A floresta invertida do Cerrado

Paisagem do Cerrado brasileiro com árvores retorcidas espalhadas por um campo de capim dourado sob céu azul com nuvens brancas. No canto superior direito, lê-se o título “A floresta invertida do Cerrado”.

Texto de Beatriz Aparecida Fernandes Leite

É sábado de manhã e você pensa: “Uau! Que dia lindo para fazer uma trilha e entrar em contato com a natureza.” Você então se dirige a um parque estadual que abriga uma porção do Cerrado… Afinal, esse é o segundo maior bioma brasileiro.

Ao iniciar a trilha, é possível apreciar o visual característico de savana do Cerrado: árvores baixas e retorcidas, arbustos e gramíneas…

Mas o que muita gente não percebe é que a maior parte dessa floresta está escondida debaixo da terra. O Cerrado abriga uma espécie de “floresta invertida”, formada por raízes profundas que sustentam a vida no bioma.

A riqueza do Cerrado

Se você já explorou a imensidão do Cerrado, provavelmente sabe que esse bioma é muito mais do que aparenta.

Conhecido como a savana brasileira, o Cerrado é uma das regiões de maior biodiversidade do planeta. O bioma é considerado um dos hotspots mundiais, isto é, áreas com grande riqueza biológica e fortemente ameaçadas.

O Cerrado abriga mais de 7 mil espécies de plantas, além de uma vasta diversidade de aves, répteis, anfíbios e insetos. Nossa savana brasileira possui a flora mais rica entre todas as savanas do mundo.

A singularidade do Cerrado

Existe um alto nível de endemismo, ou seja, de espécies exclusivas de uma determinada região geográfica. No caso das plantas lenhosas do Cerrado, cerca de 40% são endêmicas desse bioma, como o Pequi e o Jatobá, segundo o ICMBio.

Além disso, o Cerrado é lar de diversas abelhas nativas brasileiras também endêmicas, como as queridinhas abelhas sem ferrão, responsáveis pela polinização de várias plantas de interesse agrícola.

 A flora do Cerrado é extremamente singular e encanta qualquer trilheiro, marcada por plantas retorcidas e arbustos característicos.

Muitas dessas plantas possuem adaptações evolutivas que lhes permitem habitar esse ambiente, como é o caso do cabelo-de-índio (Bulbostylis paradoxa), que apresenta uma floração mais rápida após ser exposto ao fogo.

O Cerrado é um ambiente marcado por diferentes condições ambientais, o que demanda adaptações específicas dos organismos que vivem nesse bioma. Nesse contexto, é possível compreender a enorme diversidade de seres vivos presentes na região.

Ufa! Muita coisa , né ? Mas não para por aí…

A floresta subterrânea do Cerrado

A riqueza do Cerrado não está apenas acima da terra. Grande parte dela também se esconde no subsolo.

 Por baixo do que estamos pisando existe uma espécie de “Floresta Invertida”.

As plantas baixas e retorcidas do Cerrado possuem, na verdade, raízes enormes, capazes de alcançar as reservas de água subterrânea formadas pela infiltração da água da chuva, o chamado lençol freático. Esse fenômeno está relacionado ao fato de o Cerrado ser um bioma de clima tropical sazonal, marcado por longos períodos de seca.

Diante da dificuldade de acesso à água, muitas das plantas que melhor se adaptaram ao ambiente foram aquelas com raízes profundas, que podem ultrapassar 10 metros de profundidade.

A biomassa escondida sob o solo

As raízes das plantas que compõem esse ecossistema tão rico correspondem a cerca de 70% da biomassa vegetal do bioma. A biomassa representa a quantidade total de matéria orgânica presente em um ambiente, sendo uma medida importante para compreender a energia disponível no ecossistema e sua transferência ao longo da cadeia alimentar. Em florestas, essa biomassa vegetal costuma estar concentrada na parte aérea, principalmente nas árvores.

No Cerrado, porém, grande parte dessa biomassa encontra-se abaixo do solo. O bioma armazena, nessa estrutura subterrânea, o segundo maior estoque de carbono do Brasil, com cerca de 8,1 gigatoneladas de carbono orgânico apenas no solo.

As plantas assimilam CO₂ durante o processo de fotossíntese, e parte desse carbono é acumulada em suas raízes. Assim, as “florestas invertidas” desempenham um papel fundamental no ciclo do carbono na atmosfera.

Quando o Cerrado é desmatado ou queimado de forma intensa, parte do carbono acumulado ao longo de décadas retorna para a atmosfera na forma de CO₂, contribuindo para o agravamento das mudanças climáticas.

Nossa Caixa d’Água

Além de sustentar a vegetação do Cerrado, essa floresta subterrânea também desempenha um papel essencial no equilíbrio hídrico do Brasil.

O Cerrado é conhecido como a “caixa d’água do Brasil” por exercer uma função fundamental na distribuição dos recursos hídricos do país. 

O bioma abriga nascentes e áreas de recarga que alimentam importantes bacias hidrográficas brasileiras, incluindo rios como Xingu, Madeira e Trombetas, na Amazônia, além dos rios Cuiabá e São Lourenço, no Pantanal.

Além disso, o Cerrado se destaca por abrigar três importantes aquíferos nacionais: Guarani, Urucuia e Bambuí. 

O papel das raízes na infiltração da água

Aquíferos são reservas subterrâneas de água formadas pela infiltração da chuva no solo. Nesse processo, as raízes das plantas exercem um papel fundamental, facilitando a infiltração da água e ajudando a manter o funcionamento desse sistema subterrâneo.

