Você já ouviu falar em desextinção?

Na imagem estão alguns fósseis de dinossauros caídos da metade para baixo. No alto à esquerda se lê " Você JÁ OUVIU FALAR SOBRE DESEXTINÇÃO?"

Texto de Angel Ricci Moreira

Desextinção se refere à ideia de ressuscitar formas de vida desaparecidas ou manipular organismos de espécies anteriormente extintas. Em Jurassic Park, essa ideia é levada ao extremo, com cientistas revivendo dinossauros a partir de DNA antigo. No filme, ficam em destaque as consequências e os riscos da tentativa de reverter a extinção, assim como o impacto potencial da interferência humana sobre o equilíbrio natural. Ainda que, no filme, isso seja apresentado em seu formato mais extremo.

Mas isso é possível?

A princípio, sim. Existem dois métodos principais que os cientistas utilizam:

Através da clonagem, ou seja, a criação de um novo indivíduo geneticamente idêntico a outro.

Para isso, os cientistas precisam de material genético intacto da espécie que querem ressuscitar. Eles retiram o núcleo de uma célula da espécie extinta e o colocam em um óvulo de uma espécie viva que seja semelhante. O núcleo contém as informações genéticas, enquanto o óvulo ajuda a iniciar o desenvolvimento do novo organismo.

Depois de um processo que envolve o “despertar” desse núcleo, o óvulo começa a se dividir e, eventualmente, se torna um embrião. Esse embrião é então colocado no útero de uma fêmea de uma espécie semelhante, onde se desenvolve até o nascimento.

Outro método é a transferência nuclear por linhagem germinativa.

Esse método é usado principalmente para preservar espécies que estão ameaçadas de extinção ou que já estão extintas, mas ainda possuem espécies semelhantes vivas.

Nesse caso, os cientistas utilizam células embrionárias da espécie que querem ajudar. Isso só é possível se houver representantes dessa espécie ainda vivos em cativeiro.

Assim, esses diferentes métodos podem ser utilizados para a desextinção ou para a preservação de espécies em risco de extinção.

Contudo, a liberação ou o retorno de animais que não ocupam mais seu nicho ecológico apresentam diversas implicações éticas.

Muito além da extinção: o impacto na biodiversidade

Embora a ideia de visitar um zoológico que tenha como atrações espécies antes vistas apenas em filmes, livros e resquícios fósseis possa animar muitas pessoas, a desextinção envolve diversos aspectos morais e ecológicos.

Todos os seres vivos possuem uma função em seu ecossistema, que pode incluir a dispersão de sementes, a contribuição para a adubação do solo e o controle de populações para impedir que haja uma sobrecarga de determinada espécie em um ambiente, entre outras funções.

Assim, quando uma determinada espécie desaparece de sua área de ocorrência, praticamente todas as outras espécies do ecossistema podem sofrer com a perda de um elemento importante para a manutenção da dinâmica ecológica daquele habitat. Entretanto, cabe destacar que algumas das funções realizadas pelas espécies são redundantes, ou seja, outros seres também podem desempenhá-las.

Em contrapartida, há espécies que realizam funções únicas no ecossistema, o que faz com que sua perda seja irreparável e possa influenciar todo o equilíbrio de um ambiente.

O papel ecológico do mamute

O mamute habitou a Terra até cerca de 10 mil anos atrás e era um habitante da chamada tundra, um bioma encontrado majoritariamente nas regiões do Ártico.

Imagem de um mamute em pé e de perfil.

Ao percorrer essas áreas em busca de alimento, como gramíneas e outros tipos de plantas, esse animal acabava pisoteando a vegetação e deixando regiões do solo expostas e disponíveis para que sementes de diversas outras espécies vegetais germinassem.

Além disso, suas fezes e urina contribuíam para a adubação do solo. Desse modo, a tundra canadense e siberiana era rica em diversas espécies vegetais, muito diferente do atual cenário dessas regiões, que é composto principalmente por gramíneas.

Contudo, para que a desextinção ocorra, é importante discutir se nós, seres humanos, temos conhecimento suficiente para entender se nossas ações foram responsáveis pelo desaparecimento da espécie ou se esse desaparecimento fez parte do curso natural da história de vida dela, proporcionado pelos mecanismos evolutivos que, desde o surgimento do primeiro ser vivo, têm interrompido a permanência de determinadas espécies em nosso planeta.

Além disso, é importante refletir sobre a responsabilidade que temos em relação ao nosso impacto sobre a natureza e como isso se relaciona com a possibilidade de trazer de volta espécies extintas.

O mamute conseguiria se adaptar ao ambiente atual?

