{"id":1508,"date":"2024-09-07T10:27:42","date_gmt":"2024-09-07T13:27:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/?p=1508"},"modified":"2024-09-07T10:27:44","modified_gmt":"2024-09-07T13:27:44","slug":"escola-nao-e-fabrica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2024\/09\/07\/escola-nao-e-fabrica\/","title":{"rendered":"A escola n\u00e3o \u00e9 uma f\u00e1brica de cidad\u00e3os"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">A escola n\u00e3o \u00e9 uma f\u00e1brica de cidad\u00e3os.&nbsp;Primeiro porque n\u00e3o \u00e9 f\u00e1brica e segundo porque n\u00e3o forma cidad\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\">A escola como condi\u00e7\u00e3o de cidadania<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Vamos come\u00e7ar pelo segundo ponto: Se cidad\u00e3o \u00e9 aquele que tem direitos (e deveres) em uma sociedade \u00e9 extremamente elitista condicionar esta posi\u00e7\u00e3o a passagem pela escola.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">A escola pode ser interpretada como uma institui\u00e7\u00e3o que distribui alguns conhecimentos considerados v\u00e1lidos dentro da cultura hegem\u00f4nica, isto \u00e9, para poder ser ensinado na escola, o conte\u00fado precisa ser considerado \u201cvaloroso\u201d pela cultura dominante da nossa sociedade. Vamos chamar estes conhecimentos validados de capital cultural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">O capital cultural n\u00e3o tem seu valor definido pela sua finitude, visto que n\u00e3o se perde capital cultural ao distribu\u00ed-lo. Seu valor vem da escassez. \u00c9 valioso pois \u00e9 posse de poucos, \u00e9 valioso porque o outro n\u00e3o o tem. E olhe que conveniente: quem define o que \u00e9 culturalmente valioso \u00e9 a elite econ\u00f4mica, pol\u00edtica e social, que passa por consequ\u00eancia a ser tamb\u00e9m elite cultural.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\">A escola como reprodutora da sociedade<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Uma escola pensada de forma acr\u00edtica, nestes moldes que diz formar cidad\u00e3os, \u00e9 uma reprodutora da sociedade atual e do status quo ao distribuir o capital cultural de forma desigual.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Veja que quanto mais tempo uma pessoa passa no sistema formal de ensino, provavelmente maior \u00e9 sua posi\u00e7\u00e3o social. Diagn\u00f3stico disso \u00e9 que entramos no ensino infantil aprendendo a obedecer, pedimos permiss\u00e3o at\u00e9 mesmo para ir ao banheiro e conforme continuamos no processo educacional, vamos ganhando cada vez mais autonomia, sendo estimulados a fazer questionamentos e impor nosso ponto de vista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Perceba que esta correla\u00e7\u00e3o traz uma promessa da escola como um local que permite ascens\u00e3o social. Entretanto, quanto menos inserido na cultura dominante, mais o sujeito \u00e9 rejeitado pelo sistema de ensino que privilegia aqueles que nascem dentro da cultura e j\u00e1 possuem alguns destes valores, como por exemplo, o apre\u00e7o pela leitura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Dado todo este contexto, ser cidad\u00e3o \u00e9 fazer parte da elite cultural? Algu\u00e9m com mais tempo de forma\u00e7\u00e3o escolar \u00e9 mais merecedor de direitos? A cultura hegem\u00f4nica \u00e9 mais valiosa que outras culturas inseridas em nossa sociedade?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Se a resposta para qualquer destes questionamento \u00e9 \u201cn\u00e3o\u201d, ent\u00e3o segue meu ponto: a escola n\u00e3o forma cidad\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\">A escola como f\u00e1brica<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Quanto ao primeiro ponto, isto \u00e9, da escola n\u00e3o ser f\u00e1brica, \u00e9 preciso retomar o contexto hist\u00f3rico onde este pensamento foi defendido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">O sucesso das linhas de produ\u00e7\u00e3o e do taylorismo dentro da l\u00f3gica do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista as transformou em sin\u00f4nimo de efici\u00eancia e isto afetou diretamente o ensino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Alguns educadores, como Ralph Tyler, inspirados neste cen\u00e1rio, prop\u00f5em que elaborar o curr\u00edculo escolar \u00e9, de forma resumida:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"eplus-wrapper wp-block-list\">\n<li class=\" eplus-wrapper\">Escolher quais os conhecimentos t\u00e9cnicos que devem ser ensinados, definindo assim, objetivos.<\/li>\n\n\n\n<li class=\" eplus-wrapper\">Determinar o processo mais eficiente para atingir os objetivos educacionais.<\/li>\n\n\n\n<li class=\" eplus-wrapper\">Propor avalia\u00e7\u00f5es para medir se os objetivos est\u00e3o sendo alcan\u00e7ados.