{"id":783,"date":"2021-03-21T07:05:48","date_gmt":"2021-03-21T10:05:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/?p=783"},"modified":"2026-06-04T19:21:01","modified_gmt":"2026-06-04T22:21:01","slug":"assedio-moral-sexual-e-o-mundo-da-divulgacao-cientifica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2021\/03\/21\/assedio-moral-sexual-e-o-mundo-da-divulgacao-cientifica\/","title":{"rendered":"Ass\u00e9dio moral e sexual e o mundo da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica"},"content":{"rendered":"\n<p>Muitas pessoas imaginam que o ass\u00e9dio seja um ato, isolado ou cont\u00ednuo, entre dois indiv\u00edduos: assediador e assediado. Neste caso, seria um ato de pervers\u00e3o e viol\u00eancia de um indiv\u00edduo.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, o ass\u00e9dio moral ou sexual \u00e9 ato que se fundamenta, se constr\u00f3i e se estabelece como rela\u00e7\u00e3o de poder, hierarquicamente legitimada e constitu\u00edda socialmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, aqui no PEmCie, n\u00f3s vamos falar um pouco sobre ass\u00e9dio moral, ass\u00e9dio sexual, suas rela\u00e7\u00f5es com a cultura, al\u00e9m de condutas profissionais e pessoais no meio cient\u00edfico e da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica! Dessa forma, j\u00e1 avisamos, senta que l\u00e1 vem text\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O ass\u00e9dio moral: um brev\u00edssimo hist\u00f3rico<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Este tema \u00e9 apresentado como quest\u00e3o te\u00f3rica e pr\u00e1tica das rela\u00e7\u00f5es trabalhistas principalmente a partir da d\u00e9cada de 1970. Mas s\u00f3 ter\u00e1 o termo &#8220;ass\u00e9dio moral&#8221; cunhado ao final da d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n\n\n\n<p>Em diferentes pa\u00edses veremos o debate a partir de termos como <em>harassment <\/em>(Brodsky, 1976), <em>mobbing<\/em> (Leyman, 1989) e <em>bullying <\/em>(Adams e Crawford, 1992). Tamb\u00e9m h\u00e1 registro do termo &#8220;<em>psychological terror&#8221;<\/em> para designar rela\u00e7\u00f5es de ass\u00e9dio dentro do \u00e2mbito profissional.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, esses termos caracterizam-se por descrever a\u00e7\u00f5es de repreens\u00e3o negativa repetidamente dirigida a funcion\u00e1rio ou subalterno de modo ofensivo, gerando isolamento e exclus\u00e3o desta pessoa, pessoalmente e profissionalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto come\u00e7a a ser tratado como &#8220;ass\u00e9dio moral&#8221; quando os atos passam a ser vinculados a uma rela\u00e7\u00e3o <strong>\u00e9tica<\/strong> de trabalho. Ou seja,<em> a um conjunto de valores sociais e culturais que norteiam a sociedade e se vinculam \u00e0 condu\u00e7\u00e3o de modos de ser e de viver nesta sociedade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 somente em 1998 que o termo &#8220;ass\u00e9dio moral&#8221; \u00e9 cunhado, por Marie-France Hirigoyen, no livro &#8220;<em>Le harc\u00e8lement moral: la violence perverse au quotidien<\/em>&#8221; (<em>O Ass\u00e9dio Moral: a viol\u00eancia pervesa no dia a dia<\/em>, em tradu\u00e7\u00e3o livre). Este livro d\u00e1 for\u00e7a a um movimento social que culmina na criminaliza\u00e7\u00e3o do ass\u00e9dio moral, tomando-o como uma viol\u00eancia, na Fran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O ass\u00e9dio moral em rela\u00e7\u00f5es profissionais<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O ass\u00e9dio moral n\u00e3o \u00e9 um ato isolado de &#8220;um ser perverso e doentio&#8221; contra algu\u00e9m &#8220;fr\u00e1gil&#8221;. Tampouco se configura como uma viol\u00eancia \u00fanica e pontual, que aconteceu &#8220;de uma hora para outra&#8221; ou &#8220;do nada&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O que \u00e9 o ass\u00e9dio, ent\u00e3o? Ass\u00e9dio s\u00e3o atos de constrangimentos cont\u00ednuos e que ocorrem de modo crescente. Bem como, se estabelecem de muitas formas sutis e que se validam como parte da rela\u00e7\u00e3o entre assediador e assediado.