O Incrível Mundo das Formigas Saúvas

Formigas saúvas carregando um pedaço de folha verde sobre o corpo, caminhando sobre uma superfície rugosa.

Texto de  Erika Track Martins

Quando pensamos em sociedades organizadas, geralmente pensamos nos seres humanos. Mas e se eu te dissesse que, bem debaixo dos nossos pés, existem sociedades igualmente complexas?

As formigas saúvas, apesar de pequenas, formam colônias extremamente organizadas, um sistema que garante sua sobrevivência há milhões de anos. 

Neste texto, você vai descobrir como essas formigas vivem, se organizam e por que são consideradas um dos maiores exemplos de cooperação na natureza.

Formigas saúvas: Quem são? O que comem?

As formigas saúvas fazem parte de um grupo chamado Attini, que reúne cerca de 230 espécies de formigas que vivem em associação com fungos.

Elas são conhecidas como “cortadeiras” porque cortam folhas e as carregam para dentro do formigueiro. 

Mas aqui vai uma curiosidade: elas não comem essas folhas.

Em vez disso, usam esse material para cultivar fungos que são, de fato, o seu alimento.

Essa relação é chamada de mutualismo, porque tanto as formigas quanto os fungos se beneficiam. As formigas garantem alimento, e os fungos garantem a sobrevivência da colônia de formigas.

Esse cultivo é tão importante que as formigas carregam consigo pequenas porções do fungo quando fundam novas colônias, garantindo a continuidade dessa relação ao longo das gerações.

Onde vivem?

As saúvas são encontradas na região Neotropical, que inclui grande parte da América Latina.

Região Neotropical destacada em roxo. Fonte: carol / Wikimedia Commons

No Brasil, existem nove espécies conhecidas, formando colônias gigantescas que podem ter milhares (ou até milhões) de indivíduos.

E o mais impressionante: cada formiga tem uma função específica dentro dessa sociedade.

O que é eussocialidade?

As saúvas não vivem apenas em grupo. Elas formam sociedades eussociais, o nível mais avançado de organização social entre os animais. Esse tipo de organização é caracterizado pela divisão de tarefas, pela convivência entre diferentes gerações no mesmo ambiente e pelo cuidado coletivo com os filhotes. Em outras palavras, não há apenas cooperação ocasional, mas uma estrutura social estável, em que diferentes indivíduos desempenham funções específicas ao longo da vida. Na prática, isso significa que cada formiga exerce um papel fundamental para o funcionamento e a manutenção da colônia.

E como funciona a divisão do trabalho?

A divisão de tarefas é fundamental para o funcionamento de qualquer sociedade, e, no caso das saúvas, essa prática é extremamente eficiente. 

Cada formiga desempenha uma função específica com base em sua idade, forma corporal, casta, genética e experiência.

As colônias de saúvas são organizadas em três grupos principais: rainhas, príncipes e operárias. 

Os grupos das colônias de saúvas

As rainhas, também chamadas de tanajuras, colocam os ovos que dão origem a todas as formigas do formigueiro. A rainha coloca ovos que darão origem às formigas princesas e aos príncipes, as únicas formigas macho de um formigueiro.

Esses dois grupos de formigas aladas têm um papel especial: por volta dos meses de outubro e novembro no Brasileles participam do voo nupcial, também chamado de revoada.

Durante esse voo, as princesas e os  príncipes acasalam, e, depois disso, as princesas se tornam rainhas e saem para formar seus próprios formigueiros. Já os príncipes, por sua vez,  têm uma vida bem curta e encerram seu papel logo após o acasalamento.

A maior parte da colônia, porém,  é formada pelas operárias. Elas realizam diversas tarefas no formigueiro, como cortar folhas, cultivar os fungos que servem de alimento, proteger a colônia e cuidar das larvas. 

Ao longo de sua vida, a função das operárias muda. 

As mais jovens costumam trabalhar dentro do formigueiro, enquanto as mais velhas saem para buscar folhas e defender a colônia.

