{"id":1550,"date":"2025-07-31T12:01:41","date_gmt":"2025-07-31T15:01:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/?p=1550"},"modified":"2025-07-31T12:02:14","modified_gmt":"2025-07-31T15:02:14","slug":"leo-lins-humor-e-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2025\/07\/31\/leo-lins-humor-e-politica\/","title":{"rendered":"Humor? L\u00e9o Lins: personagem ou n\u00e3o, isto faz parte de um movimento pol\u00edtico maior"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><em>Piadas racistas e capacitistas atravessam a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia como l\u00e2minas, deixando marcas profundas que moldam a autoestima, o pertencimento e a forma como passamos a nos ver no mundo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size eplus-wrapper wp-elements-1 wp-block-paragraph\">O humorista* L\u00e9o Lins se defendeu da senten\u00e7a que o <a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/nacional\/sudeste\/sp\/leo-lins-e-condenado-a-oito-anos-de-prisao-por-piadas-preconceituosas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">condenou a 8 anos de pris\u00e3o<\/a> por <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/l7716.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">racismo<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2015-2018\/2015\/lei\/l13146.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">capacitismo<\/a>, publicando um <a href=\"https:\/\/youtu.be\/QioXOJ88ZLo?si=CbzR0XuBQ2iF8lav\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">v\u00eddeo<\/a> na quinta-feira (05\/06) justificando o humor &#8220;\u00e1cido e cr\u00edtico&#8221; de suas piadas e falas dizendo que&nbsp; interpreta um personagem e uma figura c\u00f4mica, que se utiliza de figuras de linguagem, ironias, em uma licen\u00e7a est\u00e9tica, durante os shows de com\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Nesse sentido, muito tem se comentado nos \u00faltimos dias sobre os limites do humor e da liberdade de express\u00e3o, sobre censura \u00e0 arte e muitas outras discuss\u00f5es. No entanto, queria me ater a uma que ainda n\u00e3o apareceu, mas que me parece a origem de todas as discuss\u00f5es: o movimento Politicamente Incorreto, do qual, conscientemente ou n\u00e3o, Lins faz parte.<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse has-vivid-red-color has-text-color has-link-color has-small-font-size eplus-wrapper wp-elements-2\">[*E eu o chamo de humorista respeitando sua autodeclara\u00e7\u00e3o e n\u00e3o a minha opini\u00e3o sobre o tipo de suposto humor que ele comete].<\/pre>\n\n\n\n<h2 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\"><strong>Como emerge o Politicamente Incorreto<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<figure class=\" wp-block-image eplus-wrapper\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXfwgHrCg4m3ZHkiwfPKZK_xH3JGldQsYtw4s71FswlIfUYk_wb1HMlMhWwyyEV9YyBkhLHgs0q0YlgImM0eGjzkL3SHFXfC2Q_J0YiGw9idpsF0Xm73S9wZ3zQ-F18vHDK4D66PIQ?key=qj4Lud-0uC0l5rb6XvSLlQ\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Imagem 01: <\/strong>Captura de tela do artigo publicado por Michael Minnicino em 1992. <strong>Fonte:<\/strong> Schiller Institute<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Em 1992, nos Estados Unidos (EUA), um artigo pol\u00eamico come\u00e7ou a circular entre grupos conservadores e ganhou for\u00e7a nos debates sobre cultura e pol\u00edtica da \u00e9poca. Escrito por Michael Minnicino &#8211; pesquisador ligado ao movimento de <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/LaRouche_movement\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Lyndon LaRouche<\/a> &#8211; o texto intitulado &#8220;<em>New Dark Age: Frankfurt School and &#8216;Political Correctness\u2019<\/em>\u201d (algo como \u201cNova Era das Trevas: Escola de Frankfurt e o \u2018politicamente correto\u2019\u201d), foi publicado na revista Fidelio, do <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Schiller_Institute\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Schiller Institute<\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">No artigo, Minnicino culpa a <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/w\/index.php?title=Frankfurt_School&amp;oldid=1244763224\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Escola de Frankfurt<\/a> &#8211; um grupo de pensadores associados ao marxismo &#8211; por enfraquecer os valores tradicionais do Ocidente. Segundo ele, ao inv\u00e9s de trabalhadores, a nova \u201cvanguarda revolucion\u00e1ria\u201d estaria composta por estudantes, negros, feministas e homossexuais. Essa suposta mudan\u00e7a de foco seria parte de um plano maior: a instaura\u00e7\u00e3o do comunismo por meio de uma revolu\u00e7\u00e3o cultural.