A evolução acontece como em Planeta dos Macacos?

Na franquia de filmes Planeta dos Macacos, um vírus desenvolvido em laboratório para o tratamento da doença de Alzheimer é testado em chimpanzés e desencadeia uma série de mutações que ampliam suas capacidades cognitivas (Figura 1). Em contrapartida, esse mesmo vírus é letal para parte da população humana.
Ao adquirirem habilidades como o uso da linguagem verbal e formas mais complexas de organização social, os macacos iniciam uma revolução em busca de liberdade e igualdade. Ao longo da história, eles entram em guerras, matam uns aos outros e utilizam armas, granadas e outras estratégias típicas dos conflitos retratados entre humanos.

Embora esse seja o enredo de uma obra de ficção científica, ele desperta algumas questões interessantes: seria possível que uma mudança evolutiva tão expressiva ocorresse em apenas uma geração? Os vírus são capazes de alterar o DNA de humanos e de outras espécies? E, por fim, faz sentido considerarmos os macacos inferiores apenas por não apresentarem a nossa forma de “inteligência”?
Primeiras respostas
Começando pelos vírus: sim, eles podem alterar o DNA de humanos e de outros seres vivos. Porém, isso não acontece da forma retratada no filme. A infecção por um vírus não produz, de maneira imediata, mudanças complexas no comportamento ou na inteligência de um organismo. Além disso, nosso DNA possui mecanismos de reparo capazes de corrigir parte das alterações que ocorrem naturalmente.
Já em relação à evolução, podemos dizer que mudanças evolutivas podem acontecer tanto ao longo de muitas gerações quanto em períodos relativamente curtos. No entanto, quando falamos em “rápido” na Biologia, geralmente estamos nos referindo a dezenas ou centenas de gerações, e não a uma única geração, como ocorre em Planeta dos Macacos.
Outro ponto importante é questionarmos a ideia de que o comportamento e a inteligência humana representam o estágio final da evolução. As coisas não funcionam dessa maneira. Frequentemente analisamos outros animais comparando-os com os seres humanos e, por isso, tendemos a classificá-los como inferiores por não seguirem o nosso padrão. No entanto, cada grupo apresenta características próprias e compartilhadas, resultado de uma história evolutiva moldada por diferentes processos. A evolução não possui uma direção predeterminada nem um objetivo final; ela produz diferentes formas de viver e de interagir ambientes diversos.

Vamos lá, então!
As forças evolutivas
Para entender a evolução, é interessante dividir esse grande processo em alguns mecanismos que atuam continuamente nas populações. Entre eles estão a seleção natural, a deriva genética e a teoria neutralista.
A seleção natural ocorre quando indivíduos que possuem determinadas características apresentam maior chance de sobreviver e se reproduzir em um determinado ambiente. Ao deixarem mais descendentes, essas características tendem a se tornar mais frequentes ao longo das gerações. É importante destacar que as variações surgem ao acaso, a seleção dessas variações depende das condições do ambiente.
A deriva genética, por sua vez, é um processo que pode ocorrer quando uma população é dividida por uma montanha, um rio ou outro tipo de barreira geográfica. De forma que esses grupos passam a evoluir de forma independente. Com o passar de muitas gerações, a ação da deriva genética, da seleção natural e de outros processos pode torná-los cada vez mais diferentes, podendo até originar novas espécies.
Por fim, a teoria neutralista propõe que muitas das mudanças observadas no DNA não conferem vantagem nem desvantagem aos organismos. Elas simplesmente persistem ao longo do tempo porque não interferem na sobrevivência ou na reprodução. Essa ideia também nos lembra que a evolução não possui um objetivo final. Os seres vivos não evoluem para se tornarem “melhores”, mas apenas continuam mudando ao longo das gerações em resposta a diferentes processos evolutivos.
De onde viemos?
A origem da nossa espécie é semelhante a todas as outras. O organismo ancestral de todos os seres vivos, nosso tata…tataravô (LUCA, Último Ancestral Comum Universal), era parecido com as bactérias: apenas uma célula, muito pequena, invisível a olho nu e que vivia no mar.
