{"id":315,"date":"2018-11-01T14:06:13","date_gmt":"2018-11-01T17:06:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/?p=315"},"modified":"2021-06-05T11:19:09","modified_gmt":"2021-06-05T14:19:09","slug":"excessos-informacao-opiniao-experiencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/11\/01\/excessos-informacao-opiniao-experiencia\/","title":{"rendered":"Excessos: informa\u00e7\u00e3o, opini\u00e3o, experi\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Vivemos em tempos em que a informa\u00e7\u00e3o nos chega sem que precisemos correr muito atr\u00e1s&#8230; E isto parece \u00f3timo, literalmente no palmo de nossas m\u00e3os temos acesso ao mundo.&nbsp;Junto com isso, temos a sensa\u00e7\u00e3o de estarmos sempre atrasados e defasados em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s informa\u00e7\u00f5es que recebemos&#8230;<\/p>\n<p>Assim, escutamos cotidianamente: &#8220;n\u00e3o ficaste sabendo disto? Est\u00e1s alienado!&#8221; ou ent\u00e3o &#8220;Oi!? N\u00e3o leste sobre esta \u00faltima not\u00edcia? \u00c9 s\u00f3 acessar, a informa\u00e7\u00e3o est\u00e1 na tua frente!&#8221;. Pois bem, em tempos de <em>fake news<\/em>, not\u00edcias que chegam via redes sociais e, especialmente, comunicadores como messenger, direct messenger e whatsapp (dentre outros), a quest\u00e3o parece ser que passamos o dia inteiro lendo, nos informando e nos comunicando. Por outro lado, parece que temos cada vez menos tempo e menos condi\u00e7\u00f5es de pensar sobre tudo o que estamos lendo, falando e nos informando.<\/p>\n<p>Jorge Larrosa, pedagogo espanhol, tem um texto bel\u00edssimo acerca da <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/rbedu\/n19\/n19a02.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">experi\u00eancia e do saber da experi\u00eancia<\/a>. Neste artigo, o autor argumenta como os sujeitos contempor\u00e2neos cada vez mais est\u00e3o informados. E, n\u00e3o somente isso, precisam cada vez mais dar opini\u00f5es sobre as informa\u00e7\u00f5es. Larrosa aponta o quanto este modo de lidarmos com a sociedade diminui nossa capacidade de termos uma <strong>experi\u00eancia<\/strong>. E a experi\u00eancia n\u00e3o \u00e9 aquilo que acontece, mas<\/p>\n<blockquote><p>A experi\u00eancia \u00e9 o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. N\u00e3o o que se passa, n\u00e3o o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, por\u00e9m, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece (Larrosa, 2002, p.21).<\/p><\/blockquote>\n<p>E o que isto tem a ver com a informa\u00e7\u00e3o? A quest\u00e3o, para Larrosa, \u00e9 o quanto este excesso de informa\u00e7\u00f5es e cobran\u00e7as por posicionamentos aligeirados nos afastam da experi\u00eancia. Nos afastam pelo tempo em que uma informa\u00e7\u00e3o precisa para ser pensada, elaborada, &#8220;digerida&#8221;, por n\u00f3s. Seja por meio de leituras (de jornais, artigos, blogs&#8230;), v\u00eddeos em plataformas ou podcasts, a informa\u00e7\u00e3o precisa de um tempo dentro de n\u00f3s para que consigamos avaliar isto, selecionar aquilo que n\u00e3o s\u00f3 nos interessa, mas tamb\u00e9m pode ser importante para este momento que vivemos. Assim, Larrosa (2002, p.22) aponta que<\/p>\n<blockquote><p>O sujeito da informa\u00e7\u00e3o sabe muitas coisas, passa seu tempo buscando informa\u00e7\u00e3o, o que mais o preocupa \u00e9 n\u00e3o ter bastante informa\u00e7\u00e3o; cada vez sabe mais, cada vez est\u00e1 melhor informado, por\u00e9m, com essa obsess\u00e3o pela informa\u00e7\u00e3o e pelo saber (mas saber n\u00e3o no sentido de \u201csabedoria\u201d, mas no sentido de \u201cestar informado\u201d), o que consegue \u00e9 que nada lhe aconte\u00e7a.<\/p><\/blockquote>\n<p>Al\u00e9m da informa\u00e7\u00e3o e seus excessos, a cobran\u00e7a de &#8220;opini\u00e3o&#8221; tamb\u00e9m seria um impeditivo da experi\u00eancia. O sujeito moderno, diz Larrosa, \u00e9 &#8220;um sujeito informado que, al\u00e9m disso, opina&#8221;. E a opini\u00e3o anularia a experi\u00eancia exatamente por decretar uma verdade para n\u00f3s. Isto dificultaria a percep\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 vis\u00f5es diferentes (e v\u00e1lidas) de mundo, de vida, de exist\u00eancia. Quem nunca escutou a finaliza\u00e7\u00e3o de ideias, contemporaneamente, com a frase: &#8220;mas \u00e9 minha opini\u00e3o&#8221;. E esta frase pronunciada como se isto eximisse de responsabilidades sobre o dito? A opini\u00e3o parece fechar-se em ser contra ou a favor de alguma coisa, baseado em informa\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas e sem uma elabora\u00e7\u00e3o mais demorada sobre quest\u00f5es importantes&#8230;<\/p>\n<p>Ao destrinchar a palavra&nbsp;<em>Experi\u00eancia<\/em>, Larrosa nos mostra algumas rela\u00e7\u00f5es. Primeiro, o conceito de &#8220;provar&#8221; (no sentindo de experimentar, do latim <em>experiri<\/em>), mas tamb\u00e9m \u00e0 no\u00e7\u00e3o de &#8220;perigo&#8221; (do radical&nbsp;<em>periri)<\/em>&nbsp;e &#8220;travessia&#8221; (se olharmos na raiz indo-europ\u00e9ia&nbsp;<em>per). <\/em>Assim, o sujeito da experi\u00eancia, segundo o autor<\/p>\n<blockquote><p>tem algo desse ser fascinante que se exp\u00f5e atravessando um espa\u00e7o indeterminado e perigoso, pondo-se nele \u00e0 prova e buscando nele sua oportunidade, sua ocasi\u00e3o (2002, p.25).