{"id":1045,"date":"2021-12-21T17:26:08","date_gmt":"2021-12-21T20:26:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/?p=1045"},"modified":"2021-12-21T17:59:37","modified_gmt":"2021-12-21T20:59:37","slug":"sobre-tolerancia-violencia-e-humanidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2021\/12\/21\/sobre-tolerancia-violencia-e-humanidades\/","title":{"rendered":"Sobre toler\u00e2ncia, viol\u00eancia e humanidades"},"content":{"rendered":"\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>AGORA QUE SEI<br>me derramar<br>quero dist\u00e2ncia<br>de tudo<br>que me condensa<br>(Bell Pu\u00e3, 2019)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ontem, dia 20 de Dezembro, em uma escola de Santo Andr\u00e9, uma pessoa vestida com roupas de Ku Klux Klan circulava pelo p\u00e1tio na hora do intervalo. A cena foi gravada por estudantes.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"598\" height=\"599\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2021\/12\/Captura-de-tela-de-2021-12-21-16-28-22.png\" alt=\"Imagem de uma pessoa, no p\u00e1tio de uma escola, com alunos ao redor, vestido de Ku Klux Klan.\nNa parte inferior, consta o texto: &quot;Not\u00edcias&quot;: Homem aparece vestido com roupa da Ku Klux Klan em escola p\u00fablica de Santo Andr\u00e9&quot;\" class=\"wp-image-1047\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2021\/12\/Captura-de-tela-de-2021-12-21-16-28-22.png 598w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2021\/12\/Captura-de-tela-de-2021-12-21-16-28-22-300x300.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2021\/12\/Captura-de-tela-de-2021-12-21-16-28-22-150x150.png 150w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2021\/12\/Captura-de-tela-de-2021-12-21-16-28-22-24x24.png 24w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2021\/12\/Captura-de-tela-de-2021-12-21-16-28-22-48x48.png 48w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2021\/12\/Captura-de-tela-de-2021-12-21-16-28-22-96x96.png 96w\" sizes=\"(max-width: 598px) 100vw, 598px\" \/><figcaption>Retirado de Alma Preta jornalismo (<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/CXv2A8BhhzW\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.instagram.com\/p\/CXv2A8BhhzW\/<\/a>)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Esta cena, terr\u00edvel, em uma escola p\u00fablica me trouxe \u00e0 tona v\u00e1rios pensamentos difusos sobre os tempos atuais. Vou trazer alguns destes pensamentos acerca dos tempos que vivemos, sobre as autoriza\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia em tempos contempor\u00e2neos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Conversas aleat\u00f3rias do grupo de pesquisa<\/h3>\n\n\n\n<p>Semana passada, em nossa reuni\u00e3o semanal do grupo de pesquisa, o doutorando <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/author\/matheusngutierrez\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Matheus Naville Gutierrez<\/a>, citando Adorno, comentou sobre a entrevista em que fala sobre a \u201ceduca\u00e7\u00e3o contra a barb\u00e1rie\u201d. Em sua fala, retomou a pergunta cl\u00e1ssica que fazemos para momentos como o nazismo alem\u00e3o ou mesmo governos totalitaristas, como o golpe de 64: \u201ccomo foi que deixamos isto acontecer?\u201d ou \u201ccomo foi que deixamos tudo chegar neste ponto?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A cita\u00e7\u00e3o de Adorno, parafraseada por Matheus, foi que a barb\u00e1rie n\u00e3o tem que ser interrogada quando instalada, pois n\u00e3o dever\u00edamos possibilitar que a barb\u00e1rie comece. Ali\u00e1s, o come\u00e7o s\u00e3o pequenos ind\u00edcios e acontecimentos violentos que somos coniventes e vamos deixando passar, sendo permissivos e complacentes. Por exemplo, Matheus fala sobre os horrores dos trotes universit\u00e1rios, que s\u00f3 s\u00e3o comentados em momentos de mortes de estudantes.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">E a ditadura? E as torturas?<\/h3>\n\n\n\n<p>Por exemplo, quando um legislador fala em uma entrevista que a ditadura militar matou pouca gente, ou quando cita o maior torturador deste per\u00edodo para justificar o impeachment de algu\u00e9m. Isto, claro, sem qualquer puni\u00e7\u00e3o administrativa ou legal, vemos abismados e horrorizados tal discurso e seguimos nossa vida.