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Para Minnicino, o &#8220;politicamente correto&#8221; n\u00e3o \u00e9 apenas uma forma de promover respeito e inclus\u00e3o, mas uma estrat\u00e9gia para subverter a cultura ocidental a partir das universidades, atacando pilares como a fam\u00edlia, a religi\u00e3o e a autoridade acad\u00eamica, conforme demonstra um trecho a seguir de seu artigo:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote eplus-wrapper is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Nossas universidades, o ber\u00e7o do nosso futuro tecnol\u00f3gico e intelectual, foram sobrecarregadas pelo \u201cPoliticamente Correto\u201d da Nova Era no estilo da&nbsp; Internacional&nbsp; Comunista. Com o colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, nossos campi agora representam a maior concentra\u00e7\u00e3o de dogma marxista do mundo (Minnicino, 1992, p. 01).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Essa leitura, apesar de n\u00e3o ter base factual s\u00f3lida, ajudou a alimentar a teoria da conspira\u00e7\u00e3o conhecida como \u201cmarxismo cultural\u201d \u2014 uma ideia que ainda hoje \u00e9 usada por certos grupos para atacar movimentos sociais e institui\u00e7\u00f5es de ensino.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\"><strong>Como o Politicamente Incorreto se tornou pauta pol\u00edtica<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">O discurso contra o \u201cpoliticamente correto\u201d n\u00e3o ficou restrito aos c\u00edrculos acad\u00eamicos ou intelectuais conservadores. Ele voltou com for\u00e7a em 1999, ainda nos EUA, pelas m\u00e3os de Paul M. Weyrich (1942-2008) \u2014 uma figura de destaque da<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/New_Right\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> Nova Direita estadunidense<\/a>, conhecido por sua atua\u00e7\u00e3o como pol\u00edtico, comentarista e l\u00edder religioso.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"is-style-default wp-block-image eplus-wrapper\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXeB7IS5BvU8cs1HEeo22Bf3svRxBlWFa2pGYFTC9bAEuMMy3-qaDaP2dpac-H-QWh7Z8XZqRocXYa637d5EJhFs7pNYz08Id1xy2NI_qMV5nvPuquUiSlhpZ8Il8D_lYq0X_1Oa?key=qj4Lud-0uC0l5rb6XvSLlQ\" alt=\"Foto oficial de Paul Weyrich, pol\u00edtico conservador americano e comentarista associado \u00e0 Nova Direita\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Imagem 02: <\/strong>Foto oficial de Paul Weyrich, pol\u00edtico conservador americano e comentarista associado \u00e0 Nova Direita. <strong>Fonte:<\/strong> Wikipedia.&nbsp;<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Na \u00e9poca, Weyrich escreveu uma carta aberta a eleitores conservadores, na qual denunciava o avan\u00e7o do que chamou de \u201cpoliticamente correto\u201d na sociedade estadunidense. Para ele, ideias e valores conservadores estavam sendo sistematicamente perseguidos e silenciados, especialmente nos meios culturais e educacionais. Leia um trecho a seguir:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote eplus-wrapper is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">N\u00e3o vou entrar em toda a hist\u00f3ria da Escola de Frankfurt e Herbert Marcuse e as outras pessoas respons\u00e1veis \u200b\u200bpor isso. Basta dizer que os Estados Unidos est\u00e3o muito perto de se tornar um estado totalmente dominado por uma ideologia alien\u00edgena, uma ideologia amargamente hostil \u00e0 cultura ocidental. Mesmo agora, pela primeira vez em suas vidas, as pessoas t\u00eam que ter medo do que dizem. Isso nunca foi verdade na hist\u00f3ria do nosso pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">No entanto, hoje, se voc\u00ea disser a &#8220;coisa errada&#8221;, de repente voc\u00ea tem problemas legais, problemas pol\u00edticos, voc\u00ea pode at\u00e9 perder seu emprego ou ser expulso da faculdade. Certos t\u00f3picos s\u00e3o proibidos. Voc\u00ea n\u00e3o pode abordar a verdade sobre muitos assuntos diferentes. Se voc\u00ea o fizer, ser\u00e1 imediatamente rotulado como &#8220;racista&#8221;, &#8220;sexista&#8221;, &#8220;homof\u00f3bico&#8221;, &#8220;insens\u00edvel&#8221; ou &#8220;cr\u00edtico&#8221; (Weyrich, 1999).