{"id":177,"date":"2018-05-31T12:42:02","date_gmt":"2018-05-31T15:42:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/?p=177"},"modified":"2018-05-31T12:42:02","modified_gmt":"2018-05-31T15:42:02","slug":"disciplina-escola-sujeito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/05\/31\/disciplina-escola-sujeito\/","title":{"rendered":"Disciplina e escola: que sujeitos queremos formar?"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p align=\"right\"><i>Fala<br \/>\n<\/i><i>Eu n\u00e3o sei dizer nada por dizer, ent\u00e3o eu escuto<\/i><br \/>\n<i>Se voc\u00ea disser tudo o que quiser, ent\u00e3o eu escuto<\/i><br \/>\n<i>Fala<br \/>\n<\/i><i>Se eu n\u00e3o entender, n\u00e3o vou responder, ent\u00e3o eu escuto&#8230;<\/i><br \/>\n<i>Eu s\u00f3 vou falar, na hora de falar, ent\u00e3o eu escuto&#8230;<\/i><br \/>\n<i>Fala&#8230;<br \/>\n<\/i><i>(Fala, Jo\u00e3o Ricardo e Luli)[1]<a href=\"http:\/\/www.blogger.com\/post-edit.g?blogID=1405515976790575145&amp;postID=6993413012535734745#_ftn1_7638\" name=\"_ftnref1_7638\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><\/a><\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p align=\"justify\">H\u00e1 tempos que penso, estudo e trabalho com uma ideia sobre a import\u00e2ncia de sempre refletirmos acerca de quem \u00e9 nosso estudante de sala de aula. Mas \u00e9 mais do que isso: de que modo queremos form\u00e1-lo. Com isto, quero dizer: como aquilo que trabalhamos, em termos de conhecimento, postura, organiza\u00e7\u00e3o e estrutura do cotidiano, contribui para a forma\u00e7\u00e3o do estudante como um sujeito de nosso tempo. E sempre que eu estudo alguns livros espec\u00edficos, como <em>Vigiar e Punir<\/em>, do Michel Foucault, e autores que trabalham nesta linha, de alguma forma me recordo deste poema na ep\u00edgrafe (musicado por <em>Secos e Molhados).\u00a0<\/em><\/p>\n<p align=\"justify\">A meu ver, esta m\u00fasica pode ser pensada como um estudante falando sobre sua rotina escolar. Ou seja, uma rotina que o ensina a permanecer em sil\u00eancio, pela no\u00e7\u00e3o constru\u00edda de que n\u00e3o h\u00e1 nada a ser dito, por sua pessoa. S\u00f3 abre-se espa\u00e7o para a palavra em poucos momentos, mas na totalidade, se escuta. Por outro lado, h\u00e1 algu\u00e9m (docente?) autorizado a falar. Desse modo, este sujeito que fala, que faz as perguntas e autoriza (ou n\u00e3o) o outro a falar. Dentro das discuss\u00f5es sobre disciplina e poder disciplinar, falamos muito sobre como a institui\u00e7\u00e3o escolar (e tantas outras institui\u00e7\u00f5es de nossa sociedade) buscam um controle das a\u00e7\u00f5es do corpo dos sujeitos, tornando-os d\u00f3ceis e \u00fateis.<\/p>\n<p align=\"justify\">Assim, existe toda uma &#8220;pol\u00edtica de coer\u00e7\u00f5es e corre\u00e7\u00f5es do corpo&#8221;. Isto seria um esquadrinhamento e c\u00e1lculo de gestos, comportamentos, a\u00e7\u00f5es que visam organizar, compor,\u00a0<em>educar<\/em> e\u00a0<em>disciplinar <\/em>o corpo (e, portanto, os sujeitos). Desse modo, tanto professor quanto aluno tem o corpo disciplinado, aprendem seu papel dentro da sala de aula: quando falar ou escutar. Bem como, o que \u201censinar\u201d ou \u201caprender\u201d, o quanto devem escrever e produzir; em quanto tempo as tarefas devem ser feitas&#8230; Aqui, professores e estudantes est\u00e3o sendo interpelados pelo conjunto de saberes e poderes que funcionam naquela institui\u00e7\u00e3o aumentando a produtividade.\u00a0Seja em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quantidade de conhecimentos a serem trabalhados, seja ao modo como os estudantes devem se portar na sociedade. Enfim, tal id\u00e9ia, associada a esta m\u00fasica, leva-me tamb\u00e9m a um aforismo, escrito pelo pedagogo Jorge Larrosa, que pe\u00e7o a licen\u00e7a para citar integralmente:<\/p>\n<blockquote>\n<p align=\"justify\">Para ler, o estudante disp\u00f5e de todos os livros. Alinhados, ordenados, valorados. Cada livro em seu lugar. E todos \u00e0 m\u00e3o, perfeitamente dispon\u00edveis, dispostos, \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o. O estudante come\u00e7ou a estudar com a seguran\u00e7a de que os livros, convenientemente