{"id":1440,"date":"2024-06-07T18:37:15","date_gmt":"2024-06-07T21:37:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/?p=1440"},"modified":"2024-06-07T18:42:39","modified_gmt":"2024-06-07T21:42:39","slug":"colonialismo-star-trek","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2024\/06\/07\/colonialismo-star-trek\/","title":{"rendered":"O colonialismo em Star Trek e a inven\u00e7\u00e3o do &#8220;Outro&#8221; do primeiro contato"},"content":{"rendered":"\n<pre class=\" wp-block-verse has-text-align-center has-small-font-size eplus-wrapper\"><em>Texto de Layla Oliveira de Moraes<\/em><\/pre>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Voc\u00eas j\u00e1 pararam para pensar sobre as rela\u00e7\u00f5es entre diferentes popula\u00e7\u00f5es e esp\u00e9cies de filmes da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e como elas coabitam, tendo diferentes costumes, tradi\u00e7\u00f5es e tecnologias? Em geral, h\u00e1 uma s\u00e9rie de embates em torno de domina\u00e7\u00f5es, estabelecimento de democracias, rep\u00fablicas ou pol\u00edticas autorit\u00e1rias interplanet\u00e1rias que envolvem estes filmes. Hoje n\u00f3s gostar\u00edamos de falar um pouco sobre essas rela\u00e7\u00f5es, a partir de um debate sobre decolonialidade, em Star Trek&#8230;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\">Star Trek e a Frota Estelar<\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image \">\n<figure class=\"aligncenter size-vp_sm eplus-wrapper\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"375\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2024\/06\/20211119-saga-star-trek-papo-de-cinema-800-500x375.jpg\" alt=\"Foto com recortes verticais das personagens do primeiro elenco de Star Trek\" class=\"wp-image-1443\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2024\/06\/20211119-saga-star-trek-papo-de-cinema-800-500x375.jpg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2024\/06\/20211119-saga-star-trek-papo-de-cinema-800-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2024\/06\/20211119-saga-star-trek-papo-de-cinema-800-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2024\/06\/20211119-saga-star-trek-papo-de-cinema-800-678x509.jpg 678w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2024\/06\/20211119-saga-star-trek-papo-de-cinema-800-326x245.jpg 326w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2024\/06\/20211119-saga-star-trek-papo-de-cinema-800-80x60.jpg 80w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2024\/06\/20211119-saga-star-trek-papo-de-cinema-800.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imagem de divulga\u00e7\u00e3o do elenco original da saga Star Trek<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Star Trek (nome original) ou Jornada nas Estrelas (vers\u00e3o brasileira do nome) \u00e9 uma s\u00e9rie estadunidense dos anos de 1966 de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, sobre viagens interestelares em um futuro long\u00ednquo (o distante ano de 2063). Sendo que as viagens espaciais s\u00e3o feitas em naves que ultrapassam a velocidade da luz. Isto permite a explora\u00e7\u00e3o de lugares inimagin\u00e1veis do nosso universo. Uma das consequ\u00eancias dessas viagens \u00e9 o contato com novas formas de vida, novos povos, novas civiliza\u00e7\u00f5es, novas culturas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Essas naves fazem parte da Frota Estelar. A frota se configura como a institui\u00e7\u00e3o militar respons\u00e1vel pela defesa dos planetas filiados \u00e0 Federa\u00e7\u00e3o dos Planetas Unidos (organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica interestelar). Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m \u00e9 e pela explora\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, realizando\u00a0a\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas, o desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico, al\u00e9m do conhecimento sobre gal\u00e1xias e seus residentes (FANDOM, 2024). Nos filmes e s\u00e9ries de Star Trek, portanto, a Frota Estelar \u00e9 composta por integrantes das diversas na\u00e7\u00f5es que fazem parte da Federa\u00e7\u00e3o (maneira como \u00e9 chamada a Federa\u00e7\u00e3o dos Planetas Unidos).