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Essa carta foi amplamente divulgada e republicada pelo National Center for Public Policy Research, um influente think tank conservador nos EUA, ajudando a consolidar a ideia de que ser \u201cpoliticamente incorreto\u201d passou a representar uma forma de \u201cresist\u00eancia\u201d ideol\u00f3gica no campo da pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\"><strong>O humor politicamente incorreto e sua escalada nas redes<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Conscientemente ou n\u00e3o, o humor entrou de cabe\u00e7a na disputa em torno do politicamente correto. E n\u00e3o foi por acaso. Desde os anos 1990, principalmente nos Estados Unidos e no Reino Unido, comediantes come\u00e7aram a explorar \u2013 ou satirizar \u2013 temas como identidade, minorias e corre\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, muitas vezes se colocando como os \u201c\u00faltimos defensores\u201d da liberdade de express\u00e3o. E se <a href=\"https:\/\/www.conservapedia.com\/Political_correctness_and_comedy?utm_source=chatgpt.com\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">orgulham disso<\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Esse movimento cresceu de forma acelerada com a chegada da internet e, depois, das redes sociais. Plataformas como YouTube, Twitter e TikTok deram visibilidade a um tipo de com\u00e9dia que dificilmente encontraria espa\u00e7o em canais de TV tradicionais. Com isso, o humor politicamente incorreto se transformou em nicho de mercado \u2014 e um nicho lucrativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Muitos humoristas perceberam que adotar essa postura rende mais do que apenas risadas: atrai seguidores, engaja audi\u00eancias e movimenta dinheiro. O discurso contra a \u201ccultura do cancelamento\u201d, por exemplo, virou bandeira de \u201cresist\u00eancia\u201d para parte desses artistas, que se apresentam como vozes dissonantes em um cen\u00e1rio dominado pela &#8220;ditadura do politicamente correto&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\" wp-block-image eplus-wrapper\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXdcN-KJkRDEd5bE9Dt71gqY3YOURojvZlEb7tWL7r3JNK9fs0bYrp4ipQdZww8nTQUMn_GzNDqNvvObbWPH5idZrXDjPT3CLpdQai-_qMmqXVOExtBUWEKnqwqugw4MWTfw4eko?key=qj4Lud-0uC0l5rb6XvSLlQ\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Imagem 03: <\/strong>O humorista Danilo Gentili, hist\u00f3rico defensor do humor sem limites, produziu DVDs, shows e s\u00e9ries em plataformas de streaming normalizando o termo \u201cpoliticamente incorreto\u201d, embora seu conte\u00fado tenha uma conota\u00e7\u00e3o mais de cr\u00edtica a pol\u00edticos do que de ofensa a minorias historicamente aviltadas.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Mas, por tr\u00e1s da provoca\u00e7\u00e3o e das piadas afiadas, h\u00e1 tamb\u00e9m uma estrat\u00e9gia de posicionamento pol\u00edtico e comercial. Ao escolher esse caminho, esses comediantes n\u00e3o apenas moldam debates culturais, mas tamb\u00e9m lucram com uma audi\u00eancia sedenta por vozes que desafiem o consenso progressista. O riso, nesse contexto, vira arma e produto \u2014 e o palco, um campo de batalha simb\u00f3lica.