A biodiversidade na América Latina: por que somos tão diversos

Ilustração do filme Rio 2 mostrando diferentes espécies de aves e animais da Amazônia reunidos às margens de um rio ao pôr do sol, representando a biodiversidade da floresta tropical brasileira.

Texto de Gabriel Gonçalves da Silva

Você já assistiu ao filme de animação “Rio”, lançado em 2012? 

Se não, PARE e vá agora mesmo acompanhar as sagas do Blu! A história acompanha uma ararinha-azul, o Blu, criada nos Estados Unidos. Ele retorna ao Brasil e se envolve em uma série de aventuras. No primeiro filme, no Rio de Janeiro. No segundo, na Floresta Amazônica.

Caso tenha assistido, você reparou na quantidade de tipos diferentes de aves que aparecem no filme? Essa diversidade não aparece por acaso. O filme mostra apenas uma pequena parte da riqueza biológica da região, mas ajuda a levantar uma pergunta importante: por que o Brasil e a América Latina concentram tanta biodiversidade?

O filme consegue mostrar uma variedade de aves bastante expressiva e isso não é à toa. Durante o planejamento do filme, o diretor e produtor carioca Carlos Saldanha visitou o Zoológico do Rio de Janeiro para aprender mais sobre a diversidade de aves do local. 

Um continente desenhado pela diversidade, onde a vida se molda em conjunto

O Brasil está entre os países com maior diversidade de aves do mundo, ao lado de outros países latino-americanos como Colômbia e Peru. Essa concentração não é aleatória. Esses países fazem parte de uma mesma grande região biogeográfica chamada Região Neotropical. Não temos apenas uma grande diversidade de aves, mas também de tantas outras espécies.

A Região Neotropical se estende do sul do México até o norte da Argentina. Ela inclui a América Central, o Caribe e quase toda a América do Sul. Essa região é considerada a mais rica do planeta em número de espécies, especialmente de plantas, aves, insetos, anfíbios e peixes de água doce.

Entender por que isso acontece exige olhar para processos que operam em escalas de tempo muito longas, ao longo de milhões de anos. São processos ligados à história geológica do continente, às mudanças climáticas do passado e à evolução das espécies. Esses fatores ajudaram a moldar os ambientes e a diversidade de formas de vida que hoje caracterizam a Região Neotropical.

Um enredo clássico latino de tirar o fôlego!

O enredo da formação da região Neotropical é como um clássico latino. Das vilanias inesquecíveis de Paola Bracho (A Usurpadora) e Carminha (Avenida Brasil) ao carisma contagiante das “empreguetes” (Cheias de Charme) e dos alunos da “Escola Mundial” (Carrossel), as novelas seguem provando que sabem construir grandes enredos

Elas fazem isso combinando personagens, conflitos, reviravoltas e mudanças de cenário. Uma história nunca acontece parada. Sempre há algo que se transforma. Algo que se separa. Algo que se reconecta. Na natureza, o roteiro é outro. Mas a lógica é parecida. A região Neotropical também tem vivido cenas de tirar o fôlego ao longo de sua história.

Tudo começou quando os continentes do planeta estavam unidos em uma única massa de terra, chamada Gondwana. Essa massa se fragmentou ao longo do tempo. A área que hoje corresponde à América do Sul se separou dos demais continentes. E isso abriu uma série de novas possibilidades.

Em vez de novos romances, intrigas e catarses (como nas novelas), o que surgiu foi um grande processo de diversificação. Esse processo foi impulsionado pelo isolamento de populações de espécies que antes conviviam no mesmo espaço. Separadas por oceanos, montanhas, rios ou mudanças climáticas, essas populações passaram a evoluir de forma independente.

Como no filme A Era do Gelo, a região Neotropical também passou por períodos glaciais e interglaciais. Esses períodos alteraram o clima e a paisagem. Florestas se expandiram e se retraíram. Ambientes se fragmentaram. Populações ficaram isoladas por longos períodos de tempo. Isso contribuiu para moldar tanto a geografia quanto a biodiversidade da região.

