{"id":381,"date":"2019-03-18T15:22:37","date_gmt":"2019-03-18T18:22:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/?p=381"},"modified":"2019-03-18T15:22:37","modified_gmt":"2019-03-18T18:22:37","slug":"ensinar-e-ler","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2019\/03\/18\/ensinar-e-ler\/","title":{"rendered":"Ensinar a ler: um olhar para si mesmo"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #800000;\">Ensinar a ler<\/span><\/h4>\n<p>Jorge Larrosa discute a educa\u00e7\u00e3o e os atos de ensinar, a partir do fil\u00f3sofo Nietzsche. Ele defende que \u201censinar a ler de outra forma \u00e9 educar o homem por vir, o homem do futuro. Por\u00e9m, ensinar a arte da leitura n\u00e3o \u00e9 transmitir um m\u00e9todo, um caminho a seguir, um conjunto de regras pr\u00e1ticas mais ou menos gerais e obrigat\u00f3rias a todos\u201d.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a aprendizagem se d\u00e1 n\u00e3o atrav\u00e9s de conceitos e pr\u00e1ticas\/protocolos, prontos, acabados. N\u00e3o existe aprendizagem fora do pensamento e da reflex\u00e3o. Isto \u00e9, n\u00e3o existem modos de ensinar aos estudantes sem que se leve em considera\u00e7\u00e3o em que aquilo que falamos se relaciona com suas vidas. Isto n\u00e3o seria para ditar regras, costumes e valores arraigados de nossa ci\u00eancia e nossa sociedade. Pelo contr\u00e1rio, para que possamos oportunizar novas maneiras de olhar e agir \u2013 consigo e com a sociedade.<\/p>\n<p>Assim, Larrosa dir\u00e1 ainda que \u201ca tarefa de formar um leitor \u00e9 multiplicar suas perspectivas, abrir seus ouvidos, apurar seu olfato, educar seu gosto, sensibilizar seu tato, dar-lhe tempo, formar um car\u00e1ter livre e intr\u00e9pido&#8230; e fazer da leitura uma aventura. O essencial n\u00e3o \u00e9 ter um m\u00e9todo para ler bem. Mas saber ler, isso \u00e9: saber rir, saber dan\u00e7ar e saber jogar, saber interiorizar-se jovialmente por territ\u00f3rios inexplorados, saber produzir sentidos novos, m\u00faltiplos\u201d. Finalizando, Larrosa dir\u00e1 que \u201ctodos os livros est\u00e3o para serem lidos e suas leituras poss\u00edveis s\u00e3o m\u00faltiplas e infinitas; o mundo est\u00e1 para ser lido de outras formas; n\u00f3s mesmos ainda n\u00e3o fomos lidos\u201d (Larrosa, 2002, p.26-27).<\/p>\n<h4 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #800000;\">Por qu\u00ea?<\/span><\/h4>\n<p>Qual a relev\u00e2ncia disto, em nosso mundo contempor\u00e2neo? Ora, parece-me que continuamente uma das grandes quest\u00f5es que enfrentamos \u00e9 a falta de tempo. A falta de tempo para ler, dedicadamente. Isto \u00e9, sem conectarmo-nos a nada mais al\u00e9m da linearidade das palavras &#8211; e de tudo o que elas podem nos possibilitar.<\/p>\n<p>Da mesma maneira, a tarefa de ensinar estes modos de leitura de mundo torna-se, tamb\u00e9m, \u00e1rduo. Assim, a instantaneidade da informa\u00e7\u00e3o contrap\u00f5e-se com esta multiplicidade de sentidos que conseguimos abstrair das leituras que costumamos nos demorar. H\u00e1 algumas cenas no filme <em>Hannah Arendt<\/em>, em que Arendt est\u00e1 em seu processo de escrita e interrompe tudo para deitar-se em um sof\u00e1 (ou div\u00e3). Estas cenas do filme me intrigaram, pelos prazos apressados exigidos para a autora (que aparecem em cenas seguintes, com editores aos brados). Todavia, mesmo com prazos curtos, a cena teimosamente demorava-se apresentando Arendt deitada vislumbrando um aparente nada.