<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\">Na\u00e7\u00e3o: um conceito em quest\u00e3o<\/h4>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Entendemos aqui como \u201cna\u00e7\u00e3o\u201d as diferentes esp\u00e9cies de seres organizadas, de alguma maneira, como povos, popula\u00e7\u00e3o, ampliando a no\u00e7\u00e3o de Na\u00e7\u00e3o-Estado (pa\u00eds) para Na\u00e7\u00e3o-Cultura. Isto \u00e9, seres que compartilham um mesmo modo de vida. Assim como a percep\u00e7\u00e3o de seu mundo e suas intera\u00e7\u00f5es com este mundo, interpreta\u00e7\u00e3o de signos produzindo sentidos para eles, utilizando esse sistema de significa\u00e7\u00e3o para\u00a0<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote eplus-wrapper is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\" eplus-wrapper\">definir o que significam as coisas e para codificar, organizar e regular sua conduta uns em rela\u00e7\u00e3o aos outros. Estes sistemas ou c\u00f3digos de significado d\u00e3o sentido \u00e0s nossas a\u00e7\u00f5es. Eles nos permi\u00adtem interpretar&nbsp; significativamente as a\u00e7\u00f5es alheias. Tomados em seu conjunto, eles constituem nossas &#8220;culturas&#8221;.&nbsp; Contribuem para assegurar que toda a\u00e7\u00e3o so\u00adcial \u00e9 &#8220;cultural&#8221;, que todas as pr\u00e1ticas sociais expressam ou comunicam um sig\u00adnificado e, neste sentido, s\u00e3o pr\u00e1ticas de significa\u00e7\u00e3o. (HALL, 2017, p.16)&nbsp;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h4 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\">Cultura e na\u00e7\u00e3o<\/h4>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Segundo a antrop\u00f3loga argentina Rita Segato (2021, p. 207) \u201ca cultura nada mais \u00e9 do que a decanta\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia hist\u00f3rica acumulada por uma coletividade, e o mito e os costumes, uma forma de condensa\u00e7\u00e3o e simboliza\u00e7\u00e3o desse processo hist\u00f3rico&#8221;. Utilizando a no\u00e7\u00e3o de Na\u00e7\u00e3o-Cultura constru\u00edda anteriormente para os diversos povos humanos, mesmo pertencentes \u00e0 mesma esp\u00e9cie, pode-se ter diferentes sistemas de significa\u00e7\u00e3o distintos. Ou seja, uma mesma esp\u00e9cie pode constituir-se de  culturas diferentes, constru\u00eddas e alteradas historicamente por suas formas de perceber o mundo, vivenci\u00e1-lo e [inter]agir. Neste momento, vislumbramos, por exemplo, a Na\u00e7\u00e3o-Cultura Africana, a Afrodiasp\u00f3rica, a Branca e as Na\u00e7\u00f5es-Cultura Ind\u00edgenas<sup>[1]<\/sup>.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Podemos entender ent\u00e3o, que cada povo ou Na\u00e7\u00e3o-Cultura possui um conjunto de experi\u00eancias e costumes, pr\u00e1ticas sociais, que a individualiza como coletividade cultural. Neste sentido, propicia-se a constru\u00e7\u00e3o de uma identidade aos seus integrantes e senso de pertencimento, al\u00e9m de sua identifica\u00e7\u00e3o como um povo. Neste ponto, ao olharmos para as Na\u00e7\u00f5es-Cultura citadas no par\u00e1grafo anterior, conseguimos elencar pr\u00e1ticas sociais que as distinguem, para al\u00e9m de caracter\u00edsticas f\u00edsicas racializantes (fenot\u00edpicas).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\">Mas, como os diferentes povos [inter]agem em Star Trek?<\/h2>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">No que diz respeito \u00e0 Frota Estelar, a intera\u00e7\u00e3o com novas Na\u00e7\u00f5es-Cultura \u00e9 regulada por diretrizes r\u00edgidas sobre o \u201cprimeiro contato\u201d (apesar de nem sempre elas serem seguidas). A 1\u00ba diretriz da Frota Estelar diz que\u00a0<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote eplus-wrapper is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\" eplus-wrapper\">Considerando que o direito de cada esp\u00e9cie consciente de viver de acordo com a sua evolu\u00e7\u00e3o cultural normal \u00e9 sagrado na narrativa de Star Trek, nenhum membro da Frota Estelar pode interferir com o desenvolvimento normal e saud\u00e1vel da vida e da cultura de uma esp\u00e9cie<strong> <\/strong>alien\u00edgena.