{"id":209,"date":"2018-06-19T23:47:13","date_gmt":"2018-06-20T02:47:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/?p=209"},"modified":"2019-02-11T20:06:26","modified_gmt":"2019-02-11T22:06:26","slug":"historia-trote-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/06\/19\/historia-trote-brasil\/","title":{"rendered":"Trote e sua hist\u00f3ria no Brasil: da idade m\u00e9dia, pela ditadura e hoje"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201cNem tudo que luz \u00e9 ouro<br \/>\nNem todo sopapo \u00e9 murro<br \/>\nNem todo burro \u00e9 calouro<br \/>\nMas todo calouro \u00e9 burro\u201d<br \/>\n<\/em>Trecho do \u201cdiploma de burro\u201d dado aos calouros na peruada de S\u00e3o Paulo e Olinda, em meados de 1878<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201cNum ponto e noutro formavam-se pequenos sarilhos, condensando irregularmente a dispers\u00e3o dos alunos.<br \/>\nEram os pobres novatos que os veteranos sovavam \u00e0 cacholeta, fraternalmente\u201d.<br \/>\n<\/em>Trecho retirado de O Ateneu, de Raul Pomp\u00e9ia, 1888<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O trote universit\u00e1rio como pauta de discuss\u00e3o \u00e9 assunto principalmente em universidades que ele \u00e9 consolidado e naturalizado. Mas acaba, vez ou outra, ultrapassando esse nicho, principalmente quando vemos algum exagero relacionado a ele. Durante esses dias, a not\u00edcia foi de alunos da PUC-RJ que tiveram atitudes explicitamente racistas com alunos negros da UERJ, em um evento universit\u00e1rio. O que resultou em revoltas, sendo dialogado por influenciadoras como Jout Jout\u00b9. Apesar do evento n\u00e3o ter necessariamente rela\u00e7\u00e3o direta com o trote, abre um precedente para discorrer sobre o tema.<\/p>\n<p>Por mais que o senso comum relacione-o com universidades p\u00fablicas e cursos renomados, o trote universit\u00e1rio toma corpo em mais cursos e faculdades do que se imagina. Muitas vezes, ele \u00e9 visto apenas como um pequeno grupo restrito de universit\u00e1rios que passaram do limite da brincadeira. Por\u00e9m, a discuss\u00e3o n\u00e3o pode ser apenas nos casos em que se descumpre a lei.\u00a0Ou seja, \u00e9 preciso olhar, tamb\u00e9m, a culturalidade criada pelo trote e suas consequ\u00eancias. Para isso, acredito que a principal necessidade que temos \u00e9 entender a historicidade do trote nas universidades, principalmente nas brasileiras.<\/p>\n<p>O trote surgiu juntamente com a universidade tradicional, por volta do s\u00e9culo XV, na grande maioria dos pa\u00edses europeus. Por exemplo, o principal registro hist\u00f3rico dessa \u00e9poca se encontra no livro \u201cManuale Scholarium\u201d. Este livro descrevia a viv\u00eancia nas principais universidades europeias, principalmente na Alemanha. Assim, \u00e9 poss\u00edvel encontrar trechos da rela\u00e7\u00e3o entre os alunos j\u00e1 matriculados e os novatos, descrevendo situa\u00e7\u00f5es de graves agress\u00f5es. Dentre elas: ser for\u00e7ado a beber urina, ser chamado de \u201cbicho do mato, criatura horrenda, com chifres e boca amea\u00e7adora\u201d, confessar seus atos sexuais&#8230; Caso n\u00e3o aceitasse tais imposi\u00e7\u00f5es, o calouro era gravemente agredido pelos veteranos. Ao decorrer da hist\u00f3ria, tais atitudes foram se modificando e tamb\u00e9m migraram para o Brasil.<\/p>\n<p>No per\u00edodo de consolida\u00e7\u00e3o da universidade no Brasil, entre os s\u00e9culos XIX e XX, as pr\u00e1ticas relacionadas ao trote tamb\u00e9m se consolidaram. Foram importadas,\u00a0principalmente, das universidades portuguesas, onde os acad\u00eamicos brasileiros se formavam. J\u00e1 nos primeiros registros hist\u00f3ricos do trote no Brasil, em 1831, se notificou a morte de um estudante que se recusou a participar de tal pr\u00e1tica e foi assassinado pelos veteranos. Todavia, o tempo n\u00e3o diminuiu a viol\u00eancia dos atos, os casos fatais relacionados ao trote continuaram a ser noticiadas, sendo uma das mais marcantes a morte do aluno Edison na USP, em 1999.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da consolida\u00e7\u00e3o do rito de passagem que \u00e9 o trote mostra a semelhan\u00e7a a atos extremamente comuns atualmente. Dessa forma, registros hist\u00f3ricos que permeiam o s\u00e9culo XXIX\u00a0 mostram no Brasil a\u00e7\u00f5es como os calouros, sempre chamados de bichos, sendo emancipados pelos veteranos, atrav\u00e9s de um ritual de extrema viol\u00eancia e goza\u00e7\u00e3o; m\u00fasicas de humilha\u00e7\u00e3o aos ingressantes, enfeitamentos e descaracteriza\u00e7\u00e3o do corpo do calouro, a obriga\u00e7\u00e3o de ser submisso e silenciado, a embriaguez for\u00e7ada de calouros pelos veteranos. A\u00e7\u00f5es que sempre s\u00e3o justificadas em prol da manuten\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o do trote.