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Ele \u00e9 racista, mas no fundo \u00e9 uma boa pessoa: os silenciamentos cotidianos<\/h3>\n\n\n\n<p>A viol\u00eancia extrema policial contra corpos negros em nossa sociedade, enquanto a branquitude passeia tranquila exaltando a seguran\u00e7a de grandes cidades tamb\u00e9m entra neste jogo. As cidades vivendo a partir de um sil\u00eancio dos impactos ambientais genocidas do mundo rural e de territ\u00f3rios ind\u00edgenas. Nossa tranquilidade (nossa pois sou eu parte desta branquitude de classe m\u00e9dia brasileira) \u00e9 gerada a cada \u201cn\u00e3o foi racista\u201d ou \u201cfoi racista mas n\u00e3o precisa ser agressivo, <strong>foi s\u00f3 uma fala<\/strong>\u201d, \u201ca viol\u00eancia n\u00e3o vai resolver isto\u201d, \u201c\u00e9 uma pena, mas n\u00e3o t\u00eam como produzir de outra forma\u201d. Enquanto isso, corpos negros e ind\u00edgenas seguem morrendo..&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1, tamb\u00e9m, aquele tio que faz churrasco aos domingos, racista e mis\u00f3gino, que acha que mulheres de fam\u00edlia deveriam se preservar para o casamento, enquanto os homens podem transar (vulgo estuprar) as filhas de empregadas dom\u00e9sticas. Cada vez que levantamos a voz a uma fala assim, somos tolhidos \u201cpara n\u00e3o provocar\u201d briga na fam\u00edlia. Muitas fam\u00edlias t\u00eam exemplares deste tipo em suas casas. Dessa forma, se retrucamos e geramos briga, escutamos depois \u201cprecisava ter falado isso?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, precisava. Ali\u00e1s, precisa!<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">PRECISAMOS SEMPRE FALAR SOBRE A ANU\u00caNCIA COM A VIOL\u00caNCIA COTIDIANA.<\/h2>\n\n\n\n<p>No mundo da educa\u00e7\u00e3o, anos atr\u00e1s, viv\u00edamos a \u00e9gide de um levante conservador que <strong>acusava<\/strong> educadores de doutrina\u00e7\u00e3o, a partir de um cerrado discurso de que qualquer debate e conversa acerca da diversidade &#8211; incluindo hist\u00f3ria do continente africano, rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnicas, culturais, de g\u00eanero e de sexualidade &#8211; eram de vi\u00e9s marxista e\/ou paulofreireano, comunista (ou qualquer outra nomenclatura que pare\u00e7a ofensiva aos olhos daqueles que costumam se situar no espectro que chamamos de extrema direita).<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00edamos embrutecer as vozes, em tom punitivista, amea\u00e7ando com filmagens, mentiras e com propostas de leis inconstitucionais. Enquanto a educa\u00e7\u00e3o e educadores buscavam se defender, apontando as inconsist\u00eancias de tamanho levante incapaz de di\u00e1logo, v\u00edamos, tamb\u00e9m, a sociedade aceitando cada vez mais estas posturas.<\/p>\n\n\n\n<p>O que pouco se discute \u00e9 o quanto os supostos conhecimentos neutros tem, ao fim e ao cabo, suas bases muito bem fundamentadas em teorias liberais e neoliberais, positivistas cl\u00e1ssicas, que negam seu entrela\u00e7amento com a cultura e a hist\u00f3ria de quem escreve seus pressupostos. No entanto, n\u00e3o \u00e9 que tenhamos que abandonar todo o caldo cultural, cient\u00edfico, hist\u00f3rico (<s>por\u00e9m depende, eu particularmente acho que temos que abandonar sim<\/s>). \u00c9 assumir o vi\u00e9s. Isto \u00e9, assumir que <em>conhecer \u00e9 governar<\/em> e que <em>produzir conhecimento<\/em> \u00e9 parte deste movimento que \u00e9, sim, colonizador em muitas esferas. Dessa forma, impor algo como neutro, atemporal, sem vi\u00e9s \u00e9, exatamente, impor pela viol\u00eancia e supress\u00e3o da pluralidade, sem debate, sem di\u00e1logo.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma educa\u00e7\u00e3o sem vi\u00e9s se d\u00e1 pela imposi\u00e7\u00e3o de dogmas, mais do que por conhecimentos cient\u00edficos, hist\u00f3ricos e sociais. Assim, uma educa\u00e7\u00e3o sem questionamento e di\u00e1logo \u00e9, sempre, uma educa\u00e7\u00e3o que se d\u00e1 pela viol\u00eancia e opress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Sobre o \u201cdeixa disso\u201d e \u201cn\u00e3o provoca\u201d<\/h3>\n\n\n\n<p>Diferente do famoso \u201cdeixa disso\u201d, estamos falando de amainar o discurso, como se n\u00e3o fosse grave, vendo falas sobre a intoler\u00e2ncia de modo cotidiano. Tolerar significa \u201caceitar, suportar algo com resigna\u00e7\u00e3o\u201d. Tolerar est\u00e1 distante de algo bom. Significa que eu preferia que n\u00e3o existisse o \u201calgo\u201d, mas j\u00e1 que existe, eu <strong><em>suporto<\/em><\/strong>. Toler\u00e2ncia est\u00e1 longe, por exemplo, de ser \u201crespeito\u201d pela exist\u00eancia deste algo.