\u00a0 Essa interfer\u00eancia inclui a introdu\u00e7\u00e3o de conhecimentos, for\u00e7a ou tecnologia superiores num mundo cujo a sociedade \u00e9 ainda incapaz de lidar com essas vantagens sabiamente. (LANDMAN, 2024).\u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Dessa diretriz de Star Trek, podemos discutir tr\u00eas pontos relevantes. O primeiro \u00e9 a preocupa\u00e7\u00e3o na manuten\u00e7\u00e3o da subjetividade da coletividade a se conhecer e de um desenvolvimento sem perturba\u00e7\u00f5es externas, evitando, assim, o enfraquecimento e destrui\u00e7\u00e3o das capacidades das na\u00e7\u00f5es de definirem \u201cseus pr\u00f3prios modos de vida e ritmo e a dire\u00e7\u00e3o de seu desenvolvimento\u201d (HALL, 2017, p.19). Isso evitaria influ\u00eancias culturais e poss\u00edveis domina\u00e7\u00f5es de uma cultura sobre a outra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">No entanto, utiliza o mecanismo de inferioriza\u00e7\u00e3o das demais coletividades que n\u00e3o compartilham da mesma cultura. Isto \u00e9, parte de seus pressupostos para valorar (incutir valores morais pr\u00f3prios) as culturas com as quais tem contato. Este acontecimento, ao longo dos filmes de Star Trek, \u00e9 indicado pela suposta superioridade tecnol\u00f3gica, que \u00e9 colocada como vantagem. Neste momento, identificamos a constru\u00e7\u00e3o do \u201cOutro\u201d, do \u201cn\u00e3o ser\u201d. Este sujeito e\/ou na\u00e7\u00e3o que necessita ser tutelado por essa entidade superior, a Federa\u00e7\u00e3o, representada pela Frota Estelar, evidenciado pela \u201cesp\u00e9cie alien\u00edgena\u201d.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\">Alien\u00edgena?<\/h4>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">A palavra \u201calien\u00edgena\u201d significa, segundo o dicion\u00e1rio online Oxford Language: \u201c1. que ou quem \u00e9 natural de outro pa\u00eds; estrangeiro, forasteiro; 2. FIGURADO: que ou o que pertence a outros mundos.\u201d. Em um primeiro momento a palavra faz todo sentido, mas em uma \u00e9poca multiplanet\u00e1ria, quem n\u00e3o \u00e9 estrangeiro? Quem n\u00e3o pertence a outro mundo? Ningu\u00e9m! Todos s\u00e3o alien\u00edgenas a depender do referencial. Do ponto de vista de uma Na\u00e7\u00e3o-Cultura a outra \u00e9 alien\u00edgena.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Ainda podemos observar um vi\u00e9s colonial na narrativa de Star Trek, por mais que n\u00e3o se explore os povos como m\u00e3o-de-obra, se explora o potencial natural dos planetas, sua flora, fauna e minerais, busca-se tecnologias e novos conhecimentos a fim de promover o desenvolvimento da Federa\u00e7\u00e3o. Portanto, esse contato n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o inofensivo quanto parece, pelo contr\u00e1rio, proporciona o ac\u00famulo de riqueza material, mas tamb\u00e9m imaterial, por meio da apropria\u00e7\u00e3o de conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\">Fazendo um paralelo entre a fic\u00e7\u00e3o e a realidade, percebemos que v\u00e1rias s\u00e3o as semelhan\u00e7as, mas tamb\u00e9m as diferen\u00e7as.