Tornar-se mulher: na vida e na ciência

Narrar-se feminista por quê?

Algumas pessoas me perguntam: “Por que usar a palavra ‘feminista’? Por que não dizer que você acredita nos direitos humanos, ou algo parecido?” Porque seria desonesto. O feminismo faz, obviamente, parte dos direitos humanos de uma forma geral – mas escolher uma expressão vaga como “direitos humanos” é negar a especificidade e particularidade do problema de gênero. Seria uma maneira de fingir que as mulheres não foram excluídas ao longo dos séculos. Seria negar que a questão de gênero tem como alvo as mulheres. Que o problema não é ser humano, mas especificamente um ser humano do sexo feminino. Por séculos, os seres humanos eram divididos em dois grupos, um dos quais excluía e oprimia o outro. É no mínimo justo que a solução para esse problema esteja no reconhecimento deste fato (Chimamanda Ngozi Adiche)

Eu não gostaria de chover no molhado… Mas hoje vou falar (novamente) sobre mulheres, a produção de conhecimento e espaços ocupados na sociedade e nos meios culturais, literários, científicos. Talvez mais precisamente: a busca pela representatividade e por referências de mulheres na ciência.

Entre diversos diálogos traçados contemporaneamente torna-se nítido o quanto temos pouco acesso às produções intelectuais de mulheres ao longo de nossa história pessoal. Por exemplo, na escola, em círculos familiares, na universidade, entre amigos: as indicações habitualmente são de homens. Isto é, estudamos homens desde sempre e isso torna-se o lugar comum quando pensamos em escritores, políticos, estudiosos, cientistas… Entretanto, perceba: não é por falta de escritoras, cientistas, pesquisadoras (etc., etc., etc.).

São faltas decorrentes de silenciamentos, minuciosos, constantes, permanentes. Quando narramos tais práticas, escutamos que são fatos isolados, anedóticos (eu tenho real ojeriza ao modo como usam este termo e seu significado nas discussões de gênero), não significativos. Mais do que isso, são dificilmente mensuráveis. Por isso, cientificamente (no sentido mais duro de ciência possível) são de difícil validação enquanto constituidores de nossa cultura.

Quais são as tuas referências?

Esta noção de silenciamento tem se fortalecido quanto mais lemos e vivenciamos situações que nos fazem – como mulheres – identificar o quanto nos subjetivamos dentro desta cultura que nos silencia historicamente.

Por exemplo, recentemente, me deparei com a descrição do livro Quinze escrito por Rachel de Queiroz aos 19 anos, por Graciliano Ramos, que surpreendeu-se ao saber que era escrito por uma mulher:

“O ‘Quinze‘ caiu de repente ali por meados de 30 e fez nos espíritos estragos maiores que o romance de José Américo, por ser livro de mulher e, o que na verdade causava assombro, de mulher nova. Seria realmente de mulher? Não acreditei. Lido o volume e visto o retrato no jornal, balancei a cabeça: ‘Não há ninguém com esse nome… pilhéria. Uma garota assim fazer romances! Deve ser pseudônimo de sujeito barbado’
Depois conheci ‘João Miguel’ e conheci Rachel de Queiroz, mas ficou-me durante muito tempo a ideia idiota de que ela era homem, tão forte estava em mim o preconceito que excluía as mulheres da literatura. Se a moça fizesse discursos e sonetos, muito bem. Mas escrever João Miguel e Quinze não me parecia natural.”

Arrisco dizer que Simone de Beauvoir afirmaria à Graciliano Ramos que realmente não é natural que uma mulher escreva tais obras. Tanto quanto não é natural a homens escrever obras desta magnitude. Não está em nosso cariótipo esta impossibilidade. Ou seja, mulheres não nascem incapazes biologicamente de escrever grandes livros pela nascença.

Nós, mulheres, éramos (e somos até hoje) ensinadas a fazer outras coisas, nos ocuparmos com outros afazeres. Éramos, e somos até hoje, imbuídas de inúmeras atividades extras. Grande parte das mulheres, no passado, e ainda hoje, não se alfabetizaram. É a isto que se refere a frase, famosa, de Simone de Beauvoir “não se nasce mulher, torna-se”. Tornamo-nos quem somos por um conjunto de vivências, fatos, ditos e não ditos constantes e perenes. Quem lemos ou deixamos de ler, ver, ouvir também fomenta esta formação. Engendra parte de nós.

Dessa maneira, soma-se às vivências e aprendizados, esta maciça quantidade de homens que permeiam nossas referências técnicas, científicas e literárias, por exemplo. Como aprender a potência das grandes poetas* brasileiras, como Alice Ruiz, Hilda Hilst, Cora Coralina, Adélia Prado, Ana Cristina Cesar, Cecília Meireles ou Clarice Linspector, quando tanto silencia-se estas mulheres dentro da literatura nacional em espaços diversos?

