{"id":672,"date":"2020-10-15T14:10:11","date_gmt":"2020-10-15T17:10:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/?p=672"},"modified":"2020-10-15T16:45:15","modified_gmt":"2020-10-15T19:45:15","slug":"docencia-uma-continua-rotina-sobre-o-impermanente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2020\/10\/15\/docencia-uma-continua-rotina-sobre-o-impermanente\/","title":{"rendered":"Doc\u00eancia: uma cont\u00ednua rotina sobre o impermanente"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Zaratustra, o mestre protagonista do livro <em>Assim Falou Zaratustra<\/em> (Nietzsche), vai afirmar a import\u00e2ncia de nos tornarmos independentes dos ensinamentos recebidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como disc\u00edpulos devemos lutar pela autonomia, pelas nossas ideias. Nas palavras dele: \u201cPaga-se mal a um mestre, quando se continua sempre a ser apenas o aluno\u201d. Com isso, mestre Zaratustra nos aponta que n\u00e3o devemos permanecer seguidores daqueles que nos ensinam, n\u00e3o \u00e9 essa a expectativa dos educadores.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Mas, como assim? Ensinamos para n\u00e3o seguirem o que dizemos???<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Exato! Para Zaratustra, ensinar \u00e9 possibilitar caminhar sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Os disc\u00edpulos que Zaratustra quer s\u00e3o aqueles que buscam seu trajeto, buscam-se a si mesmos. (Em <em>Gaia Ci\u00eancia<\/em>, Nietzsche aponta uma ideia cl\u00e1ssica &#8220;torna-te quem tu \u00e9s&#8221;, originalmente de P\u00edndaro, mas que tem uma conota\u00e7\u00e3o experimental e de constitui\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos ao longo do processo).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todos os anos, pessoas das mesmas idades (s\u00f3 n\u00f3s, numa sala de aula, envelhecemos!). Todos os anos, pessoas com as mesmas idades, mas personalidades diferentes (e n\u00f3s, sozinhos, olhando a diversidade pululando em nossa frente).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em tempos de desvaloriza\u00e7\u00e3o da carreira docente, em um ano de trabalho t\u00e3o virtual com ideais de engajamento e n\u00famero de seguidores, aliado a acusa\u00e7\u00f5es estapaf\u00fardias sobre doutrinamento, a ideia de Zaratustra (que muitos tomam como arrogante) \u00e9 uma for\u00e7a motriz de nossa inspira\u00e7\u00e3o e trabalho: <strong><em>n\u00e3o queremos, nem trabalhamos, para termos seguidores<\/em><\/strong>. Assim, reafirmo, o trabalho da doc\u00eancia \u00e9, continuamente, o desafio do novo, aliado \u00e0 perman\u00eancia constante.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Sobre pontos de partida<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como professores, desenvolvemos nosso trabalho no sentido de propiciar sujeitos-alunos, sujeitos-leitores-de-mundo que tomem nossos dizeres como ponto de partida e n\u00e3o de ancoragem (a ancoragem que, sim, \u00e9 o espa\u00e7o seguro, mas sem capacidade de cria\u00e7\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Larrosa, pedagogo espanhol (citado muitas vezes neste blog! hahaha), fala do exerc\u00edcio da doc\u00eancia e da Li\u00e7\u00e3o como um presente que damos \u00e0s pessoas. Dessa forma, preparar uma aula \u00e9 dar algo a algu\u00e9m, como um presente, remeter um texto, uma li\u00e7\u00e3o, a algu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, esta ideia da li\u00e7\u00e3o como um presente, \u00e9 tido como o espa\u00e7o de cria\u00e7\u00e3o para o outro. Algo que fazemos, a partir do que nos \u00e9 mais precioso &#8211; o conhecimento e o encantamento pelo conhecimento &#8211; para outras pessoas. E a\u00ed, reside a meu ver, todo o mist\u00e9rio e beleza da doc\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tornar-se docente \u00e9, em muitas medidas, ser encantado pelo conhecer &#8211; a ponto de querer encantar outras pessoas! E isso \u00e9 desafiador, cotidianamente. