Eu cultivei uma melancia quadrada. Já não suportava ver as melancias crescendo tão irregularmente, com tamanhos diferentes, com seu formato oval que as fazia ocupar bastante espaço, que dificultava seu armazenamento, que as fazia rolar por aí. Eu praticamente podia dizer que elas não se comportavam, que eram indisciplinadas.
Ouvi dizer que em uma terra distante, alguém tinha desenvolvido uma técnica para tornar as melancias quadradas. Que sonho! Todas regulares, empilhadas em um pequeno depósito, cada uma sem sair do seu lugar.
Passei a desejar que as minhas também fossem assim, parecia fácil, basta que elas cresçam em um molde. No começo, houve resistência, as melancias não cabiam nas caixinhas e quebravam o molde, mas com o tempo, aprendi como usar a fôrma e finalmente tive minhas melancias quadradas.
Fui elogiado, diziam que minhas melancias pareciam mais agradáveis que as demais, talvez até mais bonitas. Elas foram valorizadas, e receberam atribuições que geralmente não se dá a uma fruta, viraram presentes, itens de decoração…
Não demorou muito para que outros passassem a produzir melancias quadradas, se tornaram um ideal de melancia, o melhor já produzido pela humanidade. Passaram a existir padrões de qualidade, até mesmo concursos para eleger a melancia mais perfeita. E as minhas, bom, as minhas eram a corporificação desse ideal, não podendo ser descritas de outra forma além de belas melancias quadradas.
Hoje quase todas as melancias são quadradas, mas confesso que no fundo sinto saudades do passado, quando as melancias ainda eram doces, diferente de agora onde perderam a doçura pois as colhemos mais cedo para que tenham o tamanho e a forma ideal. Era diferente, quando minha maior preocupação era nutrir o solo para que crescessem saudáveis e não como atualmente onde que tenho que garantir que elas caibam em uma caixa com lados de 18 centímetros.
Este relato pode parecer banal, não fosse o fato de eu não ser agricultor, mas apenas um professor, e este texto nunca ter sido sobre melancias.
Para Saber Mais
ARROYO, Miguel G. Currículo, território em disputa. 5a ed, Vozes, 2011.
SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. 3a ed, Autêntica, 2023.
VEIGA-NETO, Alfredo. Cultura, culturas e educação. Revista brasileira de educação, n. 23, p. 5-15, 2003.
WORTMANN, Maria Lúcia Castagna. Curricularização da Ciência – problematizações sobre práticas e conteúdos de ciências normalizados, s.d.
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