<\/p>\n<p>Esta tradi\u00e7\u00e3o pode ser analisada em uma quest\u00e3o que acredito que seja de extremo interesse na rela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do trote: sua perpetua\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da ditadura militar brasileira. Este momento \u00e9 conhecido por \u201cera de ouro\u201d do trote\u00b2. No momento em que a repress\u00e3o do Estado brasileiro estava no auge, resultando na ilegalidade de agremia\u00e7\u00f5es como UNE e centros acad\u00eamicos, extraoficialmente os militares trabalhavam em formas de desunir a classe estudantil. Assim, encontraram uma forma que criava rivalidades e embates entre os alunos: o trote. Isto serviu como um instrumento de apoio dos militares em desarticular o movimento estudantil. Al\u00e9m disso, o trote tamb\u00e9m \u00e9 um grande experimento para desenvolver a desumaniza\u00e7\u00e3o do outro, necess\u00e1ria para torturadores. Existia, tamb\u00e9m, rela\u00e7\u00f5es diretas entre alunos que realizavam o trote e atuando em conjunto a esquadr\u00f5es da morte e de grupos paramilitares. Tais fatos resultaram na persegui\u00e7\u00e3o de diversos estudantes brasileiros.<\/p>\n<p>Portanto, vemos que muitas das pr\u00e1ticas que consideramos comuns em muitas universidades t\u00eam suas origens hist\u00f3ricas que remetem ao s\u00e9culo XV. E percebemos que esses comportamentos podem auxiliar a repress\u00e3o e a censura de governos ditatoriais. O trote tem origem conjunta \u00e0 universidade p\u00fablica brasileira e sempre estiveram juntos. O fim do trote n\u00e3o pode ser apenas o fim dos exageros, de quem n\u00e3o soube brincar, mas acabar com toda a sua l\u00f3gica formativa no meio universit\u00e1rio, para que esse resqu\u00edcio de a\u00e7\u00f5es que corroboram com a ditadura n\u00e3o continuem perpetuadas em nossas universidades.<\/p>\n<p>Esse foi um post inicial sobre quest\u00f5es relacionadas com o trote. Continue acompanhando o nosso blog para novos di\u00e1logos sobre esse tema!<\/p>\n<p><span style=\"color: #800000;\">Para saber mais:<\/span><\/p>\n<p>\u00b9Jogos Universit\u00e1rios: Olha no que deu &#8211; Jout Jout<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ajdVqYIHgL0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ajdVqYIHgL0<\/a><\/p>\n<p>\u00b2Livro \u2013 O Calv\u00e1rio dos carecas: hist\u00f3ria do trote estudantil, de Glauco Mattoso<\/p>\n<p>O Trote e a sa\u00fade mental de Estudantes de Medicina<br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/rbem\/v41n2\/1981-5271-rbem-41-2-0210.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/rbem\/v41n2\/1981-5271-rbem-41-2-0210.pdf<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>\u201cNem tudo que luz \u00e9 ouro Nem todo sopapo \u00e9 murro Nem todo burro \u00e9 calouro Mas todo calouro \u00e9 burro\u201d Trecho do \u201cdiploma de <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/06\/19\/historia-trote-brasil\/\" title=\"Trote e sua hist\u00f3ria no Brasil: da idade m\u00e9dia, pela ditadura e hoje\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":313,"featured_media":219,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"_eb_attr":"","editor_plus_copied_stylings":"{}","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[4,95,161],"tags":[93,90,88,85,92,76,94,89,91,84,8],"class_list":["post-209","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-ensino-superior","category-trote-universitario","tag-casos-de-trote","tag-ditatdura-na-universidade","tag-historia-do-trote","tag-meio-academico","tag-relacoes-na-universidade","tag-trote","tag-trote-e-ditadura","tag-trote-na-universidade","tag-trote-no-brasil","tag-trote-violento","tag-universidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/209","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/users\/313"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=209"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/209\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":220,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/209\/revisions\/220"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media\/219"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=209"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=209"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=209"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}