{"id":623,"date":"2020-08-07T11:48:58","date_gmt":"2020-08-07T14:48:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/?p=623"},"modified":"2020-08-07T11:49:03","modified_gmt":"2020-08-07T14:49:03","slug":"narrativas-historicas-na-contemporaneidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2020\/08\/07\/narrativas-historicas-na-contemporaneidade\/","title":{"rendered":"Narrativas hist\u00f3ricas na contemporaneidade"},"content":{"rendered":"\n<p>No \u00faltimo texto da s\u00e9rie \u201cP\u00f3s-modernidade\u201d, busquei discutir alguns pontos sobre <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2019\/07\/26\/metanarrativas-e-pos-modernidade\/\">metanarrativas<\/a>, ou narrativas mestras. Isto \u00e9, discursos totalizantes que assumem car\u00e1ter de verdade. A t\u00edtulo de exemplifica\u00e7\u00e3o, podemos citar a ideia que o Brasil foi \u201cdescoberto\u201d por Pedro \u00c1lvares Cabral; ou que foi a princesa Isabel, apenas por meio da Lei \u00c1urea, que \u201clibertou os escravos\u201d \u2013 sem considerar todo o contexto pol\u00edtico, social, econ\u00f4mico&#8230; \u2013 que possibilitaram tais acontecimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na escrita de hoje, vou pontuar alguns efeitos que tenho considerado produtivos na forma de narrar, ou se quiserem, construir um empreendimento hist\u00f3rico por uma perspectiva p\u00f3s-moderna\/contempor\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vivid-red-color has-text-color\"><strong>Antes de apontar os efeitos, o que significa narrar uma hist\u00f3ria contempor\u00e2nea?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O modo como contamos a hist\u00f3ria passou por significativas mudan\u00e7as com o decorrer das \u00faltimas d\u00e9cadas. O objeto hist\u00f3rico tem sido notado, com frequ\u00eancia, mais como um constructo do que como realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A tarefa da hist\u00f3ria deixou, pelo menos para muitos que se prop\u00f5em a escrev\u00ea-la, de tentar desenterrar o passado, mas encontrar nele pontos\/elementos que possibilitem abrir perspectivas para o presente e para o futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Por esta mesma via, desconfia-se dos trabalhos hist\u00f3ricos com pretens\u00f5es totalizantes. Assim, nesta perspectiva contempor\u00e2nea, n\u00e3o se objetiva elaborar \u201cA hist\u00f3ria\u201d, com o artigo definido \u201ca\u201d indicando uma \u00fanica hist\u00f3ria, mas, sim, contribuir na elabora\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias, no plural, concernentes \u00e0 \u00e1rea que se quer empreender.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste cen\u00e1rio, a pesquisa hist\u00f3rica pode ser vista ainda como lacunar, tendo em vista que damos import\u00e2ncia (enquanto pesquisadores) a determinados tipos de documentos e n\u00e3o outros. \u00a0O que nos leva a deixar sempre brechas, fontes a serem examinadas e interpretadas numa pesquisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, por mais que a quantidade de fontes utilizadas em uma pesquisa seja alta, sempre haver\u00e1 uma sele\u00e7\u00e3o de materiais, de dados n\u00e3o incorporados na narrativa, de documentos n\u00e3o encontrados. Em suma, lacunas\/espa\u00e7os s\u00e3o deixados nesse processo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vivid-red-color has-text-color\"><strong>Que fontes s\u00e3o essas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3. Essas fontes s\u00e3o \u201cmudas\u201d, \u00e9 por interm\u00e9dio da voz dos pesquisadores \u2013 que formulam o que elas \u201cdizem\u201d \u2013 que elas ganham \u201ccorpo\u201d e \u201csignificado hist\u00f3rico\u201d. As fontes n\u00e3o falar\u00e3o por si, em \u00faltima an\u00e1lise, n\u00e3o \u00e9 o mesmo que dizer que n\u00e3o haver\u00e1 como verificar as fontes utilizadas para se considerar (ou n\u00e3o) as interpreta\u00e7\u00f5es elaboradas pelo pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o se trata de um \u201cvale tudo\u201d ou \u201cqualquer coisa\u201d nessa interpreta\u00e7\u00e3o. A pesquisa se apoia em justificativas e constru\u00e7\u00e3o de dados. Por isso, estabelecer crit\u00e9rios, construir e organizar os dados, se empenhar para expor com clareza as ideias e o fio constru\u00eddo para desenvolver o trabalho s\u00e3o de suma import\u00e2ncia para o trabalho de pesquisa cient\u00edfico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A partir deste \u00e2ngulo de percep\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, de car\u00e1ter n\u00e3o totalizante, lacunar e aberto a multiplicidade de narrativas, considero que temos muitas vantagens produtivas.