{"id":202,"date":"2018-07-05T15:14:32","date_gmt":"2018-07-05T18:14:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/?p=202"},"modified":"2021-10-25T14:14:51","modified_gmt":"2021-10-25T17:14:51","slug":"trote-universitario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/07\/05\/trote-universitario\/","title":{"rendered":"Trote universit\u00e1rio: discuss\u00e3o para al\u00e9m das amizades"},"content":{"rendered":"<p>O trote universit\u00e1rio, realizado nas faculdades p\u00fablicas no Brasil \u00e9 uma pauta que me faz refletir desde 2013. Esta \u00e9 a \u00e9poca que ingressei em uma universidade popularmente conhecida pelos trotes violentos. Ao ingressar, fazia o que \u00e9 usualmente entendido como o tranquilo pelos meus colegas. Atos usuais e rotineiros? Engolir comida mastigada por v\u00e1rias pessoas, beber cacha\u00e7a ajoelhado e ter cabelo cortado e pintado de forma vexat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Embora tenha tentado jogar o jogo, pois o lugar era totalmente novo e eu queria me enturmar, os trotes logo chegaram ao n\u00edvel de viol\u00eancia f\u00edsica, com pontap\u00e9s e tapas. Assim que poss\u00edvel, me afastei o m\u00e1ximo poss\u00edvel dessa pr\u00e1tica, sempre me escondendo dos veteranos \u201cbarra pesada\u201d. 2013 foi extremamente conturbado, e o trote foi uma marca gritante em minha viv\u00eancia. Se n\u00e3o tivesse encontrado pessoas que me acolheram de forma humana, teria desistido da universidade.<\/p>\n<p>Ainda que meu relato breve tenha envolvimento pessoal e fale sobre quest\u00f5es das rela\u00e7\u00f5es pessoais entre os alunos de uma universidade, precisamos entender o trote para al\u00e9m disso. Enquanto me graduava, sempre que participava em discuss\u00f5es sobre o trote, a argumenta\u00e7\u00e3o girava em torno das amizades e da perman\u00eancia na universidade. Isso inclui o debate de que as pessoas que n\u00e3o aceitavam o trote ficavam sozinhas, isoladas e n\u00e3o conseguiriam seguir a faculdade. Nesse sentido, o argumento que recebia em retorno era \u201cmas olha a quantidade de amigos que eu fiz, tudo gra\u00e7as ao trote\u201d. O debate em torno dessa quest\u00e3o acaba utilizando quest\u00f5es pessoais e pouco anal\u00edticas, sempre referindo-se \u00e0 pr\u00f3pria viv\u00eancia. Por isso, acredito que apesar de gritante e problem\u00e1tica a quest\u00e3o do isolamento e da solid\u00e3o que o trote pode causar e que seja extremamente necess\u00e1rio se discutir isso, proponho uma nova reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>Foucault diz\u00a0que \u201cse o poder tivesse fun\u00e7\u00e3o apenas de oprimir, ele j\u00e1 teria acabado\u201d\u00b9. Como podemos olhar isso sob a \u00f3tica do trote? Talvez como &#8220;se o trote tivesse fun\u00e7\u00e3o apenas de humilhar, n\u00e3o teria a for\u00e7a e a hist\u00f3ria que apresenta&#8221;. O poder, entre as rela\u00e7\u00f5es sociais e no trote, produz algo al\u00e9m da opress\u00e3o. Uma vez que produz formas de conv\u00edvio, de perceber as amizades, e de tratar o calouro do ano seguinte. E tudo isso, naturalizado pela historicidade dessa pr\u00e1tica, que \u00e9 o cerne do problema que quero discutir.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio entender que as rela\u00e7\u00f5es expressas atrav\u00e9s de comportamentos culturais s\u00e3o frutos de quest\u00f5es materiais hist\u00f3ricas humanas e n\u00e3o s\u00e3o geneticamente imut\u00e1veis em n\u00f3s. O trote \u00e9 o que conhecemos hoje por que surgiu na intera\u00e7\u00e3o humana como um rito de passagem. E assim foi se perpetuando como conhecemos. Dessas rela\u00e7\u00f5es de submiss\u00e3o, expectativas de pertencimento a grupos e\u00a0 necessidades de perpetuar as pr\u00e1ticas no ano seguinte, surge uma forma de interpreta\u00e7\u00e3o do mundo. Assim, naturaliza-se a desumaniza\u00e7\u00e3o do outro, a eterna submiss\u00e3o aos superiores, que colaboram na manuten\u00e7\u00e3o de desigualdades.