{"id":1491,"date":"2024-08-15T12:05:35","date_gmt":"2024-08-15T15:05:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/?p=1491"},"modified":"2024-08-15T14:01:50","modified_gmt":"2024-08-15T17:01:50","slug":"por-que-o-mercado-de-trabalho-nao-fala-em-pos-graduacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2024\/08\/15\/por-que-o-mercado-de-trabalho-nao-fala-em-pos-graduacao\/","title":{"rendered":"Por que o mercado de trabalho n\u00e3o fala em p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\">A discuss\u00e3o sobre como adequar o meio acad\u00eamico e os p\u00f3s-graduandos para se inserirem no mercado de trabalho. Quando a argumenta\u00e7\u00e3o se inverter\u00e1?<\/h2>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">J\u00e1 \u00e9 conhecida a discuss\u00e3o de que o meio acad\u00eamico \u00e9 um espa\u00e7o isolado do mercado de trabalho e que se a forma apenas para o ingresso na carreira docente. Os discursos dos pr\u00f3prios docentes, que reproduzem muito essa ideia, reverbera ainda mais em cursos de gradua\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias humanas. Quais as solu\u00e7\u00f5es que geralmente s\u00e3o apresentadas para esse problema?<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">A solu\u00e7\u00e3o apresentada \u00e9 sempre que o meio acad\u00eamico precisa compreender as demandas e se adequar ao mercado de trabalho. Sinto que este discurso surge de quest\u00f5es reais e necess\u00e1rias, mas que pode ser uma armadilha, e que a argumenta\u00e7\u00e3o precisa seguir uma l\u00f3gica oposta.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\">Os p\u00f3s-graduandos n\u00e3o est\u00e3o no mercado de trabalho por que n\u00e3o querem?<\/h3>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">\u00c9 bem verdade que o processo formativo em p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o <em>strictu-sensu<\/em> no Brasil tem tend\u00eancias fortes para o auto isolamento. \u00c9 um processo formativo que foca na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, escrita de artigos e participa\u00e7\u00f5es em congressos, elementos constitutivos da carreira acad\u00eamica. Por\u00e9m, existe uma parcela de mestres e doutores que se formam e n\u00e3o seguem essa trajet\u00f3ria bem delimitada. Para onde eles v\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">No intuito de enriquecer esse debate, quero trazer dois dados, retirados do texto preliminar do <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/capes\/pt-br\/centrais-de-conteudo\/documentos\/19122023_pnpg_2024_2028.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plano Nacional de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o de 2024-2028<\/a>, que, <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2023\/01\/17\/pnpg\/\">apesar do atraso<\/a>, est\u00e1 sendo estruturado pelo governo federal. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\" wp-block-image size-full eplus-wrapper\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"602\" height=\"783\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2024\/08\/image-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1493\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2024\/08\/image-1.png 602w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2024\/08\/image-1-231x300.png 231w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2024\/08\/image-1-500x650.png 500w\" sizes=\"(max-width: 602px) 100vw, 602px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">O primeiro ponto \u00e9 que o Brasil, apesar de uma tend\u00eancia de aumento significativo os \u00faltimos anos, ainda forma uma quantidade baix\u00edssima de doutores, quando comparado com outros pa\u00edses. N\u00f3s temos uma m\u00e9dia de doutores por 100 mil habitantes que \u00e9 abaixo de pa\u00edses como Portugal, Irlanda, Est\u00f4nia e Rep\u00fablica Tcheca. <\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">O Brasil forma uma quantidade muito pequena de pessoas com o t\u00edtulo de doutor, at\u00e9 mesmo em n\u00fameros brutos. Independentemente da \u00e1rea de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, a totalidade ainda \u00e9 baixa, considerando at\u00e9 mesmo o potencial produtivo e cient\u00edfico que temos no nosso pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Ainda assim, existe uma quantidade de mestres e doutores que se formam e n\u00e3o continuam na carreira acad\u00eamica. Seja por quest\u00f5es pessoais, desinteresse da \u00e1rea, problemas com a pr\u00f3pria estrutura da academia brasileira. Onde v\u00e3o parar esses p\u00f3s-graduados?  <\/p>\n\n\n\n<figure class=\" wp-block-image size-full eplus-wrapper\"><img decoding=\"async\" width=\"739\" height=\"448\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2024\/08\/image.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1492\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2024\/08\/image.png 739w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2024\/08\/image-300x182.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2024\/08\/image-500x303.png 500w\" sizes=\"(max-width: 739px) 100vw, 739px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Os dados que o gr\u00e1fico acima apresentam s\u00e3o alarmantes. Existe uma quantidade muito grande de doutores que n\u00e3o est\u00e3o no trabalho formal. Adicionalmente, a taxa de empregabilidade dos doutores no Brasil est\u00e1 abaixo da m\u00e9dia, segundo o pr\u00f3prio Plano Nacional de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">O que temos na realidade do pa\u00eds \u00e9 que dos 300 mil doutores que tem este t\u00edtulo no Brasil, cerca de 200 mil est\u00e3o empregados formalmente. Esses 100 mil doutores est\u00e3o todos na espera de uma vaga em universidades p\u00fablicas? Est\u00e3o todos completamente apaixonados pela \u00e1rea acad\u00eamica que v\u00e3o esperar eternamente para ingressarem em uma universidade? Se atravessarmos essa discuss\u00e3o para mestres, a discrep\u00e2ncia fica ainda maior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Isso