{"id":466,"date":"2019-06-04T21:27:58","date_gmt":"2019-06-05T00:27:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/?p=466"},"modified":"2020-03-19T05:18:32","modified_gmt":"2020-03-19T08:18:32","slug":"identidade-cultura-musica-em-dias-de-sol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2019\/06\/04\/identidade-cultura-musica-em-dias-de-sol\/","title":{"rendered":"Identidade, cultura e m\u00fasica em dias de sol"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<h4 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #800000;\">Cotidiano<\/span><\/h4>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A aridez do concreto da sala, com seu ch\u00e3o cinza e as paredes brancas, a escrita mediada pelo teclado&#8230; O ins\u00edpido ambiente n\u00e3o parecia prop\u00edcio para as ideias flu\u00edrem e falar sobre identidade, resolvi tomar o \u00faltimo gole de caf\u00e9, antes de esfriar e completar o quadro da falta de inspira\u00e7\u00e3o&#8230;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Olhei por alguns momentos todo este cen\u00e1rio, suspirei fundo, sentido o ar sem movimento da sala fechada. Levantei, eu precisava sair. Levei comigo um caderno, estojo e o aparelho de mp3. Era uma tarde ensolarada, busquei um espa\u00e7o aberto, que eu conseguisse sentir um pouco do frio suave.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">V\u00e1rios alunos estavam espalhados pelas mesas em frente ao Instituto de Biologia. Havia mesas vazias, mas n\u00e3o me pareceu apropriado tamb\u00e9m. Achei uma \u00e1rvore com uma nesga de sol embaixo. Escolhi a playlist, intitulada &#8220;pois \u00e9&#8221;, dessas com m\u00fasicas que me fazem pensar e, n\u00e3o necessariamente, possuem l\u00f3gica para quem olha fora contexto. E l\u00e1, no sol, busquei as palavras para preencher as linhas do caderno&#8230;<\/span><\/p><\/blockquote>\n<h4 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #800000;\">A vida tem trilha sonora?<\/span><\/h4>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Costumamos dizer que a vida tem trilha sonora. Assim, sons que residem em momentos e resgatam sentido, d\u00e3o ritmo, criam identifica\u00e7\u00f5es e comp\u00f5e, tamb\u00e9m, nossa identidade. Na fugacidade dos segundos encadeados por acordes, regendo tempos e viv\u00eancias, eu fiquei tentando organizar a postagem de hoje sobre o conceito de <em>identidades<\/em> e de <em>identidades h\u00edbridas <\/em>que eu havia trabalhado no turno da manh\u00e3, a partir de Nestor Canclini (2006).\u00a0<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #666699;\"><del>(Quem v\u00ea ela escrevendo, sentada calmamente em sil\u00eancio, no sol, pensando sobre identidade e hibridismos na cultura para uma nova postagem, com seus fones de ouvido, n\u00e3o imagina que ela est\u00e1 embalando palavras em m\u00fasicas como\u00a0<em>Livin&#8217; la vida loca&#8230;)<\/em><\/del><\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<h4 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #800000;\">Ok, tch\u00ea, mas e a identidade? Onde \u00e9 que vai come\u00e7ar a conversa sobre identidade?<\/span><\/h4>\n<p><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o que at\u00e9 o momento eu n\u00e3o estivesse falando sobre isso, de v\u00e1rias maneiras&#8230; Mas vamos l\u00e1, n\u00e9? Iv\u00e1n Izquierdo (2002) diz que somos aquilo que lembramos, mas somos tamb\u00e9m aquilo que esquecemos. Jorge Larrosa (2003) aborda a identidade sob a perspectiva de que somos aquilo que falam de n\u00f3s e aquilo que n\u00f3s falamos de n\u00f3s mesmos. Por fim, Nestor Canclini (2006) afirma que a &#8220;identidade \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o que se narra&#8221; e, sendo assim, \u00e9 teatro, pol\u00edtica, representa\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o, s\u00e3o <em>processos de negocia\u00e7\u00e3o.