Representatividade

Quando abordamos a ideia de representatividade é disto que se trata? De modo geral, este termo tem sido usado quando tratamos de debates em que se falam dos lugares de grupos étnicos, de gênero, de classe comumente. Assim, representatividade seria, efetivamente, a presença de representantes destes grupos em espaços em que dificilmente se ocupam. Um exemplo? Mulheres escritoras. Existem muitas? Sim! Quantas existem na Academia Brasileira de Letras? Oito. Oito mulheres somente. Nenhuma mulher negra. Existem mulheres que são fantásticas e deveriam ser lidas e debatidas nas escolas? Sim! Muitas! Quantas vocês leram? (Pode incluir as que estão listadas na Academia Brasileira de Letras…). Tu conheces poetas ou escritoras contemporâneas? Em que espaços elas são divulgadas?

E agora… uma poesia

Aproveito o ensejo, inclusive, para divulgar uma das minhas preferidas da atualidade, Ryane Leão, cujas palavras entoam feminismos em palavras simples, com a força que mulheres têm:

se enganam os que não sabem
que a literatura também é uma arma

a mais carregada
a mais poderosa
tanto que os livros que um dia foram incendiados
ficaram
(Leão, Tudo nela brilha e queima, p.95)

Perdi a conta de quantas vezes
fui desencorajada
a prosseguir com meus poemas
eu me lembro dos telefonemas
e das risadas do outro lado da linha

é tão covarde quem tenta roubar
nossas possibilidades
e uma mulher que não se esconde
provoca medo

eu avisei que a escrita em mim
não se esgota
eu avisei que duvidava de tudo
menos do meu jogo com as palavras
eu avisei
(Leão, Tudo nela brilha e queima, p.106)

Tornar-se mulher e cientista

Retomando e parafraseando Simone de Beauvoir: não nascemos cientistas: tornamo-nos. Sendo assim, é a partir de nosso contato com o conhecimento, sua prática e espaços de produção e estímulos diversos (escolares, familiares, culturais…) que podemos compreender que ser cientista é uma profissão.

É importante dizer que já tratamos deste tema em outros momentos aqui no blog… Todavia, é sempre bom retomar: existe mulher na ciência? Ora, muitas! Mas… quantas tu conheces pelo nome? De que áreas predominantemente?

Interrogo-me, ainda: como aprender a grandiosidade das mulheres cientistas, para além de Marie Curie e Rosalind Franklin? E sobre as inúmeras contribuições das mulheres à produção de conhecimento? Como tornar-se estas mulheres se ainda perdemos a conta de quanto somos minorizadas e desencorajadas (para usar palavras que Ryane Leão usou em seu poema) em círculos científicos e ao longo de toda a vida?

Novamente, a ideia de Adiche, no início deste texto, faz sentido: é preciso falar sobre nosso espaço! Assim, batalhar por este lugar ao sol, narrar-se feminista e mulher que faz e produz conhecimento não é pedir uma chance, nos ofertada independente da qualidade do trabalho das mulheres. É viabilizar reconhecimento de um grupo que, historicamente, ocupa lugares secundários na sociedade, mas produz conhecimento válido, legítimo e que, via de regra, proporciona grandes avanços técnicos, científicos e sociais. Isto é, não queremos apenas apenas igualdade em quantidade de mulheres na ciência, estudando e produzindo ciência (tal como este estudo brasileiro mostra que temos conseguido alcançar razoavelmente). O que nós, mulheres, queremos é voz. Deixar que ecoe, reverbere e seja considerada válida.

Se somos mais de 50% dentro das universidades, queremos ser escutadas como sujeitos que também participam da produção de saber – e queremos ocupar espaços compatíveis com a qualidade do que fazemos! Para isso, são necessárias algumas ações, falarei de duas de forma mais específica: (1) o debate dentro da academia, sociedades científicas, meios de comunicação científico e universidades sobre como proporcionar condições que valorizem para a mulher pesquisadora; (2) representatividade, precisamos conhecer as mulheres que produziram conhecimento antes de nós, compreender suas trajetórias, torná-las referências!

Ah, mas aí também… Tem que merecer os espaços, não é? Querem ocupar lugar sem mérito? Ah tá bom…

Deixar mulheres tornarem-se cientistas: ocupar espaços

Existe muito caminho a ser trilhado, a Revista Nature tem uma série de debates que versam sobre como não é uma questão de qualidade, natureza, e/ou mérito.Mas, sim, questões sociais que legitimam mulheres e homens em diferentes – e assimétricos – espaços acadêmicos. No ano de 2012 a revista Nature publicou um editorial abordando o sexismo dentro da própria revista e como poderiam reverter isso.

Apenas para exemplificar, ainda nesta revista, entre os anos de 2018 e início de 2019 consta uma série de textos incríveis. Desde textos questionando os motivos de tão poucas mulheres ganharem o Nobel na ciência, até como ser laureada ajuda (ou não) no sentido de encorajar a diversidade de gênero, passando por como mulheres ganham menos mesmo com a mesma titulação. Também há o debate sobre como mulheres podem enfrentar os preconceitos de gênero nos laboratórios e como existe baixa representatividade de mulheres no próprio editorial da revista.