<\/h3>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">O processo de [inter]a\u00e7\u00e3o entre o povo branco com os povos africanos e ind\u00edgenas n\u00e3o respeitou suas subjetividades, impondo sua cultura e sua percep\u00e7\u00e3o do mundo em detrimento da cosmopercep\u00e7\u00e3o desses povos. Interferindo diretamente em seus modos de vida, a Na\u00e7\u00e3o-Cultura Branca classificou a humanidade a partir de suas caracter\u00edsticas f\u00edsicas, racializando e hierarquizando os corpos e destituindo-os de humanidade (PINHEIRO, 2023). Assim, colonizou o continente africano e americano, explorando seus povos, suas terras, seus conhecimentos como se nada ali existisse antes de sua invas\u00e3o, desqualificando as culturas e as organiza\u00e7\u00f5es sociais pr\u00e9-existentes de forma imperialista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Conhecimentos estes que foram e continuam sendo usurpados, numa constante Pilhagem Epist\u00eamica, em que&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote eplus-wrapper is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\" eplus-wrapper\">\u201cum dos principais vetores de \u201cprodu\u00e7\u00e3o oficial do conhecimento\u201d beneficiando sempre os projetos e grupos econ\u00f4micos, art\u00edsticos, raciais socialmente privilegiados, calcado na apropria\u00e7\u00e3o indevida de saberes ind\u00edgenas, africanos e negro-brasileiros para o desenvolvimento de diversos campos, ao mesmo tempo em que h\u00e1 o apagamento do protagonismo dessas minorias, a aus\u00eancia de qualquer retorno em benef\u00edcio para suas fontes, bem como o exterm\u00ednio simb\u00f3lico e literal desses corpos colocados \u00e0 margem da sociedade brasileira.\u201d (FREITAS, 2022, p. 306)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">De maneira devastadora, utilizando-se de uma superioridade auto-declarada, subalternizaram Ind\u00edgenas e Negros, escravizando-os e impondo sua religi\u00e3o, num processo de demoniza\u00e7\u00e3o e apagamento das culturas individuais desses povos, afim de garantir o desenvolvimento econ\u00f4mico e se tornar a Na\u00e7\u00e3o-Cultura hegem\u00f4nica. Conforme a educadora, fil\u00f3sofa e qu\u00edmica brasileira B\u00e1rbara Carine Pinheiro (2023, p.17), ao diminuir o outro, se produz os meios de domin\u00e1-lo, inaugurando um novo modelo de produ\u00e7\u00e3o baseado na acumula\u00e7\u00e3o primitiva de capital.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Foi sob a \u00e9gide da nega\u00e7\u00e3o do outro que a colonialidade foi erguida, produzindo \u201cum padr\u00e3o subjetivo de subalternidade do sul global perante o norte global, uma subalternidade para al\u00e9m da dimens\u00e3o territorial. Ela tamb\u00e9m est\u00e1 relacionada \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um padr\u00e3o \u00e9tico, est\u00e9tico, epist\u00eamico,(&#8230;) religioso (&#8230;)\u201d (PINHEIRO, 2023, p. 107), que perdura mesmo ap\u00f3s o fim da escravid\u00e3o, fundando, segundo a filosofa brasileira Sueli Carneiro (2023, p.19), \u201cnovas formas de assujeitamento racial\u201d. A esse \u201capagamento das particularidades e diferen\u00e7as locais\u201d, o soci\u00f3logo jamaicano Stuart Hall (2017, p.18) deu o nome de \u201chomogeneiza\u00e7\u00e3o cultural\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Entretanto, o problema das Na\u00e7\u00f5es-Cultura Africana, Afrodiasp\u00f3rica e Ind\u00edgenas n\u00e3o se encontra na conserva\u00e7\u00e3o da cultura, como aponta Rita Segato (2021, p. 205), mas, no &#8220;fazer a desintrus\u00e3o de sua hist\u00f3ria, que foi interrompida pela irrup\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria do colonizador, seja este o enviado das metr\u00f3poles europeias ou a elite euroc\u00eantrica aut\u00f3ctone que construiu e administra\u201d o Estado planet\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\">Finalizando<\/h2>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">A parte final da Primeira Diretriz da Frota Estelar <sup>[2]<\/sup> em Star Trek diz que ela n\u00e3o pode ser violada, exceto para corrigir uma viola\u00e7\u00e3o ou contamina\u00e7\u00e3o realizada anteriormente desta diretriz. Mesmo possuindo atos classific\u00e1veis de colonialismo, a Frota Estelar entende que interferir em uma Na\u00e7\u00e3o-Cultura \u00e9 uma viola\u00e7\u00e3o grave, em que a introdu\u00e7\u00e3o de uma \u00ednfima quantidade de\u00a0 pat\u00f3geno pode contaminar e alterar, at\u00e9 destruir, outras