O ecossistema da tundra mudou consideravelmente desde a extinção do mamute, e a sobrevivência desses animais em um ambiente modificado é incerta.

Os humanos têm o direito de trazê-los de volta?

Trazer espécies extintas à vida implica assumir a responsabilidade por sua proteção e bem-estar, o que exige recursos significativos e planejamento cuidadoso.

E os impactos no ecossistema moderno?

Embora o mamute tenha sido um elemento crucial no passado, sua reintrodução pode gerar conflitos com espécies atuais que ocupam funções semelhantes ou dependem do ambiente em seu estado atual.

Desextinção nos filmes: Jurassic Park

A desextinção de espécies é um tema que ganhou destaque em vários filmes de ficção científica ao longo dos anos, sendo a franquia Jurassic Park um dos exemplos mais icônicos dessa abordagem.

O filme Jurassic Park (1993), primeiro da franquia, dirigido por Steven Spielberg, é baseado no romance de Michael Crichton.

O filme apresenta a criação de dinossauros a partir de DNA pré-histórico preservado em âmbar. Os animais, realmente, voltam. No entanto, tudo o que havia sido planejado para o manejo das espécies sai completamente do controle assim que elas escapam de toda a estrutura de segurança implantada pelos responsáveis pela desextinção.

No enredo do filme, um bilionário excêntrico, John Hammond, cria um parque temático de dinossauros na ilha fictícia de Nublar, na costa oeste da Costa Rica, utilizando tecnologia de clonagem de DNA para trazer dinossauros extintos de volta à vida. A desextinção dessas criaturas é apresentada como um processo de engenharia genética de alta tecnologia, em que cópias ou clones dos dinossauros são gerados a partir de DNA extraído de insetos preservados em âmbar desde a pré-história. A trama de toda a franquia gira em torno dos cientistas, paleontólogos, funcionários do parque e visitantes, que precisam lidar com as implicações e os desafios resultantes da desextinção.

Imagem de dinossauro no meio das árvores.

Embora Jurassic Park seja uma obra de ficção, ele desencadeou debates sobre os desafios reais da clonagem e da desextinção de espécies, bem como sobre as implicações éticas dessas tecnologias. Além disso, o filme levanta questões sobre a responsabilidade humana e as consequências imprevistas da manipulação genética.

Os eventos desastrosos que ocorrem na narrativa, com dinossauros escapando e causando caos, ilustram a complexidade e os riscos envolvidos na tentativa de ressuscitar espécies extintas, fazendo com que o público reflita sobre as implicações da interferência humana na natureza.

Implicações futuras da desextinção

Para trazer uma espécie extinta de volta, é crucial compreender como ela interagia com seu ambiente original. Espécies como o mamute são frequentemente mencionadas como candidatas à desextinção, mas sua reintrodução em ecossistemas modernos, como a tundra siberiana, levanta questões. Será que sua presença ajudaria a restaurar o equilíbrio ecológico, combatendo, por exemplo, o derretimento do permafrost? Ou geraria novos impactos negativos inesperados?

A desextinção também nos força a enfrentar dilemas éticos:

  • Quem decide quais espécies ressuscitar?
  • Como balancear recursos entre a desextinção e a conservação de espécies vivas?
  • Estamos preparados para lidar com as consequências ambientais imprevisíveis?

O impacto ecológico de espécies desextintas pode ser positivo ou desastroso. A desextinção é uma fronteira científica fascinante, com promessas de benefícios e riscos significativos. A chave está em avançar com prudência, garantindo que as decisões sejam orientadas pela ética, pela ciência e pelo compromisso com a preservação da biodiversidade existente. Afinal, antes de ressuscitarmos o passado, precisamos garantir que o presente seja protegido.

Referências

O JURASSIC Park da vida real. LabNetwork. Disponível em: https://labnetwork.com.br/sem-categoria/o-jurassic-park-da-vida-real/. Acesso em: 21 out. 2024.

WHY ‘DE-EXTINCTION’ Is Impossible (But Could Work Anyway). Quanta Magazine. Disponível em: https://www.quantamagazine.org/why-de-extinction-is-impossible-but-could-work-anyway-20220509/. Acesso em: 21 out. 2024.

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https://www.blogs.unicamp.br/conscienciaanimal/desextincao/

Autoria

Sou estudante de Ciências Biológicas na Unicamp desde 2022 e meus interesses passam por áreas como geologia, midialogia e, claro, biologia. Desde criança, sou curiosa e cheia de perguntas sobre o mundo. A ciência é, para mim, uma forma de saciar essa curiosidade, e comunicar o que descubro é uma das partes que mais gosto.

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