{"id":71,"date":"2018-01-09T13:52:42","date_gmt":"2018-01-09T15:52:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/?p=71"},"modified":"2019-02-11T20:02:09","modified_gmt":"2019-02-11T22:02:09","slug":"genero-sexualidade-escola-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/01\/09\/genero-sexualidade-escola-2\/","title":{"rendered":"Precisamos falar de g\u00eanero e sexualidade na escola? (Parte 2)"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><span style=\"color: #800000\">O corpo: superf\u00edcie de inscri\u00e7\u00e3o dos acontecimentos (enquanto que a linguagem os marca e as ideias os dissolvem), lugar de dissocia\u00e7\u00e3o do Eu (que sup\u00f5e a quimera de uma unidade substancial), volume em perp\u00e9tua pulveriza\u00e7\u00e3o. (Michel Foucault, Microf\u00edsica do Poder, p.22).<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p>Falar de g\u00eanero e sexualidade envolve outro conceito que \u00e9 sumamente importante: corpo.<\/p>\n<p>Quando tratamos das quest\u00f5es do corpo, na biologia, lidamos com terminologias pr\u00f3prias desse campo de conhecimento. Tomamos o corpo muitas vezes uma express\u00e3o pura, nomeando-o como \u201corganismo\u201d. Qual o problema disto?<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que quando falamos dentro de uma perspectiva biol\u00f3gica limpamos tudo o que h\u00e1 de viv\u00eancia neste corpo (que \u00e9 o <strong>nosso<\/strong> corpo). \u00c9 importante ressaltar que trat\u00e1-lo como conceito (te\u00f3rico e pr\u00e1tico) n\u00e3o \u00e9 negar seu funcionamento biol\u00f3gico. Negar n\u00e3o faria sentido. Trata-se de entrela\u00e7ar isso \u00e0 obviedade de que nos constitu\u00edmos dentro de uma sociedade e cultura. Essa no\u00e7\u00e3o faz parte de quem e como somos, como funcionamos e que as rela\u00e7\u00f5es entre biologia e cultura s\u00e3o de dif\u00edcil segmenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que estou querendo afirmar, aqui, \u00e9 que n\u00f3s n\u00e3o s\u00f3 <strong>temos <\/strong>um corpo&#8230; N\u00f3s tamb\u00e9m <strong>somos <\/strong>nosso corpo. Este corpo carrega em si todas as marcas de nossa vida: experi\u00eancias, vontades, tristezas, alegrias, esportes, dietas, fome e festas.<\/p>\n<p>E o que isto tem a ver com g\u00eanero e sexualidade? Ora! \u00c9 a partir deste corpo que nos relacionamos com o mundo, incluindo como nos entendemos a partir do que a sociedade imp\u00f5e como regra e como vivemos estas regras, aceitando-as e confrontando-as. Nossos desejos e atra\u00e7\u00f5es sexuais e afetivas tamb\u00e9m se vinculam a estes preceitos sociais, al\u00e9m de suas caracter\u00edsticas biol\u00f3gicas. Ali\u00e1s, \u00e9 na articula\u00e7\u00e3o entre nossa biologia e como aprendemos a ser humano em nossa cultura que nos constitu\u00edmos sujeitos e aprendemos a lidar com este corpo que somos.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escola, de maneira mais espec\u00edfica, podemos dizer que este \u00e9 um espa\u00e7o social de intenso aprendizado. N\u00e3o s\u00f3 do conte\u00fado formal de suas \u00e1reas, mas em toda a conviv\u00eancia que temos ao longo dos anos nesta institui\u00e7\u00e3o. Assim, \u00e9 ali que aprendemos sobre: diferen\u00e7as, lidamos com in\u00fameras pessoas, percebendo-as com uma diversidade de ideias e ideais, formamos grupos sociais e afetivos e, mais do que isso, aprendemos regras e normas sociais. Desta forma, mesmo que n\u00e3o tratemos de g\u00eanero e sexualidade (e corpo) como conte\u00fado: estamos aprendendo a lidar com isto desde muito cedo.