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\"><strong>Movimento \u201cPoliticamente Incorreto\u201d quer criar um Regime de Verdade<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Por tr\u00e1s do barulho que gira em torno do \u201cpoliticamente correto \/ incorreto\u201d \u2013 que vai de piadas controversas at\u00e9 cr\u00edticas ferozes a universidades, \u00e0 m\u00eddia ou ao ativismo social \u2013 existe algo mais profundo em disputa: o controle sobre o que pode ser considerado verdadeiro. Mais do que provocar ou \u201cdizer o que ningu\u00e9m tem coragem\u201d, esse movimento disputa o pr\u00f3prio regime de verdade da sociedade contempor\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">O fil\u00f3sofo franc\u00eas Michel Foucault (1926-1984) &#8211; que se destacou por sua an\u00e1lise cr\u00edtica do poder, do conhecimento e da hist\u00f3ria &#8211; explica, no livro <em>Microf\u00edsica do Poder,<\/em> que a verdade n\u00e3o \u00e9 algo fixo ou absoluto. Ela \u00e9 constru\u00edda historicamente por meio de discursos, institui\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas que se tornam dominantes em determinado contexto.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote eplus-wrapper is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua \u201cpol\u00edtica geral\u201d de verdade: isto \u00e9, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as inst\u00e2ncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sancionam uns e outros; as t\u00e9cnicas e os procedimentos que s\u00e3o valorizados para a obten\u00e7\u00e3o da verdade; o estatuto daqueles que t\u00eam o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro (Foucault 1998, p.12).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Em outras palavras: o que entendemos como verdade depende de quem tem o poder de diz\u00ea-la e faz\u00ea-la circular como leg\u00edtima. \u00c9 nesse ponto que o movimento \u201cpoliticamente incorreto\u201d se insere. Longe de ser apenas uma postura c\u00f4mica ou provocadora (argumento usado pela defesa do humorista condenado), <strong>trata-se de uma rea\u00e7\u00e3o organizada \u2013 e muitas vezes articulada com interesses <\/strong><a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/trump-inicia-desmonte-da-protecao-ambiental-e-humanitaria\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>pol\u00edticos e econ\u00f4micos<\/strong><\/a><strong> \u2013 contra os regimes de verdade que se consolidaram nas \u00faltimas d\u00e9cadas<\/strong>, especialmente em temas como igualdade racial, g\u00eanero, diversidade e direitos humanos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">O que se busca \u00e9 <strong>desmontar essas refer\u00eancias e instaurar outras:<\/strong> pautadas na \u201cliberdade de express\u00e3o\u201d irrestrita, no revisionismo hist\u00f3rico e numa ret\u00f3rica que desafia consensos acad\u00eamicos e cient\u00edficos. Atrav\u00e9s de podcasts, document\u00e1rios, perfis em redes sociais e at\u00e9 de <strong>humoristas <\/strong>que se apresentam como \u201ccancelados\u201d, esse movimento tenta apresentar sua narrativa como mais honesta, corajosa ou \u201csem filtros\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Mas como nos ensinou Foucault, toda narrativa est\u00e1 ligada a rela\u00e7\u00f5es de poder. Por isso, \u00e9 fundamental perguntar: quando o politicamente incorreto prop\u00f5e \u201cdizer a verdade\u201d, que verdade \u00e9 essa? Quem ganha e quem perde com ela?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">No fim das contas, o politicamente incorreto n\u00e3o est\u00e1 apenas combatendo a \u201ccensura\u201d ou a \u201clacra\u00e7\u00e3o\u201d. Ele est\u00e1 tentando construir um novo regime de verdade. E essa \u00e9 uma disputa que vai muito al\u00e9m das palavras: ela envolve a forma como organizamos a vida em comum, quem pode falar, o que pode ser ensinado e, sobretudo, o que \u00e9 considerado real.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\"><strong>O humor que d\u00f3i: quando a piada vira cicatriz<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<figure class=\" wp-block-image eplus-wrapper\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXfXDqdfJZOdDQZiY3DbnYSl3f9IiwaXaXt7iUWNtBMWGVVPi2IyzpvMk4zTKiJKgngmrnOJMNYL-OAh_Ezbj6eK6kM7He2mp6WaY9Yy7O1AAiFcmILo9V60Gy4HGxwjNoeSRjBRdQ?key=qj4Lud-0uC0l5rb6XvSLlQ\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Imagem 04: <\/strong>Cena do humor\u00edstico Os Trapalh\u00f5es (1973-1995) em que os personagens negros eram alco\u00f3latras, desdentados e constantemente humilhados pelos demais, coincidentemente, brancos. Esse roteiro causa saudade nos atuais comediantes de stand-up do movimento Politicamente Incorreto.