<\/em>\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Hoje, na disciplina\u00a0<em>Estudos Culturais e Educa\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias<\/em>, discut\u00edamos a no\u00e7\u00e3o de hibridismo cultural e identidade. Ler algumas discuss\u00f5es dos Estudos Culturais, muitas vezes, \u00e9 se questionar e perceber-se imerso neste emaranhado que nos constitui. Isto \u00e9, perceber, rastrear, o que nos interpela e participa de nossa constitui\u00e7\u00e3o como sujeitos que s\u00e3o e est\u00e3o no mundo. Seja filmes, m\u00fasicas, propagandas&#8230; <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Canclini aponta que na antropologia cl\u00e1ssica a identidade foi pensada a partir de sociedades consideradas como culturas homog\u00eaneas. Tal modo de pensar as identidades hoje, entretanto, n\u00e3o conseguiriam abranger os modos de vida contempor\u00e2neos. Como assim? Com a palavra, Canclini (p.131):<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000000;\">Quando a circula\u00e7\u00e3o cada vez mais livre e frequente de pessoas, capitais e mensagens nos relaciona cotidianamente com muitas culturas, nossa identidade j\u00e1 n\u00e3o pode ser definida pela associa\u00e7\u00e3o exclusiva a uma comunidade nacional.\u00a0<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Dessa forma, olhar o conceito de identidade, na contemporaneidade, \u00e9 olhar a heterogeneidade mesmo dentro dos espa\u00e7os regionais, em que coexistem diferentes c\u00f3digos simb\u00f3licos em grupos sociais &#8211; e, at\u00e9, em n\u00f3s mesmos (as vezes de forma bem incoerente sim, por que n\u00e3o?).\u00a0<\/span><\/p>\n<h4 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #800000;\">Identidade, hibridismo e incoer\u00eancias<\/span><\/h4>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 deste modo, sendo incoerente, que vejo filmes de superhero\u00ednas e me sinto absolutamente emocionada em ver seus poderes. Mesmo quando problematizo a ind\u00fastria cultural cinematogr\u00e1fica e sua massifica\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos (isso inclui escrever textos sobre o tema,<\/span> <span style=\"color: #808080;\"><del>BEM EMOCIONADA SIM<\/del><\/span><span style=\"color: #000000;\">).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Tamb\u00e9m \u00e9 assim que escrevo este texto, falando sobre a constitui\u00e7\u00e3o de si e nossas narrativas, embalada em sons que v\u00e3o de Soledad Vilanil com suas milongas dram\u00e1ticas, at\u00e9 chegar em Ricky Martin com Livin la vida loca, passando por Mulamba e suas letras fortes e feministas. Ou, ainda, apreciando document\u00e1rios brasileiros, como <em>Hist\u00f3rias, Comunidades e o Rio <\/em>(MARAVILHOSO! ASSISTAM!), com pipoca e um ch\u00e1. Ou quando vejo propagandas de marcas famosas sobre sonharmos em sermos loucas (e achando uma publicidade sensacional), sabendo que estas est\u00e3o ligadas ao corte de patroc\u00ednio quando estas mesmas mulheres atletas de alta performance engravidam (e ficando absolutamente enraivecida, de novo e de novo com posturas machistas do mundo do mercado&#8230;).<\/span><\/p>\n<h4 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #800000;\">Finalizando (tentativas&#8230;)<\/span><\/h4>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Em suma, a incoer\u00eancia habita em n\u00f3s! Pois n\u00e3o somos constitu\u00eddos em uma formata\u00e7\u00e3o linear e \u00fanica. Circulamos em diferentes espa\u00e7os e grupos sociais, somos postos a prova, para pensarmos, argumentarmos e, eventualmente, revisitarmos e ressignificarmos viv\u00eancias anteriores. Assim, agimos diferente em situa\u00e7\u00f5es similares, em fun\u00e7\u00e3o de fatores diversos (quem est\u00e1 conosco, qual o hor\u00e1rio do dia, o que aconteceu previamente naquele dia\/semana, etc.). Michel Foucault, ao abordar o conceito <em>sujeito* <\/em>diz que este \u00e9 &#8220;uma forma, e esta forma n\u00e3o \u00e9, sobretudo, sempre id\u00eantica a ela mesma&#8221;.