{"id":246,"date":"2018-08-01T20:51:59","date_gmt":"2018-08-01T23:51:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/?p=246"},"modified":"2018-08-01T20:51:59","modified_gmt":"2018-08-01T23:51:59","slug":"arte-ciencia-ideias-soltas-ao-vento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/08\/01\/arte-ciencia-ideias-soltas-ao-vento\/","title":{"rendered":"Arte &#038; Ci\u00eancia: ideias antigas (ou n\u00e3o)"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>As escolas podem perfeitamente se tornar locais singulares, como mundos pr\u00f3prios nos quais cyborgs geracionalmente diferentes se encontram e trocam narrativas sobre suas viagens na tecno-realidade \u2013 desde que n\u00f3s nos permitamos reimagin\u00e1-los e reconstru\u00ed-los de uma forma inteiramente nova em negocia\u00e7\u00e3o com aqueles que um dia tomar\u00e3o nosso lugar (Green &amp; Bigum, 2001, p. 240).<\/p><\/blockquote>\n<p>Em um desses finais de semana, cheios de coisas atrasadas para fazer, eu estava procurando um livro leve e tranq\u00fcilo. Algo que n\u00e3o me levasse a pensar em trabalho. Bem como qualquer coisa relacionada \u00e0s pesquisas, enfim&#8230; Doce ilus\u00e3o, claro. Deparei-me com um autor que aprecio e h\u00e1 muito n\u00e3o lia: Aldous Huxley!\u00a0<em>A Situa\u00e7\u00e3o Humana<\/em>, \u00e9 uma compila\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de confer\u00eancias pronunciadas no ano de 1959 e publicadas posteriormente.<\/p>\n<p>No primeiro cap\u00edtulo, Educa\u00e7\u00e3o Integrada, o autor defende a import\u00e2ncia de um ensino n\u00e3o fragmentado e do di\u00e1logo entre \u00e1reas extremamente especializadas. Assim, Huxley discute como, para termos uma educa\u00e7\u00e3o integrada, devemos ter pessoas que s\u00e3o pontifex (que ele traduz, do latim, como construtor de pontes).<\/p>\n<p>Sem maiores delongas, me importa aqui aproximar dois textos \u2013 o Alien\u00edgenas em sala de Aula, de Green &amp; Bigum e o j\u00e1 citado de Huxley \u2013 produzidos em \u00e9pocas t\u00e3o distantes&#8230;<\/p>\n<p>Green &amp; Bigum nos apresentam em seu artigo a discuss\u00e3o sobre a \u201cnova\u201d gera\u00e7\u00e3o de alunos jovens e adolescentes e os impasses enfrentados pelos professores adultos que vivem em outro tempo, lastimando da falta de cultura e interesse do primeiro grupo. N\u00e3o quero focar no debate de \u201cquem \u00e9, afinal, alien\u00edgena e\/ou alienado\u201d. Todavia, achei interessante o modo como termina o artigo, citado na ep\u00edgrafe. Os autores debatem a escola como espa\u00e7o em que pessoas de diferentes lugares\/posi\u00e7\u00f5es se encontram e trocam experi\u00eancias. Com isto, eles pontuam como caminho a reinven\u00e7\u00e3o. Ou seja, uma nova produ\u00e7\u00e3o de sentidos sobre as experi\u00eancias e conhecimentos de outros grupos sociais.<\/p>\n<p>Huxley, em sua fala, vai tra\u00e7ar um caminho poss\u00edvel de di\u00e1logo entre ci\u00eancia e arte. Pergunta-se de que vale uma sem a outra. Assim, afirmamos: a ci\u00eancia existe e possui produ\u00e7\u00f5es compartilhadas cotidianamente. Mas ningu\u00e9m entende. Ser\u00e1 que a arte n\u00e3o poderia ser: essa inst\u00e2ncia de produ\u00e7\u00e3o de sentidos para outros grupos (n\u00e3o-cientistas)? O espa\u00e7o de significados que une grande parte das pessoas, suas viv\u00eancias cotidianas e uma teoriza\u00e7\u00e3o abstrata e aparentemente sem contextualiza\u00e7\u00e3o nenhuma? N\u00e3o poderia ser a arte (o artista) um pontifex? O autor defende, a partir do livro Lyrical Ballads de William Wordsworth, escrito no final do s\u00e9culo XVIII, que:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cas mais remotas redescobertas do qu\u00edmico, do bot\u00e2nico, do mineralogista, n\u00e3o s\u00e3o temas menos adequados ao poeta do que qualquer outro tema, desde que sejam assuntos interessantes para os seres humanos em geral e possam ser analisados na medida do que fazem ao homem como \u2018ser que goza e sofre\u2019 \u201d(Huxley, 1982, p.13).<\/p><\/blockquote>\n<p>Continuando o argumento, o autor defende, ironicamente, que o ensino (e o ensino da ci\u00eancia, especificamente) at\u00eam-se mais ao \u201cser que sofre\u201d (e causa sofrimento) do que o \u201cser que goza\u201d (e proporciona prazer).