A lógica é simples. Mais oportunidades de isolamento levam a mais oportunidades de mudança. Mais mudanças levam a maior biodiversidade.

Muito carisma e muita natureza

Alimentos, festas populares, arquitetura, carisma e alegria. Elementos que fazem parte das culturas latino-americanas e que costumamos celebrar. Se podemos nos orgulhar dessa diversidade cultural, também devemos nos orgulhar de um de nossos maiores tesouros: a região Neotropical.

A diversidade cultural e a diversidade natural caminham juntas. Os modos de vida, os saberes, os costumes e as economias dos povos latino-americanos se constroem em relação direta com os ambientes em que vivem.

A Amazônia como exemplo

A Floresta Amazônica é um exemplo marcante dessa região. É um bioma extenso e denso, que influencia o clima, as chuvas e os ciclos da água em grande parte da América do Sul. Esses processos físicos ajudam a sustentar a própria biodiversidade da região.

A floresta libera grandes quantidades de vapor d’água para a atmosfera por meio da evapotranspiração. Isso contribui para a formação de massas de ar úmido que se deslocam pelo continente e ajudam a distribuir as chuvas. Esse fenômeno é popularmente conhecido como “rios voadores”.

Essa dinâmica mantém o clima mais úmido e mais estável em amplas áreas do continente. Isso favorece a existência de florestas densas, rios permanentes e solos biologicamente ativos. Esses ambientes sustentam um grande número de espécies. Plantas, animais, fungos e microrganismos dependem dessa disponibilidade constante de água.

A circulação da água também acontece na superfície. A Amazônia abriga uma das maiores bacias hidrográficas do mundo. O rio Amazonas funciona como eixo central desse sistema. Rios e igarapés conectam diferentes ambientes e permitem a dispersão de organismos, sementes e nutrientes.

Por isso, quando falamos da Amazônia, não falamos apenas de árvores ou espécies isoladas. Falamos de um sistema integrado de água, clima, solo e vida. Um sistema que ajuda a explicar por que essa região concentra tanta biodiversidade.

Um continente desenhado pela diversidade

E essa é apenas uma parte da região Neotropical.

A América Latina pode ser comparada a uma boa novela cotidiana. É cheia de histórias que se entrelaçam e colaboram para a trama como um todo. Da mesma forma, a região apresenta um conjunto de ambientes extremamente rico e heterogêneo.

A Amazônia, densa e arbórea, é apenas um desses biomas. Existem também grandes áreas de vegetação aberta, como a chamada Diagonal de Formações Abertas, que se estende do Chaco, na Argentina, até a Caatinga, no Brasil. Há manguezais, localizados no encontro entre rios e mares, fundamentais para a vida marinha e costeira. Em regiões montanhosas, ocorrem campos de altitude, com condições ambientais específicas. Ao longo do litoral, aparecem as restingas, associadas a solos arenosos e à influência marinha.

Cada tipo de ambiente cria condições próprias de vida. Isso favorece o surgimento de conjuntos distintos de plantas e animais, adaptados a esses contextos específicos. Muitas dessas espécies não ocorrem em nenhum outro lugar.

Por isso, a região Neotropical apresenta altos níveis de endemismo. Ou seja, abriga espécies que existem apenas ali ou restritas a determinados ambientes. Esse é um dos motivos pelos quais a região concentra uma das maiores biodiversidades do planeta.

Além de personagens marcantes nas novelas, a América Latina também abriga personagens marcantes na natureza. Onças-pintadas, vitórias-régias, aves de cores intensas, plantas com frutos variados, insetos, anfíbios e répteis compõem esse cenário. São múltiplas formas de vida que compartilham o mesmo território.