Após bilhões de anos de evolução, impulsionada por diferentes processos, como os comentados acima, formaram-se os mais variados grupos de seres vivos, com diferentes modos de vida: alguns solitários, outros vivendo em grupos; alguns herbívoros, outros carnívoros.
Entre tantos grupos, vamos olhar para os mamíferos, animais que possuem pelos e glândulas mamárias. Muitos deles também apresentam placenta, estrutura responsável por nutrir o filhote durante a gestação.
Dando mais um zoom, chegamos aos primatas, grupo conhecido pelo comportamento social, pelas mãos capazes de segurar objetos e pela visão bastante desenvolvida.
Há milhões de anos, na África, um ancestral comum deu origem a diferentes linhagens, entre elas a dos chimpanzés e a dos seres humanos.
Ao longo do tempo, essas linhagens seguiram caminhos distintos e adquiriram diferentes hábitos de vida. Em nossa própria história evolutiva, também houve cruzamentos com outras linhagens aparentadas, como os neandertais e os denisovanos.
Foi assim que chegamos aos dias de hoje.
Não porque somos melhores ou mais evoluídos que os outros animais, mas porque essa foi a história da nossa linhagem.
Ninguém vive sozinho
Por estarmos aqui há relativamente pouco tempo, quase nada quando comparado à história da vida na Terra, e por nos comunicarmos principalmente entre nós, muitas vezes acabamos pensando que somos os donos do ambiente.
Costumamos justificar essa ideia de várias formas: “somos animais racionais”, “criamos a civilização”, “desenvolvemos a tecnologia” e por aí vai.
Na realidade, encontramos formas de comunicação em diversos grupos de animais e até mesmo entre plantas e fungos.
Muitos animais modificam o ambiente em que vivem, organizam-se em sociedades e apresentam divisão de tarefas, entre muitas outras características que costumamos associar àquilo que chamamos de “inteligência”.
O ponto mais importante é que nenhuma forma de vida existe de maneira isolada. Todas interagem entre si.
Isso acontece quando comemos os frutos produzidos pelas árvores, quando piolhos vivem em nossos cabelos ou quando dependemos do oxigênio produzido pelas algas dos oceanos.
Em muitos casos, inclusive, a sobrevivência diante de grandes mudanças ambientais depende dessas relações entre diferentes espécies. Na natureza não existe um juízo de valor sobre quem é superior ou inferior.
Existem apenas diferentes formas de vida interagindo continuamente.
Essa ideia aparece em Planeta dos Macacos: O Reinado, que retrata uma relação de cooperação entre chimpanzés e aves. No entanto, essa interação é apresentada a partir de um olhar antropocêntrico, baseado na domesticação e no controle. Na natureza, as relações entre as espécies são muito mais diversas e complexas. Elas não dependem de um “comando” e nem se resumem à dominância.
A extinção é para sempre?
Ao longo dos bilhões de anos de história da Terra, muitos grupos de seres vivos foram extintos, ou seja, deixaram de existir porque não restou nenhum indivíduo vivo. Isso pode acontecer por diferentes motivos, que muitas vezes atuam em conjunto.
Entre eles estão as mudanças no ambiente, como alterações na disponibilidade de alimento, na temperatura ou no espaço onde vivem. Essas mudanças podem ser desencadeadas por fatores externos, como a queda de um asteroide, ou internos, como grandes erupções vulcânicas.
Mas isso não significa que os grupos que sobreviveram eram mais fortes ou “mereciam” sobreviver. A natureza não faz julgamentos. Ela simplesmente é.
Quando uma espécie é extinta, ela não pode simplesmente surgir novamente. Não existe respawn, termo utilizado nos jogos para descrever o retorno de um personagem após a morte. Cada espécie possui uma história evolutiva única. Com sua extinção, também se perdem todas as relações que ela estabelecia com outras formas de vida. Novas interações podem surgir ao longo do tempo, mas o sistema nunca volta a ser exatamente como era antes.