<\/p>\n\n\n\n<p>Permitir-nos ler e reler (escrever e reescrever) o passado de acordo com as configura\u00e7\u00f5es que estabelecemos ao longo da pesquisa \u00e9 uma delas. E ressignificar os objetos de an\u00e1lise, quando aceitamos indistintas fontes, culturas, documentos, como elemento hist\u00f3rico \u2013 ou como material\/sujeito a ser considerado historicamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Dada a atual situa\u00e7\u00e3o do Brasil, com o excesso de <em>fake news<\/em> e informa\u00e7\u00f5es descabidas (como, por exemplo, a ideia de que a Terra \u00e9 plana), preciso pontuar que ler e reler as fontes n\u00e3o pode ser interpretado como distor\u00e7\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o dos dados. Explico isso melhor. Os materiais utilizados na pesquisa possuem informa\u00e7\u00f5es, apontamentos que n\u00e3o podemos desconsiderar e enveredar para o que <em>\u201cachamos\u201d<\/em>. Eles, os dados, sinalizam o teor do conte\u00fado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso considerar, tamb\u00e9m, pequenos movimentos, conflitos, disputas e rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a, os quais est\u00e3o presentes em uma hist\u00f3ria que encaro como mais plural. O passado, desta forma, passa a ser pensado pela descontinuidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria vista pela descontinuidade, tende a ser mais sens\u00edvel a diversidade, lutas, conflitos, tens\u00f5es \u2013 que s\u00e3o comumente sufocadas pelo projeto de hist\u00f3ria cont\u00ednua.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela continuidade, o projeto hist\u00f3rico se pretende universal. Visa construir um trabalho evolutivo harm\u00f4nico de um acontecimento encadeado previamente noutro, por exemplo. E ao mesmo tempo, n\u00e3o considera as rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a que subvertem essa l\u00f3gica ordenada da coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Encaminhando para o final, penso que por um vi\u00e9s contempor\u00e2neo temos a possibilidade de construir uma narrativa hist\u00f3rica que pode romper com imposi\u00e7\u00f5es pr\u00e9-estabelecidas. Isso pode ter tamb\u00e9m resson\u00e2ncias na maneira como vamos encarar a pesquisa, nos modos de construir os dados, organiz\u00e1-los e discuti-los, bem como nos pr\u00f3prios meios que tomaremos como fonte para acess\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, para fechar, \u00e9 importante lembrarmos que se buscamos uma hist\u00f3ria com diferentes rostos que saibamos conviver com a multiplicidade de acontecimentos, fontes, narrativas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Utilizei como refer\u00eancia e indico&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>[1]<\/strong>\u00a0Artigo sobre a descontinuidade hist\u00f3rica e a cr\u00edtica da origem: GON\u00c7ALVES, Jadson Fernando Garcia. Foucault, a descontinuidade hist\u00f3rica e a cr\u00edtica da origem. Revista Aulas, n\u00b0. 3. 2007. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.ifch.unicamp.br\/ojs\/index.php\/aulas\/article\/download\/1926\/1387\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.ifch.unicamp.br\/ojs\/index.php\/aulas\/article\/download\/1926\/1387<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>[2]<\/strong> FOUCAULT, Michel. Nietzsche, a genealogia e a hist\u00f3ria. In: FOUCAULT, Michel. <strong>Microf\u00edsica do poder<\/strong>. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2015, p. 55-86.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>No \u00faltimo texto da s\u00e9rie \u201cP\u00f3s-modernidade\u201d, busquei discutir alguns pontos sobre metanarrativas, ou narrativas mestras. Isto \u00e9, discursos totalizantes que assumem car\u00e1ter de verdade. 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