<\/p>\n<p>Tratar do corpo como uma constru\u00e7\u00e3o social \u00e9, portanto, buscar compreender como n\u00f3s \u2013 seres que possu\u00edmos uma biologia, sim \u2013 tamb\u00e9m nos constitu\u00edmos como seres sociais e como nosso corpo se modifica e como n\u00f3s nos tornamos o que somos (enquanto indiv\u00edduos e enquanto sociedade), neste entrela\u00e7amento.<\/p>\n<p>Falar disto na escola n\u00e3o \u00e9 obrigar ningu\u00e9m a ser gay, cisg\u00eanero, transg\u00eanero, l\u00e9sbica, heterossexual, ou qualquer categoria inventada por n\u00f3s, para nos encaixarmos de forma estanque. Tratar deste tema no espa\u00e7o escolar \u00e9 mais do que defender a simplicidade da exist\u00eancia de dois g\u00eaneros \u2013 masculino e feminino. \u00c9 mais do que perceber somente a heterossexualidade como \u201cnorma\u201d. \u00c9 buscar compreender que seres humanos s\u00e3o parte de uma complexidade. \u00c9 saber que aprender os conceitos biol\u00f3gicos n\u00e3o basta para nos entendermos e que tratar do nosso corpo apenas a partir dos preceitos desta ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 suficiente para que consigamos abarcar a diversidade, aprendendo a respeit\u00e1-la (qui\u00e7\u00e1 toler\u00e1-la). Silenciar este entrela\u00e7amento \u00e9 negar as possibilidades de aprendermos melhor sobre n\u00f3s enquanto esp\u00e9cie e, talvez pior que isso, rejeitar parte da diversidade que somos.<\/p>\n<p>Nos pr\u00f3ximos posts, tratarei ainda das quest\u00f5es de sa\u00fade \u2013 envolvendo estes tr\u00eas conceitos fundamentais: corpo, g\u00eanero e sexualidade. E tamb\u00e9m como a escola n\u00e3o deve se omitir sobre isso&#8230; Para, ao fim, apontar as quest\u00f5es pol\u00edticas e legais que t\u00eam sido abordadas nos \u00faltimos anos em nosso pa\u00eds. At\u00e9 o pr\u00f3ximo \ud83d\ude09<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Para saber mais:<\/strong><\/p>\n<p>Foucault, Michel. 2002. Nietzsche, a genealogia e a hist\u00f3ria. In: ___. <strong>Microf\u00edsica do Poder<\/strong>. Rio de Janeiro: Graal. p. 15-38.<\/p>\n<p>Goellner, Silvana. 2010. A educa\u00e7\u00e3o dos corpos, dos g\u00eaneros e das sexualidades e o reconhecimento da diversidade. <strong>Cadernos de Forma\u00e7\u00e3o RBCE<\/strong><em>, <\/em>p. 71-83. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.rbce.cbce.org.br\/index.php\/cadernos\/article\/view\/984\/556\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.rbce.cbce.org.br\/index.php\/cadernos\/article\/view\/984\/556<\/a>. Acesso em: 09\/01\/2018.<\/p>\n<div>\n<p>Souza, N\u00e1dia G.S., Arnt, Ana M., Rabuske, Anelise. 2007. A fabrica\u00e7\u00e3o do corpo: efeitos da disciplinariza\u00e7\u00e3o dos saberes e do corpo nas pr\u00e1ticas escolares.\u00a0<strong>Revista G\u00eanero<\/strong>, v.7, n.2. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.revistagenero.uff.br\/index.php\/revistagenero\/article\/view\/147\/90\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.revistagenero.uff.br\/index.php\/revistagenero\/article\/view\/147\/90<\/a>. Acesso em: 09\/01\/2018.<\/p>\n<\/div>\n<div><strong>Primeiro post do tema:<\/strong><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2017\/12\/15\/genero-sexualidade-escola-1\/\">http:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2017\/12\/15\/genero-sexualidade-escola-1\/<\/a><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>O corpo: superf\u00edcie de inscri\u00e7\u00e3o dos acontecimentos (enquanto que a linguagem os marca e as ideias os dissolvem), lugar de dissocia\u00e7\u00e3o do Eu (que sup\u00f5e <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/01\/09\/genero-sexualidade-escola-2\/\" title=\"Precisamos falar de g\u00eanero e sexualidade na escola? 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