<\/p>\n<p>Bem, a proximidade dos textos, penso eu, est\u00e1 exatamente nesse distanciamento colocado por Green &amp; Bigum. Isto \u00e9: somos duas gera\u00e7\u00f5es \u2013 que falam e pensam sobre o mundo de formas distintas, sem conseguir comunicar-se. Por um lado, n\u00f3s, professores com saberes cient\u00edficos considerados v\u00e1lidos e formas espec\u00edficas de falar sobre esse conhecimento. Por outro lado, os estudantes, com manifesta\u00e7\u00f5es culturais diversas. E, mais ainda, n\u00e3o afinadas com o que o grupo anterior gostaria, muito ligado \u00e0 m\u00eddia e formas de express\u00e3o e escrita n\u00e3o legitimadas por n\u00f3s, adultos.<\/p>\n<p>Dessa forma, o convite de Huxley ecoa (para mim, em mim&#8230;): ser\u00e1 que a arte, considerando-a como manifesta\u00e7\u00e3o e vis\u00e3o de mundo, como interpreta\u00e7\u00e3o, cr\u00edtica, viv\u00eancia e, talvez, alargando o conceito de arte como cultura, de um modo geral, n\u00e3o seria essa possibilidade de encontro e trocas de narrativas de que falam Green &amp; Bigum? Um modo de negocia\u00e7\u00e3o, reinven\u00e7\u00e3o, na tentativa de n\u00e3o deslegitimar o outro, mas agregar, \u201creconstru\u00ed-los de uma forma totalmente nova\u201d como defendem os autores?<\/p>\n<p>Essa discuss\u00e3o parece ser um retorno a preocupa\u00e7\u00f5es que eram demonstradas no passado e foram guardadas em gavetas obscurecidas&#8230; Embora me impressione, mas tenha suas particularidades, claro. As tecnologias mudam (mudaram), o olhar para o jovem mudou. No entanto, ainda n\u00e3o conseguimos atrelar ao conhecimento cient\u00edfico-tecnol\u00f3gico significados de nossa vida rotineira. Em se tratando de inclus\u00e3o e exclus\u00e3o, estamos, talvez, deixando de fora a possibilidade de estudantes vivenciar, experimentar o conhecimento: de arte e de ci\u00eancia; de sentimentos e de abstra\u00e7\u00f5es; de belezas e incertezas; de rela\u00e7\u00f5es (produtivas) entre as gera\u00e7\u00f5es&#8230; N\u00e3o seria essa uma cruel exclus\u00e3o?<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Green, Bill &amp; Bigum, Chris. Alien\u00edgenas em sala de aula. In: Silva, Tomaz Tadeu (org.) Alien\u00edgenas em sala de aula: uma introdu\u00e7\u00e3o aos Estudos Culturais em Educa\u00e7\u00e3o. Petr\u00f3polis: Vozes, 2001. p.208-243.<\/p>\n<p>Huxley, Aldous. <a href=\"https:\/\/books.google.com.br\/books?id=y_KdCwAAQBAJ&amp;printsec=frontcover&amp;hl=pt-BR&amp;source=gbs_ge_summary_r&amp;cad=0#v=onepage&amp;q&amp;f=false\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A Situa\u00e7\u00e3o Humana<\/a>. Porto Alegre; Rio de Janeiro: Editora Globo, 1982.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>As escolas podem perfeitamente se tornar locais singulares, como mundos pr\u00f3prios nos quais cyborgs geracionalmente diferentes se encontram e trocam narrativas sobre suas viagens na <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/08\/01\/arte-ciencia-ideias-soltas-ao-vento\/\" title=\"Arte &#038; Ci\u00eancia: ideias antigas (ou n\u00e3o)\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":296,"featured_media":248,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_eb_attr":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[64,3],"tags":[104,103,6,7],"class_list":["post-246","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-educacao-em-ciencia","tag-aldous-huxley","tag-arte","tag-ciencia","tag-educacao-em-ciencias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/246","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/users\/296"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=246"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/246\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":249,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/246\/revisions\/249"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media\/248"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=246"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=246"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=246"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}