{"id":710,"date":"2017-10-25T11:11:39","date_gmt":"2017-10-25T13:11:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/?p=710"},"modified":"2017-10-25T11:11:40","modified_gmt":"2017-10-25T13:11:40","slug":"quebra-de-paradigmas-e-idade-da-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/2017\/10\/25\/quebra-de-paradigmas-e-idade-da-terra\/","title":{"rendered":"A quebra de paradigmas e a idade da Terra"},"content":{"rendered":"<p>Voc\u00ea sabia que o estabelecimento da Geologia como ci\u00eancia surgiu com a constata\u00e7\u00e3o de que a idade da Terra \u00e9 avan\u00e7ada, e de que muitos de seus processos naturais levam centenas de milhares de anos para ocorrer? Vou contar um pouco dessa fascinante hist\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<pre><em>      \u201cSem vest\u00edgio de um come\u00e7o, sem perspectiva de um fim\u201d \r\n<\/em><\/pre>\n<figure id=\"attachment_714\" aria-describedby=\"caption-attachment-714\" style=\"width: 102px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-714\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/10\/SOTD-Web-Hutton-300px.png\" alt=\"\" width=\"102\" height=\"102\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/10\/SOTD-Web-Hutton-300px.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/10\/SOTD-Web-Hutton-300px-150x150.png 150w\" sizes=\"(max-width: 102px) 100vw, 102px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-714\" class=\"wp-caption-text\">James Hutton<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">Esta frase \u00e9 ic\u00f4nica do trabalho de James Hutton (1726-1797), um dos primeiros cientistas a pensar sobre a idade da Terra e o tempo envolvido nos processos geol\u00f3gicos, tais quais os reconhecemos hoje.<\/p>\n<figure id=\"attachment_713\" aria-describedby=\"caption-attachment-713\" style=\"width: 209px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-713 size-medium\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/10\/james_hutton_field-209x300.jpg\" alt=\"\" width=\"209\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/10\/james_hutton_field-209x300.jpg 209w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/10\/james_hutton_field-768x1102.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/10\/james_hutton_field-713x1024.jpg 713w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/10\/james_hutton_field.jpg 1070w\" sizes=\"(max-width: 209px) 100vw, 209px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-713\" class=\"wp-caption-text\">Hutton em campo, observando rochas com os perfis dos rostos de seus inimigos na ci\u00eancia.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">A concep\u00e7\u00e3o sobre uma Terra antiga, na Geologia, surgiu aos poucos. At\u00e9 meados do s\u00e9culo XVIII, a b\u00edblia servia de guia para datas e eventos; por isso, acreditava-se que a Terra n\u00e3o teria que 6.000 anos de idade. A influ\u00eancia religiosa era grande no meio cient\u00edfico. Podemos lembrar que o pr\u00f3prio Darwin (1809-1882) demorou anos recolhendo evid\u00eancias sobre a sua teoria evolutiva, tamb\u00e9m por conta de seu receio em revelar suas ideias; isso porque iam contra os valores religiosos na \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Porqu\u00ea, voc\u00ea se pergunta, a igreja tinha tal influ\u00eancia na ci\u00eancia? Era um livro de relatos, muito antigo. Como explicar o mundo e a origem de tudo? Muitos cientistas passaram a usar ci\u00eancia aliada aos relatos b\u00edblicos, na tentativa de calcular a idade do planeta. Al\u00e9m disso, acredito que fosse imoral pensar que Deus tivesse criado um mundo que pudesse ter esp\u00e9cies de organismos imperfeitas. Esp\u00e9cies que se extinguissem. Qual seria a raz\u00e3o para um ser superior criasse algo que n\u00e3o sobrevivesse \u201cpela eternidade\u201d? Historicamente podemos entrar no debate de que a igreja controlava o poder na \u00e9poca e que o homem era, neste contexto, a principal esp\u00e9cie vivente, sendo que o planeta havia sido criado para ele, por um ser superior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A quebra do dogma religioso e o reconhecimento de um tempo profundo para a idade da Terra se deu no s\u00e9c. XIX. Nessa \u00e9poca, as ideias de Darwin e Lyell (que viveu entre 1797-1875 e era seguidor de Hutton) se alinharam para explicar os fen\u00f4menos observ\u00e1veis na natureza org\u00e2nica e inorg\u00e2nica (tanto na vida e sua evolu\u00e7\u00e3o, quanto nos eventos geol\u00f3gicos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 neste momento que se retira do homem o papel de esp\u00e9cie \u201cmais desenvolvida\u201d. Os princ\u00edpios da evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, associados com a necessidade de uma Terra muito antiga, colocam o homem como mais uma esp\u00e9cie dentre centenas de milhares, quebrando assim, pelo menos em parte, a forte influ\u00eancia religiosa na ci\u00eancia. Mark Twain relata essa quebra com uma analogia que considero fant\u00e1stica, e traduzo de forma livre, a seguir:<\/p>\n<blockquote>\n<pre>\u201cO homem est\u00e1 aqui h\u00e1 32.000 anos. Que tenha levado 100.000 anos para preparar o mundo para sua chegada \u00e9 uma prova irrefut\u00e1vel de que o mundo em si foi criado para isso. Suponho isso, n\u00e3o sei. Se a torre Eiffel representasse agora a idade da Terra, a camada de tinta de seu pin\u00e1culo representaria a presen\u00e7a do homem na Terra; e todos iriam perceber que aquela casquinha de tinta representa a raz\u00e3o pela qual toda a torre foi constru\u00edda. Eu concluo isso, n\u00e3o sei\u201d.