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 um ato de viol\u00eancia em si, mas uma complexa rede de comportamentos, imersa em pequenos detalhes que v\u00e3o se sedimentando dentro de uma rela\u00e7\u00e3o entre indiv\u00edduos (ou grupos de indiv\u00edduos). <\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Caracteriza\u00e7\u00e3o do ass\u00e9dio moral<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>O ass\u00e9dio moral caracteriza-se como uma viol\u00eancia indireta e que pode iniciar-se de modo sutil &#8211; em que pela continuidade dos v\u00ednculos pode-se tornar uma rela\u00e7\u00e3o de constrangimentos, complac\u00eancia e toler\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>O desconforto gerado logo no in\u00edcio de rela\u00e7\u00f5es \u00e9 um sinal de alerta. Mas nem sempre s\u00e3o percept\u00edveis e facilmente localiz\u00e1veis. Assim, os constrangimentos atuam de duas formas:<br>&#8211; engrandecendo o agressor;<br>&#8211; humilhando, diminuindo, coagindo e isolando o assediado.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso estabelecendo, conjuntamente, danos e sofrimentos cont\u00ednuos ao assediado, desestabilizando-o moral e psicologicamente.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-white-color has-vivid-cyan-blue-background-color has-text-color has-background\">N\u00e3o \u00e9 incomum, ainda, criarem-se la\u00e7os de confian\u00e7a entre assediador e assediado<\/h6>\n\n\n\n<p>Assim, dentro da rela\u00e7\u00e3o se estabelece um v\u00ednculo de confian\u00e7a e depend\u00eancia. Enquanto isso, &#8220;do lado de fora&#8221;, se refor\u00e7am falas de descredibilidade e invalida\u00e7\u00e3o do sujeito assediado. <\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 uma parte da constru\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o que ajuda a configurar a no\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia (&#8220;aquela pessoa \u00e9 muito boa para mim, como eu viverei sem ela ao meu lado?&#8221; Ou &#8220;eu sou muito inferior, preciso aprender muito para chegar aos seus p\u00e9s ainda&#8221;). Enquanto isso, o indiv\u00edduo assediado isola-se de redes de apoio, c\u00edrculos e grupos de trabalho que poderiam dar suporte neste momento.<\/p>\n\n\n\n<p>Tais la\u00e7os, uma vez criados, dificultam ainda mais, tanto a percep\u00e7\u00e3o do ass\u00e9dio, quanto \u00e0 possibilidade de sair da situa\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, \u00e9 a repeti\u00e7\u00e3o e frequ\u00eancia dos atos, aliada \u00e0 dificuldade de identificarmos estes atos e formalizarmos uma den\u00fancia, que configuram o ass\u00e9dio moral.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>E o ass\u00e9dio sexual?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>O ass\u00e9dio sexual tamb\u00e9m \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o de coer\u00e7\u00e3o e constrangimento que acontece entre um ou mais indiv\u00edduos em rela\u00e7\u00e3o a um ou mais indiv\u00edduos.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, diferenciando-se do ass\u00e9dio moral, o ass\u00e9dio sexual vincula-se a quest\u00f5es sociais de <em>objetifica\u00e7\u00e3o<\/em> do corpo &#8211; usualmente da mulher &#8211; para a disposi\u00e7\u00e3o e satisfa\u00e7\u00e3o de outro sujeito &#8211; usualmente um homem.