{"id":76,"date":"2018-01-19T14:13:17","date_gmt":"2018-01-19T16:13:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/?p=76"},"modified":"2020-05-08T22:47:13","modified_gmt":"2020-05-09T01:47:13","slug":"cultura-do-estupro-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/01\/19\/cultura-do-estupro-1\/","title":{"rendered":"Sobre a Cultura do Estupro: senta aqui, vamos conversar&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Volta e meia temos o assunto &#8220;Cultura do Estupro&#8221; vindo \u00e0 tona aqui em nosso pa\u00eds&#8230; Por exemplo, em 2016, quando uma menina de 16 anos sofreu um estupro coletivo (33 homens, at\u00e9 onde sabemos). E, tamb\u00e9m, com a divulga\u00e7\u00e3o de imagens do ato em diferentes redes sociais. A partir deste acontecimento (e de diversas outras ocorr\u00eancias), emergiu fortemente a discuss\u00e3o sobre este tema em nossa sociedade.<\/p>\n<p>Todavia, antes de sairmos julgando e proliferando coment\u00e1rios sobre o que \u00e9 noticiado e publicado t\u00e3o comumente, \u00e9 importante, dentro deste debate, que compreendamos algumas no\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas. Primeiramente, entender que este debate faz parte de v\u00e1rias \u00e1reas de estudo que buscam compreender a sociedade, seus padr\u00f5es, manuten\u00e7\u00e3o de costumes, etc.<\/p>\n<p>Uma das cr\u00edticas que muitas pessoas fazem \u00e9 ao significado de CULTURA. No campo das Ci\u00eancias Humanas,&nbsp;<strong>cultura<\/strong>&nbsp;n\u00e3o \u00e9 o \u00e1pice do melhor j\u00e1 feito e produzido pelo ser humano. Como obras de Leonardo da Vinci, Pablo Picasso, Cora Coralina (por exemplo). \u00c9 muito mais do que isso, cultura refere-se \u00e0quelas pr\u00e1ticas que s\u00e3o cotidianas. Pr\u00e1ticas que s\u00e3o aprendidas desde que nascemos. Assim, s\u00e3o pr\u00e1ticas que nos formam como seres sociais que somos &#8211; com todas suas regras e normas comuns e corriqueiras. Por exemplo, desde o tipo de alimenta\u00e7\u00e3o, \u00e0s brincadeiras da inf\u00e2ncia, almo\u00e7os aos domingos em fam\u00edlia, piadas e ditos populares, m\u00fasica e arte em geral, o que aprendemos na escola, etc.<\/p>\n<p>Costumamos dizer que nossa cultura tem v\u00e1rios comportamentos e modos de entender nossa vida que s\u00e3o&nbsp;<strong>naturalizados<\/strong>. Mas, o que isso quer dizer? S\u00e3o aquelas pr\u00e1ticas (atos, falas, conversas, a\u00e7\u00f5es) t\u00e3o corriqueiras, t\u00e3o comuns e cotidianas que passam desapercebidas como parte de nossa cultura. Ou seja, s\u00e3o pr\u00e1ticas que n\u00e3o s\u00e3o muito questionadas como aprendizado, exatamente por serem sutis, quase impercept\u00edveis!<\/p>\n<p>Dito isto, vamos ao tema espec\u00edfico do post: <strong>cultura do estupro<\/strong>. Novamente este tema veio \u00e0 baila, em fun\u00e7\u00e3o de uma m\u00fasica (<em>Surubinha de Leve<\/em>). O refr\u00e3o desta m\u00fasica sugere que mulheres sejam embriagadas, para posteriormente transarem e serem &#8220;jogadas na rua&#8221;. E isto se relaciona \u00e0 cultura do estupro de que forma?<\/p>\n<p>Ao falar em \u201c<strong>cultura do estupro<\/strong>\u201c, estamos nos referindo \u00e0quelas pr\u00e1ticas cotidianas que n\u00e3o apenas formalizam a viol\u00eancia do estupro em si (o ato da viol\u00eancia f\u00edsica). Mas tratamos das a\u00e7\u00f5es que possibilitam que esta seja executada cotidianamente e a refor\u00e7am como natural de um ser sobre outro. Que a\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>Ah, sabe, coisas (infelizmente) comuns. Por exemplo: homens que ejaculam em mulheres dentro de transportes coletivos. Homens que s\u00e3o liberados disto como crime, pois n\u00e3o \u00e9 considerado constrangimento \u00e0 mulher que sofreu com este ato (horrendo). Ass\u00e9dios f\u00edsicos e\/ou verbais em espa\u00e7os p\u00fablicos. E ass\u00e9dio como um ato com dizeres que diminuem sujeitos a uma coisa, que pode ser usado sem sua permiss\u00e3o. M\u00fasicas, poesias, literatura, produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas diversas que mesmo sem usar a palavra &#8220;estupro&#8221; descrevem os atos como se n\u00e3o fossem uma viol\u00eancia f\u00edsica e psicol\u00f3gica. Piadas e conversas que legitimam que existem sujeitos que merecem a viol\u00eancia sexual, em fun\u00e7\u00e3o do seu comportamento social. Piadas e conversas que tornam banal&nbsp;&nbsp;a ideia de que qualquer viol\u00eancia sexual \u00e9 culpa da v\u00edtima. Pior que isso: \u00e9 culpa da v\u00edtima e ela merece (independente dos motivos).