Na\u00e7\u00f5es-Cultura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Diferentemente, a colonialidade n\u00e3o pretende corrigir suas viola\u00e7\u00f5es, tampouco os efeitos provocados por elas. Pelo contr\u00e1rio, h\u00e1 uma luta permanente da branquitude pela manuten\u00e7\u00e3o de seus privil\u00e9gios alcan\u00e7ados e acumulados em detrimento das viola\u00e7\u00f5es cometidas contra os povos Negros e Ind\u00edgenas, haja visto a contrariedade \u00e0s Leis de Cotas e o Marco Temporal sobre a demarca\u00e7\u00e3o de Terras Ind\u00edgenas. As repara\u00e7\u00f5es e corre\u00e7\u00f5es de distor\u00e7\u00f5es ocorreram, ocorrem e continuar\u00e3o ocorrendo devido aos movimentos de resist\u00eancia desses povos, desde o primeiro contato, para preservar sua cultura e sua identidade, sua Na\u00e7\u00e3o-Cultura mesmo, muitas vezes, n\u00e3o estando em seus territ\u00f3rios ancestrais.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\">Observa\u00e7\u00f5es<\/h3>\n\n\n\n<ol class=\"eplus-wrapper wp-block-list\">\n<li class=\" eplus-wrapper\">Separamos Na\u00e7\u00e3o-Cultura Africana e Afrodisp\u00f3rica, pois apesar de igualmente Negras e atingidas pelo colonialismo e o holocausto Negro, as popula\u00e7\u00f5es em \u00c1frica conhecem o lugar de onde vieram e tem acesso a sua Ancestralidade de alguma forma, enquanto a popula\u00e7\u00e3o Afrodiasp\u00f3rica se encontra em um &#8220;n\u00e3o lugar&#8221;, n\u00e3o pertencendo ao lugar que nasceu e n\u00e3o tendo para onde voltar, j\u00e1 que lhe foi usurpada a dignidade de conhecer sua Ancestralidade.<\/li>\n\n\n\n<li class=\" eplus-wrapper\">Em Star Trek, os membros da Frota Estelar n\u00e3o podem violar a Primeira Diretriz, mesmo para salvar as suas vidas e\/ou a sua nave, a n\u00e3o ser que eles estejam a corrigir uma anterior viola\u00e7\u00e3o ou contamina\u00e7\u00e3o desta diretriz. Esta diretriz t\u00eam preced\u00eancia sobre todas as outras considera\u00e7\u00f5es, e carrega consigo a maior obriga\u00e7\u00e3o moral.<\/li>\n\n\n\n<li class=\" eplus-wrapper\">Sim, gostamos de Star Trek! Fazer uma an\u00e1lise de conceitos, como parte de exerc\u00edcios te\u00f3ricos, tanto quanto parte de um olhar cr\u00edtico aos mesmos filmes que crescemos apreciando, faz parte da vida acad\u00eamica e adulta. <\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<h2 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">CARNEIRO, Sueli (2023) <strong>Dispositivo de racialidade:<\/strong> A constru\u00e7\u00e3o do outro como n\u00e3o ser como fundamento do ser. Rio de Janeiro: Zaar, 431p.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">FANDOM (s\/d) <a href=\"https:\/\/startrek-u.fandom.com\/wiki\/Frota_Estelar#:~:text=A%20Frota%20Estelar%20%C3%A9%20o,pr%C3%A1tica%20da%20diplomacia%20da%20Federa%C3%A7%C3%A3o\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Frota Estelar<\/strong> &#8211; Star Trek Unlimited<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">FREITAS, Henrique (2022) Pilhagem epist\u00eamica, In: Doris Cristina Vicente da Silva Matos e Cristiane Maria Campelo Lopes Landulfo de Sousa (Org.) <strong>Suleando conceitos e linguagens: decolonialidades e epistemologias outras<\/strong>, Campinas, SP: Pontes Editores, p305-312.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">HALL, Stuart (2017)<a href=\"https:\/\/seer.ufrgs.br\/index.php\/educacaoerealidade\/article\/view\/71361\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> A centralidade da cultura: notas sobre as revolu\u00e7\u00f5es culturais do nosso tempo<\/a>, <strong>Educa\u00e7\u00e3o &amp; Realidade<\/strong>, v22, n2. <\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">LANDMAN, Mdaniel (2024) <strong><a href=\"https:\/\/ussventure.eng.br\/LCARS-Terminal_net_arquivos\/frota\/diretrizes.