<\/p><\/blockquote>\n<p>E qual a relev\u00e2ncia disso? Em tempos em que a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 excessiva e temos um sentimento de atropelo di\u00e1rio pela quantidade de afazeres, em que tudo parece t\u00e3o importante e n\u00e3o conseguimos filtrar urg\u00eancias, parece-me ser fundamental pensarmos este conceito de&nbsp;<em>sujeito da experi\u00eancia<\/em>. Ou seja, este sujeito que para, que&nbsp;<em>significa<\/em> o tempo e os acontecimentos&#8230; Faz pausas e elabora para si problem\u00e1ticas cotidianas (not\u00edcias, eventos, conversas&#8230; seja l\u00e1 o que for).<\/p>\n<p>E isto pode parecer um clich\u00ea barato. A ideia \u00e9 efetivamente se dedicar com aten\u00e7\u00e3o \u00e0 tarefa que estamos executando naquele momento. Ou seja, dispensar o frenesi e a ansiedade do prazo da pr\u00f3xima atividade. E buscar um pouco mais de qualidade, no sentido de dedicar-se a uma tarefa de cada vez. Isto \u00e9: Ler o jornal sem interrup\u00e7\u00f5es, anotar ideias sem fugir o olhar para conversas paralelas no celular, tomar caf\u00e9 sentindo o inteiro teor. Dialogar em sala de aula escutando de fato o que o outro tem a dizer, sem pensar em rebater sem elaborar o que foi dito.<\/p>\n<p>Para finalizar, tudo isto sobre os excessos de informa\u00e7\u00e3o, experi\u00eancias e, especialmente, a necessidade de opinar, sempre me fazem pensar na defini\u00e7\u00e3o sensacional de uma crian\u00e7a, sobre a palavra &#8220;Adulto&#8221; (Naranjo, 2013).<\/p>\n<blockquote><p><strong>Adulto: Pessoa que em toda coisa que fala, fala primeiro de si (fala de&nbsp;Andr\u00e9s Felipe Bedoya, de 8 anos)<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Por qu\u00ea? Ora! Sintom\u00e1tico que (n\u00f3s) sujeitos modernos, informados e que t\u00eam opini\u00e3o sempre falam &#8220;eu&#8221; no in\u00edcio das senten\u00e7as. Fecham, assim, possibilidades de interlocu\u00e7\u00e3o do di\u00e1logo, das possibilidades de abrir-se para outras vis\u00f5es (do outro, do mundo, do cotidiano&#8230;). Adultos, excessos de si mesmos, sem espa\u00e7o para que nada aconte\u00e7a.<\/p>\n<p>No post de hoje, escrevi sobre estas inquieta\u00e7\u00f5es de professora de tempos de <em>fake news<\/em>, an\u00e1lises apressadas, ac\u00famulo de trabalhos, projetos, reuni\u00f5es. Tudo isto em meio a leituras e longos momentos &#8211; que parecem simples descanso &#8211; pensativa acerca de tudo o que nos rodeia e como pensar a educa\u00e7\u00e3o e os momentos de sala de aula, sem que a estafa dos excessos se apodere. Este texto do Larrosa \u00e9, definitivamente, a pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o de experi\u00eancia (do que nos faz pensar a partir dele e das vontades de efetivamente viver momentos com a calma necess\u00e1ria). O livro&nbsp;<strong>Casa das Estrelas &#8211; o universo contado pelas crian\u00e7as<\/strong> pode ser definido como outra experi\u00eancia. A defini\u00e7\u00e3o simples das crian\u00e7as que nos fazem pensar em como temos vivido, nas viol\u00eancias cometidas, nas voracidades da rotina. \u00c9 preciso respirar.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #800000;\">Para ler mais:<\/span><\/strong><\/p>\n<p>Larrosa, Jorge (2002) <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/rbedu\/n19\/n19a02.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Notas sobre a experi\u00eancia e o saber da experi\u00eancia.<\/a> <strong>Revista Brasileira de Educa\u00e7\u00e3o<\/strong>, n.19.<\/p>\n<p>Naranjo, Javier (2013)<strong><a href=\"https:\/\/g.co\/kgs\/tX6tq3\"> Casa das Estrelas &#8211; o universo contado pelas crian\u00e7as<\/a>.&nbsp;<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Vivemos em tempos em que a informa\u00e7\u00e3o nos chega sem que precisemos correr muito atr\u00e1s&#8230; E isto parece \u00f3timo, literalmente no palmo de nossas m\u00e3os <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/11\/01\/excessos-informacao-opiniao-experiencia\/\" title=\"Excessos: informa\u00e7\u00e3o, opini\u00e3o, experi\u00eancia\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":296,"featured_media":320,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_eb_attr":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[136,137,139,138],"class_list":["post-315","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","tag-experiencia","tag-informacao","tag-sujeito-da-experiencia","tag-sujeito-da-informacao"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2018\/11\/Blog1-2.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/315","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/users\/296"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=315"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/315\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":798,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/315\/revisions\/798"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media\/320"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=315"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=315"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=315"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}