reproduzidos e transmitidos, cuidadosamente editados e anotados, est\u00e3o ali em uma esp\u00e9cie de plenitude: a plenitude sem falha da cultura, a prova palp\u00e1vel de sua imensa generosidade. Mas logo sente uma vertigem. Houve um momento que tamb\u00e9m se sentiu feliz diante da presen\u00e7a firme e segura de todos esses livros. Tamb\u00e9m ele sentiu o que neles existe de prest\u00edgio, de seguran\u00e7a, de promessa. Tamb\u00e9m se deixou seduzir por esse invent\u00e1rio bem ordenado dos produtos da cultura, por todas essas certezas alinhadas. Mas um dia se sentiu sufocado. E sentiu que os livros, em sua generosidade, n\u00e3o lhe deixavam espa\u00e7o (LARROSA, 2003, P.51).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p align=\"justify\">Larrosa, neste aforismo, traz outra dimens\u00e3o da disciplina. Pois n\u00e3o se trata somente do controle do corpo (da fala e dos gestos permitidos em um espa\u00e7o determinado \u2013 a sala de aula). O autor fala da ordem, da disciplina como organiza\u00e7\u00e3o para uma maior efic\u00e1cia, dentro mesmo das institui\u00e7\u00f5es e introjetada como parte de n\u00f3s (como a arquitetura projetada para uma maior funcionalidade nossa, por exemplo). Tempos, espa\u00e7os, lugares, vigil\u00e2ncia organizados, comunica\u00e7\u00f5es delimitadas, estrutura de vida \u00fatil.<\/p>\n<p align=\"justify\">Tanto Foucault, quanto Larrosa, tratam da organiza\u00e7\u00e3o e localiza\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o aos corpos (distribui\u00e7\u00e3o das pessoas em um espa\u00e7o definido). Embora isso tamb\u00e9m se refira aos espa\u00e7os ocupados pelos sujeitos. Bem como onde eles est\u00e3o atuando (como usam os espa\u00e7os).<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 interessante trazer isso nos dias de hoje, em tempos de tanta discuss\u00e3o acerca do que deve ser ensinado na escola. Pois, temos hoje a busca pela constru\u00e7\u00e3o de saberes comuns a um pa\u00eds inteiro &#8211; com a Base Nacional Comum Curricular. Por outro lado, temos um debate social acirrado acerca do papel da fam\u00edlia e a interfer\u00eancia desta na organiza\u00e7\u00e3o curricular (em nome da moral familiar).<\/p>\n<p align=\"justify\">Todavia, tamb\u00e9m temos a eterna quest\u00e3o da necessidade de n\u00e3o tomarmos as crian\u00e7as dentro da escola (ou os adultos dentro das universidades) como um conjunto homog\u00eaneo (de ideias, valores, interesses) e a decorrente falta de individualidade desta compreens\u00e3o. Simultaneamente, temos, a constante reclama\u00e7\u00e3o de indisciplina por parte do corpo docente (e discente&#8230;).<\/p>\n<p align=\"justify\">Assim, tomando que nenhuma destas problem\u00e1ticas se desvinculam de pr\u00e1ticas disciplinadoras (e isso n\u00e3o \u00e9 algo bom ou ruim, \u00e9 o modo como nos organizamos socialmente) nos remetemos a in\u00fameras quest\u00f5es. Que aluno queremos? Que sujeito queremos formar\/produzir para a sociedade? Quais conhecimentos s\u00e3o fundamentais para a forma\u00e7\u00e3o de sujeitos atualmente? De que modo estes conhecimentos s\u00e3o selecionados e apresentados na escola? Em que isso se vincula \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos alunos<\/p>\n<p align=\"justify\">Quando nos colocamos como formadores de sujeitos, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o nos tomarmos como disciplinadores. Isto \u00e9, organizamos espa\u00e7os, tempos e corpos, controlamos movimentos, a fim de torn\u00e1-los mais eficazes e produtivos para nossa sociedade. Assim, a quest\u00e3o que fica \u00e9 que se ainda queremos que essa forma\u00e7\u00e3o\/produ\u00e7\u00e3o de sujeitos se d\u00ea atrav\u00e9s de processos de escolariza\u00e7\u00e3o, temos que (re)tomar a responsabilidade para n\u00f3s (professores), apresentando como nosso trabalho funciona, que expertises s\u00e3o acionadas e de que maneira isso ocorre na escola, quais saberes nos formaram e como os articulamos em nosso cotidiano&#8230; Entretanto, isto deve ocorrer sem que, tamb\u00e9m, ignoremos que nossos alunos j\u00e1 chegam \u00e0s escolas constitu\u00eddos por um contexto social e cultural que tamb\u00e9m vai se articular com os saberes trabalhados na escola.