<\/p>\n<p>Assim, a cultura do estupro \u00e9 legitimada por cada ass\u00e9dio e abuso moral, f\u00edsico, psicol\u00f3gico, sexual entre um ser humano [comumente homens] e outro [comumente mulheres]. E a cada aceita\u00e7\u00e3o disso \u2013 por mulheres e homens. Ou mais que aceita\u00e7\u00e3o: banaliza\u00e7\u00e3o, silenciamento, produ\u00e7\u00e3o de piadas, por exemplo. Bem como, compreens\u00e3o de que este \u201ccostume\u201d nos modos de falar e agir do homem como agressor se d\u00e1 por sua \u201cnatureza\u201d. Mas, e da mulher? Esta, ao inv\u00e9s de v\u00edtima, acaba descrita como aquela&nbsp;que \u201cprocura\u201d pela agress\u00e3o (e at\u00e9 mesmo tem afei\u00e7\u00e3o pelo ato). E falo de &#8220;homem&#8221; como agressor e de &#8220;mulher&#8221; como v\u00edtima por serem os lugares ocupados mais comumente na sociedade.<\/p>\n<p>Cultura do estupro \u00e9 o que faz, cotidianamente, mulheres terem receio de passar por homens na rua \u2013 sejam eles quais forem. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o medo de ser violada cotidianamente \u2013 \u00e9 o medo de ouvir, de novo e repetidamente, as mais insanas verborragias sobre nosso corpo e como ele poderia ser usado [repito: cotidianamente] por puro deleite do homem. E isso sem que nosso corpo seja considerado nosso, nossas vontades, nossas ideias de como usarmos NOSSO corpo e prazer.<\/p>\n<p>Cultura do estupro \u00e9 dizer que vivemos cotidianamente <strong>SIM<\/strong> sob \u00e9gide de um padr\u00e3o cultural. Em que mesmo frente \u00e0 evid\u00eancia t\u00e1cita de viol\u00eancia, questiona-se o ato e se banaliza corpo e alma usurpada. Cultura do estupro \u00e9 ouvir de algu\u00e9m, como piada, que \u00e9 g\u00eanio deixar uma mulher b\u00eabada para transar com ela.<\/p>\n<p>Cultura do estupro \u00e9 achar que uma menina com filho \u00e9 &#8220;puta&#8221; e isso justifica dop\u00e1-la e &#8220;transform\u00e1-la num t\u00fanel&#8221; (palavras usadas no caso da carioca adolescente em 2016). \u00c9 achar que por uma mulher gostar de sexo grupal, 30 homens podem usar seu corpo&nbsp; sem seu consentimento.<\/p>\n<p>Cultura do estupro \u00e9 a piada e o esc\u00e1rnio cotidiano sobre o fato de a mulher gostar de prazer. (J\u00e1 te ocorreu que dentro desta cultura: a ideia \u00e9 que mulheres n\u00e3o deveriam gostar?). Cultura do estupro \u00e9 o homem se sentir v\u00edtima por n\u00f3s, mulheres, termos medo de sermos v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Cultura do estupro \u00e9 o que vivemos SIM! Dentro de um contexto em que uma m\u00fasica incita que se diminua as resist\u00eancias de uma mulher com \u00e1lcool. Posteriormente use isso para transar mais f\u00e1cil (com ou sem seu consentimento). E depois descartar esta mulher na rua,<strong> \u00e9 de cultura de estupro que estamos falando<\/strong>. Isto \u00e9: de uma cultura que autoriza, legitima, acha engra\u00e7ado e COMUM que homens droguem mulheres para transar, sem qualquer respeito ou inten\u00e7\u00e3o de bem-estar ou mesmo consentimento consciente destas mulheres.<\/p>\n<p>Portanto, nem todo ass\u00e9dio \u00e9 (ou tem potencial de virar um) estupro. Nem toda transa com uso de \u00e1lcool antes \u00e9 estupro (mas usar isso para &#8220;facilitar&#8221; pode ser SIM!). De qualquer modo, todos estes atos &#8211; e outros j\u00e1 citados anteriormente &#8211; fazem parte de uma cultura que autoriza homens a desvalorizar o corpo das mulheres. Mais do que isso: pens\u00e1-lo como existente para satisfa\u00e7\u00e3o do seu pr\u00f3prio corpo, como coisa e posse, sem direito de manifesta\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria&#8230;<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o minorize a luta cotidiana para minimizar estes efeitos sociais, t\u00e3o duros, a partir da descaracteriza\u00e7\u00e3o do que \u00e9&nbsp;cultura. Pois, cultura \u00e9 pr\u00e1tica, cultura \u00e9 cotidiano, cultura \u00e9 o que produz e como produz um pa\u00eds, grupos sociais, coletivos humanos!