Essa combinação entre diversidade ambiental, biodiversidade e cultura ajuda a explicar por que a região Neotropical é tão singular. Trata-se de uma herança natural profundamente ligada às histórias, aos costumes e às identidades de quem vive nesse espaço.

Orgulho que não cabe só na observação: é preciso pesquisar!

A região Neotropical tem atraído a atenção de cientistas do mundo todo. Isso acontece por causa de sua enorme biodiversidade e da complexidade de seus processos ecológicos e evolutivos.

Há muitas pesquisas em andamento na região. Elas vão desde o levantamento de quais espécies estão presentes até o estudo dos processos que levaram à formação dessas populações ao longo do tempo.

No entanto, grande parte desses estudos ainda se concentra em alguns grupos específicos. Vertebrados e plantas recebem a maior parte da atenção. Outros grupos, como insetos, fungos e microrganismos, seguem pouco conhecidos.

Isso limita a compreensão mais ampla da diversidade da região. Também dificulta a construção de políticas de conservação mais eficazes. Além disso, essa forte atratividade internacional traz desafios importantes.

Toda atenção é pouca quando se fala de uma das protagonistas da biodiversidade no planeta.

Vale então uma pergunta importante. Quem produz o conhecimento sobre a região Neotropical?

Grande parte das pesquisas ainda é conduzida por cientistas que não vivem na região. Isso dá origem ao que se chama de “pesquisa de helicóptero”. Pesquisadores vêm, coletam dados, publicam os resultados e seguem adiante. Muitas vezes, as populações locais e as instituições da região participam pouco desses processos e se beneficiam menos deles.

Esse modelo tem sido frequente na região Neotropical. Ele contribui para a produção de conhecimento, mas também reproduz desigualdades históricas na ciência. Desigualdades de recursos, de infraestrutura e de visibilidade.

O conhecimento produzido na própria América Latina tem crescido, e isso é fundamental. Ainda assim, ele pode e deve ser ampliado. Mais pesquisas conduzidas por pessoas que vivem na região fortalecem universidades, formam profissionais e ajudam a construir políticas públicas mais adequadas aos contextos locais.

A região Neotropical é resultado de processos geológicos e evolutivos de longa duração. É uma herança natural rara e valiosa. Cuidar dela envolve também cuidar de quem a estuda, a conhece e a protege. Assim como a cultura, essa herança ajuda a definir quem somos como povos latino-americanos.

Para saber mais:

ANTONELLI, A.; SANMARTÍN, I. Why are there so many plant species in the Neotropics?. Taxon, v. 60, n. 2, p. 403-414, 2011. Disponível em: Why are there so many plant species in the Neotropics? – Antonelli – 2011 – TAXON – Wiley Online Library

MORRONE, Juan J. Neotropical biogeography: regionalization and evolution. Crc Press, 2017. Disponível em: Neotropical Biogeography: Regionalization and Evolution – Juan J. Morrone – Google Livros

TURCHETTO‐ZOLET, A. C. et al. Phylogeographical patterns shed light on evolutionary process in South America. Molecular ecology, v. 22, n. 5, p. 1193-1213, 2013. Disponível em: Molecular Ecology | Molecular Genetics Journal | Wiley Online Library

WERNECK, F. P. The diversification of eastern South American open vegetation biomes: historical biogeography and perspectives. Quaternary Science Reviews, 30(13-14), 1630-1648, 2011. Disponível em: The diversification of eastern South American open vegetation biomes: Historical biogeography and perspectives – ScienceDirect

Autoria

Sou Gabriel Silva, tenho 22 anos e sou estudante de Licenciatura em Ciências Biológicas na Unicamp. Sou apaixonado pelas áreas de educação e evolução. Atualmente, faço Iniciação Científica no Laboratório de Diversidade Genética, onde trabalho com diversificação de aranhas. No tempo livre, não dispenso uma boa novela e adoro bater perna por aí para viver novas experiências.  

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