{"id":752,"date":"2018-03-23T23:31:13","date_gmt":"2018-03-24T02:31:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/?p=752"},"modified":"2018-04-10T17:21:40","modified_gmt":"2018-04-10T20:21:40","slug":"a-ciencia-de-padre-kircher-revisitada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/2018\/03\/23\/a-ciencia-de-padre-kircher-revisitada\/","title":{"rendered":"Padre Kircher e as Brincadeiras da Natureza"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_812\" aria-describedby=\"caption-attachment-812\" style=\"width: 180px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Athanasius_Kircher#\/media\/File:Athanasius_Kircher.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-812\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/03\/fk.jpg\" alt=\"\" width=\"180\" height=\"281\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-812\" class=\"wp-caption-text\">Padre Athanasius Kircher (1602-1680)<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">Fazia um pouco de frio em Roma no dia em que padre Kircher morreu, aos 78 anos de idade, em 27 de novembro de 1680. O sol praticamente n\u00e3o apareceu, e um vento frio fazia a sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica piorar. No entanto, a vida seguia normal. A missa foi cantada em todas as igrejas da Cidade Eterna no hor\u00e1rio habitual. O com\u00e9rcio abriu normalmente. Enquanto isso, as pessoas circularam pela rua para seus neg\u00f3cios, compras e amores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Fazia j\u00e1 alguns anos que padre Athanasius Kircher andava doente. Surdo, sem enxergar direito e com lapsos grandes de mem\u00f3ria, ele raramente saia de sua cela. No entanto, ainda produzia: em carta daquele mesmo m\u00eas de novembro, provavelmente ditada por ele, padre Kircher se desculpava com seu interlocutor por causa de suas \u201c<em>m\u00e3os tr\u00eamulas<\/em>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Com sua morte, desapareceu de cena uma das personalidades da cultura mais interessantes do s\u00e9culo XVII. Isso n\u00e3o \u00e9 pouco, num s\u00e9culo que come\u00e7a com <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Giordano_Bruno\">Giordano Bruno<\/a>, <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Galileu_Galilei\">Galileu Galilei<\/a>, <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ren%C3%A9_Descartes\">Ren\u00e9 Descartes<\/a>, <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Baruch_Espinoza\">Baruch Spinoza<\/a> e vai at\u00e9 <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Isaac_Newton\">Isaac Newton<\/a>, entre tantos outros.<\/p>\n<h5>SABIA TUDO E N\u00c3O ENTENDEU NADA?<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify\">Padre Kircher comandou, a partir da <a href=\"https:\/\/www.vaticanlibrary.va\/\">Biblioteca do Vaticano<\/a>, que ele dirigiu por mais de cinquenta anos, um dos maiores projetos culturais de que se tem not\u00edcia. Seus mais de quarenta livros e seus inventos abrangem praticamente todas as esferas do conhecimento, desde a Lingu\u00edstica at\u00e9 a Geologia, a F\u00edsica e a Qu\u00edmica. Ele foi, segundo a historiadora Paula Findlein, sua bi\u00f3grafa, \u201c<em>o \u00faltimo homem que sabia de tudo<\/em>\u201d (d<a href=\"https:\/\/www.amazon.com\/Athanasius-Kircher-Last-Knew-Everything\/dp\/0415940168\">eixe Jeff Bezos mais rico aqui<\/a>).