As mesmas plantas que captam água do lençol freático também contribuem para a manutenção dos aquíferos, responsáveis por abastecer nascentes e rios em diferentes regiões do país. Dessa forma, as raízes do Cerrado possuem um papel central no abastecimento hídrico brasileiro.

No entanto, o desmatamento compromete esse equilíbrio ao afetar o tamanho das raízes e a qualidade do solo, prejudicando a infiltração da água e o abastecimento dos aquíferos. Esse processo pode favorecer fenômenos como a migração de nascentes, alterando a dinâmica hídrica da região.

A migração de nascentes ocorre quando a nascente muda de lugar devido a falta do fluxo original de água subterrâneo, além de interferir na manutenção dos rios.

A pressão sobre a savana brasileira

Apesar de toda importância relacionada ao Cerrado, apenas 8,21% do território do Cerrado está sob proteção. Atualmente o Cerrado representa 22% do território nacional, possuindo atualmente uma perda de aproximadamente 60% de seu território original. 

Sua classificação como hotspot não é à toa, já que é considerada uma região de intensa exploração predatória, sendo ameaçada principalmente pelo agronegócio. Cerca de  23,7% de sua cobertura virou pasto nas últimas décadas

Embora o Cerrado seja um bioma que convive naturalmente com o fogo devido ao seu clima seco e quente, em 2024 cerca de 2,4 milhões de hectares foram queimados, configurando um cenário alarmante. Muitos desses incêndios ultrapassam o regime natural de queimadas e estão relacionados ao manejo inadequado da agropecuária, representando um grande risco para a biodiversidade e contribuindo para a emissão de gases de efeito estufa na atmosfera.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Incêndio no Cerrado

O futuro nasce das raízes

O desmatamento destrói o lar de diversas espécies e afeta diretamente o nosso também… Todo o carbono armazenado no solo do Cerrado pode retornar para a atmosfera, além de perdermos as plantas responsáveis por manter esse ciclo. 

Da mesma maneira, os aquíferos perdem parte de seus mecanismos naturais de reabastecimento, interferindo no fluxo dos rios.

Defender a conservação do Cerrado é fundamental em diferentes dimensões. O bioma abriga uma biodiversidade imensa, singular e originária do nosso território. Essa biodiversidade sustenta serviços ecossistêmicos essenciais para a vida humana, que vão desde a purificação da água até aspectos culturais e sociais.

É preciso enxergar o que existe debaixo dos nossos pés e compreender como todo o ecossistema está interligado, incluindo nós mesmos. 

Lutar pela conservação do Cerrado é garantir que as próximas gerações também possam existir, conhecer e desfrutar desse bioma.

Para saber mais…

Artigo de Periódico, Revista e/ou Jornal

ENOCH, J. et al. Estimativa da contribuição hídrica superficial do cerrado para as grandes regiões hidrográficas brasileiras. XVII Simpósio Brasileiro De Recursos Hídricos São Paulo – 2007

FELIPPE M. Conflitos conceituais sobre nascentes de cursos d’água e propostas de especialistas. GEOGRAFIAS Belo Horizonte, 17 de janeiro – 06 de junho de 2013. Vol. 9, nº 1, 2013

KLINK, C. A.; MACHADO, R. B. A conservação do Cerrado brasileiro. MEGADIVERSIDADE, v. 1, n. 1, p. 147-155, 2005. Disponível em: https://professor.pucgoias.edu.br/sitedocente/admin/arquivosUpload/17973/material/Cerrado_conservacao.pdf

RIGHI, CA et al. Biodiversity and biomass relationships in a cerrado stricto sensu in Southeastern Brazil. Environ Monit Assess. 2023 Mar 21;195(4):492. doi: 10.1007/s10661-023-11051-w. 

ROSALEM, P. et al. Alterações morfológicas e fisiológicas na estrutura vegetativa de Bulbostylis paradoxa associadas ao seu rápido florescimento no pós fogo. REPOSITÓRIO INSTITUCIONAL UNESP 2021

Blogs e Sites na internet

BBC NEWS BRASIL. Como as raízes do Cerrado levam água a torneiras de todas as regiões do Brasil. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-39391161

CERRATINGA. Abelhas nativas. Cerratinga. Disponível em: https://cerratinga.org.br/abelhas-nativas. 

INSTITUTO CHICO MENDES DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE (ICMBIO). Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade do Cerrado e Caatinga – Biodiversidade. Disponível em: https://cerrado.org.br/conheca/longas-raizes-conexoes-profundas/#:~:text=Apesar%20de%20grande%20parte%20da,13%2C7%20bilh%C3%B5es%20de%20toneladas.

IPAM AMAZÔNIA. Cerrado. Disponível em: https://ipam.org.br/como-atuamos/biomas/cerrado/.

Autoria

Beatriz Leite tem 20 anos e é aluna de Ciências Biológicas na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). É apaixonada por ciência, e no momento faz iniciação científica sobre mamíferos aquáticos. Durante a graduação ganhou o apelido de Carcará, porque se ela fosse um bicho definitivamente seria um! O Cerrado a fascina, e pretende trabalhar com conservação no futuro.

Leia Também:

https://www.blogs.unicamp.br/pcr/2026/04/22/o-mundo-das-formigas-sauvas/

https://www.blogs.unicamp.br/pcr/2025/11/27/guerra-infinita-e-possivel-estalar-os-dedos-e-salvar-o-cerrado/

Leave A Comment