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Quem \u00e9 negro, pessoa com defici\u00eancia e estudou na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica dos anos 1980 sabe bem: o que alguns chamam de \u201chumor \u00e1cido\u201d ou \u201cpersonagens pol\u00eamicos\u201d muitas vezes se traduz, na pr\u00e1tica, em piadas racistas e capacitistas que atravessam a inf\u00e2ncia como l\u00e2minas. Essas piadas n\u00e3o ficam s\u00f3 nos programas de TV \u2014 elas chegam \u00e0 sala de aula, ganham a boca dos colegas e ferem de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">O impacto? Vai muito al\u00e9m do riso. S\u00e3o marcas profundas, quase invis\u00edveis, mas persistentes. Marcas que moldam a autoestima, o pertencimento e a forma como essas crian\u00e7as \u2014 muitas vezes j\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade \u2014 passam a se ver no mundo. E n\u00e3o \u00e9 exagero: h\u00e1 quem, aos 50 anos, ainda esteja tentando curar essas feridas deixadas l\u00e1 atr\u00e1s, na inf\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">O humor pode ser uma ferramenta poderosa de cr\u00edtica social, mas tamb\u00e9m pode ser um instrumento de exclus\u00e3o e viol\u00eancia simb\u00f3lica. O desafio \u00e9 pensar: a quem essa piada serve? Quem ela machuca? E, mais importante, por que alguns ainda defendem e acham normal rir disso?<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\"><strong>Para Saber Mais<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">FOUCAULT, M (1998) <strong>Microf\u00edsica do Poder.<\/strong> Organiza\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o Roberto Machado. 13\u00aa Edi\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Edi\u00e7\u00f5es Graal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">MINNICINO, M (1992) <a href=\"https:\/\/archive.schillerinstitute.com\/fid_91-96\/921_frankfurt.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">The Frankfurt School and \u2018Political Correctness\u2019<\/a>. <strong>Fidelio Magazine<\/strong>, v1, n1, p4-27, 1992.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">WEYRICH, PM (1999) <a href=\"https:\/\/web.archive.org\/web\/20000411172504\/http:\/\/www.nationalcenter.org\/Weyrich299.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Letter to Conservatives<\/a>. <strong>National Center for Public Policy Research.<\/strong> 16 fev. 1999.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Leia mais textos do <a href=\"http:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/\">Grupo PEmCie<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Piadas racistas e capacitistas atravessam a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia como l\u00e2minas, deixando marcas profundas que moldam a autoestima, o pertencimento e a forma como <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2025\/07\/31\/leo-lins-humor-e-politica\/\" title=\"Humor? L\u00e9o Lins: personagem ou n\u00e3o, isto faz parte de um movimento pol\u00edtico maior\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":591,"featured_media":1551,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_eb_attr":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-1550","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao-em-ciencia"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2025\/07\/leo-lins.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1550","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/users\/591"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1550"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1550\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1554,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1550\/revisions\/1554"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1551"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1550"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1550"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1550"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}