<\/p>\n<figure id=\"attachment_815\" aria-describedby=\"caption-attachment-815\" style=\"width: 249px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.vofoundation.org\/faith-and-science\/scientific-spectacle-baroque-rome-athanasius-kircher-roman-college-museum\/\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-815\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/03\/bib_vaticana.jpg\" alt=\"\" width=\"249\" height=\"203\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-815\" class=\"wp-caption-text\">Padre Kircher recebendo visitantes na Biblioteca Vaticana<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">Claro que tal ambi\u00e7\u00e3o tem seu pre\u00e7o. Conhecer tudo significa conhecer um pouco de tudo. Apesar de ser um erudito no mais amplo sentido da palavra, Kircher cometia gafes e frequentemente fazia falsas interpreta\u00e7\u00f5es. Quando leu o livro que padre Kircher escreveu tentando decifrar os hier\u00f3glifos eg\u00edpcios, o tamb\u00e9m pol\u00edmata <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Gottfried_Wilhelm_Leibniz\">Gotfried Leibniz<\/a> (1646-1716) escreveu: \u201c<em>ele [Kircher] n\u00e3o entendeu nada!<\/em>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Da mesma forma, o erudito ingl\u00eas <a href=\"http:\/\/www.oxfordreference.com\/view\/10.1093\/oi\/authority.20110803100149840\">Johann Burkhardt Mencke<\/a> (1674-1732) escreveu \u201c<em>De <a href=\"http:\/\/booksandjournals.brillonline.com\/content\/journals\/10.1163\/18796583-90001149\">Charlataneria eruditorum<\/a><\/em>\u201d [A charlatanice dos\u00a0eruditos], no qual faz uma imagem devastadora de Kircher. Sua caricatura de um charlat\u00e3o escrevendo coisas est\u00fapidas e sem sentido foi a imagem que ficou do Jesu\u00edta para a posteridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No entanto, passado tanto tempo, cabe perguntar: quem foi padre Kircher? Qual o seu alcance e seu significado? Quais seus pressupostos e qual sua vis\u00e3o de mundo? Em anos recentes, apareceram uma s\u00e9rie de livros e artigos revisitando e colocando sua vida e sua obra em perspectiva hist\u00f3rica. Um novo Kircher surgiu.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify\">CONHECIMENTO SEM LIMITES<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify\">Athanasius Kircher nasceu em Geisa, na Alemanha, em 1602. Era o ultimo de nove filhos de uma fam\u00edlia burguesa escolarizada. Segundo sua autobiografia, o jovem Athanasius era um \u201c<em>est\u00fapido propenso a acidentes<\/em>\u201d. Fez seus estudos no <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Companhia_de_Jesus\">Col\u00e9gio jesu\u00edta<\/a> de Paderborn, de onde quase foi expulso por sua sa\u00fade fraca. \u00a0Quando finalmente se formou, em 1627, foi admitido na pretigiosa Companhia de Jesus. alem disso, foi ser professor de grego e sir\u00edaco em Heilingenstadt, onde seu pai tamb\u00e9m havia lecionado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Fascinado pelo Oriente, Kircher pediu para ser enviado como mission\u00e1rio para a China, mas foi recusado pela sua Ordem. Logo a seguir, era ele teria que se mudar: a Alemanha estava sofrendo com a <a href=\"https:\/\/www.britannica.com\/event\/Thirty-Years-War\">Guerra dos Trinta Anos<\/a>, entre protestantes e cat\u00f3licos. O cat\u00f3lico e jesu\u00edta Kircher se refugiou em Avignon na Fran\u00e7a em 1632, fugindo das tropas protestantes do Rei Gustavo Adolfo da Su\u00e9cia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">De l\u00e1, Kircher foi para Roma, onde ficou at\u00e9 o fim de sua vida. Na Cidade Eterna, construiu uma reputa\u00e7\u00e3o de homem com muitos segredos e possuidor de textos secretos. Muitos n\u00e3o acreditavam nele, mas o padre Kircher parecia n\u00e3o se importar com isso. Passou a estudar, escrever e fabricar instrumentos os mais diversos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Trabalhando na Biblioteca do Vaticano, padre Kircher foi logo conquistando seu espa\u00e7o. Seus livros come\u00e7aram a ficar famosos, e sua reputa\u00e7\u00e3o ia aumentando. Padre Kircher escreveu sobre os hier\u00f3glifos eg\u00edpcios, sobre o magnetismo, sobre \u00f3tica, sobre os subterr\u00e2neos terrestres, sobre a hist\u00f3ria de Roma. Sobre quase tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 claro que muitos perceberam seus limites. <a href=\"https:\/\/fr.wikipedia.org\/wiki\/Nicolas-Claude_Fabri_de_Peiresc\">Nicolas-Claude Fabri de Peiresc<\/a> (1580-1637), filosofo e bot\u00e2nico franc\u00eas e um dos eruditos mais influentes da \u00e9poca, logo entendeu que os talentos de Kircher eram limitados. No entanto, percebeu seu entusiasmo e energia e apoiou v\u00e1rias das iniciativas do jovem Jesu\u00edta.