 Essa divisão de trabalho bem organizada garante que todas as necessidades do grupo sejam atendidas, mantendo a colônia em pleno funcionamento.

Qual o papel delas no meio ambiente?

As saúvas são verdadeiras engenheiras do ecossistema.

Elas são responsáveis por cerca de 25% da vegetação consumida em florestas tropicais, mas isso não é destruição, e sim transformação!

Ao manipular folhas e cultivar fungos, elas reciclam nutrientes, enriquecem o solo, aumentam a aeração da terra. Essas mudanças no solo também beneficiam outros organismos, como microrganismos e plantas, que passam a encontrar melhores condições para se desenvolver.

Além disso, seus formigueiros funcionam como verdadeiros centros de atividade biológica. Quem diria que seres tão pequenos teriam tanta influência na natureza?

Como essa organização surgiu?

A organização das formigas em sociedade eussociais não surgiu por acaso. Ela é o resultado de milhões de anos de evolução. As condições do ambiente fizeram com que a cooperação se tornasse essencial para a sobrevivência dessas formigas.

Estima-se que as saúvas tenham surgido nas Américas há cerca de 8,5 milhões de anos. Ao longo desse período, colônias com maior nível de cooperação e divisão eficiente de tarefas apresentaram maior sucesso evolutivo. 

Esse processo foi favorecido por características selecionadas ao longo da evolução, como comportamentos altruísticos, nos quais as operárias não se reproduzem, mas contribuem para o sucesso reprodutivo da colônia.

Esse longo processo evolutivo favoreceu sociedades altamente organizadas, em que cada formiga desempenha um papel essencial. Essa cooperação garante não só a sobrevivência das colônias, mas também ajuda a manter um equilíbrio nos locais onde vivem. 

Os impactos ecológicos das sociedades de saúvas

É incrível pensar que formigas tão pequenas podem ser exemplos de organização e cooperação, não é? Observar as saúvas e estudar seu comportamento nos ajuda a compreender como até mesmo pequenas ações podem gerar impactos profundos na natureza.

Cada formiga, por menor que seja, desempenha um papel indispensável, seja para sua própria sobrevivência, seja para o equilíbrio dos ecossistemas.

Proteger as saúvas e os ambientes onde vivem é muito mais do que garantir a sobrevivência de um grupo de formigas: é preservar os serviços ambientais que beneficiam toda a vida na Terra. 

Essas pequenas engenheiras nos ensinam que mesmo organismos muitas vezes negligenciados podem ter um impacto gigantesco no equilíbrio do planeta.

Para saber mais…

Khayat, Rana O. (2024) The interplay between leaf-cutter ants behaviour and social organization. Journal of Umm Al-Qura University for Applied Sciences. v. 10, n. 1, p. 225-231.

Nickele, MA; Pie, MR; Reis Filho, W; Penteado, S do RC (2013) Formigas cultivadoras de fungos: estado da arte e direcionamento para pesquisas futuras. Pesquisa Florestal Brasileira, v. 33, n. 73, p. 53–72

Swanson, AC; Schwendenmann, L; Allen MF; Aronson EL; Artavia-León, A; Dierick, D; Fernandez-Bou, AS; Harmon, TC; Murillo-Cruz, C; Oberbauer, SF; Pinto-Tomás, AA; Rundel, PW; Zelikova, TJ (2019) Welcome to the Atta world: A framework for understanding the effects of leaf-cutter ants on ecosystem functions. Functional Ecology, v. 33, n. 8, p. 1386–1399.

Wilson, EO; Holldobler, B (2005) Eusociality: Origin and consequences. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 102, n. 38, p. 13367–13371.

Autoria

Erika Track Martins é estudante do curso de Ciências Biológicas da Universidade Estadual de Campinas., tem experiência como condutora de visitantes em unidade de conservação e na recepção de grupos escolares em ambientes de educação não formal.

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