<\/p>\n\n\n\n<p>O ass\u00e9dio sexual se relaciona muito fortemente, assim \u00e0 <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/tag\/cultura-do-estupro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">cultura do estupro<\/a>, tema que j\u00e1 abordamos aqui no <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Blog do PEmCie<\/a> mais de uma vez!<\/p>\n\n\n\n<p>Mas hoje o tema \u00e9 ass\u00e9dio sexual em ambientes de trabalho. Isto \u00e9, &#8220;excluiremos&#8221; do debate, neste momento, as grosserias, viol\u00eancias e agressividades vivenciadas em outros ambientes.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira quest\u00e3o que \u00e9 relevante ser mencionada de modo <em>assertivo<\/em> \u00e9:<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-white-color has-vivid-red-background-color has-text-color has-background\"><strong>ass\u00e9dio n\u00e3o \u00e9 flerte<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>O ass\u00e9dio sexual configura-se como um ato que constrange e oprime a partir de qualquer investida (fala, convite, situa\u00e7\u00e3o provocada) em que n\u00e3o h\u00e1 possibilidade &#8211; ou h\u00e1 dificuldades &#8211; em recusar esta investida, por intimida\u00e7\u00f5es, insist\u00eancias, coer\u00e7\u00f5es ou hierarquias estabelecidas e usadas como forma de se obter o aceite.<\/p>\n\n\n\n<p>Se ao ser convidada tu n\u00e3o tens condi\u00e7\u00f5es de negar por qualquer situa\u00e7\u00e3o mencionada acima: <strong><em>\u00e9 ass\u00e9dio sim!<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O ass\u00e9dio sexual \u00e9 muitas vezes dif\u00edcil de ser localizado de imediato e, assim como o ass\u00e9dio moral, dificilmente \u00e9 um ato isolado e \u00fanico de extrema viol\u00eancia. Assim, tamb\u00e9m se insere nas rela\u00e7\u00f5es de maneiras sutis &#8211; embora presentes constantemente.<\/p>\n\n\n\n<p>Em muitos momentos, os sinais de ass\u00e9dio sexual se fazem presentes e nos indicam que aquela situa\u00e7\u00e3o \u00e9 inadequada. Mas exatamente por ser sutil, muitas vezes \u00e9 ignorada, por ser considerada bobagem, exagero de nossa parte.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">Isto tudo <strong>mesmo nos considerando aviltadas pelas a\u00e7\u00f5es<\/strong><em>. <\/em><\/h6>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 incomum profissionais que usam de espa\u00e7os formais e informais para exercer atos de ass\u00e9dio sexual &#8211; e isto mistura-se bastante com ass\u00e9dio moral dentro de institui\u00e7\u00f5es ou espa\u00e7os de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Presencialmente, desde abra\u00e7os e toques indevidos, conversas agendadas em particular isoladamente, quando n\u00e3o precisariam acontecer daquele modo. Isto em conjunto com insist\u00eancias repetidas que tais conversas aconte\u00e7am em ambientes e situa\u00e7\u00f5es informais, sem a presen\u00e7a de outros colegas.<\/p>\n\n\n\n<p>Virtualmente, conversas em aplicativos &#8211; o que pode conferir um tom de informalidade &#8211; tamb\u00e9m podem gerar este tipo de ass\u00e9dio. Conversas privadas que soam demasiadas, mesmo para trabalhos conjuntos. Com desvios constantes do tema central do trabalho, tomando conota\u00e7\u00f5es sexuais. Como assim? Ora, &#8220;elogios&#8221; que n\u00e3o s\u00e3o elogios, mas falas insistentes, convites reiterados, exalta\u00e7\u00e3o do corpo, roupa. Tudo isto somado \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o constante, mesmo ap\u00f3s men\u00e7\u00e3o de que aquela postura n\u00e3o \u00e9 adequada, nem desejada.<\/p>\n\n\n\n<p>Ass\u00e9dio n\u00e3o \u00e9 flerte. Falar do corpo ou da roupa, ressaltando aspectos sexuais, de teu colega de trabalho, n\u00e3o \u00e9 flerte: \u00e9 ass\u00e9dio.