No entanto, faço uma ressalva: minha intenção com estes links não é de exaltar a revista. Obviamente poderíamos perguntar “quem sou eu na fila do pão” para propor exaltações ou deméritos para uma revista deste porte, não é mesmo? É apenas uma pequena amostra de como esta discussão vem aparecendo em um âmbito importante da comunicação científica para cientistas.

Mas, e no Brasil?

É necessário que as crianças e os jovens conheçam os nomes de mulheres que, mesmo esquecidas, estiveram nos meios acadêmicos. E saibam que as mulheres não estiveram ausentes no desenvolvimento da matemática e das ciências no mundo ocidental, e que no Brasil não foi diferente. (Hildete Pereira de Melo e Ligia Rodrigues, 2018)

Aqui no Brasil, o quadro parece animador, à primeira vista. Mas ao olhar de forma mais atenta, vemos muita disparidade quanto ao gênero. O Jornal da USP publicou, ano passado, os resultados de uma pesquisa que aponta a desigualdade entre diferentes áreas de conhecimento.

Já o CNPq abriu um edital específico para meninas e mulheres nas ciências exatas, engenharias e computação, o que é um primeiro passo dentro de políticas públicas específicas, para abrir lugar para nós, dentro deste campo ainda tão habitado por homens.

O resgate de informações sobre a atuação das mulheres é fundamental para isto. Neste sentido, o livro Pioneiras da ciência no Brasil, publicado em 2006 por Hildete Pereira de Melo e Ligia Rodrigues, é uma importante referência. Resgata nossa história, a contribuição da mulher para a ciência no Brasil.

Por fim, fecho com uma indicação ainda na ideia da importância da representatividade. Como mulher já temos dificuldade para vislumbrar aquelas pesquisadoras que tenham marcado espaço na história e na contemporaneidade, a fim de nos espelharmos e inspirarmos. No entanto, como já mencionei anteriormente muito brevemente, mulheres negras têm ainda menos espaço e destaque nestas histórias. Tomei conhecimento hoje do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras, coordenado por Giovana Xavier que publicou um livro eletrônico em 2017: Catálogo Intelectuais Negras VisíveisA potência da frase que abre o livro, fecha os escritos deste post, em homenagem às mulheres da ciência. Por tudo o que já foi luta, pelos espaços que ocuparam antes de nós, pelos espaços que seguiremos lutando para que sejam nossos, para que visibilidade, representatividade e igualdade sejam as pautas do dia, do mês, da vida:

“Você pode substituir mulheres negras como objeto de estudo por mulheres negras contando a sua própria história” (Giovana Xavier)

Para saber mais

Adiche, Chimamanda Ngozi (2015) Sejamos todos feministas. Companhia das Letras.

Barreto, Andréa (2014) A mulher no ensino superior: distribuição e representatividade. Cadernos do GEA, n.6, 2014 – Rio de Janeiro: FLACSO, GEA; UERJ, LPP.

Bristot, Paula Casagrande; Pozzebon, Eliane; Frigo, Luciana Bolan (2017) A Representatividade das Mulheres nos Games. SBC – Proceedings of SBGames

Ferreira, Ivanir (2018) Desequilíbrio de gênero afeta mulheres cientistas no Brasil. Jornal da USP

Gibney, Elizabeth (2018) What the Nobels are — and aren’t — doing to encourage diversity. Nature 562, 19

Leão, Ryane (2016) Tudo nela brilha e queima: poemas de luta e amor. Editora Planeta

Melo, Hildete Pereira de, & Rodrigues, Ligia. (2018). Pioneiras da ciência no Brasil: uma história contada doze anos depois. Ciência e Cultura70(3), 41-47. https://dx.doi.org/10.21800/2317-66602018000300011

Nature 491, 495 (doi:10.1038/491495a

Nature 558, 344 (2018)

Powell, Kendall (2018) How female scientists can confront gender bias in the workplace. Nature 561, 421-423

Valian, Virginia (2018) Two Nobels for women — why so slow? Nature 562, 165

Woolston, Chris (2019) Scientists’ salary data highlight US$18,000 gender pay gap.

Nature 565, 527

Xavier, Giovana (2017) Catálogo Intelectuais Negras Visíveis. Rio de Janeiro: Malê, 2017.

Posts anteriores sobre o tema

Corpo da mulher: ciência, produção e vida pessoal (parte 6)

Mulher: um ato político

Dia Internacional da Mulher

Para escutar junto

Bióloga, Mestre e Doutora em Educação. Professora do Instituto de Biologia da UNICAMP e do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PECIM). Pesquisa e da aula sobre História, Filosofia e Educação em Ciências, e é uma voraz interessada em cultura, poesia, fotografia, música, ficção científica e... ciência! 😉

Sobre Ana Arnt 31 Artigos
Bióloga, Mestre e Doutora em Educação. Professora do Instituto de Biologia da UNICAMP e do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PECIM). Pesquisa e da aula sobre História, Filosofia e Educação em Ciências, e é uma voraz interessada em cultura, poesia, fotografia, música, ficção científica e... ciência! ;-)

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