me parece uma tremenda bobagem. Acreditar que os estudantes de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o hoje no Brasil n\u00e3o buscam se ingressar em outros setores produtivos \u00e9 ignorar o cotidiano trabalhista nacional. O que existe, de fato, \u00e9 uma m\u00e3o de obra qualificada, com interesse em contribuir e com necessidades financeiras latentes, que o mercado de trabalho brasileiro n\u00e3o emprega e n\u00e3o tem interesse em empregar. <\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Hoje, o discurso que mais encontro entre meus colegas p\u00f3s-graduandos \u00e9 que n\u00e3o existe vaga para as nossas \u00e1reas. Mas trabalho existe, ou o pa\u00eds com a maior biodiversidade do mundo n\u00e3o precisa de doutores em ecologia? O que n\u00e3o existe \u00e9 um interesse privado em contratar pessoas qualificadas e remuner\u00e1-las de acordo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">\u00c9 mais comum, entre os p\u00f3s-graduados, o discurso de que \u00e9 necess\u00e1rio esconder uma parte de sua forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, para que as empresas tenham interesse em contrat\u00e1-lo. E essa problem\u00e1tica n\u00e3o me parece ser totalmente culpa das universidades, da forma\u00e7\u00e3o em p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e do meio acad\u00eamico. Existe um interesse baix\u00edssimo do meio produtivo em contratar doutores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Essa quest\u00e3o pode ser interpretada com a vis\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do pa\u00eds, conforme dialogado por Florestan Fernandes em sua obra &#8220;A revolu\u00e7\u00e3o burguesa no Brasil&#8221;. Os setores produtivos brasileiros tem um interesse hist\u00f3rico de manuten\u00e7\u00e3o de um status que ainda se assemelha \u00e0s bases coloniais. N\u00e3o existe um interesse em desenvolvimento nacional que integre as forma\u00e7\u00f5es intelectuais, apenas uma produtividade que mantenha o status e uma segrega\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<h3 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\"> O problema da forma\u00e7\u00e3o \u00e9, ent\u00e3o, inexistente?<\/h3>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">\u00c9 bem verdade que a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no Brasil, historicamente, serviu para sedimentar desigualdades econ\u00f4micas, raciais e de g\u00eanero. Ainda hoje, ela ainda apresenta problemas de ingresso, das cobran\u00e7as e de como se produz. Acreditar que a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o \u00e9 eximia de qualquer cr\u00edtica tamb\u00e9m \u00e9 um problema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">A l\u00f3gica discursiva de que a universidade e a produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica \u00e9 superiorizada, completamente aut\u00f4noma e \u00e9 o \u00fanico espa\u00e7o que permite o desenvolvimento intelectual sem amarras \u00e9 uma bobagem que se esvaeceu no s\u00e9culo XX. <\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Por\u00e9m, infelizmente, ainda existem membros do meio acad\u00eamico que produzem fielmente este discurso e n\u00e3o percebem as problem\u00e1ticas criadas por ele, muito menos a readequa\u00e7\u00e3o para o p\u00fablico das universidades, que necessita de fontes de renda e trabalho, e que n\u00e3o podem depender unicamente da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">\u00c9 amplamente necess\u00e1rio discuss\u00f5es e elabora\u00e7\u00f5es coletivas para a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o adequar o seu trabalho e a sua produtividade, que ela seja mais inclusiva e que combata diretamente as desigualdades raciais, de g\u00eanero e de sexualidade. <\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Mas acreditar que mud\u00e1-la completamente para que os p\u00f3s-graduandos se formem com objetivos e compet\u00eancias diretas para o mercado de trabalho n\u00e3o \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o, pois pasmem: ainda assim, o mercado de trabalho ainda vai preferir contratar algu\u00e9m com uma titula\u00e7\u00e3o menor, ou n\u00e3o remunerar de forma adequada. <\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Portanto, eu gostaria muito de assistir o debate p\u00fablico se tornar o seguinte: Quando, finalmente, o mercado de trabalho estar\u00e1 pronto para contratar mestres e doutores?<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\">Para saber mais&#8230;<\/h2>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><a href=\"https:\/\/www.gov.br\/capes\/pt-br\/centrais-de-conteudo\/documentos\/19122023_pnpg_2024_2028.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">CAPES, 2024. Plano Nacional de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o 2024-2028<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">FERNANDES, Florestan. 2006. A revolu\u00e7\u00e3o burguesa no Brasil: ensaio de interpreta\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica. Editora Globo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\" wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-pemcie wp-block-embed-pemcie eplus-wrapper\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"wVqO3MCmB9\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2023\/01\/17\/pnpg\/\">O Plano Nacional de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o (PNPG): Pelo fim da neglig\u00eancia<\/a><\/blockquote><iframe class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;O Plano Nacional de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o (PNPG): Pelo fim da neglig\u00eancia&#8221; &#8212; PEmCie\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2023\/01\/17\/pnpg\/embed\/#?secret=bMz5OCJCRA#?secret=wVqO3MCmB9\" data-secret=\"wVqO3MCmB9\" width=\"500\" height=\"282\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>A discuss\u00e3o sobre como adequar o meio acad\u00eamico e os p\u00f3s-graduandos para se inserirem no mercado de trabalho. 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