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>e h\u00e1 algo fundamental de ser falado sobre este tema:<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>Sim! Existem pessoas que se conhecem em ambiente de trabalho e mant\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o afetiva e sexual fora do trabalho. N\u00e3o h\u00e1 nada de errado quando isto acontece e existe consentimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, nestas rela\u00e7\u00f5es, se a qualquer momento h\u00e1 um rompimento, mudan\u00e7a de ideia, tudo muda <strong>automaticamente.<\/strong> A insist\u00eancia ou qualquer a\u00e7\u00e3o que &#8220;force a barra&#8221; para sua continuidade, incluindo poss\u00edveis amea\u00e7as e coer\u00e7\u00f5es de vazamentos de fotos e fatos do casal: \u00e9 ass\u00e9dio! \u00c9 abuso!<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00e7\u00f5es assim tamb\u00e9m s\u00e3o de objetifica\u00e7\u00e3o, coer\u00e7\u00e3o e humilha\u00e7\u00e3o entre os dois indiv\u00edduos da rela\u00e7\u00e3o e destes com grupos profissionais e pessoais externos.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, o ass\u00e9dio sexual n\u00e3o \u00e9 necessariamente uma viol\u00eancia f\u00edsica. E n\u00e3o se confunde com um flerte ou cantada. Uma vez que tem como princ\u00edpio a objetifica\u00e7\u00e3o do outro. E tem, tamb\u00e9m, como consequ\u00eancia em curto, m\u00e9dio e longo prazo, a desqualifica\u00e7\u00e3o e dano \u00e0 pessoa, a partir desta objetifica\u00e7\u00e3o do corpo e da satisfa\u00e7\u00e3o do agressor.<\/p>\n\n\n\n<p>O ass\u00e9dio e a satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9, tamb\u00e9m, parte de rela\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas. Se no ass\u00e9dio moral normalmente estabelece-se por hierarquias profissionais (chefias, ou no \u00e2mbito acad\u00eamico &#8211; professores e orientadores, por exemplo), no ass\u00e9dio sexual temos tamb\u00e9m hierarquias sociais. Isto \u00e9, os pap\u00e9is de g\u00eanero, socialmente estabelecidos e legitimados, est\u00e3o presentes nos atos de ass\u00e9dio &#8211; e podem acompanhar (ou n\u00e3o) a hierarquia profissional.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ass\u00e9dio como cultura na sociedade<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Em v\u00e1rios momentos falei do ass\u00e9dio como rela\u00e7\u00f5es entre dois sujeitos. Mas tamb\u00e9m inseri o debate em uma estrutura social &#8211; como pr\u00e1tica cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>O que isto quer dizer?<\/p>\n\n\n\n<p>Normalmente, quando falamos de ass\u00e9dio a partir de um caso que conhecemos, centralizamos o debate em como acabar com aquela situa\u00e7\u00e3o pontual. Isto \u00e9 fundamental, \u00f3bvio.<\/p>\n\n\n\n<p>Todavia, acabar com esta a\u00e7\u00e3o de ass\u00e9dio pontual <strong>n\u00e3o acaba com o ass\u00e9dio em nossa cultura<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>O ass\u00e9dio visto como pr\u00e1tica cultural precisa ser pensado n\u00e3o como ato isolado, mas como pr\u00e1ticas cont\u00ednuas dentro de uma sociedade. Tais pr\u00e1ticas s\u00e3o permitidas por pessoas de grupos sociais, e toleram que agressores sigam agindo e assediados sigam n\u00e3o tendo acesso a ferramentas que os tire deste lugar de viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-black-color has-light-green-cyan-background-color has-text-color has-background\">Em uma cultura machista, em que estabelecemos o homem (h\u00e9terossexual, cisg\u00eanero, branco) como padr\u00e3o e qualquer outro indiv\u00edduo como &#8220;outro&#8221;, limitamos e delimitamos