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Essa ideia mesmo sabe? Ser h\u00edbrida, imiscu\u00edda e inconforme? Ser brasileira e n\u00e3o gostar de futebol. Adorar samba, mas dan\u00e7ar flamenco. Ser ga\u00facha e sentir falta do churrasco aos domingos (<del>e dos homens de alpargata na rua&#8230; admito<\/del>). Mas gostar do pastel de feira e da pizza paulistana, do happy hour carioca, da rede e sotaque cearenses e sentir saudades do c\u00e9u do pantanal? Adorar um block buster com muito clich\u00ea e efeito especial, mas se encantar com a riqueza dos di\u00e1logos do cinema argentino? Adorar n\u00e3o ter rinite al\u00e9rgica pelo tempo que n\u00e3o est\u00e1 \u00famido constantemente (como em Porto Alegre). No entanto, ter o pesar de tomar <span style=\"color: #000000;\">o mate solita, sem companhia para a berga em dias de sol? (<del>Voc\u00eas sabem o que \u00e9 berga?<\/del>)<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Seja ao som de v\u00e1rios &#8220;pois \u00e9&#8221;, em trilhas disformes. Seja em dias de sol ou chuva. \u00c9 isso, identidade: m\u00faltipla, forjada em exist\u00eancias, escrita no papel, formatada em plataformas on line.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">(um fim confuso para um conceito difuso. A vida&#8230;).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">*Os conceitos de sujeito e identidade n\u00e3o deveriam, a princ\u00edpio, ser usados como sin\u00f4nimos. No entanto, tomando este texto como se tratando dos processos de constitui\u00e7\u00e3o de identidade(s), faz sentido usar esta defini\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>forma<\/em> que nem sempre \u00e9 id\u00eantica a si, pois nos mostra como\u00a0<em>sujeitos<\/em> transit\u00f3rios, em formas, modos de ser,\u00a0<em>processos em negocia\u00e7\u00e3o<\/em>,\u00a0<em>constru\u00e7\u00e3o m\u00faltipla<\/em>.\u00a0<\/span><\/p>\n<h4><span style=\"color: #800000;\">Para saber mais<\/span><\/h4>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Canclini, Nest\u00f3r (2002) <em>Consumidores e Cidad\u00e3o<\/em>s. Rio de Janeiro: Editora UFRJ.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Izquierdo, Iv\u00e1n (2002) <em>Mem\u00f3ria<\/em>. Porto Alegre: Artmed.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Larrosa, Jorge (2003) L<em>a experiencia de la lectura: estudios sobre literatura y formaci\u00f3n<\/em>. Barcelona: Fondo de Cultura Economica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Foucault, Michel (2004) <em>Hermen\u00eautica do Sujeito<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes<\/span><\/p>\n<h4><span style=\"color: #800000;\">Para ouvir enquanto se l\u00ea<\/span><\/h4>\n<p><a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/playlist\/3QIX4jzUQeAnBLUH1dFcoW\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pois \u00e9<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Cotidiano A aridez do concreto da sala, com seu ch\u00e3o cinza e as paredes brancas, a escrita mediada pelo teclado&#8230; O ins\u00edpido ambiente n\u00e3o parecia <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2019\/06\/04\/identidade-cultura-musica-em-dias-de-sol\/\" title=\"Identidade, cultura e m\u00fasica em dias de sol\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":296,"featured_media":468,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_eb_attr":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[5,232,233],"class_list":["post-466","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","tag-cultura","tag-identidade","tag-musica"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2019\/06\/Blog1-9.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/466","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/users\/296"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=466"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/466\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":469,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/466\/revisions\/469"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media\/468"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=466"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=466"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=466"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}