{"id":342,"date":"2019-02-04T19:56:35","date_gmt":"2019-02-04T21:56:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/?p=342"},"modified":"2019-02-04T20:12:36","modified_gmt":"2019-02-04T22:12:36","slug":"sobre-a-paixao-pelo-conhecimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2019\/02\/04\/sobre-a-paixao-pelo-conhecimento\/","title":{"rendered":"Sobre a paix\u00e3o pelo conhecimento"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align:right\"><em>Palavra prima<br> Uma palavra s\u00f3, a crua palavra<br> Que quer dizer<br> Tudo<br> Anterior ao entendimento, palavra<br>(Chico Buarque, Uma Palavra)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Confabulando entre amigos dia desses, nessas conversas nerds comuns e sobre recorda\u00e7\u00f5es escolares, comentava sobre o quanto me encantava aprender, o uso\u00a0das palavras e tudo o que podemos fazer a partir delas, todo o conhecimento poss\u00edvel pelas palavras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em tempos atuais, de desvaloriza\u00e7\u00e3o da doc\u00eancia em diversos meios de debate, \u00e9 preciso buscar o que nos encantou pelo trabalho de sala de aula. Em termos de escola, eu poderia citar a leitura do livro <em>O homem que calculava<\/em> (Malba Tahan). Nesta \u00e9poca, tomava a matem\u00e1tica como minha \u00e1rea de principal interesse. Recordo-me, por exemplo, quando aprendi sobre o c\u00e1lculo de Erast\u00f3tenes. Quem? Erast\u00f3tenes, matem\u00e1tico e ge\u00f3grafo grego que viveu entre 276 a.C. e 194 a.C., do raio da Terra. (Voc\u00eas podem ver um pouco mais <a href=\"http:\/\/www2.mat.ufrgs.br\/edumatec\/atividades_diversas\/ativ28\/erast.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a> e <a href=\"http:\/\/www2.mat.ufrgs.br\/edumatec\/atividades_diversas\/ativ28\/calc.htm#c1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 outra leitura, de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, que me fez tomar as palavras e seu uso algo fenomenal. No conto <em>Profiss\u00e3o\u00a0<\/em>do livro\u00a0<em><a href=\"http:\/\/mkmouse.com.br\/livros\/NoveAmanhas-Vol.1e2-IsaacAsimov.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Os nove amanh\u00e3s,<\/a>\u00a0<\/em>de Isaac Asimov seres humanos aprendem a ler no &#8220;dia da educa\u00e7\u00e3o&#8221;. Neste dia, crian\u00e7as aprendem a ler com m\u00e1quinas espec\u00edficas que &#8220;inserem&#8221; a compreens\u00e3o das palavras de forma automatizada. No conto, George, personagem principal, apaixona-se pela leitura. Passa sua juventude lendo. Mas ele \u00e9 tido como uma pessoa estranha \u00e0 sociedade. Pois poucos entendem como algu\u00e9m quer aprender pela leitura, j\u00e1 que h\u00e1 m\u00e9todos mais r\u00e1pidos e eficazes para tanto. A grande quest\u00e3o trabalhada por Asimov \u00e9 a possibilidade de criatividade que a leitura nos proporcionaria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todavia, nerdices nada \u00e0 parte, este tipo de debate me instigava. Eu me fascinava pela no\u00e7\u00e3o de que o conhecimento n\u00e3o era ac\u00famulo, mas modo de ver e entender o mundo. Talvez mais do que isso, criava condi\u00e7\u00f5es de agir no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Larrosa, a partir de Arist\u00f3teles, nos define como&nbsp;<em>viventes com palavra.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Quando fazemos coisas com as palavras, do que se trata \u00e9 de como damos sentido ao que somos e ao que nos acontece, de como correlacionamos as palavras e as coisas, de como nomeamos o que vemos ou o que sentimos e de como vemos ou sentimos o que nomeamos (Larrosa, 2002, p.21).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E \u00e9 ao\u00a0<em>dar sentido ao que somos e ao que acontece<\/em>\u00a0que nos relacionamos com tudo o que existe ao nosso redor. Dessa forma, nascemos em um mundo em que as palavras j\u00e1 existem e entramos em contato com elas desde muito tenra idade &#8211; at\u00e9 nos apropriarmos destas. Nesta rela\u00e7\u00e3o, fabricamos, constitu\u00edmos, organizamos pensamentos e, tamb\u00e9m, conhecimento. Narramos fen\u00f4menos, acontecimentos, a n\u00f3s e aos outros, a partir da organiza\u00e7\u00e3o das palavras, transformando-as em algo maior. Ainda de acordo com Larrosa,\u00a0<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>As palavras com que nomeamos o que somos, o que fazemos, o que pensamos, <em>o que percebemos ou o que sentimos s\u00e3o mais do que simplesmente palavras<\/em> (Larrosa, 2002, p.21, grifos meus).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E \u00e9 este &#8220;mais do que simplesmente palavras&#8221; que me fascinava na inf\u00e2ncia\/adolesc\u00eancia e, at\u00e9 hoje, faz sentido seguir buscando e construindo &#8211; como sujeito, como docente, como algu\u00e9m que aprende.