Guerra Infinita: é possível salvar o Cerrado?

Dois hexágonos lado a lado: à esquerda, o personagem Thanos com as joias do Infinito; à direita, uma paisagem do Cerrado ao pôr do sol, com vegetação típica e uma árvore retorcida em primeiro plano.
Texto de Lavínia Antunes de Oliveira

Se vocês já assistiram Vingadores: Guerra Infinita (2018), com certeza conhecem Thanos, um dos vilões mais complexos do universo Marvel. Ao longo do filme, ele tem um objetivo muito específico: reunir as Joias do Infinito e, com um estalar de dedos, conquistar o universo e controlar a realidade. Fora da ficção, é impossível criar uma ferramenta assim, especialmente para reverter consequências drásticas, como a reestruturação de ecossistemas degradados, caso do Cerrado. Ainda assim, existem verdadeiras “joias do infinito” que podem contribuir para restaurar esse bioma. Aqui você vai descobrir quais são.

Joia 1: Compreender a importância do Cerrado e de sua restauração

O Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil e está presente em doze estados, além do Distrito Federal. Apesar de sua grandeza, ainda se sabe pouco sobre seu funcionamento e sobre a importância que possui para a manutenção da biodiversidade, dos recursos hídricos e para a conservação de espécies da flora e da fauna.

Para compreender o Cerrado, é preciso lembrar que ele é, em grande parte, um ecossistema aberto e entendê-lo exige olhar para o chão, para as plantas pequenininhas. Capins, ervas e gramíneas nativas formam a base desse ambiente e devem ser prioridade em qualquer projeto de restauração. Compreender o funcionamento dessas espécies é essencial.

Diante dessa complexidade e diversidade, é necessário se perguntar: qual é a melhor forma de restaurar o Cerrado? O desafio está em buscar uma reconstrução que se aproxime ao máximo do ecossistema original, tanto em sua composição quanto em seu funcionamento.

Joia 2: Entender a composição do bioma

Agora é hora de conhecer as diferentes composições do Cerrado, ou, em outras palavras, suas fitofisionomias.

“Fitofisionomia” é apenas um nome técnico para falar do jeito como a vegetação aparece em um lugar: mais fechada, mais aberta, com árvores altas, com arbustos ou com campos. Cada combinação forma um tipo de paisagem.

No Cerrado, existem hoje onze tipos principais: Mata Ciliar, Mata de Galeria, Mata Seca, Cerradão, Cerrado sentido restrito, Parque de Cerrado, Palmeiral, Vereda, Campo Sujo, Campo Limpo e Campo Rupestre.

É muita diversidade, e as classificações estão sempre sendo atualizadas. Entender cada tipo é essencial para definir as melhores estratégias de restauração ecológica e respeitar as características e o funcionamento de cada ambiente do Cerrado.

Figura 1: Fitofisionomias do Cerrado. Imagem de arvoreagua.org

Joia 3: O papel do fogo na manutenção do Cerrado

O Cerrado é um tipo de savana, um ecossistema naturalmente mais aberto e cheio de vegetação adaptada ao fogo. No Cerrado, o fogo natural é essencial para a sobrevivência da vegetação. As savanas são ecossistemas mantidos pelo fogo, e muitas plantas só florescem em áreas que queimam periodicamente. Essas espécies têm estruturas subterrâneas robustas, capazes de armazenar grandes quantidades de carbono e de rebrotar após o fogo. Além disso, o processo reprodutivo de muitas delas é estimulado pelas chamas.

E o que acontece se o fogo deixar de ocorrer?

Sem o fogo, as espécies arbóreas podem crescer mais rápido e em maior quantidade, fazendo com que esses ecossistemas abertos se adensem. Ou seja, aquele ambiente amplo, com muitas plantas rasteiras, começa a se fechar. Com árvores além do esperado, o ambiente fica mais sombreado, dificultando o desenvolvimento de arbustos e gramíneas que dependem diretamente da luz do sol. Assim, áreas de campos e savanas passam a se parecer com florestas, recebendo menos luz no solo e alterando suas características vegetativas, o que pode reduzir a biodiversidade típica do Cerrado.