<\/p>\n<p>Que motivo tenho eu para evocar esta cena neste post? Acho deveras interessante o quanto estes momentos do filme foram representativos dos espa\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o de sentidos, produ\u00e7\u00e3o (efetivamente) da escrita &#8211; e tamb\u00e9m da leitura de mundo que a fil\u00f3sofa fazia. Isto \u00e9, era preciso tempo, era necess\u00e1rio interromper a \u00e2nsia dos apertados prazos para <strong>pensar<\/strong>.<\/p>\n<p>Esta quest\u00e3o tornou-se (mais uma vez relevante) tendo em vista a leitura que fiz do texto de Peter Schulz\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/index.php\/ju\/artigos\/peter-schulz\/para-quem-os-cientistas-escrevemos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Para quem os cientistas escrevemos?<\/em><\/a> Este artigo \u00e9 interessante por muitos motivos (que voc\u00eas, \u00e1vidos leitores, podem ir l\u00e1 e conferir por si, claro&#8230;). Mas eu gostaria de destacar algo que remeteu a minha busca pelo ensino da escrita e leitura&#8230;<\/p>\n<h4 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #800000;\">Sobre nosso pr\u00f3prio aprendizado<\/span><\/h4>\n<p>A ideia de ensinar a ler &#8211; e a escrever (como formadora de professores) &#8211; me fascina h\u00e1 algum tempo. Claro que isso n\u00e3o quer dizer que eu seja eficiente na tarefa. De qualquer modo, um trecho me fez estancar &#8220;precisamos aprender a escrever novos tipos de textos e acrescent\u00e1-los a nosso repert\u00f3rio&#8221;. afirmou Schulz.<\/p>\n<p>Talvez um dos desafios contempor\u00e2neos, neste ato de ensinar a ler, \u00e9 exatamente olharmos para n\u00f3s mesmos como aprendentes e, mais do que isso, como pessoas que precisamos continuamente reavalizar e acrescer tais aprendizados em nosso repert\u00f3rio. Vorazes na inten\u00e7\u00e3o de aprender, mas respeitando o tempo deste aprendizado e suas multiplicidades necess\u00e1rias&#8230;<\/p>\n<p>Em suma, (retomando as palavras de Larrosa) aprender a ler \u00e9 &#8220;saber interiorizar-se jovialmente por territ\u00f3rios inexplorados, saber produzir sentidos novos, m\u00faltiplos&#8221;. Demorar-se no ritmo das palavras, explor\u00e1-las e produzir, para si mesmo, sentidos. Conectar com o j\u00e1 sabido, modificando-o, produzindo novos conhecimentos.<\/p>\n<h4><strong><span style=\"color: #800000;\">Para saber mais:<\/span><\/strong><\/h4>\n<p>Larrosa, Jorge. <strong>Nietzsche e Educa\u00e7\u00e3o<\/strong>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2002.<\/p>\n<p>Larrosa, Jorge (2002)\u00a0<a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/rbedu\/n19\/n19a02.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Notas sobre a experi\u00eancia e o saber da experi\u00eancia.<\/a>\u00a0<strong>Revista Brasileira de Educa\u00e7\u00e3o<\/strong>, n.19.<\/p>\n<p>Schulz, Peter. <a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/index.php\/ju\/artigos\/peter-schulz\/para-quem-os-cientistas-escrevemos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Para quem cientistas escrevemos?<\/a>\u00a0<strong>Jornal da Unicamp<\/strong>. 15 MAR 2019<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=lYDOpOCHwyw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Hannah Arendt<\/a>.<\/strong> Dire\u00e7\u00e3o Margarethe von Trotta, Produ\u00e7\u00e3o: Heimatfilm Gmbh. Alemanha, Fran\u00e7a, 2013.<\/p>\n<h4><span style=\"color: #800000;\">Outros textos do blog sobre leitura<\/span><\/h4>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2017\/12\/03\/iniciando-os-trabalhos\/\"><em>Iniciando os trabalhos<\/em><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Ensinar a ler Jorge Larrosa discute a educa\u00e7\u00e3o e os atos de ensinar, a partir do fil\u00f3sofo Nietzsche. 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