os espa\u00e7os ocupados a partir destas categorias socialmente aceitas e validadas. <\/h5>\n\n\n\n<p>O lugar de quem deve estar <em>satisfeito<\/em> e ter acesso aos prazeres, melhores lugares, melhores profiss\u00f5es e destaque dentro destas profiss\u00f5es, por exemplo, \u00e9 socialmente estabelecido e hierarquizado. N\u00e3o \u00e0 toa, ocupado por esta categoria social que nomeei aqui de &#8220;padr\u00e3o&#8221;. Aos <em>outros<\/em>, resta a busca por sua legitima\u00e7\u00e3o, sendo lembrados continuamente de sua tarefa de objetifica\u00e7\u00e3o e satisfa\u00e7\u00e3o do primeiro grupo, servindo-o.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, a constante culpabiliza\u00e7\u00e3o da v\u00edtima e desresponsabiliza\u00e7\u00e3o do sujeito agressor t\u00eam rela\u00e7\u00e3o direta com uma cultura que ensina que existem sujeitos hierarquicamente diferenciados, que consentimentos s\u00e3o negoci\u00e1veis e parte de transa\u00e7\u00f5es. Dessa forma, moralizamos atos: o sujeito exposto que \u00e9 tido como fraco, pervertido, errado. J\u00e1 o sujeito que exp\u00f5e (o agressor) \u00e9 visto como algu\u00e9m que agiu pela disponibilidade do outro em ser agredido\/assediado.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o s\u00e3o raras as vezes que, tamb\u00e9m, homens s\u00e3o narrados como <em>imaturos<\/em> independente da idade que tenham e da posi\u00e7\u00e3o social que ocupem. Enquanto mulheres, mesmo as muito jovens, usualmente s\u00e3o responsabilizadas por seus atos em situa\u00e7\u00e3o de ass\u00e9dio e s\u00e3o culpabilizadas por terem sido v\u00edtimas destas a\u00e7\u00f5es, por terem &#8220;condi\u00e7\u00f5es e maturidade para lidar com isto&#8221;!<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>T\u00e1, mas em termos pr\u00e1ticos, o que acontece para anularmos uma v\u00edtima?<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Tu j\u00e1 deves ter ouvido falar, ou mesmo feito isso&#8230; Quando ouvimos um relato de ass\u00e9dio sexual e moral, uma pergunta bem comum \u00e9:<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">&#8211; Como voc\u00ea deixou isso acontecer?<\/h2>\n\n\n\n<p>Esta pergunta carrega em si:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Julgamento moral<br>&#8211; Presun\u00e7\u00e3o de consentimento;<br>&#8211; responsabiliza\u00e7\u00e3o e culpabiliza\u00e7\u00e3o da v\u00edtima;<br>&#8211; anu\u00eancia e desresponsabiliza\u00e7\u00e3o do agressor.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes atos s\u00e3o pr\u00e1ticas comuns e rotineiras na viv\u00eancia de ass\u00e9dio e relatos de ass\u00e9dio. E perpetuam o sentimento de invalida\u00e7\u00e3o da pessoa que j\u00e1 est\u00e1 passando pela anula\u00e7\u00e3o de sua identidade por um processo de objetifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto insere-se dentro de um panorama que \u00e9 <em>cultural<\/em> \u00e0 medida que \u00e9 um comportamento aprendido que continuamente valida o sujeito que se aproveita e fragiliza o outro nas rela\u00e7\u00f5es. Comportamento que se vincula \u00e0 legitima\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is sociais espec\u00edficos.<\/p>\n\n\n\n<p>Falas assertivas comumente relacionam-se a atos da v\u00edtima e sua permissividade. Ou seja, ela <em>consentiu<\/em> como se estivesse no controle da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em muitos momentos n\u00e3o apenas n\u00e3o se est\u00e1 no controle, como n\u00e3o se tem qualquer condi\u00e7\u00e3o de, sozinha, a pessoa se livrar daquela rela\u00e7\u00e3o e situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O ass\u00e9dio moral e sexual, por incluirem a\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas de humilha\u00e7\u00e3o p\u00fablicas (ou amea\u00e7as disto), com desqualifica\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, perda de credibilidade nos grupos em que estamos inseridos e isolamento de redes de apoio, tornam-se atos de dif\u00edcil den\u00fancia.