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify\">KIRCHER DESCE AO INTERIOR DA TERRA<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify\">Um dos livros mais famosos de Kircher foi o <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Mundus_Subterraneus_(book)\"><em>Mundus Subterraneus<\/em><\/a>, de 1665. Nele, padre Kircher exp\u00f5e sua vis\u00e3o de mundo, fortemente marcada pelo Neoplatonismo e pelo Hermetismo. Para ele,\u00a0 Terra era uma s\u00f3, um imenso organismo vivo, governada pelos elementos fogo e \u00e1gua.<\/p>\n<figure id=\"attachment_816\" aria-describedby=\"caption-attachment-816\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-816\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/03\/kircher_3mundus-subterraneus-pyrophylaciorum-1668-300x265.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"265\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/03\/kircher_3mundus-subterraneus-pyrophylaciorum-1668-300x265.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/03\/kircher_3mundus-subterraneus-pyrophylaciorum-1668.jpg 664w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-816\" class=\"wp-caption-text\">todos os vulc\u00f5es do mundo interconectados na vis\u00e3o de Padre Kircher no Mundus subterraneus (1665)<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">O fogo \u00e9 representando pelo sol, pelo enxofre e por <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hermes_Trismegisto\">Hermes Trismegisto<\/a> (o tr\u00eas vezes grande). \u00c9 o fogo que vemos nos vulc\u00f5es que Kircher representou como sendo um todo interconectado. \u00a0Para entender os vulc\u00f5es, Kircher desceu \u00e1 cratera do Ves\u00favio logo ap\u00f3s uma erup\u00e7\u00e3o em 1638. Tamb\u00e9m realizou viagens de estudo para Creta, Malta e Sic\u00edlia,<\/p>\n<div class=\"mceTemp\"><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify\">AS MONTANHAS DA LUA<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify\">A \u00e1gua, por sua vez, \u00e9 representada pelos oceanos, rios e fontes, e tamb\u00e9m pela Lua. Estudando a origem dos grandes rios do planeta, Kircher conclui que estes estavam interconectados com as grandes cadeias de montanhas. O Nilo, o Dan\u00fabio, o Ganges e o Amazonas seriam formados por grandes lagos subterr\u00e2neos, localizados justamente nas grandes cadeias de montanhas. O Nilo nasceria no cora\u00e7\u00e3o da Africa nas &#8220;<em>Montanhas da Lua<\/em>&#8220;. As tais montanhas n\u00e3o existiam, mas \u00e9 uma prova de que Kircher sabia se aproveitar de relatos de viajantes e construir o seu pr\u00f3prio.\u00a0 no seculo XIX n\u00e3o poucos viajantes europeus percorreram as nascentes do Nilo atras destas m\u00edticas montanhas. Para kircher, as fontes eram a conex\u00e3o do interior com o exterior da Terra pela agua. Para ele, a uni\u00e3o do sol masculino com a lua feminina realizada na terra d\u00e1 ao planeta seu car\u00e1ter \u201cneutro\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_817\" aria-describedby=\"caption-attachment-817\" style=\"width: 169px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-817\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/03\/kircher-mundus-subterraneus-hydrophylacium-andium-J8EMY4-169x300.jpg\" alt=\"\" width=\"169\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/03\/kircher-mundus-subterraneus-hydrophylacium-andium-J8EMY4-169x300.jpg 169w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/03\/kircher-mundus-subterraneus-hydrophylacium-andium-J8EMY4-768x1367.