É isso que acontece, por exemplo, após grandes queimadas. O ambiente pode até se regenerar parcialmente, mas dificilmente retornará ao mesmo estado anterior. Algumas espécies desaparecem, outras ocupam seu lugar e novas relações ecológicas passam a ser construídas.
Qual é o nosso papel no mundo?
Mesmo sabendo que as extinções fazem parte da história natural da Terra, o nosso modo de vida, baseado na ideia de que somos donos do planeta e de que a natureza existe para nos servir, tem acelerado o desaparecimento de inúmeras formas de vida. Plantas, anfíbios, insetos, mamíferos e tantos outros grupos vêm sofrendo os efeitos da destruição de habitats, das mudanças climáticas e da exploração excessiva dos recursos naturais. Ao mesmo tempo, comprometemos as próprias condições que sustentam a nossa existência.
Sabendo agora que cada forma de vida é resultado de uma história evolutiva única, fica claro que não faz sentido imaginar que uma espécie evoluiria para se tornar semelhante a outra, como acontece em Planeta dos Macacos. A evolução não possui um objetivo final, nem caminha em direção a um modelo ideal.
Cada espécie responde, à sua maneira, aos desafios do ambiente em que vive.
Se a extinção é definitiva e cada espécie desempenha um papel único na rede da vida, talvez seja hora de nos reconhecermos como parte da natureza, e não como seus proprietários.
Dependemos das outras formas de vida muito mais do que costumamos admitir e, por isso, precisamos repensar aquilo que consideramos valioso.
Talvez possamos aprender um pouco com dois personagens da franquia… César, líder dos macacos, acredita que é possível construir um futuro baseado na convivência e na proteção do grupo. Já Koba, marcado pela violência que sofreu nas mãos dos humanos, passa a acreditar que o conflito e a dominação são os únicos caminhos possíveis. No mundo real, proteger a biodiversidade exige muito mais do espírito de César do que da lógica de Koba.
Para saber mais…
Almeida, AMRD; EL-HANI, CN (2010) Um exame histórico-filosófico da biologia evolutiva do desenvolvimento. Scientiae Studia, v. 8, n. 1, p. 9–10, 2010.
Friedberg, E (2003) DNA damage and repair. Nature, v. 421, p. 436-440, 2003. https://doi.org/10.1038/nature01408
Greenberg, DA; Mooers, AØ (2017) Linking speciation to extinction: Diversification raises contemporary extinction risk in amphibians. Evolution Letters, v. 1, p. 40–48, 2017. https://doi.org/10.1002/evl3.4
Losos, JB (2008) Phylogenetic niche conservatism, phylogenetic signal and the relationship between phylogenetic relatedness and ecological similarity among species. Ecology Letters, v. 11, p. 995-1003, 2008. https://doi.org/10.1111/j.1461-0248.2008.01229.x
Roldan-Arjona, T; Ariza, RR; Cordoba-Canero, D (2019) DNA base excision repair in plants: an unfolding story with familiar and novel characters. Frontiers in Plant Science, v. 10, article 1055, 2019. https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fpls.2019.01055/full
Santos, F (2014) Evolução humana: uma história de ossos e DNA. Ciência & Ambiente, v. 48, p. 43-65, 2014.
Filmes da franquia Planeta dos Macacos que foram referenciados:
BALL, Wes. Planeta dos Macacos: O Reinado. Estados Unidos: Walt Disney Pictures, 2024
REEVES, Matt. Planeta dos Macacos: O Confronto. Estados Unidos: 20th Century Fox, 2014.
REEVES, Matt. Planeta dos Macacos: A Guerra. Estados Unidos: 20th Century Fox, 2017.
WYATT, Rupert. Planeta dos Macacos: A Origem. Estados Unidos: 20th Century Fox, 2011.
Autoria:
Thalita Marques Pereira Marcon é graduanda na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) no curso de Ciências Biológicas.Desenvolve pesquisas na área de zoologia, mais especificamente na taxonomia de ofiuróides (parentes das estrelas-do-mar) e na área de museus. Tem interesse em conservação e biologia marinha e ama filmes de ficção científica.

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Ótimo artigo de uma obra atemporal! PARABÉNS!