<\/p>\n<p>Como resultado, o trote \u00e9 um dos meios que mant\u00e9m,\u00a0nas rela\u00e7\u00f5es dos discentes universit\u00e1rios, atos racistas, machistas e homof\u00f3bicos. E essa l\u00f3gica \u00e9 perpetuada na forma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, que preserva a l\u00f3gica do trote. Ademais, serve tamb\u00e9m como forma de desenvolver comportamentos necess\u00e1rios para a l\u00f3gica mercadol\u00f3gica e neoliberal. Consequentemente, o mesmo universit\u00e1rio que tem em sua forma\u00e7\u00e3o pessoal o trote e sua l\u00f3gica, poder\u00e1 ser um m\u00e9dico que n\u00e3o entende a humanidade de seu paciente. Bem como um professor que esquece da humanidade de seus alunos.<\/p>\n<p>Portanto, o trote segue produzindo uma cultura maior do que apenas uma brincadeira exagerada. Tudo isso com um respaldo dos pr\u00f3prios alunos e dos docentes. Al\u00e9m da omiss\u00e3o desses problemas pelas diretorias das faculdades. Dessa maneira, precisamos ultrapassar as quest\u00f5es de se conseguir um grupo de amigos na universidade. Ao buscar uma universidade democr\u00e1tica e inclusiva, com cotas raciais, que aceite os diferentes g\u00eaneros e sexualidades, que seu objetivo seja a compreens\u00e3o e a tentativa de mudan\u00e7a de um paradigma hist\u00f3rico, social e econ\u00f4mico consolidado no Brasil. Al\u00e9m do fim do trote, precisamos tamb\u00e9m de uma luta ativa contra esses problemas apontados acima. O trote, por si s\u00f3, n\u00e3o criou tais problemas, mas definitivamente \u00e9 um dos principais instrumentos de conserva\u00e7\u00e3o deles no meio acad\u00eamico e fora dele.<\/p>\n<p>Para saber mais:<\/p>\n<p>\u00b9Michel Foucault, Microf\u00edsica do Poder. Cap\u00edtulo: Verdade e poder<\/p>\n<p>Renato Janine Ribeiro. O trote como sintoma: a dor de lidar com a dor alheia.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1414-32831999000200020\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1414-32831999000200020<\/a><\/p>\n<p>Luciana Maria Lunardi Campos. Em uma universidade p\u00fablica&#8230; calouros&#8230; e trote&#8230;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/repositorio.unesp.br\/bitstream\/handle\/11449\/17417\/S1414-32831999000200016.pdf?sequence=1&amp;isAllowed=y\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/repositorio.unesp.br\/bitstream\/handle\/11449\/17417\/S1414-32831999000200016.pdf?sequence=1&amp;isAllowed=y<\/a><\/p>\n<p>Primeiro texto da s\u00e9rie sobre trote, em que \u00e9 discutido principalmente a sua historicidade:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"uTz5KEdtO6\"><p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/06\/19\/historia-trote-brasil\/\">Trote e sua hist\u00f3ria no Brasil: da idade m\u00e9dia, pela ditadura e hoje<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Trote e sua hist\u00f3ria no Brasil: da idade m\u00e9dia, pela ditadura e hoje&#8221; &#8212; PEmCie\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/06\/19\/historia-trote-brasil\/embed\/#?secret=8cmsgYaMzL#?secret=uTz5KEdtO6\" data-secret=\"uTz5KEdtO6\" width=\"500\" height=\"282\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>O trote universit\u00e1rio, realizado nas faculdades p\u00fablicas no Brasil \u00e9 uma pauta que me faz refletir desde 2013. 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