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra fala comum \u00e9 o \u201cn\u00e3o provoca\u201d. Ora, como se precisasse \u201cprovocar\u201d para termos respostas violentas em nossa sociedade. O que provoca intolerantes (e pseudo-tolerantes) \u00e9 a exist\u00eancia dos <em>outros<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Em tempos como o que vivemos, temos aceitado pasmados que pessoas proclamem sua pr\u00f3pria liberdade, considerando que, para isso, outros morram. Ou pior: <strong><em>precisem morrer.<\/em><\/strong> T\u00eam sido dias de luta por toler\u00e2ncia, porque nem a ideia de <em>suportar<\/em> a exist\u00eancia tem sido a regra.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Como chegamos at\u00e9 este ponto?<\/h2>\n\n\n\n<p>Ouvindo de vozes que ocupam espa\u00e7os de poder que cotas \u00e9 trocar c\u00e9rebros por bundas, sem retalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Escutando relatos de ass\u00e9dio e abuso sexual e moral em espa\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o de conhecimentos, sem retalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficando constrangidos quando vemos a defesa de pseudoci\u00eancia se instalando dentro de universidades consagradas, e nos silenciando.<\/p>\n\n\n\n<p>Percebendo aplausos para terroristas e torturadores em espa\u00e7os p\u00fablicos de poder (como uma c\u00e2mara de deputados); sem qualquer debate \u00e9tico em inst\u00e2ncias com status para isto.<\/p>\n\n\n\n<p>Ouvindo que mulheres deveriam ser estupradas, minorias deveriam se curvar. Tanto quanto que embranquecimento familiar \u00e9 bom. Ali\u00e1s, existe aquela fala tamb\u00e9m de que bandido bom \u00e9 bandido morto. Ou ainda que se morreu deveria estar aprontando.<\/p>\n\n\n\n<p>Tem ainda aquela ideia de que tudo bem ter uma a\u00e7\u00e3o em Parais\u00f3polis em que jovens morrem pisoteados, afinal baile na rua, em bairro perif\u00e9rico, s\u00f3 tem ladr\u00e3o e drogado.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas estas falas naturalizam a mortandade de pessoas em tom punitivista e eugenista, em sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Vendo que qualquer pessoa da comunidade LGBTQIA+ \u00e9 tratada, narrada, apontada como uma aberra\u00e7\u00e3o. Dessa forma, aponta-se que sua exist\u00eancia n\u00e3o \u00e9 natural, n\u00e3o deveria existir, achando que isto s\u00e3o \u201cvozes de um tempo\u201d e n\u00e3o adianta combater a fala.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A Unicamp<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c9 bom retomar que a nossa universidade j\u00e1 foi alvo de uma a\u00e7\u00e3o racista e nazista em agosto de 2018, quando uma pessoa pichou a biblioteca do IEL com dizeres nazistas. Eu discuti esta quest\u00e3o, \u00e0 \u00e9poca, neste texto <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/08\/16\/quem-e-ser-humano-eugenia-e-racismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">aqui<\/a>. Dessa forma, \u00e9 preciso compreender que, longe de a\u00e7\u00f5es isoladas, tais atos precisam de um envolvimento ativo da comunidade universit\u00e1ria em seus espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, chegamos at\u00e9 este ponto por aceitar a barb\u00e1rie e cultiv\u00e1-la como um beb\u00ea fofo, que precisa de conforto e comida boa e quentinha, ao menor sinal de choro e desconforto. Al\u00e9m disso, por coniv\u00eancia com a opress\u00e3o, a morte e a viol\u00eancia, chegamos neste ponto por olhar a fala que indica a morte como aceit\u00e1vel e, <strong><em>mais do que toler\u00e1-la<\/em>, <\/strong>consider\u00e1-la parte de nossa vida, sem qualquer retalia\u00e7\u00e3o. N\u00f3s basicamente olhamos para quem violenta e dizemos: n\u00e3o adianta falar, eles s\u00e3o assim. E seguimos servindo-os.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Sobre o sil\u00eancio<\/h5>\n\n\n\n<p>Durante a ditadura, Eduardo Alves da Costa escreveu uma poesia (parafraseando Maiak\u00f3vski), que vale ser retomada:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cNa primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim.<br>E n\u00e3o dizemos nada.<br>Na segunda noite, j\u00e1 n\u00e3o se escondem: pisam as flores, matam nosso c\u00e3o.