\u00a0N\u00e3o \u00e9 para qualquer um.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">Para saber mais:<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Furtado, J\u00fania Ferreira.\u00a0<strong><i>Chica da Silva e o contratador dos diamantes: o outro lado do mito<\/i><\/strong>. Editora Companhia das Letras, 2003.<\/p>\n<p>Semonin, Paul.\u00a0<strong><i>American monster: How the nation&#8217;s first prehistoric creature became a symbol of national identity<\/i><\/strong>. NYU Press, 2000.<\/p>\n<p>Rudwick, Martin JS.\u00a0<strong><i>The meaning of fossils: episodes in the history of palaeontology<\/i><\/strong>. University of Chicago Press, 2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma coisa estranha aconteceu na lavra de ouro do Padre Lopes. 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