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Retomo a ideia da desvaloriza\u00e7\u00e3o da doc\u00eancia nos tempos atuais&#8230; Esta \u00e9 uma das profiss\u00f5es que teria condi\u00e7\u00f5es de criar isto em sala de aula. A ideia de cerceamento pedag\u00f3gico que temos atualmente, remete-me ao aprendizado automatizado do conto de Asimov, sem liberdade de ensinar e aprender, sem possibilitar que a rela\u00e7\u00e3o entre sujeito-docente e sujeitos-discentes produzam a partir das palavras, algo maior. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outro destes momentos (de f\u00e9rias, para ser sincera) de leitura, me deparei com uma nota de final de cap\u00edtulo. Michel Foucault, no livro organizado&nbsp;<em>Aulas sobre a vontade de saber<\/em> se diz surpreso e encantado por retomar as leituras de Espinosa. Em suas aulas,&nbsp;ele afirma que Espinosa tem como filosofia (assim como ele)<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Fazer do conhecimento a mais poderosa das paix\u00f5es (Foucault, 2014, p.27).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ora, parece-me que \u00e9 esta a quest\u00e3o que busquei tratar no post anterior, sobre <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/12\/10\/ciencia-e-criancas\/\">ci\u00eancia e crian\u00e7as<\/a>, bem como outro sobre o <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/11\/01\/excessos-informacao-opiniao-experiencia\/\">excesso de informa\u00e7\u00f5es<\/a>. O quanto necessitamos hoje organizar as informa\u00e7\u00f5es que existem (e recebemos) no mundo, mas tamb\u00e9m a incurs\u00e3o no aprendizado via criatividade, questionamentos e uma doc\u00eancia que n\u00e3o s\u00f3 possibilita, mas cria condi\u00e7\u00f5es para tanto.<\/p>\n<p>Assim, \u00e9 preciso tempo, encantamento, disponibilidade e, definitivamente, tempo\u00a0(de novo) sem cerceamento de ideias! Conhecimento se busca, se constr\u00f3i por encantamento &#8211; n\u00e3o retirando todo o trabalho decorrente disso, obviamente, nem tomando como dom (tema que tratarei em outro post, em breve).\u00a0<\/p>\n<p>E tu, te encantas pelo qu\u00ea?<\/p>\n<p><span style=\"color: #800000;\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Asimov, I (1954) <strong>Os nove amanh\u00e3s<\/strong>. Publica\u00e7\u00f5es Europa-Am\u00e9rica, LDA.\u00a0<\/p>\n<p>Foucault, M. <strong>Aulas sobre a vontade de saber:\u00a0<\/strong>curso no\u00a0<em>coll\u00e9ge de France<\/em> (1970-1971). Martins Fontes, 2014.<\/p>\n<p>Larrosa, Jorge (2002)\u00a0<a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/rbedu\/n19\/n19a02.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Notas sobre a experi\u00eancia e o saber da experi\u00eancia.<\/a>\u00a0<strong>Revista Brasileira de Educa\u00e7\u00e3o<\/strong>, n.19.<\/p>\n<p>TAHAN, M. (2002)\u00a0<b><i>O Homem que Calculava.<\/i><\/b>\u00a058\u00aa edi\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro, Editora Record.<\/p>\n<p><span style=\"color: #800000;\"><strong>Para escutar enquanto l\u00ea<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Chico Buarque. <a href=\"_wp_link_placeholder\">Uma Palavra<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Palavra prima Uma palavra s\u00f3, a crua palavra Que quer dizer Tudo Anterior ao entendimento, palavra(Chico Buarque, Uma Palavra) Confabulando entre amigos dia desses, nessas <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2019\/02\/04\/sobre-a-paixao-pelo-conhecimento\/\" title=\"Sobre a paix\u00e3o pelo conhecimento\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":296,"featured_media":346,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_eb_attr":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[64],"tags":[153,151,116,154],"class_list":["post-342","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","tag-aprendizado","tag-conhecimento","tag-ensino","tag-palavra"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2019\/02\/Blog1-3.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/342","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/users\/296"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=342"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/342\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":348,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/342\/revisions\/348"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media\/346"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=342"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=342"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=342"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}