<\/p>\n<p align=\"justify\">Portanto, ser professor \u00e9 uma profiss\u00e3o formativa, n\u00f3s trabalhamos\u00a0<em>produzindo<\/em> cultura e conhecimento.\u00a0Participamos\u00a0<em>da forma\u00e7\u00e3o das pessoas<\/em> dentro de um sistema que \u00e9 disciplinador de tempos e espa\u00e7os. Demanda conhecimento e pr\u00e1tica. E demanda, tamb\u00e9m, reconhecimento de nossa tarefa (por n\u00f3s mesmos). Ou seja, n\u00f3s <em>formamos<\/em> pessoas: constru\u00edmos formas de ser. Compreender este processo \u00e9, ao mesmo tempo, responsabilizar-se por isso e apresentar (e batalhar por) maneiras mais ciente de nosso trabalho ser respeitado. Por fim, compreender este processo \u00e9, tamb\u00e9m, estar mais presente na concep\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o dos sujeitos que queremos formar.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para saber mais:<\/p>\n<p align=\"justify\">FOUCAULT, Michel. (2002).\u00a0<i>Vigiar e Punir<\/i>: nascimento da pris\u00e3o. 25\u00aa Ed. Trad. Raquel Ramalhete. Petr\u00f3polis: Vozes, 1987. Cap\u00edtulo Os corpos d\u00f3ceis, p. 117-142.<\/p>\n<p align=\"justify\">LARROSA, Jorge. (2003).\u00a0<i>Estudar=Estudiar<\/i>. 1\u00aa ed. Trad. Tomaz Tadeu da Silva. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2003.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRATA, Maria Regina dos Santos. (2005). A produ\u00e7\u00e3o da subjetividade e as rela\u00e7\u00f5es de poder na escola: uma reflex\u00e3o sobre a sociedade disciplinar na configura\u00e7\u00e3o social da atualidade. <strong>Revista Brasileira de Educa\u00e7\u00e3o<\/strong>. n.28. 2005. p. 108-115. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/%0D\/rbedu\/n28\/a09n28.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/%0D\/rbedu\/n28\/a09n28.pdf<\/a>. Acesso em: 30\/05\/2018.<\/p>\n<p>VALEIR\u00c3O, Kelin; OLIVEIRA, Avelino da Rosa. (2014). A microf\u00edsica dos corpos na escola.\u00a0<strong>Cadernos de Pesquisa: Pensamento Educacional<\/strong>, Curitiba, v. 9, n. 22, p.79-94 maio\/ago.\u00a0<a href=\"http:\/\/seer.utp.br\/index.php\/a\/article\/download\/676\/566\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/seer.utp.br\/index.php\/a\/article\/download\/676\/566<\/a>. Acesso em: 30\/05\/2018.<\/p>\n<p>Textos relacionados neste blog:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/05\/21\/escola-alunos-obviedades\/\" rel=\"bookmark\">Sobre escola, alunos e obviedades pouco questionadas\u2026<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/04\/25\/tecnologia-ensino-objetivo\/\" rel=\"bookmark\">O uso de tecnologias e a moderniza\u00e7\u00e3o do ensino: qual o objetivo?<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Fala Eu n\u00e3o sei dizer nada por dizer, ent\u00e3o eu escuto Se voc\u00ea disser tudo o que quiser, ent\u00e3o eu escuto Fala Se eu n\u00e3o <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/05\/31\/disciplina-escola-sujeito\/\" title=\"Disciplina e escola: que sujeitos queremos formar?\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":296,"featured_media":180,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"_eb_attr":"","editor_plus_copied_stylings":"{}","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[64],"tags":[26,68,37,27,66,69,67],"class_list":["post-177","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","tag-corpo","tag-disciplina","tag-educacao","tag-escola","tag-formacao-docente","tag-poder-disciplinar","tag-sujeito"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/177","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/users\/296"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=177"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/177\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":181,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/177\/revisions\/181"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media\/180"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=177"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=177"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=177"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}