Além disso, quando há acúmulo de vegetação, ocorre o aumento da biomassa, ou seja, a matéria orgânica formada pelas plantas. Com mais biomassa, cresce também o risco de incêndios de grandes proporções, especialmente em uma vegetação que já não possui as mesmas características de resistência ao fogo. Por isso, conservar e restaurar os ecossistemas abertos do Cerrado exige compreender a dinâmica natural do fogo e seu papel na manutenção da vida e da diversidade desse bioma.

Joia 4: Serviços ecossistêmicos

Até aqui, entendemos a importância do Cerrado, suas diferentes composições e o papel do fogo. Agora, é hora de conhecer os serviços ecossistêmicos, nome dado aos benefícios que a natureza fornece e que são indispensáveis à vida em nossa sociedade.

No Cerrado, a abundância de gramíneas e a dinâmica da água no solo influenciam diretamente o armazenamento de carbono subterrâneo. Algumas regiões funcionam como verdadeiros reservatórios de gás carbônico, um composto que tem grande influência nas mudanças climáticas. O armazenamento deste gás é especialmente relevante, pois reduz sua concentração na atmosfera e, consequentemente, contribui para mitigar o aquecimento global.

Outro serviço essencial está ligado à disponibilidade de água. O Cerrado é conhecido como a “caixa d’água do Brasil”, pois abriga nascentes e aquíferos que alimentam importantes bacias hidrográficas do país. A infiltração da água no solo é facilitada pelas estruturas subterrâneas das plantas, garantindo a recarga dos aquíferos e o fluxo contínuo dos rios (mesmo em períodos de seca).

Proteger e restaurar o Cerrado é, portanto, garantir o abastecimento de água e o equilíbrio climático em diversas regiões do país.

Joia 5: Técnicas de restauração

Finalmente, chegamos à última joia: as técnicas de restauração. Diversas estratégias vêm sendo estudadas, como diferentes tipos de transplante do solo e da vegetação, o plantio de árvores e a semeadura direta.

Entre elas, destaca-se o transplante de material vegetal, considerado o método mais eficiente para restaurar a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos no Cerrado. A técnica consiste em transferir estruturas inteiras de plantas, incluindo a parte subterrânea do solo e o solo em si, de uma área conservada para outra em processo de recuperação. Os transplantes são os mais indicados nesse caso, pois além de reintroduzir espécies-alvo, como ervas e gramíneas, podem transportar microrganismos locais que auxiliam o estabelecimento das plantas nativas.

O plantio de árvores e a semeadura direta, embora úteis em florestas, não são ideais para o Cerrado, pois tendem a favorecer o adensamento e prejudicar as espécies herbáceas.

Conclusão

Agora vocês sabem quais são as cinco joias para a restauração do Cerrado e compreenderam o quanto é essencial preservar esse bioma para garantir a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos dos quais todos dependemos.

A restauração do Cerrado é um desafio coletivo que exige ciência, técnica e sensibilidade. Cada nova pesquisa é uma joia que nos aproxima de um futuro mais equilibrado entre sociedade e natureza.

Referências

Pilon, N. A. L., Campos, B. H., Durigan, G., Cava, M. G. B., Rowland, L., Schmidt, I.,

Sampaio, A., & Oliveira, R. S. (2023). Challenges and directions for open ecosystems biodiversity restoration: An overview of the techniques applied for Cerrado. Journal of Applied Ecology, 60, 849–858.

BRITO, GLEICON QUEIROZ. Capacidade de infiltração de água no solo em fitofisionomias do bioma Cerrado. Dissertação (Mestrado- mestrado em Ciências ambientais), Universidade de Brasília, 2019.

Ribeiro, José & Walter, Bruno. (2008). As principais fitofisionomias do bioma Cerrado.

Durigan, Giselda et al., Plantas pequenas do Cerrado: biodiversidade negligenciada, Secretaria do Ambiente do Estado de São Paulo, Projeto gráfico Vera Severo, 2018, 720p.

Autoria

Lavínia Antunes de Oliveira

Aluna de graduação em Ciências Biológicas na Universidade Estadual de Campinas. Desenvolve iniciação científica em Ecologia, com o projeto “Custo-efetividade do transplante de material vegetal para a recuperação da estrutura e da diversidade de ecossistemas abertos do Cerrado”.

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