<\/pre>\n<\/blockquote>\n<p>Outra met\u00e1fora sobre a vastid\u00e3o do tempo e a presen\u00e7a do homem na Terra \u00e9 a de John McPhee, tamb\u00e9m traduzida livremente a seguir:<\/p>\n<blockquote>\n<pre>\u201cConsidere a hist\u00f3ria da Terra como a antiga medida de jarda inglesa, a dist\u00e2ncia do nariz do rei at\u00e9 a ponta de seu dedo, com o bra\u00e7o estendido. Uma lixada na unha de seu dedo m\u00e9dio e toda a hist\u00f3ria humana \u00e9 apagada\u201d.<\/pre>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-712 alignleft\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/10\/hutton-time-201x300.jpg\" alt=\"\" width=\"201\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/10\/hutton-time-201x300.jpg 201w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2017\/10\/hutton-time.jpg 214w\" sizes=\"(max-width: 201px) 100vw, 201px\" \/>Podemos dizer que Hutton e Lyell, observando os fen\u00f4menos do dia-a-dia da natureza e tamb\u00e9m eventos catastr\u00f3ficos preservados em rochas, foram capazes de predizer o que seria confirmado alguns anos mais adiante. Afinal de contas o processo de data\u00e7\u00e3o radioativa, que \u00e9 o que fornece a idade real das amostras de rochas, s\u00f3 veio a ser desenvolvido no in\u00edcio do s\u00e9c. XX. Assim como Darwin, Hutton e Lyell coletaram uma s\u00e9rie de informa\u00e7\u00f5es para corroborar as suas ideias de que a Terra era muito mais antiga da que retratava a b\u00edblia. Mas os n\u00fameros, aqueles \u201c4,5 bilh\u00f5es de anos\u201d que ouvimos falar sobre a idade do nosso planeta (e que chamamos de idade absoluta), s\u00f3 veio \u00e0 tona alguns anos depois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">De acordo com alguns fil\u00f3sofos da ci\u00eancia, como Thomas Kuhn (1922-1996), a ci\u00eancia caminha exatamente assim. S\u00e3o anos de trabalho na \u201cci\u00eancia comum\u201d, acumulando conhecimento, para que, de \u201cuma hora para outra\u201d, os paradigmas cient\u00edficos sejam quebrados, e novas ideias passem a vigorar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Retirar a esp\u00e9cie humana de seu pedestal n\u00e3o foi tarefa f\u00e1cil. A ci\u00eancia progride a passos lentos, delimitados por momentos de grande revolu\u00e7\u00e3o; al\u00e9m disso, est\u00e1 sempre enroscada no emaranhado contexto social, econ\u00f4mico, religioso e emocional em que cada um dos cientistas (pessoas), se inserem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<pre><em><strong>Onde encontrar mais informa\u00e7\u00f5es sobre Hutton e a concep\u00e7\u00e3o do tempo profundo:<\/strong>\r\n<\/em>\r\n<a href=\"https:\/\/www.smithsonianmag.com\/history\/father-modern-geology-youve-never-heard-180960203\/\">Clique aqui<\/a> para ser direcionado a uma mat\u00e9ria na p\u00e1gina do <em>Smithsonian Institute<\/em>.\r\n\r\nRelembre o nosso primeiro <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/2016\/10\/18\/quanto-tempo-demora\/\"><em>post<\/em> <\/a>sobre o tempo profundo\r\n<em><strong>Livros utilizados para este post:<\/strong><\/em>\r\n<a href=\"http:\/\/www.lojaofitexto.com.br\/decifrando-a-terra-2-ed-\/p\">Decifrando a Terra<\/a>\r\n<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Time%27s_Arrow,_Time%27s_Cycle\">Time\u00b4s arrow, time\u00b4s cycle\r\n\r\n<\/a><\/pre>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea sabia que o estabelecimento da Geologia como ci\u00eancia surgiu com a constata\u00e7\u00e3o de que a idade da Terra \u00e9 avan\u00e7ada, e de que muitos de seus processos naturais levam centenas de milhares de anos para ocorrer? Vou contar um pouco dessa fascinante hist\u00f3ria&#8230; \u201cSem vest\u00edgio de um come\u00e7o, sem perspectiva de um fim\u201d Esta &hellip; <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/2017\/10\/25\/quebra-de-paradigmas-e-idade-da-terra\/\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">A quebra de paradigmas e a idade da Terra<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":93,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[9,12,91,23],"tags":[123,125,124,122,126,121],"class_list":["post-710","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-carolina-zabini","category-ciencias","category-historia","category-tempo-geologico","tag-darwin","tag-datacao","tag-idade-da-terra","tag-james-hutton","tag-paradigmas","tag-tempo-profundo"],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/710","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/93"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=710"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/710\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":717,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/710\/revisions\/717"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=710"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=710"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=710"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}