{"id":145,"date":"2018-03-15T22:25:38","date_gmt":"2018-03-16T01:25:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/?p=145"},"modified":"2018-03-21T08:11:19","modified_gmt":"2018-03-21T11:11:19","slug":"mulher-um-ato-politico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/03\/15\/mulher-um-ato-politico\/","title":{"rendered":"Mulher: um ato pol\u00edtico"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>\u201ca a\u00e7\u00e3o, na medida em que se empenha em fundar e preservar corpos pol\u00edticos, cria a condi\u00e7\u00e3o para a lembran\u00e7a, ou seja, para a hist\u00f3ria\u201d (Hannah Arendt, 1999, p.16-17).<\/p><\/blockquote>\n<p>Neste m\u00eas em que a mulher torna-se pauta, em fun\u00e7\u00e3o do dia 8 de Mar\u00e7o ser considerado Dia Internacional da Mulher, de uma ou outra forma nos dedicamos com um pouco mais de afinco a pensar sobre como nossa viv\u00eancia no mundo afeta diversos setores da sociedade e cultura e como estes setores (ou inst\u00e2ncias) nos afetam de volta.<\/p>\n<p>Falando especificamente da ci\u00eancia e do papel da mulher na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, h\u00e1 tanto para se falar que nos perdemos frente \u00e0s multiplicidade de pautas poss\u00edveis. Quem s\u00e3o as cientistas do pa\u00eds? Trabalham em que inst\u00e2ncias e produzindo que conhecimento? Quando pensamos em algu\u00e9m das \u00e1reas pr\u00f3ximas \u00e0s nossas, \u00e9 delas que lembramos primeiro? Nossa produ\u00e7\u00e3o de conhecimento se d\u00e1 de que forma e com que tipo de atravessamentos?<\/p>\n<p>Tendo em vista debates recentes decidi-me por pensar acerca dos silenciamentos dentro e fora da academia (e dentro e fora de qualquer inst\u00e2ncia&#8230;). Nas quest\u00f5es pertinentes ao ser mulher, um sentimento constante \u00e9 o do silenciamento. Termos hist\u00f3rias que se relacionam a centenas de outras mulheres ao nosso redor, mas isto n\u00e3o ser visto como v\u00e1lido como parte de uma configura\u00e7\u00e3o social, que fixa (ou tenta fixar) as mulheres em lugares definidos.<\/p>\n<p>Michelle Perrot, historiadora francesa, diz no texto \u201cOs sil\u00eancios do corpo da mulher\u201d que h\u00e1 tempos as mulheres s\u00e3o esquecidas, \u201cas sem-voz da hist\u00f3ria\u201d. Paradoxalmente, Perrot narra tamb\u00e9m como nosso corpo \u00e9 onipresente nos discursos de toda ordem (poetas, m\u00fasicos, pol\u00edticos, m\u00e9dicos, na academia, nos espa\u00e7os p\u00fablicos). Mas n\u00e3o somos n\u00f3s, as mulheres, que costumamos falar do nosso corpo e da nossa hist\u00f3ria e viv\u00eancias. De todas as personagens existentes nas narrativas, s\u00e3o os homens que protagonizam o contar, delineando caracter\u00edsticas, verdades, belezas, deveres e permiss\u00f5es.<\/p>\n<p>Ao propor este texto de hoje, a ideia era pensar sobre como ser mulher e feminista em atos cotidianos n\u00e3o \u00e9 \u201capenas levantar uma bandeira\u201d. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 tra\u00e7ar um di\u00e1logo te\u00f3rico com o mundo, tendo um vi\u00e9s que distorce acontecimentos. Tampouco \u00e9 olhar por um vi\u00e9s e ignorar quest\u00f5es que acontecem independente de g\u00eanero. Por fim, n\u00e3o \u00e9 querer trocar de lugar com quem nos impinge dor e opress\u00e3o, ou culpabilizar \u201co outro\u201d por todos os males. Ser mulher hoje, em nosso pa\u00eds, \u00e9 lutar para ocupar espa\u00e7os sociais constantemente, que nos s\u00e3o negados historicamente. Ser mulher, ciente de si: <strong>\u00e9 um ato pol\u00edtico<\/strong>!<\/p>\n<p>E, aqui, j\u00e1 digo de antem\u00e3o que atos pol\u00edticos n\u00e3o s\u00e3o partid\u00e1rios. Muito antes disso, s\u00e3o a\u00e7\u00f5es que demonstram um posicionamento no mundo, uma perspectiva que nos move cotidianamente, nos coloca em conflito &#8211; conosco mesmo e com outros. Pol\u00edtica \u00e9 parte de nossa constitui\u00e7\u00e3o enquanto sujeitos no mundo, dentre todos os acontecimentos que nos formam.<\/p>\n<p>Ao organizar o pensamento sobre a mulher na ci\u00eancia, Hannah Arendt se fez marcante \u2013 certamente uma das maiores e mais importantes personalidades intelectuais do s\u00e9culo XX. Em seu livro cl\u00e1ssico \u201cA condi\u00e7\u00e3o humana\u201d, uma frase, particularmente, me causa impacto. Arendt diz que: \u201ctodos os aspectos da condi\u00e7\u00e3o humana t\u00eam alguma rela\u00e7\u00e3o com a pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p>E de todos os aspectos da condi\u00e7\u00e3o humana, ela prop\u00f5e que a \u201ca\u00e7\u00e3o\u201d corresponde \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana da <strong>pluralidade <\/strong>e ao fato de que vivemos na Terra e habitamos o mundo. A pluralidade, diz Arendt, \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de toda vida pol\u00edtica.