<br>E n\u00e3o dizemos nada.<br>At\u00e9 que um dia, o mais fr\u00e1gil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.<br>(No caminho de Maiak\u00f3vski, Eduardo Alves da Costa, 1968)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Entretanto, ainda \u00e9 pouco\u2026<\/h2>\n\n\n\n<p>Embora esta poesia seja importante, h\u00e1 algo que precisa ser pensado. Por um lado nos alerta acerca dos riscos que corremos em um futuro n\u00e3o muito distante. Seja pelo sil\u00eancio e descaso com a morte de outros, seja por perdermos a voz.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, n\u00e3o devemos al\u00e7ar nossa voz em defesa da exist\u00eancia de outra pessoa \u201cpor um dia eu correr este risco tamb\u00e9m\u201d. Isto por que \u00e9 como aquela frase, sabe? \u201cNossa, parece que n\u00e3o tem filha\u201d, quando v\u00ea algu\u00e9m sendo machista e violento contra uma mulher.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, no fundo, aqui cabe um apontamento que sempre parece escorregar nas falas. Isto \u00e9, as pessoas n\u00e3o deveriam violentar outra pessoa <strong>pelo fato de que o outro \u00e9 um ser humano<\/strong>. Ou seja, todas estas viol\u00eancias de que estamos tratando se vinculam ao cl\u00e1ssico movimento de <strong><em>desumaniza\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong>. Literalmente, retirar a humanidade destas pessoas. O que as faz humanas.<\/p>\n\n\n\n<p>E parece t\u00e3o banal a diferen\u00e7a. Mas o que salta aos olhos \u00e9 o quanto o cerne do debate \u00e9 a anu\u00eancia com a \u201ccategoria\u201d homem, branco, heterossexual, cisg\u00eanero. Enquanto isso, qualquer fuga deste padr\u00e3o precisa ser legitimada como ser humano (e, depois disso, ser humano de direitos\u2026).<\/p>\n\n\n\n<p>E eu sempre bato nesta tecla &#8211; e seguirei fazendo. Isto \u00e9, para sermos considerados humanos n\u00e3o nos basta termos um genoma humano. Dessa forma, \u00e9 preciso que sejamos considerados como tais, dentro de uma comunidade. Ou seja, torna-se necess\u00e1rio o reconhecimento de nossa exist\u00eancia como tal.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando falamos de uma viol\u00eancia como a intoler\u00e2ncia (e a toler\u00e2ncia, dentro destes conceitos abordados aqui) \u00e9 da <strong>nega\u00e7\u00e3o deste status que estamos falando.<\/strong> N\u00e3o permitimos que <em>os outros<\/em> existam.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Quem toma a toler\u00e2ncia como base, no fundo, ofende-se com a exist\u00eancia de outros, por isso deseja (e causa) a morte.<\/h4>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Fic\u00e7\u00e3o (e realidade)<\/h2>\n\n\n\n<p>Asimov, no livro A Funda\u00e7\u00e3o, tem uma das frases mais emblem\u00e1ticas sobre viol\u00eancia (particularmente uma das minhas cita\u00e7\u00f5es favoritas). \u201cA viol\u00eancia \u00e9 o \u00faltimo ref\u00fagio do incompetente\u201d. Se tomarmos a possibilidade de conviver com a diversidade uma quest\u00e3o de <strong><em>compet\u00eancia<\/em><\/strong>, talvez esta frase se aplique bem aos tempos atuais.<\/p>\n\n\n\n<p>Todavia, tamb\u00e9m reside em toda esta anu\u00eancia, um refor\u00e7o cotidiano necropol\u00edtico &#8211; em que a\u00e7\u00f5es do Estado colocam em risco, propositadamente, vidas humanas. Neste caso, n\u00e3o \u00e9 de uma incompet\u00eancia jur\u00eddica e pol\u00edtica que estamos falando. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para incompet\u00eancias quando se concorda com (e se calcula modos de) matar pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Novamente, existem pontos cir\u00fargicos a serem levados em conta. Isto \u00e9, por mais <em>pr\u00e1ticos<\/em> que sejam (no sentido de executar pessoas), seguem conceituais, como constru\u00e7\u00f5es sociais, pela banaliza\u00e7\u00e3o e silenciamento dos discursos\u2026<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Humanidades<\/h2>\n\n\n\n<p>Krenak, neste sentido, pergunta sobre como podemos falar em <strong><em>humanidade<\/em><\/strong>, se h\u00e1 tantos alienados da <em>possibilidade de ser<\/em>? Que humanidade \u00e9 esta que se v\u00ea obrigada a viver, falar, pensar, respirar sob a mesma \u00e9gide? Sendo esta \u00e9gide pautada na morte da pluralidade e da diversidade? Krenak aponta para a necessidade de pensarmos um novo conceito de humanidade, que inclua a condi\u00e7\u00e3o da vida &#8211; humana e n\u00e3o humana &#8211; em nosso planeta.