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Uma vez que s\u00f3 se presenteia o que se ama, o professor gostaria que seu amor fosse tamb\u00e9m amado por aqueles aos quais ele o remete (&#8230;) O professor gostaria que essa parte de si mesmo, que d\u00e1 a ler, tamb\u00e9m despertasse o amor dos que a receber\u00e3o e suscitasse suas respostas&#8221; (Larrosa, 2003, p.140)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao tomar uma li\u00e7\u00e3o conjuntamente, no entanto, n\u00e3o abrimos uma porta \u00e0 uniformidade e conformismo \u00e0s respostas, mas convocamos \u00e0s perguntas que as li\u00e7\u00f5es nos possibilitam. Uma li\u00e7\u00e3o, um conjunto de conhecimentos, este amontoado de encantamentos que trabalhamos com as pessoas, n\u00e3o \u00e9 para resolver uma quest\u00e3o, mas levar a pensar novas quest\u00f5es, novas indaga\u00e7\u00f5es e inquieta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">(Incon)forma\u00e7\u00f5es<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ser docente \u00e9 trabalhar com formas de ser: tornar <em><strong>forma<\/strong><\/em> uma <strong><em>a\u00e7\u00e3o.<\/em> <\/strong>Neste processo, n\u00e3o se ater \u00e0 uma formata\u00e7\u00e3o final, mas ser parte de um processo de n\u00e3o tornar <strong><em>forma\u00e7\u00e3o <\/em><\/strong>em algo <strong><em>conformado<\/em><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu gosto da palavra <strong><em>inconforme<\/em>, <\/strong><em>aquilo que se nega a permanecer na mesma forma<\/em>. Pensar a forma\u00e7\u00e3o das pessoas como algo que muda a forma para algo que desacomoda, por querer mais e mais conhecimento, a\u00e7\u00e3o, pensamento &#8211; para si e para os outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A empatia pelo <strong>saber <\/strong>que \u00e9, tamb\u00e9m, empatia pelo outro &#8211; uma vez que pensa e luta para que este encantamento se prolifere e seja contagioso.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Por fim&#8230;<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em suma, o texto de hoje \u00e9 um texto sobre a inconformidade, uma luta por esta palavra como ato cotidiano, para todos aqueles que, como eu, acreditam (e se encantam e se emocionam)  ao pensar no potencial humano ao usar as palavras, como li\u00e7\u00f5es, para viver e lutar por distopias mais justas e emp\u00e1ticas, pelo conhecimento compartilhado. Todos e todas aqueles que, como eu, veem na doc\u00eancia, raz\u00e3o &#8211; e tamb\u00e9m emo\u00e7\u00e3o &#8211; pelo impermanente constante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parab\u00e9ns, colegas, pelo nosso dia.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Para Saber Mais<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Larrosa. A li\u00e7\u00e3o. <a href=\"https:\/\/books.google.com.br\/books?hl=pt-BR&amp;lr=&amp;id=WMA2DwAAQBAJ&amp;oi=fnd&amp;pg=PT5&amp;dq=Larrosa&amp;ots=nQJwcV3czy&amp;sig=jFZrS1ZDhkSXINd-0oVXPqYpOPo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Pedagogia Profana<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nietzsche. Assim Falou Zaratustra<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nietzsche. Gaia Ci\u00eancia<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Textos deste blog que voc\u00eas podem gostar tamb\u00e9m<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2019\/03\/18\/ensinar-e-ler\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Ensinar a ler<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2019\/02\/04\/sobre-a-paixao-pelo-conhecimento\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Sobre a paix\u00e3o pelo conhecimento<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Zaratustra, o mestre protagonista do livro Assim Falou Zaratustra (Nietzsche), vai afirmar a import\u00e2ncia de nos tornarmos independentes dos ensinamentos recebidos. 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