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Isto \u00e9, de certa forma, inserir a escola dentro de um modelo fabril. Existem diversas cr\u00edticas a este modelo, mas vou me concentrar em duas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Um grande problema desta ideia \u00e9 a generaliza\u00e7\u00e3o do processo. Sabemos desde trabalhos como o de Piaget (bi\u00f3logo, muito estudado no campo da psicologia da educa\u00e7\u00e3o) que as pessoas respondem de forma diferente \u00e0s mesmas experi\u00eancias pedag\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Isto implica que uma mesma aula pode ser muito efetiva para um aluno e para outro n\u00e3o ter muito significado. Ou seja, n\u00e3o h\u00e1 um m\u00e9todo universal de ensino, muito menos o m\u00e9todo \u201cmais eficiente\u201d. Al\u00e9m disso, voltando ao ponto anterior, a escolha de m\u00e9todos generalistas normalmente vai privilegiar os estudantes vindos da elite cultural.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\">A escola como linha de produ\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Um segundo problema \u00e9 importado diretamente do modelo taylorista: os proponentes do curr\u00edculo agem como \u201cgerentes\u201d de uma f\u00e1brica, tratando os professores como pessoas que passivamente ir\u00e3o adotar as ideias propostas pelo curr\u00edculo formal e execut\u00e1-las conforme dito, uma esp\u00e9cie de aliena\u00e7\u00e3o do trabalho. Esta ideia n\u00e3o faz sentido algum, o professor \u00e9 ator principal dentro da sala de aula. Durante a implementa\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas educacionais, os documentos oficiais s\u00e3o interpretados e reinterpretados pela comunidade escolar que os compreendem e os contestam de diferentes maneiras e ao coloc\u00e1-los em pr\u00e1tica se tornam novos autores do curr\u00edculo, o que Stephen Ball chamaria de contexto da pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">O contexto da pr\u00e1tica \u00e9 uma das fases do ciclo de pol\u00edticas. Conforme descrito por Ball, as pol\u00edticas educacionais normalmente surgem a partir do contexto de influ\u00eancia, em que diferentes atores e grupos sociais disputam para influenciar uma pol\u00edtica e legitimam o discurso base para esta pol\u00edtica. Passa-se ent\u00e3o ao contexto da produ\u00e7\u00e3o de texto, em que este discurso precisa ser representado em documento oficial que vai ser resultado de disputas e acordos entre diversos atores pol\u00edticos, podemos entender desta forma o fazer pol\u00edtico como uma interven\u00e7\u00e3o textual. Finalmente no contexto da pr\u00e1tica que \u00e9 o momento em que as pol\u00edticas podem produzir efeitos pr\u00e1ticos. Este contexto est\u00e1 sujeito a interpreta\u00e7\u00e3o dos textos e a sua recria\u00e7\u00e3o,&nbsp; n\u00e3o \u00e9 simplesmente, um momento de implementa\u00e7\u00e3o cega.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Perceba que os contextos do ciclo de pol\u00edticas n\u00e3o possuem hierarquia de import\u00e2ncia. Eles se influenciam mutuamente e podem ocorrer de maneira n\u00e3o ordenada e cronol\u00f3gica. E nisto o modelo fabril falha, ao n\u00e3o enxergar a import\u00e2ncia do contexto da pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Assim entendo eu que n\u00e3o h\u00e1 sentido em tentar enxergar a escola como f\u00e1brica em qualquer sentido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">A escola n\u00e3o \u00e9 uma f\u00e1brica de cidad\u00e3os.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\">Para Saber Mais<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">APPLE, Michael W (2006) <strong>Ideologia e curr\u00edculo<\/strong>. Porto Alegre : Artmed.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude (2023) <strong>A reprodu\u00e7\u00e3o: elementos para uma teoria do sistema de ensino<\/strong>. Petr\u00f3polis : Vozes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">MAINARDES, Jefferson (2006) <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/es\/a\/NGFTXWNtTvxYtCQHCJFyhsJ\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Abordagem do ciclo de pol\u00edticas: uma contribui\u00e7\u00e3o para a an\u00e1lise de pol\u00edticas educacionais<\/a>. <strong>Educa\u00e7\u00e3o &amp; Sociedade<\/strong>, v. 27, p. 47-69, 2006.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">TADEU, Tomaz (2023) <strong>Documentos de identidade: uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0s teorias do curr\u00edculo<\/strong>. Belo Horizonte : Aut\u00eantica<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>A escola n\u00e3o \u00e9 uma f\u00e1brica de cidad\u00e3os.&nbsp;Primeiro porque n\u00e3o \u00e9 f\u00e1brica e segundo porque n\u00e3o forma cidad\u00e3os. 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