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/03\/kircher-mundus-subterraneus-hydrophylacium-andium-J8EMY4-575x1024.jpg 575w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/03\/kircher-mundus-subterraneus-hydrophylacium-andium-J8EMY4.jpg 781w\" sizes=\"(max-width: 169px) 100vw, 169px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-817\" class=\"wp-caption-text\">As nascentes do Amazonas em uma caverna subterr\u00e2nea sob os Andes<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">Esta vis\u00e3o &#8220;hol\u00edstica&#8221; do planeta \u00e9 uma das caracter\u00edsticas da vis\u00e3o neoplat\u00f4nica de Kircher. O resultado \u00e9 esta aparente confus\u00e3o barroca, que une o microcosmo e o macrocosmo, como se um fosse a extens\u00e3o do outro. Para tanto, Kircher usa da met\u00e1fora, da alegoria e do simbolismo para mostrar os sinais da gl\u00f3ria de Deus na natureza.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify\">AS BRINCADEIRAS DA NATUREZA<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify\">A paleontologia de Kircher \u00e9 uma das mais interessantes facetas de sua obra. Em seus luvros, contudo, Kircher distingue claramente os <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-admin\/post.php?post=482&amp;action=edit\">f\u00f3sseis<\/a> que \u201cs\u00e3o produtos de petrifica\u00e7\u00e3o de animais e conchas\u201d de outros que s\u00e3o s\u00edmbolos e alegorias. No primeiro time, est\u00e3o as coquinas representadas no Mundus Subterraneus (figura abaixo). No outro, as pedras que reproduzem a face de uma gar\u00e7a, uma coruja, ou Nossa Senhora com o menino Jesus. Para Kircher, tais representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinham nenhuma causalidade. Eram somente \u201c<em>lusus naturae<\/em>\u201d, ou seja, brincadeiras da natureza.<\/p>\n<figure id=\"attachment_821\" aria-describedby=\"caption-attachment-821\" style=\"width: 185px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-821\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/03\/Imagem1.png\" alt=\"\" width=\"185\" height=\"169\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-821\" class=\"wp-caption-text\">As coquinas de Padre Kircher: prova de origem inorg\u00e2nica dos fosseis<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">Entretanto, uma leitura apressada da obra de Kircher sugere para muitos somente um lun\u00e1tico (e ainda por cima Jesu\u00edta!) que enxerga figuras absurdas impressas nas rochas. Da mesma forma outros pensavam no padre Jesu\u00edta como um fan\u00e1tico reacion\u00e1rio que \u00e9 contra a \u201cvis\u00e3o correta\u201d dos f\u00f3sseis como restos de animais tal como conhecemos hoje. Entretanto, nenhuma destas vis\u00f5es enxerga Kircher como ele deve ter sido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Kircher sabia que haviam f\u00f3sseis formados por restos de animais. Durante suas viagens \u00e0 Sic\u00edlia, ele encontrou e representou no Mundus Subterraneus animais com apar\u00eancia moderna achados nas rochas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As outras indica\u00e7\u00f5es de \u201cpedras figuradas\u201d representam, para Kircher, uma interconex\u00e3o entre micro e macrocosmo. Desta forma, dentro de sua vis\u00e3o de mundo, estas pedras eram as\u00a0 provas da sabedoria de Deus. Para ele, a discuss\u00e3o sobre a origem organica ou inorg\u00e2nica dos fosseis e das rochas que as continham n\u00e3o estava posta. A sua \u201cpira\u201d era outra.<\/p>\n<figure id=\"attachment_822\" aria-describedby=\"caption-attachment-822\" style=\"width: 246px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-822\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/03\/stones10p-246x300.jpg\" alt=\"\" width=\"246\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/03\/stones10p-246x300.jpg 246w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/paleoblog\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2018\/03\/stones10p.