<\/p>\n<p>Em suma, produzimos SIM homens e mulheres que n\u00e3o se solidarizam com a dor de uma viola\u00e7\u00e3o corporal. Produzimos SIM o medo de mulheres frente a homens. Produzimos SIM a banaliza\u00e7\u00e3o do corpo da mulher. Produzimos SIM a legitimidade do homem usar e abusar, violentando nosso corpo, nossos ouvidos, nossa rotina di\u00e1ria. N\u00e3o minorize isso.<\/p>\n<p>Por fim, homens, por favor, ao inv\u00e9s de assombrar-se com o fato de que voc\u00ea ~<em>n\u00e3o \u00e9 todo homem que<\/em>~, assombre-se com o fato de que n\u00f3s, mulheres ~todas n\u00f3s~ j\u00e1 sofremos com isso. Assombre-se por fazer parte de um grupo que causa medo e lute contra isso entre teus amigos, familiares, filhos, pai, tios, primos. Pare de se vitimizar e compreenda o que \u00e9 uma CULTURA que permite que voc\u00ea seja visto assim: todos os dias.<\/p>\n<p>Em tempo: n\u00e3o s\u00e3o monstros que estupram, assediam e escrevem sobre o estupro, estimulando-o! S\u00e3o homens, SIM. E homens criados dentro da nossa cultura.<\/p>\n<p><strong>Para saber mais:<\/strong><\/p>\n<p>COSTA, Marisa Vorraber; SILVEIRA, Rosa Hessel; SOMMER, Luis Henrique. (2003). Estudos culturais, educa\u00e7\u00e3o e pedagogia.&nbsp;<strong>Revista Brasileira de Educa\u00e7\u00e3o<\/strong>,&nbsp;Maio\/Jun\/Jul\/Ago, N\u00ba 23. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/rbedu\/n23\/n23a03.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/rbedu\/n23\/n23a03.pdf<\/a>. Acesso em: 19\/01\/2018.<\/p>\n<p>FONSECA, Pedro Augusto Almeida da; ALVES, V\u00edtor de Lima;&nbsp; LIMA, L\u00edcio Martins de. (2017). Cultura do Estupro: uma an\u00e1lise de conte\u00fado sobre a percep\u00e7\u00e3o dos usu\u00e1rios via Twitter.&nbsp;<strong>Revista Idealogando,<\/strong>&nbsp;v. 1, n. 1, p. 75-84, fev. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/periodicos.ufpe.br\/revistas\/idealogando\/article\/view\/9584\/FONSECA\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/periodicos.ufpe.br\/revistas\/idealogando\/article\/view\/9584\/FONSECA<\/a>. Acesso em: 19\/01\/2018.<\/p>\n<p>SOUZA, Renata Floriano de. (2017). Cultura do estupro: pr\u00e1tica e incita\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia sexual contra mulheres.&nbsp;<strong>Revista Estudos Feministas<\/strong>,&nbsp;<i>25<\/i>(1), 9-29. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/dx.doi.org\/10.1590\/1806-9584.2017v25n1p9\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/dx.doi.org\/10.1590\/1806-9584.2017v25n1p9.<\/a>&nbsp;Acesso em: 19\/01\/2018.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Volta e meia temos o assunto &#8220;Cultura do Estupro&#8221; vindo \u00e0 tona aqui em nosso pa\u00eds&#8230; Por exemplo, em 2016, quando uma menina de 16 <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/01\/19\/cultura-do-estupro-1\/\" title=\"Sobre a Cultura do Estupro: senta aqui, vamos conversar&#8230;\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":296,"featured_media":589,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_eb_attr":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[4,17],"tags":[26,5,28,30,29,18,31,32],"class_list":["post-76","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-genero-e-sexualidade","tag-corpo","tag-cultura","tag-cultura-do-estupro","tag-estudos-feministas","tag-feminismo","tag-genero","tag-sociedade","tag-violencia-de-genero"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/users\/296"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=76"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":590,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76\/revisions\/590"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media\/589"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=76"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=76"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=76"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}