<\/p>\n\n\n\n<p>As tentativas de relato ou den\u00fancia, ao terem como pr\u00e1tica o pouco acolhimento e a culpabiliza\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas, tornam-se parte de uma cultura que legitima o espa\u00e7o do assediador e isola ainda mais o indiv\u00edduo assediado.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ah! Mas isso acontece na Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica e na Ci\u00eancia?<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Estes lugares n\u00e3o s\u00e3o de pessoas inteligentes e etc.?<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, acontece e muito dentro de espa\u00e7os cient\u00edficos e de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. O ass\u00e9dio sexual, inclusive, \u00e9 mais comum entre colegas do mesmo n\u00edvel hier\u00e1rquico do que entre chefias, segundo uma pesquisa publicada recentemente [1]. Este mesmo estudo aponta que estes casos n\u00e3o s\u00e3o isolados e assediadores s\u00e3o reincidentes, sendo necess\u00e1rio posturas pol\u00edticas efetivas contra tais atos.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">De que maneira acontece e como as hierarquias se estabelecem?<\/h4>\n\n\n\n<p>Na Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica (DC) \u00e9 comum a partir de perfis em redes sociais com muitos seguidores &#8211; o que pode parecer bobo, mas traz credibilidade &#8211; e de conversas iniciadas exatamente por estes sujeitos, a princ\u00edpio por quest\u00f5es de trabalhos. Mas que em pouco tempo configuram-se como conversas que for\u00e7am intimidade. <\/p>\n\n\n\n<p>Nossa comunidade n\u00e3o \u00e9 grande, dependendo do nicho (do tema) conhecemos muita gente &#8211; estabelecer uma rede de confian\u00e7a nem sempre \u00e9 dif\u00edcil. E isto pode, sim, voltar-se contra n\u00f3s ao n\u00e3o percebermos que estamos, ao n\u00e3o cortar uma insist\u00eancia que parece casual, nos tornado v\u00edtimas de rela\u00e7\u00e3o de ass\u00e9dio moral e sexual. Al\u00e9m disso, o uso da suposta credibilidade do perfil conta, e muito, nestas a\u00e7\u00f5es de coer\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em tempo, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 incomum algu\u00e9m que est\u00e1 em uma equipe de trabalho articular situa\u00e7\u00f5es em que tu fiques isolada com esta pessoa. Isto \u00e9, seja em reuni\u00f5es em ambientes informais, te isolando do restante da equipe para conversas a dois, seja em conversas por aplicativos como whatsapp, messenger ou outros, repetidamente tu ficares isolada por a\u00e7\u00e3o desta pessoa \u00e9 sinal de alerta.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, se nestas conversas continuamente tu te sentires incomodada com o tom e com supostas brincadeiras em conota\u00e7\u00e3o sexual ou for\u00e7ando intimidade, toques, abra\u00e7os&#8230; N\u00e3o \u00e9 exagero, nem bobagem. \u00c9 ass\u00e9dio.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-black-color has-luminous-vivid-orange-background-color has-text-color has-background\">Nestes casos, sempre busque algu\u00e9m de tua confia\u00e7a e alerte o que est\u00e1 acontecendo: nunca apague as conversas e busque provas SIM de que est\u00e1s sofrendo ass\u00e9dio. Dificilmente \u00e9s a \u00fanica pessoa que j\u00e1 sofreu com isto. Assediadores <em>repetem<\/em> as rela\u00e7\u00f5es.