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 246px) 100vw, 246px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-822\" class=\"wp-caption-text\">as pedras &#8220;figuradas&#8221;, com significados simb\u00f3licos: gar\u00e7as, pombas, corujas e outras figuras<\/figcaption><\/figure>\n<h6 style=\"text-align: justify\">FUJA DA INQUISI\u00c7\u00c3O, PADRE KIRCHER!<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify\">Entretanto, a vis\u00e3o de mundo de Padre Kircher era posta constantemente em cheque pelos censores da Companhia de Jesus. N\u00e3o era pra menos. Por causa de suas ideias neoplat\u00f4nicas (e por sua defesa do Sistema Copernicano) Giordano Bruno havia morrido na fogueira em 1600, dois anos antes de Kircher nascer. Quando o jovem Kircher chegou \u00e0 It\u00e1lia, em 1632, o processo contra Galileu ainda corria, tendo grande publicidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Um padre que em seus livros citava\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hermes_Trismegisto\">Hermes Trismegisto<\/a>, fazia experimentos alqu\u00edmicos e constru\u00eda instrumentos estranhos deve ter chamado aten\u00e7\u00e3o dos censores, como realmente chamou. Contudo,\u00a0 Kircher soube contornar e aparar as arestas entre suas ideias do mundo natural com as demandas da inquisi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o deve ter sido f\u00e1cil.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify\">A VIDA QUE SEGUE<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify\">Quando padre Kircher morreu, o dia estava frio e cinzento em Roma, mas n\u00e3o por causa dele. Enquanto isso, durante os mais de cinquenta anos que ele permaneceu ali na frente da Biblioteca do Vaticano, o mundo havia mudado muito. Agora, gra\u00e7as a uma not\u00e1vel rede de s\u00e1bios e eruditos, a ci\u00eancia moderna estava em franca expans\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Neste per\u00edodo, o surgimento de novas sociedades cientificas, os primeiros <em>journals<\/em>, as correspond\u00eancias de fil\u00f3sofos naturais por toda a Europa (e mesmo na Am\u00e9rica) haviam mudado o ponto da discuss\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Antes de tudo, o mundo quando Padre Kircher morreu era mais racionalista e mecanicista, baseado mais nas ideias de Descartes e Newton, entre tantos outros. Para isso, a nova ci\u00eancia que surgia prescindiria de ideia de um Deus ou de qualquer explica\u00e7\u00e3o metafisica para fazer a natureza funcionar.\u00a0 com isso, n\u00e3o havia mais espa\u00e7o para o sobrenatural, para o maravilhoso e para o espanto. Sobretudo, n\u00e3o havia mais espa\u00e7o para o padre Kircher.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Fazia frio e ventava no dia em que padre Kircher morreu, mas n\u00e3o por causa de alguma vontade divina. Fazia frio e chovia por causa das correntes de ar atmosf\u00e9rico sobre o Mediterr\u00e2neo. Enquanto isso, os p\u00e1ssaros no outono migravam para o sul. As placas\u00a0 tect\u00f4nicas seguiam se movimentando, podendo provocar terremotos ou erup\u00e7\u00f5es vulc\u00e2nicas. As fontes seguiriam jorrando \u00e1gua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No dia seguinte, uma missa foi rezada pela alma de um padre velhinho que morrera naquela noite fria.<\/p>\n<h6>SUGESTOES DE LEITURA<\/h6>\n<p>Findlen, P. (Ed.). (2004).\u00a0<i>Athanasius Kircher: the last man who knew everything<\/i>. Routledge.<\/p>\n<p>Gould, S. J. (2004). Father Athanasius on the isthmus of a middle state.\u00a0<i>Athanasius Kircher: The last man who knew everything<\/i>, 201-237.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fazia um pouco de frio em Roma no dia em que padre Kircher morreu, aos 78 anos de idade, em 27 de novembro de 1680. O sol praticamente n\u00e3o apareceu, e um vento frio fazia a sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica piorar. No entanto, a vida seguia normal. 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