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Diretrizes da Frota Estelar<\/a><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Pesquisa Google (2024)<strong> <a href=\"https:\/\/www.google.com\/search?q=alien%C3%ADgena+significado&amp;oq=alienigena+&amp;gs_lcrp=EgZjaHJvbWUqBwgFEAAYgAQyBwgAEAAYjwIyBwgBEAAYgAQyBwgCEAAYgAQyBwgDEAAYgAQyBwgEEAAYgAQyBwgFEAAYgAQyCQgGEC4YChiABDIHCAcQABiABDIHCAgQLhiABDIHCAkQABiABNIBCDk3NDFqMGo3qAIAsAIA&amp;sourceid=chrome&amp;ie=UTF-8#ip=1\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Alien\u00edgena<\/a><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">PINHEIRO,\u00a0 B\u00e1rbara Carine Soares (2023) <strong>Como ser um educador antirracista,<\/strong> S\u00e3o Paulo: Planeta do Brasil, 160p.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">SEGATO, Rita (2021) <strong>Cr\u00edtica da colonialidade em oito ensaios:<\/strong> e uma antropologia por demanda, Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 345p.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\">Outros textos do PEmCie<\/h3>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2021\/04\/13\/ensino-de-ciencias-descolonizado-espaco-de-todos-os-saberes\/\">Ensino de ci\u00eancias descolonizado: espa\u00e7o de todos os saberes<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2020\/08\/10\/epistemes-aliens-e-ciencia\/\">Epistemes e alien\u00edgenas: uma discuss\u00e3o cient\u00edfica<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2020\/03\/10\/isaac-asimov-os-robos-e-nocoes-de-sujeito\/\">Isaac Asimov, os Rob\u00f4s e no\u00e7\u00f5es de sujeito: nerdices e fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2019\/05\/16\/amor-morte-robos-e-cultura\/\">Amor, morte, rob\u00f4s e cultura<\/a><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\">A autora<\/h2>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Layla Oliveira de Moraes \u00e9 Mestranda PPG Multiunidades em Ensino de Ci\u00eancia e Matem\u00e1tica (PECIM) &#8211; Unicamp, integrante do Grupo de Pesquisa PEmCie, T\u00e9cnica em Assuntos Educacionais &#8211; Unifesp, onde integra a C\u00e2mara T\u00e9cnica de Equidade Racial. Graduada em Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas &#8211; Unesp\/Bauru e p\u00f3s-graduada em Ensino de Ci\u00eancias &#8211; UTFPR. Atuou na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, como docente no ensino fundamental II &#8211; Ci\u00eancia e como coordenadora do N\u00facleo de Estudos Afro-brasileiro e Ind\u00edgena &#8211; NEABI &#8211; IFMS-AQ.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Texto de Layla Oliveira de Moraes Voc\u00eas j\u00e1 pararam para pensar sobre as rela\u00e7\u00f5es entre diferentes popula\u00e7\u00f5es e esp\u00e9cies de filmes da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2024\/06\/07\/colonialismo-star-trek\/\" title=\"O colonialismo em Star Trek e a inven\u00e7\u00e3o do &#8220;Outro&#8221; do primeiro contato\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":723,"featured_media":1442,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_eb_attr":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[4,165],"tags":[413,409,5,414,232,410,412,408,411],"class_list":["post-1440","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-filosofia-e-sociologia-da-ciencia","tag-afrodiaspora","tag-colonialismo","tag-cultura","tag-cultura-afrodiasporica","tag-identidade","tag-nacao","tag-rita-segato","tag-star-trek","tag-stuart-hall"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2024\/06\/O-colonialismo-em-Star-Trek-e-a-invencao-do-Outro-do-primeiro-contato.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1440","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/users\/723"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1440"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1440\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1485,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1440\/revisions\/1485"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1442"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1440"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1440"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1440"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}