<\/h6>\n\n\n\n<p>Ao passo que tu negas e n\u00e3o consentes uma rela\u00e7\u00e3o, outra a\u00e7\u00e3o comum \u00e9 o assediador passar a te isolar de eventos, atividades e pesquisas acad\u00eamicas. Tanto quanto sabotar trabalhos (sim! Sabotar trabalhos!). Al\u00e9m disso, em reuni\u00f5es formais ou n\u00e3o, ao menor sinal de teres teu nome cogitado a uma tarefa, existe descredibilidade e invalida\u00e7\u00e3o da tua compet\u00eancia profissional. Sim! O ass\u00e9dio sexual, vem junto com ass\u00e9dio moral. <\/p>\n\n\n\n<p>Sofrer ass\u00e9dio \u00e9 intimidador e, muitas vezes, solit\u00e1rio. Mas n\u00e3o estamos sozinhas embora seja sempre um ato de repetir, nos relatos, a viol\u00eancia sofrida e, com isso, a dor que nos impingiu. Lembre sempre isso, quando fores relatar um caso, ou quando pedires um relato.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Falando em pedir um relato&#8230;<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Para finalizar o texto, \u00e9 sempre bom ter em mente que:<\/p>\n\n\n\n<p>As a\u00e7\u00f5es de ass\u00e9dio que parecem violentas e aviltantes n\u00e3o foram a primeira exercida pelo sujeito assediador. Provavelmente, e infelizmente, n\u00e3o ser\u00e3o as \u00faltimas. Existe um hist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, muitas vezes a pessoa assediada n\u00e3o necessariamente percebe o que est\u00e1 acontecendo e quando busca ajuda est\u00e1 em uma situa\u00e7\u00e3o de extrema fragilidade, incluindo anula\u00e7\u00e3o da identidade e sentimento de insufici\u00eancia e incapacidade pessoal e profissional. Neste sentido, lembre-se:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-white-color has-vivid-red-background-color has-text-color has-background\"><strong>&#8211; N\u00e3o seja assertivo com men\u00e7\u00f5es de invalida\u00e7\u00e3o de quem est\u00e1 sofrendo;<br>&#8211; N\u00e3o duvide do que est\u00e1s escutando, n\u00e3o legitime o assediador perante \u00e0 v\u00edtima;<br>&#8211; Acolha, escute DE VERDADE, possibilite um espa\u00e7o de di\u00e1logo antes de dar solu\u00e7\u00f5es \u00f3bvias e simplistas. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se tu, que \u00e9 algu\u00e9m da rede de apoio, n\u00e3o consegues escutar uma amiga ou um amigo que precisa desabafar, com calma, paci\u00eancia e empatia, sobre um caso de ass\u00e9dio, como \u00e9 que imaginas que esta pessoa conseguir\u00e1 contar e denunciar seu caso para outra que, provavelmente, \u00e9 um desconhecido?<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Em suma, onde h\u00e1 fuma\u00e7a, h\u00e1 fogo<\/h4>\n\n\n\n<p>Sim, onde h\u00e1 den\u00fancias de ass\u00e9dio, se cavocares, achar\u00e1s mais e mais pessoas nesta situa\u00e7\u00e3o. Portanto, n\u00e3o passe pano para o assediador!<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o existe &#8220;ele \u00e9 um bom pesquisador apesar de ser assediador&#8221;. Ou seja, ele tem <strong>notoriedade<\/strong> exatamente por explorar e assediar pessoas, fazendo-as cumprir as agendas deles. <strong>Nunca, jamais, em hip\u00f3tese alguma perca isso de vista<\/strong>. Assediadores constr\u00f3em suas carreiras diminuindo quem est\u00e1 a sua volta. N\u00e3o compactue com esta pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 falei sobre isto<a href=\"https:\/\/threadreaderapp.com\/thread\/1343696207609286671.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> neste fio aqui<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Por fim<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Sim, v\u00e1rios destes pequenos exemplos ao longo do texto aconteceram comigo. V\u00e1rios pequenos exemplos aconteceram com colegas minhas. V\u00e1rios exemplos s\u00e3o pequenos e parecem bobos, mas atrasam cotidianamente a carreira de mulheres e, pior que isso, as fazem desistir da carreira acad\u00eamica e da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Assim, deixo uma s\u00e9rie de respostas aqui \u00e0s perguntas est\u00fapidas que fazem para pessoas assediadas, para j\u00e1 facilitar o encaminhamento:<\/p>\n\n\n\n<p>Mulheres em posi\u00e7\u00f5es de relativo destaque e poder tamb\u00e9m sofrem ass\u00e9dio.