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Finalizando<\/h2>\n\n\n\n<p>As vezes me parece que falar sobre <em>pensar conceitos<\/em> \u00e9 um exerc\u00edcio bobo e banal. Qui\u00e7\u00e1 te\u00f3rico-acad\u00eamico sem qualquer praticidade. Entretanto, esta necessidade de um novo conceito, levantado por Krenak, n\u00e3o \u00e9 rasid\u00e3o. Essa fala tem em seu cerne apontar que n\u00e3o temos mais que <em>suportar<\/em> estas viol\u00eancias cotidianas e n\u00e3o dever\u00edamos nos submeter a elas. Ou seja, que as vidas est\u00e3o aqui e precisam ser vistas e respeitadas como tais. Antes de virar a\u00e7\u00e3o, precisa ser <em>pensamento cotidiano<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto n\u00e3o fizermos nada al\u00e9m de nos abismar, \u00e9 de morte que se trata a rotina.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ah mas e o caso da escola, citado l\u00e1 em cima&#8221;: precisa ser registrado, com a puni\u00e7\u00e3o tal qual manda a lei. RACISMO.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-center has-white-color has-vivid-red-background-color has-text-color has-background wp-block-heading\">A vida, em sua pluralidade, n\u00e3o precisa ser <em>tolerada<\/em>. \u00c9 preciso que nossa exist\u00eancia seja naturalizada como fato.<\/h2>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Para saber mais<\/h2>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2021\/04\/13\/ensino-de-ciencias-descolonizado-espaco-de-todos-os-saberes\/\">Ensino de ci\u00eancias descolonizado: espa\u00e7o de todos os saberes<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2021\/06\/21\/a-ultima-floresta-novos-olhares-para-a-educacao-ambiental\/\">\u201cA \u00daltima Floresta\u201d: novos olhares para a Educa\u00e7\u00e3o Ambiental<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/03\/15\/mulher-um-ato-politico\/\">Mulher: um ato pol\u00edtico<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/08\/16\/quem-e-ser-humano-eugenia-e-racismo\/\">Quem \u00e9 ser humano? Racismo e viol\u00eancia cotidiana<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Asimov, Isaac, <strong>A Funda\u00e7\u00e3o<\/strong> <strong>I<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Bell Pu\u00e3 (2016) Agora que sei, In: Duarte, Mel (org) <strong>Querem nos calar<\/strong>, S\u00e3o Paulo: Editora Planeta.<\/p>\n\n\n\n<p>Foucault, Michel (2003) <strong>A ordem do Discurso<\/strong>, 9\u00aa edi\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Loyola<\/p>\n\n\n\n<p>Krenak. Ailton (2020) <strong>Ideias para adiar o fim do mundo, <\/strong>S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.<\/p>\n\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>AGORA QUE SEIme derramarquero dist\u00e2nciade tudoque me condensa(Bell Pu\u00e3, 2019) Ontem, dia 20 de Dezembro, em uma escola de Santo Andr\u00e9, uma pessoa vestida com <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2021\/12\/21\/sobre-tolerancia-violencia-e-humanidades\/\" title=\"Sobre toler\u00e2ncia, viol\u00eancia e humanidades\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":296,"featured_media":1052,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_eb_attr":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[105,4],"tags":[320,336,338,335,106,191,334,337],"class_list":["post-1045","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ciencia-e-sociedade","category-cultura","tag-escola-publica","tag-escola-sem-partido","tag-humanidade","tag-ku-klux-klan","tag-racismo","tag-ser-humano","tag-tolerancia","tag-violencia"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2021\/12\/Intolerancia.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1045","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/users\/296"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1045"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1045\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1055,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1045\/revisions\/1055"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1052"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1045"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1045"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1045"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}