<\/p>\n<p>E em duas semanas t\u00e3o turbulentas como este mar\u00e7o, em que o corpo da mulher vira centro do debate (mais do que em outros momentos), somos silenciadas por enxurradas de dizeres, ao menor sinal de que estamos dispostas a falar de n\u00f3s, nos acomete: o silenciamento ruidoso. Rasga o ar, a pele, sangra a fala, derrama suor e l\u00e1grima. Marielle Franco, extirpada de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Mulher, negra, soci\u00f3loga, produtora e narradora de saberes de si e de uma popula\u00e7\u00e3o e regi\u00e3o marginalizadas, posicionando-se no mundo. Marielle, que adentra espa\u00e7os legitimados de fala e os usa para denunciar exatamente os sil\u00eancios que s\u00e3o impostos historicamente, em uma forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, falando da Mar\u00e9. Marielle, feminista, militante: mulher. Seu corpo, seu sorriso, sua fala, sua for\u00e7a. Mulher: sumariamente executada.<\/p>\n<p>Marielle, soci\u00f3loga, negra, mulher, enfrentou o silenciamento. Narrou seu territ\u00f3rio e a ocupa\u00e7\u00e3o do Estado, sem meias palavras:<\/p>\n<blockquote><p>H\u00e1 duas a\u00e7\u00f5es predominantes no Estado, frente aos territ\u00f3rios populares: tornar-se ausente, ou n\u00e3o se faz absolutamente presente. Significa que o Estado sintetiza outra face. As duas op\u00e7\u00f5es demonstram a escolha feita pelo Estado, quando sob a prerrogativa da garantia de direitos, opta por baixos investimentos e poucos equipamentos. E\/ou marca a presen\u00e7a com o uso da for\u00e7a e da repress\u00e3o, principalmente por meio da a\u00e7\u00e3o policial. Refor\u00e7a-se, assim, a vis\u00e3o predominante de que favelas e periferias s\u00e3o locais de aus\u00eancia, car\u00eancia, onde predomina a \u201cvagabundagem\u201d, ou a narrativa do assistencialismo, em um espa\u00e7o considerado territ\u00f3rio de \u201cpobres coitados\u201d. (Franco, Marielle, 2014, p. 15).<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o somente <em>todos os aspectos da condi\u00e7\u00e3o humana t\u00eam alguma rela\u00e7\u00e3o com a pol\u00edtica<\/em> como disse Arendt, mas a partir da pluralidade. E a pluralidade, esta semana (como em tantas outras anteriores a esta) vem sendo marcada como diferen\u00e7a, o exterior, o que n\u00e3o se quer.<\/p>\n<p>E, para Marielle Franco, uma semana ap\u00f3s o dia internacional da mulher, que dedico toda a luta por nossa voz: nenhuma voz a menos, nenhuma mulher a menos.; nenhuma bala dissipar\u00e1 nossa voz, nenhum ato humano calar\u00e1 nosso grito.<\/p>\n<p>Marielle, presente!<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #800000\">Para saber mais:<\/span><\/strong><\/p>\n<p>ARENDT, Hannan. 1999. <strong>A condi\u00e7\u00e3o humana<\/strong>. Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria.<\/p>\n<p>FRANCO, Marielle. 2014. <strong>UPP \u2013 a redu\u00e7\u00e3o da favela a tr\u00eas letras: uma an\u00e1lise da pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica do estado do Rio de Janeiro.<\/strong> Rio de Janeiro: UFF. Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado. Dispon\u00edvel em: &lt; <a href=\"https:\/\/app.uff.br\/riuff\/bitstream\/1\/2166\/1\/Marielle%20Franco.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/app.uff.br\/riuff\/bitstream\/1\/2166\/1\/Marielle%20Franco.pdf<\/a>&gt;. Acesso em: 15\/03\/2018.<\/p>\n<p>PERROT, Michelle. 2003. Os sil\u00eancios do corpo da mulher. In: Matos, Maria IIzilda Santos e Soihet (org). <strong>O corpo feminino em debate<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Editora UNESP, 2003. p. 13-29.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>\u201ca a\u00e7\u00e3o, na medida em que se empenha em fundar e preservar corpos pol\u00edticos, cria a condi\u00e7\u00e3o para a lembran\u00e7a, ou seja, para a hist\u00f3ria\u201d <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/03\/15\/mulher-um-ato-politico\/\" title=\"Mulher: um ato pol\u00edtico\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":296,"featured_media":146,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_eb_attr":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[6,26,61,5,18,54,58,63,62,60,59],"class_list":["post-145","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-genero-e-sexualidade","tag-ciencia","tag-corpo","tag-corpo-politico","tag-cultura","tag-genero","tag-mulher","tag-mulher-na-ciencia","tag-mulher-na-politica","tag-pluralidade","tag-politica","tag-silenciamento"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2018\/03\/Ser-mulher_.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/145","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/users\/296"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=145"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/145\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":150,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/145\/revisions\/150"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media\/146"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=145"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=145"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=145"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}