<br>Sim, homens que s\u00e3o nossos colegas e est\u00e3o em evid\u00eancia s\u00e3o assediadores.<br>N\u00e3o, isto n\u00e3o \u00e9 incomum.<br>Sim, varios colegas apoiam e minimizam as a\u00e7\u00f5es do assediador.<br>Claro que tu vais escutar, como eu escutei, que apesar disso, ele tem boas pesquisas.<br>Mesmo com o assediador claramente te assediando NA FRENTE de teus colegas, vai ter gente passando pano para ele.<br>Mais do que &#8220;n\u00e3o \u00e9 n\u00e3o&#8221;, n\u00e3o dizer sim &#8211; ou dizer sim em situa\u00e7\u00f5es de constrangimento &#8211; QUER DIZER N\u00c3O. <\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o me diga para denunciar, se tu inicia qualquer frase com &#8220;eu entendo isso, mas&#8221;, &#8220;apesar disso, ele&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ass\u00e9dio \u00e9 crime. FIM.<\/p>\n\n\n\n<p>Este post foi elaborado para a campanha #DCSemAssedio, no twitter. Segue a tag \ud83d\ude09<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Para saber mais:<\/h2>\n\n\n\n<p>[1] <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.17226\/24994\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine 2018. Sexual<br>Harassment of Women: Climate, Culture, and Consequences in Academic Sciences, Engineering, and Medicine<\/a>. Washington, DC: The National Academies Press. <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Outras leituras<\/h2>\n\n\n\n<p>Bobroff, Maria Cristina Cescatto, &amp; Martins, J\u00falia Trevisan (2013) <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/S1983-80422013000200008\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Ass\u00e9dio moral, \u00e9tica e sofrimento no trabalho<\/a> <em>Revista Bio\u00e9tica<\/em>, <em>21<\/em>(2), 251-258.<\/p>\n\n\n\n<p>Freitas, Maria Ester de. (2001). Assedio moral e assedio sexual: faces do poder perverso nas organiza\u00e7\u00f5es. <em>Revista de Administra\u00e7\u00e3o de Empresas<\/em>, <em>41<\/em>(2), 8-19. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/S0034-75902001000200002\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/doi.org\/10.1590\/S0034-75902001000200002<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Marie Santini R.; Terra C.; Rosana Duarte de Almeida A (2016) Feminismo 2.0: a mobiliza\u00e7\u00e3o das mulheres no Brasil contra o ass\u00e9dio sexual atrav\u00e9s das m\u00eddias sociais (#primeiroassedio) <strong>P2P E INOVA\u00c7\u00c3O<\/strong>, v3, n1, p148-164, 19 set, 2016.<\/p>\n\n\n\n<p>Soares, Angelo (2012) <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/S0303-76572012000200009\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">As origens do conceito de ass\u00e9dio moral no trabalho<\/a>. <em>Revista Brasileira de Sa\u00fade Ocupacional<\/em>, <em>37<\/em>(126), 284-286<\/p>\n\n\n\n<p>Teireixar, JC, Rampazo, AS (2017) Ass\u00e9dio Sexual no contexto acad\u00eamico: o que os l\u00e1bios n\u00e3o dizem, o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o sente? <strong>Farol &#8211; Revista de Estudos Organizacionais e Sociedade, <\/strong>V4, N11<\/p>\n\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Muitas pessoas imaginam que o ass\u00e9dio seja um ato, isolado ou cont\u00ednuo, entre dois indiv\u00edduos: assediador e assediado. 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